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2.3 PSICOLOGIA E MORTE

2.3.2 Morte, Luto e Separação

A morte é um assunto evitado pelas pessoas, embora elas tenham muitas dúvidas e questionamentos sobre ela. Assim as pessoas são impedidas de expressarem seus sentimentos, pensamentos e emoções e de lidarem de forma saudável com a situação. De acordo com Zimerman (2000, p. 117),

[...] morte e morrer são duas palavras que as pessoas costumam evitar dizer e duas questões sobre as quais a maioria procura não pensar. Essa dificuldade de conviver e de trabalhar com a idéia da morte atrapalha enormemente sua elaboração e impede que se lide com tranqüilidade com as perdas, que são naturais e ocorrem inevitavelmente ao longo da vida [...]

Quando pessoas próximas morrem, isso vem acompanhado de luto, perda e separação, trazendo sentimentos difíceis de serem administrados. Para Kovács (1992, p. 149), “a morte do outro se configura como a vivência da morte em vida. É a possibilidade de experiência da morte que não é a própria, mas é vivida como se uma parte nossa morresse, uma parte ligada ao outro pelos vínculos estabelecidos”. Essa morte traz recordações da infância, quando havia separação entre mãe e filho, mesmo que fosse momentânea e até a separação ou a morte de pessoas próximas. É o tipo de morte que ocorre com todas as pessoas.

De acordo com Kovács (1992), a morte enquanto perda supõe um sentimento, uma pessoa e um tempo, evocando sentimentos fortes. Esses sentimentos de perda são praticamente insuportáveis para as pessoas e elas procuram formas de aliviá-los.

Segundo Kovács (1992, p. 150), “ver a perda como uma fatalidade, ocultar os sentimentos, eliminar a dor, apontar o crescimento possível diante dela, podem ser formas de negar os sentimentos que a morte provoca, para não sofrer”. Porém, de acordo com a autora é necessário viver esses momentos, expressando os sentimentos que são fundamentais para o desenvolvimento do processo de luto.

Conforme Kovács (1992), o processo de luto diz respeito a um conjunto de reações diante de uma perda. Para Bowby (1985 apud Kovács, 1992), o processo de luto se dá em quatro fases: primeiro vem à fase em que a pessoa entra em choque, que poderá perdurar por algumas horas ou semanas, esta fase poderá vir acompanhada pelos sentimentos de desespero e raiva. Nesta etapa podem surgir expressões emocionais e ataques de pânico; a segunda fase é aquela que experimenta a expressão do desejo da presença e a busca da pessoa

perdida, que pode durar meses ou anos. Nesta fase também, a pessoa pode sentir raiva quando percebe que realmente houve uma perda, que provoca desespero, inquietação, insônia e preocupação. Existe também a ilusão de que pode ser um pesadelo, tendo a fantasia de que a pessoa irá voltar. Há então a realidade da perda, bem como a esperança do reencontro. A raiva também surge quando o enlutado sente-se responsável pela morte do outro, ou pela frustração da busca inútil, como também quando há o sentimento de que o morto não se cuidou de forma adequada, evocando a sensação de abandono. Essa raiva pode se manifestar através da irritabilidade ou através de uma profunda amargura. A esperança intermitente, os desapontamentos repetidos, o choro, a raiva, as acusações e a ingratidão com as pessoas próximas também se manifestam nesta fase; a terceira fase é o período da desorganização e do desespero, onde há a constatação da perda como definitiva, trazendo um sentimento de profunda tristeza, a sensação de que nada mais tem valor e vem acompanhada de um desejo de morte; A quarta e última fase é aquela em que ocorre uma reorganização da pessoa, que vem acompanhada de uma aceitação pela perda definitiva e a constatação de que ela precisa iniciar uma vida nova. Há em alguns casos de viúvos e viúvas, a necessidade de aprenderem novas habilidades, que eram funções da pessoa que morreu. Nesta etapa, surge à saudade e a necessidade da presença da pessoa que morreu e junto com a morte vem à tristeza pela falta da pessoa. O processo de luto nunca será totalmente concluído. Algumas pessoas buscam novos relacionamentos e outras ficam sozinhas.

Essas são as fases necessárias para que, haja uma vivência de luto adequada pela pessoa que perde um ente querido. De acordo com Kovács (1992), a pessoa que vive o seu luto adequadamente, não sofrerá as conseqüências pela não vivência desse sentimento no futuro.

Quando se trata do luto, não se pode deixar de falar um pouco sobre essa vivência na velhice, que é a fase em que a pessoa sofre diversas perdas. Nesse momento da vida, a pessoa sofre perdas físicas, sociais e psíquicas, além daquelas que dizem respeito à morte de seus companheiros ou cônjuges e de seus entes queridos em geral.

Em relação ao enfrentamento sobre a morte do parceiro, Doll (2002, p. 1000) considera que:

Não há dúvida de que a cultura influencia os comportamentos das pessoas, especialmente em uma situação de crise como a perda do parceiro e o confronto com a morte. Nessa situação, que é percebida pela maioria das pessoas como um choque, a existência de formas rituais de expressar sua dor e de agir em relação a outras pessoas pode ser uma ajuda e uma orientação para a pessoa enlutada.

As pessoas enfrentam a morte de acordo com a sua cultura. Porém, há maneiras de perceber a morte que são universais. Para Rosenblatt (2001 apud DOLL, 2002, p. 1000):

A morte é percebida em todas as culturas como um problema, e a reação de luto à perda do parceiro ou de uma pessoa querida também se encontra em todos os lugares. Porém, a forma concreta de lidar com a morte e de expressar o luto varia muito, dependendo da cultura na qual a pessoa vive e pode ir de um rápido passar adiante até uma obrigação de mostrar tristeza, dor e desespero durante um longo período.

Sobre a morte, há diferenças que podem ser provocadas pelos valores e crenças distintos.

[...] Por exemplo, o impedimento da expressão de luto para que os outros membros da sociedade não sejam lembrados das dores das próprias perdas. As diferenças culturais também são influenciadas pelo que uma pessoa perde com a morte do parceiro, como o sustentador da família, o parceiro sexual, o companheiro, etc. (ROSENBLATT, 2001 apud DOLL, 2002, p.1000).

Em pesquisa realizada sobre o impacto gerado nas pessoas sobre a morte do parceiro, Davidson (2000, apud DOLL, 2002, p. 1002) concluiu que:

[...] as mulheres sentem mais a falta daquilo que os homens representavam para elas, como segurança social, status social ou a vida social, enquanto os homens sentem mais a falta daquilo que as esposas faziam para eles, como organizar a casa, cuidar deles e os aspectos emocionais vinculados a isso.

Porém, fala-se que tanto o homem quanto a mulher sentem a falta um do outro enquanto pessoa.

Em relação à perda do parceiro, para as pessoas mais velhas em geral, de acordo com Doll (2002), há menos impacto do que para uma pessoa mais jovem, quando a morte é menos esperada. A respeito disso, Doll (2002, p. 1005) cita que:

[...] pessoas mais velhas também têm, em geral, mecanismos de controle emocional mais desenvolvido, e, por já terem passado por um número maior de perdas, podem ter desenvolvido formas melhores de lidar com a perda e o luto. Por outro lado, pessoas idosas são mais vulneráveis, tanto física quanto socialmente, e a perda do parceiro de longa data significa, em geral, muito mais do que somente a perda de uma pessoa amada.

Para uma pessoa mais velha, a perda de seu parceiro acarretará maiores dificuldades de manter os seus contatos sociais, de resolver seus problemas e realizar suas tarefas, como também a sua recuperação será mais demorada. Porém, as pessoas mais velhas sofrerão menor impacto emocional e com isto, terão uma incidência depressiva mais fraca.

Segundo Doll (2002), a pessoa que vivencia uma perda, terá comportamentos vinculados a sentimentos que são modificados nessa situação. A pessoa apresenta agitação, inquietação, choro e uma tendência a se retrair socialmente.

Já no caso do significado que a pessoa dá para a perda que teve, será pessoal. Cada perda provocada pela morte acarretará uma experiência pessoal a cada ser humano, onde cada qual irá reagir de forma diferente. De acordo com Doll (2002, p. 1007), “[...] a perda do parceiro ou de uma pessoa querida pode ter significado muito diverso para as pessoas, dependendo da sua biografia, dos seus valores e suas crenças”. Por “outro lado, o impacto e as conseqüências dependem da constituição anterior, tanto física, quanto psicológica e social.”

A maneira como a pessoa vai enfrentar a situação estressante causada pela perda, de acordo com Doll (2002), vai depender de fatores que poderão influenciar esse processo. Assim, é preciso considerar a circunstância da morte, o contexto em que ela se dá o apoio social e a antecedência de doenças, mas principalmente a biografia e a estrutura psicológica da pessoa que vai viver o processo de luto.

As teorias que abordam o tema, relacionado ao luto têm diferentes concepções sobre essa experiência. A seguir serão apresentadas as teorias cognitivas, teorias psicanalíticas e teorias de construção social.

As teorias cognitivas do estresse se baseiam no conceito de enfrentamento, que consiste no esforço cognitivo e comportamental da pessoa, em lidar com as demandas internas e externas que uma determinada situação provoca. (STROBE & SCHUT, 2001 apud DOLL, 2002). O impacto de um evento estressante vai depender da avaliação individual, que a pessoa fizer sobre ele. Segundo Doll (2002), no caso da perda de uma pessoa importante, os esforços que a pessoa fará para lidar com ela, dependerão da sua percepção e avaliação sobre esse acontecimento. Esse evento estressante pode significar para uma pessoa um desafio e assim, ela enfrentará de forma ativa, enquanto que, para outra pessoa poderá representar uma sobrecarga, de difícil enfrentamento e assim ela terá um comportamento evasivo, ou seja, um comportamento de fuga ou evitação.

Existem dois tipos de estratégias de enfrentamento para as teorias cognitivas. São denominadas estratégias centradas no problema e centradas na emoção. As estratégias de enfrentamento, que estão centradas no problema são aquelas que levam a pessoa para a ação. Já, as estratégias de enfrentamento baseadas na emoção são as defesas internas, que a pessoa busca para aliviar o seu sofrimento. “Enfrentamentos favoráveis acarretam emoções positivas; enfrentamentos desfavoráveis ou a impossibilidade de encontrar soluções causam angústia [...]”. (DOLL, 2002, p. 1007).

A perda de uma pessoa importante traz sentimentos negativos, mas também poderá trazer consigo sentimentos positivos para o enlutado. De acordo com Doll (2002), a existência de sentimentos positivos numa situação de luto, que é, predominantemente, triste e negativa, ajuda a pessoa a enfrentar as suas perdas e, especialmente, a lidar com as suas emoções frente à imutabilidade da morte.

Segundo as teorias de estresse, a readaptação depois da perda de uma pessoa significativa, se baseia no uso adequado de estratégias de enfrentamento. Os critérios para a elaboração da perda ou para a adaptação são, principalmente, a diminuição da angústia e a predominância de sentimentos positivos. (DOLL, 2002).

No caso das teorias psicanalíticas, entre as suas contribuições sobre a recuperação após ocorrer uma perda, existe uma análise sensível e compreensiva das reações imediatamente depois da morte do parceiro. Desta maneira, Doll (2002) cita que, essa análise é feita especialmente em relação aos sentimentos, às vezes controversos, experimentados pela pessoa enlutada, como tristeza pela perda, saudade em relação à pessoa perdida e, ao mesmo tempo, raiva por ter sido abandonada.

Outro aspecto importante que Doll (2002) menciona, é que quando os sentimentos em relação ao falecido e ao luto são suprimidos, há um risco de a pessoa desenvolver outras formas de luto patológicas. Já está comprovado em várias pesquisas, que há um grupo de risco entre as pessoas enlutadas que, apresentam altos índices de depressão e tendência para doenças mentais.

Em relação às teorias de construção social, de acordo com Doll (2002), as pesquisas nesse campo, se baseiam no interacionismo simbólico. Dessa forma, o significado da perda e da pessoa falecida é negociado em interações sociais da pessoa enlutada, com as demais ao seu redor.

Há um novo modelo para se compreender e avaliar o processo de luto proposto por Walter (1999) apud Doll (2002, p. 1008), o qual considera que:

As relações com a pessoa falecida são mantidas, basicamente por conversas, ou com outras pessoas falecidas, por exemplo, nas visitas ao cemitério, ou com as pessoas que conheciam o falecido. Mesmo se a conversa não ajuda diretamente na diminuição da angústia, ela ajuda no processo de construção de uma biografia da pessoa falecida. Segundo Walter, o processo de luto é resolvido quando a pessoa enlutada consegue construir uma biografia estável da pessoa falecida, que possibilita à pessoa enlutada integrar a memória da pessoa falecida na sua vida atual.

Em cada uma das teorias há uma maneira diferente de processar e avaliar o luto, a fim de compreender se ele está sendo vivido adequadamente. As teorias auxiliam as pessoas de forma adequada, para que elas vivam os seus lutos de maneira saudável.

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