CAPÍTULO 2 – LAVOURA, TRABALHO E RESISTÊNCIA
2.3 MORIGERADOS E CABOCLOS
As primeiras obras historiográficas a discutir o papel dos imigrantes europeus na história do Paraná passaram a ser produzidas na virada do século XIX para o XX, vinculadas ao movimento político e intelectual do Paranismo,341 e tenderam a privilegiar análises que forjaram uma identidade local definida a partir da defesa do protagonismo e do pioneirismo dos imigrantes europeus na ocupação das terras paranaenses. As publicações de história que compartilhavam as principais ideias desse movimento enfatizaram a composição de um “mosaico étnico” entre diversas etnias de povos europeus, indígenas e africanos,342 enquanto outros, em contraposição à teoria sócio-racial defendida por Gilberto Freyre em Casa Grande
340 Ibidem, p.98.
341 PEREIRA, Luís Fernando Lopes. Paranismo: o Paraná inventado – cultura e imaginário no Paraná da I República. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 2ª ed., 1998.
342 Um estudo das perspectivas de classificação da população do Paraná no início do século XX pode ser encontrado em STEIN, Marcos Nestor. Imigração, colônias agrícolas e etnicidade: uma análise sobre os discursos de identificação no Paraná. In: História: Debates e Tendências. UPF, v. 14, n. 1, 2014.
& Senzala no mesmo período,343 chegaram a defender a exclusividade dos elementos de origem europeia na constituição do povo paranaense.344
De acordo com a análise de Joseli Mendonça, a partir da década de 1950, novos estudos contestaram as teorias apresentadas pelos autores do Paranismo. Porém, os trabalhos resultantes da nova proposta historiográfica sobre os imigrantes, por diversas questões, incluindo a escolha de fontes e metodologias, acabaram por privilegiar o período posterior a 1870.345 Nesse sentido, os processos migratórios ocorridos entre as décadas de 1820 e 1860 para o território paranaense, assim como as diretrizes da imigração estrangeira discutidas nos anos iniciais da província foram pouco enfatizadas na maioria dos trabalhos sobre a temática.346 Por esta razão, entendemos que a historiografia da imigração para o Paraná deixou encoberta a questão agrária em torno dos impactos da Lei de Terras nesse processo, envolvendo a provável desapropriação de lavradores pobres para a instalação dos imigrantes europeus entre 1855 e 1870.
Já discutimos nas páginas anteriores o processo imigratório ocorrido em 1828, quando a Corte sugeria a criação de um núcleo colonial próximo à Guarapuava para a instalação de um grupo de alemães que estavam sendo trazidos ao Brasil. Pelo posicionamento do Conselho provincial de São Paulo,347 as distâncias das vilas mais próximas, aliada à predominância da pecuária e às grandes despesas trazidas pelo transporte da produção local afastaram a possibilidade dos colonos se instalarem em Guarapuava.
Os questionamentos a respeito da possibilidade de Guarapuava e outras áreas afastadas do litoral receber núcleos de imigrantes europeus voltaram a ocorrer após a emancipação da província do Paraná. Em 1854, o deputado do Partido Liberal Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá, estancieiro de Palmeira que se tornaria um dos políticos que mais atuaria na presidência e vice-presidência da província, além de assumir o ministério da agriultura durante o Segundo Reinado, publicou uma resposta a um pedido do primeiro presidente da província, Zacarias de
343 FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal [1933]. São Paulo: Global, 2006.
344 Um estudo sobre a obra de Wilson Martins, autor paranista criador da teoria da aculturação na década de 1950 no Paraná, baseada apenas em imigrantes europeus, pode ser encontrado em MENDONÇA, J. M. N. Revisitando a história da imigração e da colonização no Paraná provincial. Op. Cit.
345 MENDONÇA, J. M. N. Revisitando a história da imigração e da colonização no Paraná provincial. Op. Cit. Uma pesquisa recente abarcando as experiências de diversos núcleos de imigrantes europeus estabelecidos no Paraná, com outras discussões pertinentes relacionadas ao período anterior e posterior à década de 1870 é encontrado em NISHIKAWA, Reinaldo Benedito. As Colônias de imigrantes na Província do Paraná, 1854- 1889. Op. Cit.
346 Um estudo que aprofunda os primeiros anos da imigração para o Paraná a partir da emancipação política da província é o de STEIN, Marcos Nestor. Empreendimentos de colonização no Paraná: políticas de imigração e colônias agrícolas. In: TEDESCO, J. C.; NEUMANN, R. M. (orgs.). Colonos, colônias e colonizadoras: aspectos da territorialização agrária no Sul do Brasil. Porto Alegre: Letra&Vida, 2015, p.96-113.
Góes e Vasconcellos, do Partido Conservador. O governante solicitava ao deputado um levantamento das possibilidades de instalação de imigrantes no Paraná. O deputado, satisfeito por ser escolhido pelo presidente para fornecer sua opinião no assunto,348 aproveitou a oportunidade para se colocar na posição de representante político dos estancieiros paranaenses, em sua maioria vinculados ao Partido Liberal.
Aquilo que era inicialmente uma informação solicitada pelo presidente da província foi transformada por Jesuíno em um discurso contendo as bases imigrantistas para os grandes proprietários de terra e gado no Paraná. Publicada por partes em várias edições do jornal oficial de divulgação provincial, o Dezenove de Dezembro, o texto teria impactos em todo o delineamento da ocupação do Oeste paranaense na segunda metade do século XIX. Nessa posição, o texto iniciava apontando que os estancieiros tinham posicionamento contrário ao estabelecimento de imigrantes nas áreas de criação e invernada de animais. Como argumenta Jesuíno,
Em primeiro lugar [...] o commercio e a creação de animaes são as industrias dominantes: a agricultura é mais uma imposição da necessidade de que uma fonte de riquezas; por tanto esta mina inexaurível é apenas explorada pela parte mais pobre de população á quem falta absolutamente outro meio de vida; e mesmo assim, desde que se podem forrar ao trabalho das terras, tomão outro norte immediatamente. Os hábitos de agitação da vida pastoril, com suas emoções variadas, parecem afastar ainda a população dos deveres fixos constantes que impõe o cultivo da terra.349
Com essa declaração, o representante dos estancieiros reproduzia a separação de funções e de possibilidades de enriquecimento imposta desde o início da ocupação das terras de Guarapuava. Com a agricultura de abastecimento dispensada à população pobre, as “emoções” da vida pastoril ficariam reservadas aos estancieiros. Sob qualquer possibilidade de viver da criação de animais, o político considerava que os lavradores estariam propensos a abandonar suas roças frente a qualquer nova oportunidade, haja vista a precariedade das condições da produção de alimentos nas áreas das estâncias. Não seria esse o destino a ser projetado aos imigrantes que chegassem à província.
O segundo motivo para a não instalação dos imigrantes, na visão do político e estancieiro, estava na ausência de grandes empreendimentos agrícolas na província: “Em segundo lugar, esta província que é somente rica de esperanças, e de elementos de grandesa ainda em embrião, tem falta de capitães, condição primaria para qualquer empresa industrial,
348 SÁ, Jesuino Marcondes de Oliveira e. Publicação a pedido. In: DEZENOVE de Dezembro, O. Curitiba, n.9, sábado, 27 de maio de 1854, p.5.
e principalmente para a agricultura, que só vagarosamente remunera os avanços feitos”.350 Nessa direção, em função das baixas remunerações e da falta de empreendimentos agrícolas que necessitassem de muita mão de obra, a região das estâncias se tornaria pouco atrativa aos imigrantes. A falta de escoamento da produção, em função da geografia do território paranaense, acabava por selar o destino pretendido pelo representante dos estancieiros para o Oeste paranaense: manter-se intacto enquanto terras devolutas à espera da expansão das estâncias:
O Paraná não tem a vantagem das grandes vias fluviaes como o Amazonas, nem um território geralmente chato como o Rio Grande do Sul; suas vias de communicações, ainda atrasadas, tornão os transportes demorados e caros; mas alem do seu clima quasi europeo, de seu diminuto numero de escravos, a providente naturesa, para suavisar a tarefa do colono, estendeo um immenso sertão de mattas férteis por ambos os costados da Serra do Mar, avisinhando assim do oceano os terrenos mais proprios para a agricultura. Por outro lado, bordou as margens das tres grandes veias d’agua que, depois de baixarem mais de dois terços do territorio da província vão se derramar na immensa bacia do Prata, de mattas igualmente fecundas, deixando nas áreas formadas pelo Tibagy, Iguacú e Uruguay as pastagens proprias para a creação dos animaes.351
Ainda argumentando sobre a impropriedade da região das estâncias para a colocação dos imigrantes, Jesuíno relatava a hierarquia de rendas possíveis aos lavradores, desqualificando os trabalhos na colheita da erva-mate. Como alegava:
O matte, como planta indigena, poderia ser considerado como o producto mais vantajoso para a exploração; por quanto temos grandes florestas onde o arbusto que presta as folhas para este chá, cresce expontaneamente deixando ao homem, apenas o trabalho da colheita; todavia me abalançarei a dizer que esta industria não offerece um futuro duradouro, e que actualmente mesmo só é sustentada pelos hábitos rotineiros do nosso povo pobre, que continua a empregar-se em um trabalho quase improfícuo, que no fim do anno lhe produz seguramente menos que o salário de um jornaleiro. A razão principal da baixa deste gênero é alêm da imperfeição do fabrico, a desproporção economica em que se acha a demanda com a producção.352
A desqualificação dos trabalhos na colheita da erva mate pelo estancieiro do Partido Liberal continha motivações políticas importantes na década de 1850. A emancipação política do Paraná, realizada em contraposição aos interesses paulistas nos impostos do registro de Rio Negro, foi alcançada em 1853 sem contar com o apoio do Partido Liberal no Paraná, vinculado, como vimos até aqui, com o mercado de tropas em Sorocaba e aos paulistas. O
350 Ibidem, p.6. 351 Ibidem, p.6
352 SÁ, Jesuino Marcondes de Oliveira e. Publicação a pedido. In: DEZENOVE de Dezembro, O. Curitiba, n.11, sábado, 10 de junho de 1854, p.5.
grupo de proprietários de Curitiba e do litoral que liderou a disputa política com São Paulo pela emancipação da região como província apresentou as rendas provenientes da exportação de erva-mate pelos portos paranaenses, em crescimento vertiginoso a partir da segunda metade da década de 1840, como base econômica para a receita da província que solicitava automia.353 De acordo com as investigações de Luiz Adriano Borges, a perda do território paranaense também era entendida pelos paulistas do Partido Liberal como uma forma de repreensão ao frustrado movimento separatista dos rebeldes liberais de São Paulo em 1842, refletindo a divisão dos interesses dos grandes proprietários paranaenses no apoio inicial à emancipação provincial. Nesse sentido,
Como na comarca de Curitiba se fortalecia a oposição liberal, a sua emancipação poderia neutralizar esses liberais, já que a presidência da nova província seria ocupada por alguém nomeado pelo governo central, além de criar novos cargos de deputados provinciais e senador. Assim, o governo conseguiria influenciar a localidade.354
Assim, a emancipação do Paraná em 1853 selava ainda mais a centralização política do Partido Conservador no Poder Imperial iniciado em 1850, e a derrota das revoltas liberais do Império encerradas na década de 1840. A exploração da erva-mate nas décadas seguintes não manteria as divisões partidárias de 1853, porém, nos anos iniciais da política paranaense enquanto província emancipada, os posicionamentos no processo de 1853 ainda geravam divergências. A partir daí, como indicam as investigações de Luiz Adriano Borges, a política provincial “resultou de uma negociação entre a elite local e o poder central no bojo das ideias conciliatórias”.355 A política conciliadora dos interesses dos grupos dominantes no Segundo Reinado se faria sentir no Paraná nos anos seguintes na questão da imigração, como aprofundaremos na continuidade desse estudo.
Retornando ao tema da desqualificação do trabalho nos ervais, presisamos destacar o fato das terras da vila de Curitiba não serem atravessadas diretamente pelo caminho de Viamão, localizado mais a Oeste, permeando as vilas da Lapa e de Castro. Dessa forma, os lavradores curitibanos não vendiam seus excedentes na rota das tropas, mantendo o abastecimento dos demais moradores da vila de Curitiba. Sendo assim, apresentavam a necessidade multiplicar suas rendas para a compra de farinha, sal e algodão a partir da
353 Cf. BORGES, Luiz Adriano. Senhor de homens, de terras e de animais: a trajetória política e econômica de João da Silva Machado (Província de São Paulo, 1800-1853). (Tese de Doutorado em História). Curitiba: UFPR, 2014, p.307. De acordo com levantamentos do pesquisador, a exportação da erva-mate teve um aumento de 473% no período, enquanto o café apresentou acréscimo de 275% nas exportações do território paranaense. 354 Ibidem, p.306.
colheita de erva-mate na região, sendo depois vendida por eles aos atravessadores em Curitiba, os quais por fim enviavam o mate processado para exportação diretamente ao porto de Paranaguá. Dessa forma, a alimentação básica de milho e feijão em Curitiba teria desenvolvido uma dependência econômica dos rendimentos da colheita de erva-mate, que complementavam a produção de subsistência. Essa forma de sobrevivência também deveria ser evitada pelos imigrantes na visão de Jesuíno.
Após desconsiderar a geografia das áreas de criação de animais para o escoamento das produções, assim como as lavouras de subsistência mantidas pelos lavradores pobres enquanto ocupação praticável pelos imigrantes, Jesuíno Marcondes sugeria que se destinassem para a fundação de núcleos de imigração as áreas que rodeavam as vilas paranaenses mais bem posicionadas para o escoamento das produções agrícolas dos esperados colonos, em especial a capital Curitiba. Segundo o estancieiro: “As circumvisinhanças de Coritiba preenchem esse desideratum [desejo], contendo muitas leguas de terrenos fertilíssimos, pela mor parte devolutos e na mais feliz situação para serem o celleiro dos tres maiores centros da população da provincia, Castro, Coritiba, e as povoações da marinha [Morretes, Antonina e Paranaguá]”.356
Zacarias de Góes e Vanconcelos inicialmente se mostrou relutante em desenvolver a política de imigração estrangeira da província a partir dos pontos levantados pelo deputado dos estancieiros. Poucos meses depois de receber a resposta, publicada no jornal oficial entre os meses de maio e junho, em julho de 1854 o presidente apontava em seu relatório provincial as vantagens da ocupação por imigrantes nas proximidades de Guarapuava. Partindo das informações geográficas da colônia francesa Thereza Cristina, fundada em 1847 pelo médico João Maurício Faivre, e sobre a qual discorreremos na sequência, Vasconcellos publicou uma opinião contrária à do deputado:
A colônia Thereza afastando-se da costa do mar e dos grandes centros da população para o influxo da escravidão e das tendências mercantis que nellas há, não obrasse malignamente sob o seo destino que he (expressão de seo fundador) tornar o homem feliz e virtuoso, foi encravar-se no centro da província á margem do Yvahy na confluencia do ribeirão das Campinas, de sorte que, no isolamento e distancia das grandes povoações, que de ordinario estorvão a prosperidade das colonias e as acabão, vê o dr. Faivre hum dos predicados mais recommendaveis de seo estabelecimento.357
356 SÁ, Jesuino Marcondes de Oliveira e. Publicação a pedido. In: DEZENOVE de Dezembro, O. Curitiba, n.11, sábado, 10 de junho de 1854. Op. Cit.
357 VASCONCELLOS, Zacarias de Góes e. Relatório apresentado à Assembléa Legislativa Provincial do Paraná: no dia 15 de julho de 1854. Curitiba: Typ. Paranaense de Candido Martins Lopes, 1854, p.57.
Apesar de considerar a dificuldade do escoamento dos produtos e do isolamento da colônia Thereza Cristina, Góes e Vasconcellos ponderava a importância do afastamento das terras ocupadas pelos franceses para o sucesso da colônia. Segundo a análise de Marcos Stein, na visão do presidente da província, os colonos de Thereza Cristina se encontravam afastados dos vícios vinculados à escravidão, apresentando o estado ideal de colonização estrangeira que se deveria estabelecer no Paraná emancipado.358 Em fevereiro de 1855, Zacarias de Góes questionava:
Não seria, pois, de utilidade publica alliciar, ainda com algum sacrificio, a introdução de certo numero de colonos para trabalhar em nossas primeiras estradas [referindo-se à Estrada da Graciosa, entre Curitiba e o litoral], ou cultivar na colonia Thereza, as ferteis terras de Yvahy, obrigados a pagar, em praso estipulado, o dinheiro que se lhes adiantasse?359
Além das decisões sobre o direcionamento da imigração estrangeira, o presidente provincial Conservador questionava a própria escolha de Curitiba, nos Campos Gerais, como sede da província, escolhida pelas lideranças políticas paranaenses ainda em 1853. A Câmara de Guarapuava havia colocado a cidade como uma das opções para se tornar capital da nova província, sendo considerava por Góes e Vasconcelos como uma vila com povoação suficiente para assumir a função, além de ocupar uma posição estratégica frente ao território inexplorado pela sociedade dita ‘civilizada’. Em 1854, o presidente recordava sua opinião destoante a respeito da escolha da capital provincial. A posição reforçava sua contrariedade em manter a imigração estrangeira restrita à Curitiba e às demais vilas dos Campos Gerais e do litoral:
Especificamente recordarei que existe na parte superior da província hum município em a fronteira do imperio com as republicas de língua hespanhola, tão vasto que se lhe não podem assignar limites, pois que não está todo explorado: fallo de Guarapuava e Palmas. A visinhança de paizes estrangeiros, a necessidade de promover, pela colonização, a cultura de tanto terreno esperdiçado [sic], e de chamar à civilização milhares de indígenas que allí andão errantes e bárbaros, pedem que o governo de nova província, approxime-se, quanto seja possível, desses lugares onde tamanhos interesses tem à fiscalisar e superintender.360
358 STEIN, Marcos Nestor. Empreendimentos de colonização no Paraná: políticas de imigração e colônias agrícolas. Op. Cit., p.103. Vale lembrar que pelo art.16º da Lei Imperial de 28 de outubro de 1848, cada uma das províncias teria direito a utilizar seis léguas em quadra em terras devolutas para a colonização. Segundo a lei, nas colônias que se fundassem nesses terrenos não seria permitido a posse de escravos. Cf. NUNES, Francivaldo Alves. A lei de Terras e a política de colonização estrangeira na província do Pará. In: Tempos Históricos, vol.16. 2º semestre de 2012, p.99-126, p.111.
359 VASCONCELLOS, Zacarias de Góes e. Relatório apresentado à Assembléa Legislativa Provincial do Paraná: no dia 03 de fevereiro de 1855. Curitiba: Typ. Paranaense de Candido Martins Lopes, 1855, p.31. 360 VASCONCELLOS, Zacarias de Góes e. Relatório apresentado à Assembléa Legislativa Provincial do Paraná: no dia 15 de julho de 1854. Op. Cit., p.10-11. Nesse trecho, ao destacar que Guarapuava se encontrava
Entretanto, na publicação da Lei nº29 de 21 de março de 1855, aprovada ainda no governo de Zacarias de Góes pela assembleia provincial da qual Jesuíno Marcondes era membro e um dos líderes, a imigração para o Paraná ficava limitada a três tipos de produção em que se poderia empregar os imigrantes que chegassem. Após instituir as verbas direcionadas para o financiamento da viagem dos imigrantes (art. 2º), o texto da lei passava a delimitar as possibilidades de trabalho na província. Se o primeiro governo provincial era Conservador, o partido dominante na assembleia era Liberal. Além de um direcionamento inicial para o serviço de abertura de estradas (art. 3º), ficava determinado, no art. 4º, que “Os colonos que se quiserem dar à agricultura, e que não tiverem meios de o fazer por sua própria conta, serão distribuídos pelos lavradores, principalmente pelos de café, chá e trigo [...]”.361
Com a mudança programada na presidência da província dois meses depois da publicação da Lei nº29, em maio de 1855, Zacarias de Góes foi substituído pelo paulista e liberal Theófilo Ribeiro de Rezende. Mais alinhado com os interesses dos estancieiros, Rezende tratou ainda em 1855 de esmiuçar o direcionamento que deveria ser dado à execução da Lei nº29 em um novo relatório provincial. Sobre o artigo 3º que tratava do trabalho dos imigrantes na abertura de estradas, o novo presidente era enfático:
Só na estrada da Graciosa podem presentemente estar empregados colonos, pois que sendo seus serviços de alguma duração, acha-se com uma administração regularmente montada, com ranchos, e com menos difficuldade de conseguir as subsistencias e outros recursos em razão de sua proximidade do litoral e da capital; mas por essas mesmas razões os colonos, que nella se empregarem, menos demorarão, principalmente se vierem com mulher e filhos, e não se lhes assegurar algum interesse permanente que os prenda ao lugar.362
Na intenção de manter os imigrantes que chegassem à província, sob risco de vê-los passar para as províncias vizinhas de São Paulo, Santa Catarina ou para o Rio Grande do Sul