GEOCIENTÍFICO
3.2.3 – MORFOLOGIA E HIDROGRAFIA
A Península Soteropolitana foi, historicamente, locada em várias classificações. Pode ser enquadrada no modelo de Costa Submergente, de Davis (1896), de forma geomorfológica
harmônica, por ser derivada de uma única e mesma causa, e consonante, por ocorrer de
maneira similar em outras regiões (Passarge, sd, in Falconer, 1914). É do Tipo Forma
Terrestre, Classe Forma Endógena, Ordem Forma Tectônica, Família Forma de Fratura, do
Genus Forma Deprimida, variante Forma Especial Rift-valley. (Falconer, 1914) É uma típica Costa produzida por falha (Cotton, 1918).
Seguindo Johnson (1919, in Suguio, 2003), para o intervalo de tempo abrangido por este trabalho, podemos entender a Costa Soteropolitana como uma Costa de Emersão, isto é, que apresenta “continente em soerguimento ou nível do mar em descensão”. Entretanto, contemplando o logo termo temporal, que agrega a baía no contexto da Bacia do Recôncavo, com traços de rias em suas profundezas, estamos diante de uma Costa de
Submersão.
Seguindo Valentin (1952, in Suguio, 2003), caracteriza-se, considerando o longo termo temporal como uma Costa de Recuo ou de Transgressão Marinha, subtipo Costa de
Retrogradação. Para o curto termo temporal, considerando o momento tratado neste
trabalho, configura-se como uma Costa de Avanço ou de Regressão Marinha. Pode ser definida como uma Costa de Falha ou de Escarpa de Falha (Shepard, 1952) (Shepard, 1963) ou uma Costa submergente submatura (Cotton, 1954). Ainda assim, a Baía de Todos os Santos chegou ao final da década de 1950 com seu conhecimento restrito, e o “Map of Coastal Landforms of the World” (McGill, 1958) a manteve sem classe reconhecida. Daí, James (1959) preferir tratá-la apenas como uma baia que guarda as marcas de uma área inundada.
Situa-se, conforme Silveira (1964, in Suguio, 2003), entre os contextos do Litoral Nordestino e Litoral Oriental. O Litoral Nordestino tem “como características comuns a
presença de sedimentos terciários da Formação Barreiras, os recifes de rochas praiais
(beach rocks) e de corais”, além de sua plataforma continental não ultrapassar 30 km de
A Baía de Todos os Santos e suas pequenas baías internas têm ambiente predominantemente marinho garantido por um prisma de maré de sizígia 400 vezes superior à carga dos três principais rios que nela deságuam. (Argollo, 2001)
Peixoto (1968) dividiu a Península Soteropolitana em cinco compartimentos topográfico- morfológicos principais.
I. A Escarpa da falha de Salvador de aspecto contínuo e direção SSW/NNE
II. O Planalto profundamente dissecado que corresponde ao chamado “Alto de Salvador” III. A Zona intermediária de morros entre o planalto e a Planície litorânea oceânica
IV. O sistema de vales onde se instalaram as avenidas que integram o Sistema Viário da cidade
V. A Planície litorânea ou Margem costeira atlântica nos seus dois aspectos: Orla da Baía de Todos os Santos e a Orla Oceânica.
O Sistema de Vales insere-se nas demais unidades.
A grande escarpa da Falha de Salvador apresenta, na Península Soteropolitana, direção azimuthal variando entre 25º e 35º, localmente chegando a 15º e 45º. O sistema de falhas paralelas à mesma “encontra-se, hoje, usado, apagado”, enquanto as falhas perpendiculares provocaram o surgimento de vales e córregos de cursos em ângulo praticamente reto a ela. (Mattoso, in Simas Filho, 1979) As fraturas e deslocamentos deixaram, no próprio horst, traços extremamente nítidos, como um quadro de altos e vales estreitos e profundos que Mattoso (in Simas Filho, 1979) indica dominar cerca de 32% da área da Península Soteropolitana. Estabeleceu-se um quadro de altos irradiados separados por vales acentuados, formando um planalto retalhado.
O Compartimento do Alto de Salvador apresenta seis subcompartimentos, os Espigões Central, da Liberdade, de São Caetano, de Brotas, da Federação e do Cabula. (Peixoto, 1968) Dominado por terrenos cristalinos, cai com inclinação fraca para Sudeste, em direção ao litoral atlântico, onde originalmente terminava abaixo de um cinturão de dunas recentes, que chegavam a até 30 m de altitude, cobertas por uma vegetação rala e pobre. (Mattoso, in Simas Filho, 1979)
Figura 04 - Localização das principais unidades geomorfológicas e topônimos da área.
Na área trabalhada, os terrenos elevados pertencem ao Espigão Central, que segue periférico à orla, sendo subdividido nos atuais Alto do Carmo, Alto dos Jesuítas, incluindo o espaço dos antigos Igreja e Colégio dos Jesuítas, Teso da Sé, Alto de Salvador, este estendendo-se da Praça Municipal à Praça Castro Alves, Alto de São Bento, Alto do Campo Grande, Alto da Vitória - Graça, Alto de Santo Antônio, Alto do Gavazza e Alto do Ypiranga. Neste trabalho, considerando a dimensão histórica, entendemos esta unidade relacionada ao antigo Alto de Salvador, de dimensões bem mais limitadas. Aparecem, portanto, um Alto de Salvador geomorfológico, tendo um sentido lato, e um Alto de Salvador histórico, considerado como um sentido mais restrito. (Figura 4)
Na área deste trabalho, o Alto de Salvador, senso lato, inicia com a ascensão pela Ladeira da Barra, com o Morro de Santo Antônio tendo altitude apical de 37,6 metros, chegando-se ao Largo da Vitória. Esta área é a borda do antigo Outeiro Grande, já na parte elevada do Alto de Salvador, com 65,3 metros, cuja face se estendia mantendo altitude pouco variada até o Largo da Graça, onde atinge 64,8 metros. Seguindo-se ao longo da borda da Falha
de Salvador, pela Avenida Sete de Setembro, chega-se ao Campo Grande, com a altitude de 66,4 metros. Segue-se com altitude pouco variável, até cair a um mínimo de 50,8 metros no baixio existente entre a Praça Castro Alves e o Alto de São Bento. Reascende- se logo a 56,5 metros na parte alta da Praça Castro Alves, ascendendo-se lentamente até os 64,1 metros da Praça Municipal, prosseguindo em ascensão suave até atingir 65,4 metros no Terreiro de Jesus. Mergulha-se acentuadamente, chegando-se ao baixo do Largo do Pelourinho, onde tem início da descida da Ladeira do Tabuão, com altitude de 36,5 metros. Evitando-se a descida, seguindo adiante, ascende-se em roteiro íngreme até o Alto do Carmo, a 59,90 metros de altitude, mantendo-se a subida bem suave até os 63,9 metros do Largo de Santo Antônio, encerrando-se o alto no Forte de Santo Antônio Além- Carmo, com 61,80 metros de altitude. Após esse, a Ladeira da Água Brusca mergulha até atingir o Largo de Água de Meninos, a 4,7 metros de altitude.
Quando mais próximo à Baía de Todos os Santos e à Falha de Salvador, as encostas apresentam declividade maior, com cerca de 50º, diminuindo logo, na Zona intermediária de morros entre o planalto e a Planície litorânea oceânica, para o intervalo de 50º a 30º, passando ainda a uma zona de transição com inclinações entre 30º e 25º, ficando a maior parte da península mais próxima à orla atlântica com uma inclinação suave de encostas de 0º a 25º. (Peixoto, 1968) (SIC, 1974) (Mattoso, in Simas Filho, 1979) (Gonçalves, 1992) As diferenças de cotas existentes no Alto de Salvador permitiram sua divisão por Barbosa, Correa-Gomes, Dominguez, Cruz e Souza (2005) em “de dois domínios topográficos-
geográficos, separados por uma zona rúptil denominada de Falha do Iguatemi”. (Figura
Figura 05 - Mapa topográfico do Alto de Salvador, indicando contraste entre as partes oeste e leste, separadas pela Falha do Iguatemi. Modificado de Barbosa, Correa-Gomes, Dominguez, Cruz e Souza (2005, p.11).
A face do alto voltada para a baía, relacionada com o topo da falha, é dominada por um visual de perfil de encostas convexo, o que provoca que a inclinação mais freqüente das vias urbanas atuais situe-se entre 14 e 27°, chegando localmente a 40°. É dominada por solos residuais argilosos ou argilo-siltosos, com manto de intemperismo possuindo espessura média variável em torno de 10 e 20 metros, apenas localmente aflorando rochas intensamente fraturadas. (Peixoto, 1968) (SIC, 1974) (Alvarenga, 1992) (Barbosa, Correa- Gomes, Dominguez, Cruz e Souza, 2005) Esse regolito favorece a instalação de abundante drenagem (SIC, 1974) com suas vertentes preservadas mostrando inclinações variáveis com ângulos suaves a subverticais. A presença de água abundante era originalmente assegurada pela base cristalina impermeável do horst e pela espessa camada de solo que a recobre possuindo porosidade de 20%, permitindo a cada m³ de solo armazenar até 200 litros d’água. (Mattoso in Simas Filho, 1979, p.39)
O divisor de águas que marca as drenagens que correm para a Baía de Todos os Santos está tão próxima da encosta de falha, por vezes sendo ela mesma seu representante, que marca uma costa imatura, de afundamento recente. (Tricart e Silva, 1968, in Martin, Suguio, Flexor, Bittencourt, Dominguez, 1986)
No sistema de vales, Peixoto (1968) percebeu três setores principais. O Setor do Rio Cabrito desce da Mata Escura à Represa do Cabrito, ao norte da cidade. Setor do Rio Camurugipe recolhe as drenagens do Pau Miúdo, IAPI, Brotas e Cabula. O Setor do Rio Vermelho agrega as drenagens que partem do Canela, de São Pedro, da Mata Escura, do Engenho Velho de Brotas, mantendo cavas com largura de cerca de 200 metros, e profundidade média de 30 metros em relação ao em-torno elevado, seguindo em direção ao Atlântico. O aterramento natural dos vales, ou seja, não perturbado pela ação antrópica, é muito lento. (Peixoto, 1968)