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“Saramandaia não é uma novela, ela é realidade”, adverte Margarida, agente de saúde do bairro. Esse espaço real e protagonizado por uma comunidade histo- ricamente envolvida nas lutas urbanas para a construção do direito à cidade está localizado no município de Salvador e, segundo dados extraídos do Censo 2010, nele residem 12.028 mil pessoas,5 distribuídas em 3.701 domicílios, ocupando apro- ximadamente 32 hectares. A renda dos moradores é baixa, sendo que 80% recebem menos de dois salários mínimos e 57% recebem menos de um salário. (IBGE, 2010)

É nesse rico espaço em contradições e inserido em uma região fortemente acionada pelo urbanismo corporativo (FERNANDES, 2013), nas proximidades do chamado Novo Centro Iguatemi, que no ano de 2012 foi iniciado o trabalho que originou o enredo deste livro. A entrada em campo ocorreu através do Grupo de Pesquisa Lugar Comum, vinculado à Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (UFBA), justamente no momento em que estavam sendo anunciados os preparativos para a estreia de uma releitura da clássica novela Saramandaia, obra original de Dias Gomes, transmitida em 1976 pela Rede Globo de Televisão e que, naquela época, inspirou os moradores a nomear o bairro.6

No enredo fictício, um plebiscito é realizado na cidade de Bole-Bole para decidir sobre a mudança do nome para Saramandaia, mote para embates entre “tradicionalistas” e “mudancistas”, numa trama em que emergem na cidade dis- putas políticas, autoritarismo, jogos de interesses e pessoas desejando e lutando por mudanças. Transmitida em um período de forte repressão da ditadura militar no Brasil, a telenovela buscou inspiração no “realismo maravilhoso” como estra- tégia narrativa para contornar a censura, valendo-se de simbologias e metáforas políticas e lúdicas que revelassem os absurdos e perplexidades vividas no país.

Nesse entremeio entre o original e o remake, o bairro de Saramandaia cons- truiu seu próprio enredo e, assim, a realidade de Saramandaia foi aos poucos sendo descoberta pelo trabalho de campo iniciado pelas ruas largas, depois pelas estreitas vias, até chegar aos becos e ao interior das casas. Esse percurso, intensamente marcado pela observação e diálogo com os moradores que encenam cotidianamente seu próprio e maravilhoso realismo, permitia uma leitura mais aprofundada dos dados.

Saramandaia é realidade cujos dados ganham vida ao encontrarem as prá- ticas cotidianas. Se na telenovela alterar o nome da cidade pode ser também metá- fora para transformação e renovação, na vida real os moradores de Saramandaia seguiram disputando, como veremos durante o trabalho, não apenas seu nome na cidade, mas sua permanência, seu território e sua própria existência.

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O percurso do trabalho foi desenvolvido por meio da observação partici- pante em acontecimentos cotidianos e situações extraordinárias vividas pelos moradores de Saramandaia dentro e fora do bairro. Durante todo esse período, foi possível contar com a colaboração de moradores que participaram, buscando documentos, indicando novos moradores para serem interlocutores e contri- buindo com a revisão de rumos e formas de abordagem.

No decorrer da pesquisa, a observação participante foi sendo transformada em “participações observadas”, expressão utilizada pelo arquiteto Carlos Nelson Ferreira dos Santos (1980, 1981) para revelar a sua postura militante adotada na pesquisa desenvolvida na década de 1970, durante a urbanização do bairro Brás de Pina, no Rio Janeiro. No nosso caso, a postura militante aflorou de forma mais explicita em função da participação em reuniões, esferas públicas e fóruns jurí- dicos nos quais os moradores de Saramandaia, juntamente com diversos atores sociais, buscaram se insurgir contra ameaças de despossessão e restrição do direito à participação − núcleo central do direito à cidade − empreendidas por pro- jetos estatais e privados alinhados a formas coorporativas de agir sobre o urbano. Esse duplo papel da pesquisadora trouxe inúmeros dilemas e desafios. Tal “participação observante” revelou um paradoxo metodológico entre observar participando e participar observando. Por esse método o pesquisador, em última instância, analisa o material que ele próprio ajudou a produzir, devendo ser redobrada a vigilância epistemológica. (MAKAREMI, 2008) Ademais, é preciso ficar atento, pois “se você não pertence ou não tem um senso de pertencimento, também não vê. Mas se você se deixa levar completamente também não observa”. (RIBEIRO, 2014, p. 309)

Assim, poderíamos dizer que houve uma afetação, expressão utilizada por Favret-Saada (2005) para tratar da imbricação com o trabalho de campo que ultrapassa a observação participante. No nosso caso, fomos afetados pelo envol- vimento militante que nos levou a uma intensa participação nas “batalhas” que envolveram os projetos que impactaram o bairro. Foi necessário muito esforço para manter uma postura ni trop près, ni trop loin que permitisse uma distância crítica capaz de manter a independência do pesquisador e, ao mesmo tempo, as relações de engajamento. (AGIER, 1997)

O envolvimento da pesquisadora na gama de espaços conflituosos que incidiram sobre o bairro durante o trabalho de campo impôs que a pesquisa fosse realizada por um tempo mais longo que o imaginado, criando também embaraços para se desvincular dos papéis exercidos. A intensa participação em alguns eventos também implicou em lacunas, na medida em que a participação tomava o lugar da observação, dificultando o detalhamento dos registros. Por outro lado, é justa- mente nesse momento que algumas portas se abrem para a pesquisa, podendo-se expressamente ouvir de um morador: “Ela é das nossas, pode confiar”.

No intuito de dar conta desses dilemas instransponíveis e partindo do pressuposto da impossibilidade de dissociação anunciada por Lyra Filho (1986, p. 271) entre o ser, o fazer e o saber, assumimos uma postura de compromisso com os interlocutores, intensificando o processo de escuta e diálogo, bem como reforçando o dever ético de explicitar de forma mais detalhada o percurso do desenvolvimento do trabalho, de modo a deixar claro o ponto de partida que embasou as suas constatações. Desse modo, compreendemos a teoria como “consciência cartográfica do caminho que vai sendo percorrido pelas lutas polí- ticas, sociais e culturais que ela influencia tanto quanto é influenciado por elas”. (SANTOS, 2000, p. 37)

Esse envolvimento, iniciado desde o primeiro contato com o bairro, o qual se deu juntamente com o Grupo de Pesquisa Lugar Comum, permeou todo o trabalho de campo, abrindo portas para estabelecer contatos com lideranças e moradores, sendo formada, aos poucos, uma rede de interlocutores. Nesse período, também foi possível fazer a caracterização do espaço físico, a localização dos equipamentos, fluxo e dinâmica do local. Nessa ocasião, foram contatadas as associações que atuam no bairro. Todos esses elementos contribuíram para

a delimitação dos marcos interpretativos e a compreensão mínima do universo pesquisado, levando à observação dos processos de desconstituição de direitos, insurgências e assimilações de discursos.

O estreitamento dos laços com os moradores também gerou legitimidade para transitar no bairro e apreender algumas regras de comportamento que devem ser seguidas para o desenvolvimento do trabalho. Assim, um pouco mais familiarizada, foram retomados os contatos com os moradores para realização das entrevistas, que foram feitas diretamente pela pesquisadora sendo empre- gadas as bases epistemológicas propostas por Guber (2005) e buscando utilizar formas de abordagens que evitassem projetar as concepções do investigador nas respostas obtidas, agregando ainda, ao material discursivo, informações sobre o seu contexto e marcos interpretativos de referência.7

A decisão de iniciar as entrevistas, após um ano de permanência no bairro, se deu acreditando que realizá-las em um ambiente onde houvesse uma relação de troca e conjugações de objetivos permitiria disposição maior para se estabelecer os diálogos. Foi justamente nesse processo de trocas mútuas que foram sendo criados laços que permitiram adentrar em assuntos que não podem prescindir de uma relação de confiança no qual o trabalho de campo se baseia. Ademais, o prolongamento da minha permanência no bairro terminou por diminuir a relação diferencial e assimétrica entre “pesquisador-pesquisado”.

Após dois anos de permanência no bairro, os diálogos estiveram mais vol- tados aos moradores que não ocupam o status de liderança. O acesso a eles se deu por intermédio de contatos já firmados durante as primeiras fases da pesquisa e por uma interface feita por moradores já contatados. No intuito de ampliar essa rede de interlocutores, procurou-se uma aproximação com os agentes de saúde do bairro que compõem o Programa Saúde da Família. O prestígio de que gozam esses profissionais no bairro permitiu a entrada da pesquisadora em espaços pouco frequentados, podendo estar em becos, vielas e avenidas. Era importante penetrar nos lugares nos processos cotidianos para compreender as complexas relações que nutrem os processos de autoconstrução do direito. Era preciso se liberar das imagens preconcebidas, como o viajante perdido com a mudança de língua na cidade invisível de Ipásia, pois “só então seria capaz de entender a

linguagem” da cidade – embora Ítalo Calvino (1990, p. 48) nos advirta que “não existe linguagem sem engano”.

Essa interlocução buscou atentar para a diversidade geracional, sendo con- tatadas pessoas idosas, adultos e jovens. Apesar da diversidade etária, pratica- mente todos os entrevistados moram há mais de 25 anos no bairro, na medida em que nasceram ou chegaram ainda criança em Saramandaia. Também se buscou contemplar os diferentes lugares demarcados por fronteiras imaginárias definidas pelos moradores, como o Bole, a Guine, o Campo, a Horta, o Largo, a Amargosa e o Candeeiro, bem como a hierarquização dentro deles, como “frente de rua”, “travessas”, “becos”, “avenidas” e “condomínios”. Compreendeu-se a importância de adentrar em todos os espaços do bairro, inclusive aqueles estigmatizados.

As transcrições buscaram respeitar a riqueza linguística dos testemunhos, sendo preservado em sua inteireza o modo de expressão dos interlocutores. No intuito de preservar o anonimato, os nomes dos interlocutores foram intencio- nalmente substituídos por nomes fictícios. Ao material discursivo decorrente das entrevistas, foram agregadas informações sobre o seu contexto, passando-se ao desafio de agrupá-las e interpretá-las. Foi preciso grande atenção e empenho para construir uma sensibilidade analítica que permitisse transmitir a riqueza das experiências e relatos encontrados.

Assim, após a finalização do trabalho de campo, as informações começavam paulatinamente a se transformar em dados, através de um árduo processo reflexivo. Em meio aos fragmentos recolhidos, era preciso encontrar pistas para melhor entender os elementos que compõem o Direito Autoconstruído. Para tanto, buscamos fugir dos rígidos modelos, nos quais a teoria pode se comportar apenas como ponto de partida ou de chegada. O trabalho de campo é a todo tempo perpassado por ela e pelo compromisso com a construção de um Direito mais democrático. Esse exercício, oscilante, foi feito sem perder de vista que “por definição, a realidade superará a teoria”. (MONTOYA URIARTE, 2012, p. 173)

No desenvolvimento dessa fase do trabalho, a participação no Laboratoire d’Anthropologie Urbaine da L’École des Hautes Études en Sciences Sociales, sob a orientação do Prof. Dr. Michel Agier, durante o período do doutorado-sanduíche em Paris, França, foi de suma importância. Embora não houvesse a intenção de desenvolver estudos comparativos, o contato com pesquisas realizadas em

diversos países do mundo que tinham como foco lugares marginalizados, vulne- rabilizados e marcados pela incerteza e tensão permanentes, permitiram insights para ordenar e interpretar os dados colhidos e aguçaram a compreensão sobre a existência de uma lógica globalizada de produzir as margens e interstícios das cidades. A experiência também serviu como espécie de refúgio para promover um distanciamento das atividades de campo e ajudar na produção do estranhamento necessário para a construção do trabalho.