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3.7 Mosteiro de São Bento da Saúde

4.1.7 Mosteiro de Jesus, de Aveiro

O refeitório, como agora o vemos neste importante núcleo religioso, deve ser resultante da ampliação do primitivo. Conserva a porta e a tribuna da leitora dos séculos XV-XVI. As ombreiras da porta reproduzem dois cordões que ondulam formando ovais alargadas, enquanto a verga foi substituída pelos restauros levados a cabo pela Direcção Geral dos Monumentos Nacionais. A tribuna da leitora dos séculos XVI-XVI, desenha três vãos, por meio de dois frágeis colunelos, assentes no parapeito, de capitéis anelares de folhagem e de lintéis cortados em arco rebaixado. Revestem paredes de azulejos137 de tipo rosáceas, em azul pálido, da passagem dos séculos XVII-XVIII138, data aproximada

da reforma do refeitório. Conservam-se as mesas e o ladeado gasto, o que dá grande encanto e poder evocativo a esta divisão.

137 Os azulejos devem ser oriundos da produção de olarias de Lisboa, 1690-1710, e não Coimbra, como se pensava antes. 138 No reino de D. Pedro II (1683-1706) surgem muitos padrões empregues em policromia – ainda que já fossem conhecidas variantes só em azul – começam a ser preteridos por módulos de repetição nesta cor. Também a escala de padrões parece fixar-se nos de maior dimensão, com predomínio dos 4x4 e dos 6x6, com motivos de folhagem densa e de grande volumetria que veio anunciar o período do apogeu seguinte.

Segue-se o do norte, intermedio aos dois pátios, a pequena casa do lavabo, que dá para a breve quadra do ante refeitório, já incluída no ângulo directo.

Um texto importante relacionado com a comensalidade neste convento é a Constituição das Freiras (…) da Ordem dos Pregadores (ordem dominicana), códice manuscrito conservado no Museu de Aveiro, do final do século XV, da autoria de Margarida Pinheiro, companheira da fundadora do Mosteiro de Jesus, a Princesa Santa Joana, publicado por António Gomes da Gomes da Rocha Madahil.139

No Capítulo IV desta Constituição regulamenta-se o Jejum. As freiras comiam duas vezes por dia excepto nas épocas de festividades religiosas como a Páscoa, estando os Jejuns estabelecidos por quatro temporadas. E fala-nos também das atitudes perante o Comer, como por exemplo antes do jantar ou da ceia às horas habituais, a irmã sacristã está obrigada a dar o sinal com o toque do sino para que as restantes irmãs sigam em direcção ao Refeitório. Com as mãos juntas, são acompanhadas pela responsável da área do refeitório. Mas primeiro entram as abadessas principais e depois as restantes freiras. Nenhuma freira poderia faltar à refeição, a não ser as freiras doentes que comiam nas enfermarias, onde por causa do estado de debilidade em que se encontravam tinham direito a caldos com alguma carne.

À mesa do refeitório cada freira tomava a proporção suficiente de comida. Tomava o que lhe apetecia, e o que não desejava, antes de começar a comer, devolvia-o às serventes, para que estas o enviassem à portaria. Em épocas festivas religiosas, as freiras jejuavam a pão e a água, o que, nos hagiológios do convento, se refere ter lugar, com frequência.

Todas as casas religiosas dos séculos XVII e XVIII se tornaram famosas pelas doçarias especializadas. Eram não só naturais, mas até indispensáveis, estas especializações em comunidades femininas, mormente após o cultivo do açúcar na Madeira, de que o convento passou a receber uma notável esmola anual, desde o tempo de D. Manuel. Se tivermos em conta que a clausura de Jesus, ganhou forma como centro educativo de meninas da melhor sociedade do centro do país, a doçaria tinha de entrar obrigatoriamente, num programa de culinária doméstica.

Este edifício monástico possui também um vasto espólio cerâmico que continha diversos fragmentos de formas de açúcar. Todavia, de acordo com a documentação antiga, a Aveiro era

139 Veja-se: Crónica da Fundação do Mosteiro de Jesus, de Aveiro e Memorial da Infanta Santa Joana Filha Del Rei Dom Afonso V (Códice Quinhentista). Leitura, Revisão e Prefácio de. Conservador do Arquivo e Museu de Arte da Universidade

considerado como o centro produtor de peças cerâmicas, tendo sido encontradas formas e fragmentos empilhadas umas nas outras. Por sua vez, esta descoberta leva a crer que estas pertenciam à carga de um navio para serem exportadas os locais de produção de açúcar.

No entanto, através da documentação sabe-se que Aveiro140 facultava os engenhos de açúcar

das Canárias tendo entre 1560 – 1575 exportado cerca de 13850 formas de açúcar, que os Canários achavam como peças de cerâmica sólidas e de boa qualidade. (Morgado, 2009, p. 12)

Para equilibrar as suas finanças internas, as religiosas passaram, do fabrico para uso comunitário, à venda para o público.

Neste mosteiro, o século XVIII tornou-se numa época de excessos e extravagâncias nos actos litúrgicos. Em 1774, havia problemas de disciplina e administração económica, mas as freiras eram afamadas em doçarias e conservas. Não eram só as religiosas peritas em especialidades mas também as criadas ou moças tinham conhecimentos; e os seculares, não só acudiam às grades do mosteiro a fazer provisões, mas importunavam as prioresas para que, em festas familiares, lhes dispensavam alguma cozinheira secular.

Dirigida a todo o mosteiro, estabelece-se normas assente em dois pontos: administração económica e observância regular.

O primeiro aspecto regula o sustento diário das religiosas, suprimidas as cozinhas e as cozinheiras em fornalhas particulares, e instituindo um só cozinha e panelas comuns para as pessoas sãs, e outros correspondentes para as doentes, como era e só uso em todos os conventos. Além de evitar confusões e distúrbios entre criadas e até freiras, resultaria daí grande economia de lenhas para a comunidade e para as particulares que tinham de prover-se à própria custa. Religiosas, noviças e educandas, ao toque do sino deviam juntar-se na antecâmara do refeitório, chamada De Profundis141,

para entrarem à hora marcada no recinto a tomar as refeições, em silêncio, a fim de ouvirem a leitura espiritual. Para as que por ofícios se encontrassem impedidas de comer com a comunidade, haveria uma segunda mesa, a que fossem religiosas e educandas. As refeições ter-se-iam, também, com silêncio e leitura espiritual, presidindo uma zeladora, nomeada anual, bienal ou trienalmente pela prioresa.

140 Terão sido realizadas escavações arqueológicas no Museu de Aveiro, antigo Convento de Jesus, no local das cozinhas que permitiram exumar uma série de fragmentos dessas formas. Todavia, não é de descartar a ideia de em determinadas ocorrências ou lugares, o açúcar ser levado dentro destas formas, podendo neste caso, ser esta a origem dos vestígios ceramológicos encontrados nas escavações feitas nas cozinhas do antigo edifício monástico. (Morgado, 2009, p. 12) 141 Ao sair do refeitório, após as refeições principais, é uso, em certas ordens, rezar o Salmo 129, que começa por estas palavras.

Ainda assim, o visitador não se esqueceu das ementas quotidianas e em dias de festa. Ao jantar e à ceia, um arrátel de pão para cada religiosa. Nos dias de carne, ao jantar, uma tigela de caldo com hortaliça entre outros. Nos dias de peixe, prato de legumes e para sobremesa, queijo ou fruta.

Nos outros dias festivos, podia a prelada, além das rações estabelecidas, arbitrar outra moderada à sua descrição.

As educandas pensionistas tinham o mesmo passadio. O visitador havia proibido já que na cozinha do mosteiro se cozinhassem jantares ou ceias para pessoas de fora. Renovando a proibição, opunha-se, também, a que nenhuma religiosa se empregasse a fazer doces, quer para venda quer para presentes a pessoas particulares, por ser coisa indecorosa, prejudicial e desnecessária. Indecorosa, pois dava ocasião a apodar as religiosas de conserveiras e hospedeiras; prejudicial, pela despesa excessiva de lenhas e embaraço do serviço diário na cozinha da comunidade; desnecessária porque o mosteiro era “dos mais graves, mais respeitáveis e abundantes deste reino, e dotado de um amplíssimo património e rendas sólidas das quais se podem sustentar todas (as religiosas), como efectivamente se sustentam com abundância.” 142

A alimentação das doentes também teve especial atenção. Para elas, como era de costume em todos os conventos da Ordem, prescreveu-se que houvesse enfermaria e bórica, onde se expedissem os remédios e as necessárias dietas de galinhas, frango e vitela ou outras semelhantes. Devia ter cozinha própria para aviar essas dietas e aquecer as águas para sangrias e banhos ou outras precisões, sem prejudicar o serviço da cozinha da comunidade. À frente, convinha pôr uma religiosa enfermeira, nomeada pela prioresa. O visitador urgia com solicitude a maior da caridade para com elas e firme obediência a tudo que os médicos afirmassem sob juramento ser preciso para a recuperação da saúde.

Ao contrário do que acontecia noutros mosteiros religiosos do país, o de Aveiro, nunca aceitou o que as religiosas tivessem criadas particulares, a não ser em caso de doença, velhice e semelhantes. O minucioso Reformador, em 1775, não se esquece de fixar salários, ajudas de soldada e ementa alimentar. Como alimentação, além de um arrátel de pão, nos dias de carne, uma tigela de caldo com hortaliça, meio arrátel de vaca cozida e metade da ração de arroz e sobremesa dada às religiosas. Nos dias de peixe, uma tigela de caldo, um prato de legumes, meio arrátel de peixe e arroz, e sobremesa, como nos dias de carne.

142 Pág.252. Nos finais do século XVIII, deviam existir, no convento, especialidades de doçaria. Para os anos de 1816-1817, no século seguinte, aponta Marques Gomes. Cfr. Catálogo da Exposição de Arte Religiosa no Colégio de Santa Joana Princesa, págs.114-115.

Quanto à ceia, o ementarista apenas observa que nunca se lhes deveria dar de carne, excepto em caso de doença.

Pode ter ficado a impressão ao relatar-se a ementa das refeições das moças, de que elas não eram providas com abundância. E, todavia, os factos demonstravam o contrário, pois após as refeições eles vendiam, à roda do convento. O Reformador proíbe, em absoluto, tais vendas, feitas por criadas comuns ou particulares, sob pena de expulsão imediata.

E ainda proibia que se mandasse qualquer almoço, jantar ou ceia aos vigários do vizinho conventos dos Pregadores.