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4.2 SENTIMENTOS E EMOÇÕES

4.2.1 Pensamentos sobre a morte

Conforme o contexto histórico e social, a morte é vista como mistério, provocando dúvidas e questionamentos às pessoas que se deparam com ela, pela necessidade de obterem uma resposta. A morte e morrer foram sempre assuntos difíceis de ser falado e refletido pelas pessoas. De acordo com Camon (2003), na Antiguidade, pôde-se identificar que o homem não afastava do seu pensamento a idéia de que iria morrer. A morte surgia com mais rapidez e na maioria das vezes, as pessoas não sabiam o seu motivo. Nessa época, as pessoas adoeciam com mais facilidade, devido à sua fragilidade em relação às doenças e pela

falta de prevenção e tratamento. A expectativa de vida das pessoas era mais curta, elas sabiam que não viveriam por muito tempo.

No entanto, houve mudanças na maneira de pensar sobre a morte na sociedade atual. Ainda, de acordo com Camon (2003), com o avanço da ciência, o ser humano passa a se achar capaz de combater a morte, deixando de pensar nela e crendo que é algo distante ou que parece não acontecer consigo, não estando preparado para o seu adoecimento, sofrimento e a morte. Ela é temida e vista como um tabu, um tema que é bastante evitado pelas pessoas. Dessa forma, o homem começa a utilizar o silêncio para afastar a morte inevitável do seu cotidiano e aquilo que era exigido, como a vivência do processo de luto, agora é proibida na sociedade moderna.

Diante disso, a categoria a ser explicitada a partir daqui, será: Pensamentos sobre a morte, com o intuito de identificar quais os pensamentos que ocorreram aos estudantes de Psicologia, no momento em que souberam da morte de pacientes, por eles atendidos, no seu estágio no hospital. Os pensamentos também podem ocorrer, de forma variada de pessoa para pessoa. Nesse momento então serão apresentadas as falas dos estudantes.

A E3 relatou os pensamentos que lhe ocorreram, diante da notícia da morte de pacientes que ela atendeu, aduzindo:

“(...) tu fica mais introspectiva, pensando até mesmo nos teus projetos de vida, eu fico muito pensando assim: ai, como é a vida: um dia tu ta aqui e (...)” E3

“Pensamentos? Nossa! Vêm todos assim. Vem de indignação, frustração, todos, todos os péssimos, até aquele momento que tu pára, respira, reflete né e aí depois começa a botar a cabeça no lugar, porque eu acho que não tem como não ficar um pouco indignada assim, ai que saco, né! (...) mas depois que eu dei uma estabilizada, eu tive pensamentos assim de chateação assim, né: ai que droga, eu não acredito mais em nada, ai, cadê esse Deus que né (...) a gente começa a pensar mais na morte quando a gente ta nesse meio, só que daí quando... se tu se depara assim logo e ta bem no iniciozinho, aí tu pensa, pensa assim, fica dias pensando, bah, que droga, eu não queria que tivesse sido assim! E3

“(...) Tu vai ficando também mais consciente de que tu vai morrer (...)” E3

É interessante perceber que nestas narrativas da E3, sobre os seus pensamentos diante da morte de pacientes que ela atendeu, ela expressou o que sentiu, pois nesses discursos

se apresentaram pensamentos que se remetem a sentimentos de indignação, frustração e

chateação frente a esses acontecimentos. Aqui se pôde constatar que os pensamentos e

emoções, sentimentos estão interligados. No entanto, ela pôde perceber que ficou mais

introspectiva, pensando até mesmo nos seus projetos de vida. Além disso, a E3 percebeu

que começou a pensar mais na morte quando se inseriu nesse meio, no contexto

hospitalar.

Na sua primeira narrativa, a estudante mencionou que ficou mais introspectiva e que foi possível pensar até mesmo nos seus projetos de vida, estando diante da morte de pacientes. Dessa forma, a pessoa quando está diante da morte de outra, tende a pensar mais sobre a sua vida, sobre os seus projetos de vida. De acordo com Camon (2002), o psicólogo e nesse caso pode-se remeter à situação de perda vivenciada pela estudante de psicologia, à qual reportou aos seus sentimentos, questionamentos relacionados à sua própria vida.

Na segunda narrativa, a estudante expressou pensamentos que se relacionam aos sentimentos de indignação e frustração. Esses sentimentos podem surgir, de acordo com Camon (2002), pela tentativa que o profissional ou no caso, o estudante farão de driblar a morte, que é a principal inimiga a ser vencida no contexto hospitalar, o que reflete também no “fracasso” das condutas terapêuticas, quando esse desejo não é alcançado. Da mesma maneira, de acordo com Kovács (1992 apud Camon 2002), uma das formas mais usadas pelo profissional é a formação reativa, a conquista da doença, o desafio da morte e a tentativa de tomar medidas heróicas para salvar o paciente a todo custo [...]”

Além desses pensamentos relatados pela estudante 3, ela expressou também que, começou a pensar mais na morte quando ela se inseriu nesse meio, no contexto hospitalar. Relatou a consciência de sua própria morte, de sua finitude. De acordo com Camon (2002), o psicólogo e nessa situação, a estudante de psicologia teve a experiência de reportar aos seus sentimentos, questionamentos sobre a sua própria mortalidade.

Dando continuidade à demonstração dos dados, a partir de agora então, serão apresentadas os relatos da E4, que representaram os seus pensamentos com relação à situação de morte de pacientes por ela atendidos, que foram as seguintes:

“(...) aqui a gente olha pros pacientes no hospital, pensando sempre que eles vão ficar bem, que eles estão ali pro tratamento pra irem pra casa, pra melhorar a saúde, a gente atende com o viés de ajudá-los a melhorar a sua saúde e a gente esquece que às vezes a gente precisa ajudá-los a morrer, né. Mas na hora me veio mesmo pensamentos das situações em

que eu a atendi e o quanto a gente não pode fugir da morte e ela ta aí e acontece inclusive enquanto a gente ta dormindo e seja lá onde for, inclusive no hospital”. E4

Nessas narrativas, percebeu-se que a E4 apresentou os seus questionamentos, os seus pensamentos e reflexões com relação ao trabalho realizado com os pacientes, antes da

sua morte, percebendo a necessidade de poder ajudá-los a enfrentar essa situação. A

estudante expressou em seu relato, a intenção do trabalho com os pacientes, do atendimento prestado a eles, a fim de ajudá-los a recuperarem a sua saúde, sem pensar na possibilidade da morte. De acordo com Camon (2002), o hospital está marcado pela luta constante dos profissionais entre a vida e a morte de pacientes, pela esperança de melhora, da cura, da minimização ou suspensão do sofrimento, não admitindo nada que transcenda esse princípio e isso é também vivenciado pelos psicólogos e estudantes de psicologia inseridos nesse contexto.

Diante dessas narrativas, percebeu-se que a estudante 3 passou por um processo de frustração e indignação diante da morte, levando-a pensar sobre os seus projetos de vida e sobre sua própria mortalidade. No caso da estudante 4, surgiram pensamentos sobre o objetivo que tem o trabalho com os pacientes hospitalizados, que é a sua cura, percebendo que às vezes é preciso ajudá-los a morrer também. Essa estudante também, nessa situação vivenciada fez reflexões sobre a morte. Com isso, pôde-se perceber que o contexto hospitalar que as estudantes estavam inseridas e diante da morte dos pacientes, proporcionou reflexões e questionamentos sobre esse assunto.

Após o trabalho tratar dos pensamentos que ocorreram nas situações de perda de pacientes vivenciados pelos estudantes, será explicitado o tema sobre Estratégias de Enfrentamento diante da perda de pacientes. Essa categoria tem o propósito de identificar, as maneiras que os estudantes utilizam para enfrentarem a morte, a perda de pacientes que eles tenham atendido e o quê eles fazem para lidar com os sentimentos que vivenciam, pela perda de pacientes que eles tenham constituído um vínculo.

4.3 ESTRATÉGIAS DE ENFRENTAMENTO DOS ESTUDANTES DIANTE DA PERDA

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