CAPÍTULO III Migração indígena juvenil estudantil
3.9 Morar em Salvador e a violência de cada dia
A vida em Salvador, de algum modo, causa estranheza aos jovens estudantes indígenas, uma estranheza de várias ordens. É estranha e dificil a ocupação do espaço, pois, embora sejam oriundos de aldeias urbanas, em sua maioria, não estão acostumados a esta dinâmica de trânsitos, deslocamentos e moradias, com a qualpassam a se deparar. O
estranhamento também se manifesta no relacionamento com as pessoas, para as quais, regra geral, eles são invisíveis, já que prevalece profundo desconhecimento quanto à história, cultura e práticas indígenas, que os estudantes identificam como um “choque cultural”. Eles consideram, igualmente, as consequências psicossociais da alteração de moradia e de outros hábitos causadas pela migração estudantil.
Com a vivência cotidiana na cidade, vão sendo suscitadas novas apreensões e descobertas outras facetas da cidade. O contraste entre a aldeia e Salvador é constituído pelas diferenças observadas entre o modo de vida de lá e o modo de vida citadino. Os costumes relacionados à alimentação, moradia, lazer, relação com a natureza, formas de sociabilidade parecemdar forma a esse contraste, que não se manifesta, contudo, univocamente, mas mediante diversas percepções de Salvador.
Surpreendentemente, para os estudantes oriundos de Coroa Vermelha, a violência característica das metrópoles sul americanas e o envolvimento com o tráfico de drogas já não são mais tão distantes assim. A ideia de uma aldeia como um lugar fechado, intocável, já não se sustenta. Em Salvador ou em Coroa, o convívio com a violência é uma realidade. Nos relatos que registrei e nas observações que fiz diretamente em Coroa Vermelha, tomei consciência de que o que lá transcorre é um complexo problema que envolve segurança e saúde públicas, decorrentes do descentramento do narcotráfico. Não há ainda, todavia, dados oficiais sobre o consumo e a presença do tráfico nas aldeias. Mas ele afeta, gravemente,a população de Coroa Vermelha. Por diversas vezes, estudantes pataxós relataram os constantes constrangimentos que a população indígena local sofre com a presença do tráfico, o que passou a gerar um estado quase permanente de agressões desmedidas contra os índios, estejam envolvidos com o tráfico ou não. A “banalidade do mal”87 passa a também reger as
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Em sua obra Hannah Arendt aborda o problema do mal, por meio de uma perspectiva política e não moral ou religiosa. “O tema do mal, em Arendt, não tem como pano de fundo a malignidade, a perversão ou o pecado humano. A novidade da sua reflexão reside justamente em evidenciar que os seres humanos podem realizar ações inimagináveis, do ponto de vista da destruição e da morte, sem qualquer motivação maligna. O pano de fundo do exame da questão, em Arendt, é o processo de naturalização da sociedade e de artificialização da natureza ocorrido com a massificação, a industrialização e a tecnificação das decisões e das organizações humanas na contemporaneidade. O mal é abordado, desse modo, na perspectiva ético-política e não na visão moral ou religiosa” (Aguiar, 2010).
relações com o tráfico e com as forças que o reprimem, na aldeia, com adolescentes e jovens sendo executados constantemente. Violência que também já afeta a vida escolar, com turmas que ao final do ano passam a ser compostas, em sua maioria, por adolescentes mulheres, por força do aliciamento, pelo tráfico, dos adolescentes masculinos, conforme o relato de uma professora indígena.
Em Salvador, o contato com a violência urbana será também um risco para os estudantes. Para João Paulo, estudante pankararu do curso de direito, esse fenômeno representa o principal ponto negativo de morar em Salvador. O risco principal é o de assaltos, muitos já tendo sofrido roubos e furtos, principalmente de aparelhos celulares. Um episódio tenso ocorreu com um estudante pataxó recém-chegado, oriundo da aldeia Barra Velha, que foi morar no Engenho Velho da Federação, um bairro muito populoso, cujo nome se deve à presença de engenhos de cana-de-açúcar durante o período
escravocrata.Em sua primeira semana na cidade, o estudante pataxó foi
assaltado, sendo levado o telefone celular. Ao chegar em casa, descobre que o assaltante é seu vizinho, que o reconhece e passa a cobrar-lhe explicações por estar morando naquele local, pois o dava como um “olheiro” da polícia. Após alguns minutos de conversa tentando convencer o assaltante de que não era um “olheiro”, lembrou-se de dizer-lhe que era amigo de outro estudante indígena morador do mesmo bairro, e conhecido na localidade como “índio”, o que funciona como uma “senha” para afastar os deliquentes. No dia seguinte o estudanteresolveu deixar o bairro.
A violência policial é uma outra face da insegurança pública que também ameaça a esses jovens, tal como ocorre em todo o Brasil. Recentemente, em Feira de Santana, a segunda maior cidade do estado que fica aproximadamente a uma hora de Salvador, estudantes indígenas das etnias fulniô e pataxó hãhãhãe,establecidos na residência universitária da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), sofreram uma violenta abordagem policial no local conhecido como Centro Social Urbano, por estarem fumando seu cachimbo ritual, denominado “chanduca”. Dois policiais os abordaram de maneira extremamente violenta e preconceituosa, e quando
ficam sabendo que se tratava de indígenas e estudantes, um dos policiais diz: -- “Que eu saiba, índio vive no mato […] Índio que vive fora da aldeia vira um cidadão normal, como qualquer outro”. Com a chegada de outros colegas, a abordagem termina, não sem antes haver uma nova manifestação de violência e preconceito: -- “a vontade que eu tenho é de dar um tiro na testa de cada um de vocês, gente como vocês que atrasam o estado, não contribuem em nada. E tenham um bom dia!” (ênfases adicionadas).
Os jovens estudantes indígenas estão, pois, vulneráveis aos desmandos da polícia e à violência urbana que atinge, indistintamente, a todos, mas especialmente aos jovens negros. Em contrapartida, a vida que os indígenas mantêm em Salvador os protege, em parte, de algumas situações. Prevalece, entre eles, uma atitude disciplinada em relação aos estudos, às atividades familiares e religiosas. A maioria não ingere bebidas alcóolicas, nem frequenta lugares noturnos, como bares, boates e shows. Percebo, ademais, que eles têm vínculos fortes com as igrejas que frequentavam nas suas aldeias. Geralmente são igrejas evangélicas, destacando-se a frequência às igrejas Adventista do Sétimo Dia, Universal e Batista. Ir à igreja, aos fins de semana, é uma das diversões praticadas por esses jovens, conjuntamente com visitas aos amigos e idas aos shopings centers.
A questão da violência tem sido uma preocupação para a juventude indígena em toda a América Latina, tal como ressaltado na Declaração Política da Juventude, elaborada no VII Econtro Continental de Mulheres Indígenas das Américas, que ocorreu na Guatemala, em 2015.
Hay necesidad urgente de promover políticas específicas, eficaces e integrales para la erradicación de todas las formas de violencia como las que atentan contra nuestros territorios, recursos naturales, nuestros cuerpos y espíritus, la pervivencia como pueblos y culturas. Y especialmente las que ponen en riesgo la continuidad de las generaciones futuras, poniendo atención a los problemas como la militarización, desplazamiento, migración, explotación laboral infantil y juvenil, la trata, el abuso sexual contra jóvenes y niñas y niños, el feminicidio y la permanente discriminación y racismo a las que están expuestos los jóvenes indígenas, y casos de suicidio que aumenta progressivamente88.
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Disponível em: http://ecmia.org/images/ecmiapdf/VIIENCUENTROJuventudECMIA.pdf. Acesso em: 29/11/2015.
3.10 A Ocupação da Cidade e as Políticas Públicas e de Permanência na