• Nenhum resultado encontrado

Morte e ressurreição – Barthes e Foucault

4.3 AUTOR, RELATOS: ELEMENTOS RIZOMÁTICOS

4.3.1 Morte e ressurreição – Barthes e Foucault

Roland Barthes (1984, p. 54) afirma que, ainda em nossos dias, a literatura está “[...] tiranicamente centrada no autor, na sua pessoa, na sua história, nos seus gostos, nas suas paixões”, justamente por uma posição privilegiada em que aquele que escreve tem em si uma arma de poder ou, como Foucault (2000, p. 28) salienta,

[...] pede-se que o autor preste contas da unidade de texto posta sob seu nome; pede-se-lhe que revele, ou ao menos sustente, o sentido oculto que os atravessa; pede-se-lhe que os articule com sua vida pessoal e suas experiências vividas, com a

125 Texto original: “[...] 1492 será el momento del ‘nacimiento’ de la Modernidad como

concepto, el momento concreto del ‘origen’ de un ‘mito’ de violencia sacrificial muy particular y, al mismo tiempo, un proceso de ‘encubrimiento’ de lo no-europeo” (DUSSEL, 1994, p. 8).

história real que os viu nascer. O autor é aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real.

Com isso em mente, é possível começar a trilhar um caminho pautado nas características desses “tempos modernos”, começando por Barthes, que centra sua atenção ao leitor e à linguagem como seres autônomos. Para ele, o praticante do gesto de escrever não mais seria atribuído a esse ser tirânico “Autor”, pois, desde Mallarmé, passando pelo Surrealismo, chegando em Brecht, o autor foi sendo suprimido, foi esvanecendo até sua morte, que deu ao leitor o seu lugar.

No entanto, parece pertinente pensar o que realmente seria a morte. Em uma definição simples, é dizer que a morte é a cessação definitiva da vida ou da existência. Ou, para termos um olhar que foge dos centros acadêmicos, podemos citar o livro bíblico de Eclesiastes 6:6, em que o sábio Salomão diz: “Os mortos [...] não estão cônscios de absolutamente nada, nem têm mais salário, porque a recordação dele foi esquecida. Também seu amor, e seu ódio, e seu ciúme já pereceram, e por tempo indefinido eles não têm mais parte em nada do que se tem de fazer debaixo do sol” (Eclesiastes 6:6). Quando se analisa esse texto para investigar a morte do autor, o real sentido para Barthes (1984), o autor não tem mais nenhuma atividade, porque não é uma relação de anterioridade como pai (autor) e filho (texto). Quem ocupa esse espaço seria o chamado scriptor, o qual nascerá junto ao próprio texto. Trata de um avançar, o tempo não é mais o mesmo, o trabalho é outro, não existe lentidão, como havia com o autor. O scriptor cria, na verdade, um terreno, aduba, rega, semeia. O terreno da linguagem permite, assim, uma origem que estará em

[...] um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escritas variadas, nenhuma das quais é original: o texto é um tecido de citações, saídas dos mil focos da cultura [...] o seu único poder é o de misturar as escritas, de as contrariar umas as outras, de modo a nunca se apoiar numa delas. (BARTHES, 1984, p. 52). Com esse espaço tão múltiplo e produtivo, o seu destino é o leitor, que também é outro. Com certeza, é alguém que permite a germinação de inúmeras sementes, que se enlaçam e multiplicam,

sempre carregando em seu gene a sobrecapa, o antecedente. Por essa razão, o texto rumoreja, acontece um frêmito permitido única e exclusivamente ao leitor.

O texto passa a ser universal, ele se encontra na palavra e esta não permite um aprisionamento: é livre. Por outro lado, essa liberdade permite ser capturada, roubada a quem bem lhe compraz. A relevância se concentra no leitor, o que rouba a palavra. O autor é destituído de seu império, porque esse fecha a escrita, dando-lhe um significado derradeiro, enquanto a escrita moderna, segundo Barthes (1984), não permite mais um decifrar, e sim um deslindar. O decifrar denota uma tarefa árdua, pois é preciso descobrir o que está cifrado, escondido ou mesmo ininteligível, não há mais nada para interpretar, descobrir, decifrar, ter o que dizer, fazer sentido. Enquanto o deslindar se refere a uma ação que causa o prazer da descoberta, da surpresa e do imprevisível e o próprio texto nos premia com um deslindar que é muito mais fluido, um descobrir ainda que seja uma coisa difícil ou embaraçosa, somos livres para esmiuçar os fragmentos, porque não há fundo, existe espaço que temos que plainar, o sentido é incessante, mas evapora (BARTHES, 1984).

Devido a essa nova perspectiva em que o determinismo do autor não mais aprisiona a palavra a uma escrita cerrada, Barthes (1984, p. 52) atesta:

[...] um texto não é feito de uma linha de palavras, libertando um sentido único, de certo modo teológico (que seria a mensagem do Autor-Deus), mas um espaço de dimensões múltiplas, onde se casam e se contestam escritas variadas, nenhuma das quais é original: o texto é um tecido de citações.

Nesse espaço da escritura o que se cria são possibilidades; e, segundo Francisco Umbral (1977), encontram-se na linguagem, no idioma, na palavra mesma e a partir desta os cheiros, as cores, as sensações, que vão brotando com vias de acesso a um mundo que passa a valer a pena por sua beleza ou por sua fealdade, não importa, pois não mais se trata de um documento frio que é firmado e registrado simplesmente sem se conectar com aqueles que podem travar um diálogo, produzindo significados com as inúmeras saídas disponíveis.

Por outro caminho, Michel Foucault (2000), que se debruça nessa questão, se concentra em quatro questões acerca do autor: o nome do

autor em contraposição ao nome próprio; a relação de apropriação do texto; a relação de atribuição; e, por fim, a posição do autor no livro. Essas questões são fundamentais para que possamos meditar, concentrar no espaço deixado pela morte, quem assume? Barthes (1984) trata de designar um nome: o scriptor e ponto. Mas com essa nova figura que recebe até mesmo um nome, concluímos claramente que o lugar do autor não ficou vazio, algo, ou melhor, alguém está aí, com uma nova roupagem, com novas funções.

“Que importa quem fala, alguém disse que importa quem fala”, essas palavras de Beckett, citadas por Foucault (2000), são a clara demonstração da indiferença ao sujeito que escreve, a contemporaneidade impõe o desvanecimento, mas não indica o desaparecimento total do autor, porque, segundo o próprio Foucault, o olhar está nos espaços que são abertos por esse sujeito que escreve, não mais em seu gesto de autor, suas características individuais são subvertidas e se convertem em um proceder que resulta em um vulto imperceptível, mas indiscutivelmente presente.

Tendo isso em mente de que há um ressurgimento, ou seja, uma ressurreição ainda que em outro patamar, após séculos de domínio e uma complicada e dolorosa morte de séculos de domínio, seguindo por esses dados fica evidente que, mesmo sendo uma figura quase espectral, sua presença é inegável, por essa razão Foucault (2000, p. 28-29) diz ser

[...] absurdo negar é claro, a existência do indivíduo que escreve e inventa. Mas penso que [...] o indivíduo que se põe a escrever um texto no horizonte do qual paira uma obra possível retoma por sua conta a função de autor: aquilo que ele escreve e o que não escreve, aquilo que desenha, mesmo a título de rascunho provisório, como esboço da obra, e o que deixa, vai cair como conversa cotidiana. Todo este jogo de diferenças é prescrito pela função do autor, tal como o recebe de sua época ou tal como ele, por sua vez, a modifica. Pois embora possa modificar a imagem tradicional que se faz de um autor que recortará, em tudo o que poderia ter dito, em tudo o que diz todos os dias, a todo momento, o perfil ainda trêmulo de sua obra.

A influência da modernidade se evidencia nessa nova postura do autor, a rigidez dá lugar à flexibilidade, as portas são escancaradas para

um infinito transtextual, por isso o autor é responsável por destravar as possibilidades, não mais escreve para fixar, e sim “[...] é aquele que dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real”, cruel e ímpar, principalmente depois de 1914 e 1939, cujos acontecimentos fulcrais mudaram drasticamente o pensamento e a experiência do século XX, criando uma necessidade premente de expressar o inexpressável, tarefa árdua de transformar experiências tão únicas de uma forma a não transparecer essa individualidade, que foi solapada por mudanças tão intricadas em si mesmas que impediriam a morte do autor, cuja ressurreição o lança a uma posição que encontra fragmentos que restaram diante das experiências extremas e que, em muitos casos, são todos espectros. Mesmo assim, esses estão carregados de suas individualidades imprimidas dolorosamente na escritura, que, por sua vez, fica impedida de desaparecer ou morrer, porque, na verdade, todos são ausência e presença concomitantemente.