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Sendo a narrativa uma travessia moldada pelos passos, como observa Certeau (2012), nesta pesquisa a viagem se deu entre várias e múltiplas escalas, na qual nos deparamos com o desafio de compor uma escritura que permeasse diferentes espaços e sujeitos, fatos e normas, memórias e documentos, passos trilhados em becos e tribunais, lajes e megaprojetos, “teia de aranha de relações intricadas à procura de uma forma”. (CALVINO, 1990, p. 72) Longe de emoldurar a pluralidade e riqueza da realidade de Saramandaia, puxamos os fios da teia para encontrar uma estratégia narrativa que se define em seu movimento pendular, na medida em que as escalas trilhadas se aproximam ou se distanciam da escala dos sujeitos.

Nesse sentido, diante da dificuldade de enquadrar os dados empíricos em uma estrutura, a divisão em capítulos e seções que compõem este livro é apenas uma estratégia de organização dos dados e reflexões que leva em consideração a preponderância dos assuntos abordados. Para guiar essa composição, partimos da ideia de que o direito à cidade é fortemente nutrido pelo Direito Autoconstruído. Portanto, a realidade empírica do bairro de Saramandaia é descrita através de diversas escalas de juridicidade que se comportam de forma diferenciada nos seus diversos espaços: casa, bairro e fronteira.

É importante pontuar que a estratégia narrativa adotada também sofre modificações ao longo do texto. Na medida em que se passa da escala da casa para a escala do bairro, a interlocução fica mais centrada em alguns moradores, que tendem a “falar em nome do bairro”, em função dos mecanismos de repre- sentação. As ferramentas utilizadas, notadamente nos momentos vivenciados pela autora, também são diferentes. Assim, a conversação bastante utilizada

para apreender fatos já ocorridos, embora não seja substituída, divide espaço com a possibilidade de observação direta da situação, o que também influencia na estratégia narrativa adotada.

Nesse sentido, a partir da delimitação do conceito de Direito que funda- menta este trabalho e seu entrelaçamento com o direito à cidade, os capítulos que sucedem esta introdução se debruçam sobre os processos assimétricos de acesso à cidade, deflagrado pelos sujeitos coletivos de direito. Portanto, nosso olhar é voltado para o agir urbano que constitui e institui o Direito que pode ser observado na prática social. Para guiar a construção dessa análise, partimos do pressuposto de que o processo instituinte de direitos urbanísticos explicitados no território através das práticas cotidianas possui zonas de contato e é interescalar, envolvendo complexas fontes de legitimação atravessadas por relações de conflito, reciprocidade e autonomia.

Assim, propomos articular três eixos de análise que estão fortemente inter- conectados: direitos autoconstruídos face à ausência do Estado da prestação de serviços públicos urbanos − acordos feitos entre os moradores no processo de acesso e ocupação do espaço nos territórios populares −; constituição de direitos urbanos através de relações ambíguas com o Estado; e (des)construção de direitos urbanos: insurgências, conflitos e disputas pelo espaço urbano.

Desse modo, este livro é composto de quatro capítulos que buscam fazer uma conjugação entre a dimensão teórica e empírica, imbricando conceitos e análise dos dados obtidos em campo. Assim, uma reflexão sobre o papel da legislação urbana na produção da ordem e desordem espacial é feita no capítulo Ordem e desordem na produção do espaço urbano em Salvador: 1940-1970. Embora Saramandaia tenha surgido apenas no início da década de 1970, optamos por fazer uma retrospectiva para abarcar a década de 1940, momento em que se intensificam as ocupações coletivas na cidade de Salvador. Esse olhar retrospectivo também busca resgatar os elementos de estruturação de uma nova centralidade, contexto espacial no qual Saramandaia está inserida. A partir dessa descrição, afunilamos o olhar para o bairro de Saramandaia, caracterizando os seus antecedentes fundiá- rios e as práticas dos homens ordinários, no dizer de Certeau (2012), no processo embrionário de apropriação do território.

Em seguida, no capítulo O direito achado nos becos: entrelaçando formas e normas, é privilegiada a análise da produção do espaço da casa que se expande processualmente, mas não linearmente, do barraco à casa de alvenaria. A partir de uma visão plural do direito, são trazidos elementos que nutrem os jogos de consentimento travados entre os moradores na delimitação dos lotes, construção e expansão da casa. Por meio do detalhamento desses “casos” que emergem da experiência cotidiana dos moradores é que foi possível compreender o que caracteriza o Direito Autoconstruído.

As relações travadas na escala do bairro são trazidas no capítulo Direito (em) construção: insurgências e porosidades, tendo como foco o Direito Autoconstruído nos espaços comuns e equipamentos coletivos. Nessa escala, buscamos perceber como convivem os processos de autoconstrução do direito e do espaço com as reivindicações dos moradores face ao Estado para implantação de infraestrutura urbana e reconhecimento do território. Pretendemos evidenciar um movimento pendular, contraditório e conflituoso de construção do Direito à Cidade, que tende a extrapolar situações cotidianas e passa a ser constituído de forma interescalar através da articulação com movimentos urbanos de atuação em âmbito nacional.

O último capítulo expõe a tensão conflituosa entre o bairro de Saramandaia e a cidade hegemônica, evidenciada de forma mais contundente nos espaços de fronteira do bairro. Pretendemos mostrar o agir dos sujeitos coletivos de direito frente à forma paradoxal da ação do Estado que, ao mesmo tempo em que reco- nhece o território através de instrumentos da nova ordem urbanística, busca ocultá-lo e segregá-lo construindo muros e cercas e concebendo projetos impac- tantes que desconstituem direitos e aniquilam espaços comuns. São abordados dois diferentes momentos dessa “guerra”, os quais envolvem distintas instâncias e articulações. Também é feita uma análise das ações de contra-ataque dos moradores nas batalhas travadas e dos dispositivos acionados para arbitrar esse tensionamento, ressaltando o papel truculento do direito estatal e dos múltiplos processos de judicialização do direito à cidade.

Ao final dos capítulos, são lançadas pistas que podem contribuir para o reco- nhecimento político e epistemológico do Direito Autoconstruído e expomos uma ilustração que condensa o desencadeamento de processos que guardam relação com o bairro de Saramandaia, buscando demonstrar, assim, a sobreposição dos processos e a relação entre protagonistas e articulações.

Notas

1 Essa vertente do direito teve como um dos seus expoentes o jurista Hans Kelsen que, já no início do século

XX, propôs uma tentativa de construção epistemológica de um método próprio para a ciência do direito, ou seja, uma purificação de todos elementos externos ao sistema de direito (entendido como sistema de normas jurídicas), uma autonomização em relação às ideologias políticas e de todos os elementos da ciência natural.

2 Categoria utilizada por José Geraldo de Sousa Junior (2011) para definir o sujeito capaz de estruturar um projeto político de transformação social e criação de novos direitos.

3 A discussão sobre devolver a dignidade política do Direito foi tratada por Marilena Chauí em palestra realizada no Encontro da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), no Pará. Ao comentar o pensamento de Roberto Lyra Filho, a autora propõe reencontrar a origem sociopolítica da ordem e da justiça, resgatando a relação entre a política e o Direito. (CHAUÍ,1982)

4 Pesquisa no acervo digitalizado do jornal A Tarde, abrangendo o período de 1976 a 2014.

5 O número de habitantes definidos pelo IBGE é bastante questionado pelos moradores e não condiz com a estimativa feita pelo Programa de Saúde na Família (PSF). O PSF, levando em consideração o número de famílias atendidas pelos agentes de saúde, estima um número de 16 mil habitantes. Os dados do CENSO 2010 foram agrupados pela equipe do Plano de bairro/PPG-AU/FAUFBA.

6 Apesar do bairro só ter sido nomeado como Saramandaia em 1976, Simões (1985) e Mattedi (1979) fazem referência ao ano de 1972 como data do seu surgimento.

7 Ao final do trabalho de campo, em novembro de 2014, haviam sido realizadas 62 entrevistas envolvendo 57 moradores e cinco ex-moradores do bairro, sendo 49 delas gravadas com consentimento e transcritas para análise.

A legislação urbana apresenta-se como instrumento privilegiado para organizar e racionalizar o uso do espaço, na medida em que cabe a ela o papel de conferir ao planejamento urbano o seu caráter coercitivo. Assim, partindo do pressuposto de que a ordem urbanística é uma ordem eminentemente política, buscamos compreender os processos e contextos por meio dos quais essa ordem é produzida na cidade de Salvador a partir da década de 1940. Procuramos seguir o percurso da norma e os discursos ocultos que buscam colocar as coisas em seus devidos lugares. Mais do que decifrar a ordem escondida sob a desordem aparente, coube revelar a desordem camuflada sob a ordem urbana. Esse percurso revela que “a desordem é a imagem invertida de uma ordem escondida, ainda potencial, e que a ciência urbana e uma política experimental devem tornar real”. (TOPALOV, 1991, p. 29)

Neste trajeto, aos poucos é possível revelar os processos e lógicas que definem o lugar que deve corresponder aos pobres na cidade. Nas palavras de Carlos Nelson Ferreira dos Santos (2009, p. 10), “a cidade é um lugar onde a existência de formas de vida e desenvolvimento espacial moderno exige corolários,

em Salvador: 1940-1970

como favelas, loteamentos e outras formas de ‘submoradia’ (sub só porque há ‘super’)”. Esse lugar conferido aos pobres na cidade não é absoluto. Esses sujeitos políticos agem de forma astuciosa, subvertendo a ordem que lhes é imposta e nos levando a compreender que “a desordem é só uma ordem que exige uma leitura mais atenta”. (SANTOS, C., 2009, p. 8)

Ainda que não se tenha a pretensão de exaurir o assunto, os elementos a seguir apresentados servem para compreender o contexto no qual é desen- volvida a trama que conduz os moradores de Saramandaia no processo de apro- priação do espaço entendido, a partir de Lefebvre (2013), como produto da ação social, das práticas políticas e das experiências sociais.

A análise aqui apresentada ancora-se em uma perspectiva histórica, enten- dendo que os traços contidos no passado podem ser úteis para a compreensão da configuração da Salvador contemporânea. Para tanto, optamos pela década de 1940 como recorte temporal inicial, em virtude das intensas transformações sociais, econômicas e jurídicas que influenciaram na formação da estrutura urbana de Salvador, bem como, particularmente, pelo surgimento das primeiras ocupa- ções coletivas na cidade e da realização do primeiro plano municipal, o Escritório do Plano Urbanístico da Cidade do Salvador (EPUCS). A década de 1970 é escolhida como termo final, pois se configura como o momento em que os moradores de Saramandaia se apropriam do território, ficando as décadas seguintes do bairro1 para serem narradas nos capítulos subsequentes deste livro.

Moldando os mocambos, proliferando as ocupações coletivas