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O ano de 2011 se iniciou com a posse da primeira presidenta da história brasileira e, à primeira vista, tal fato pareceu controverso quando o governo Dilma, eleito para dar continuidade ao projeto neodesenvolvimentista, começou a retroceder na construção das políticas sociais LGBT. No primeiro ano de mandato, alguns fatos foram marcantes para a luta e a agenda de demandas LGBT, pois geraram manifestações contrárias dos setores mais conservadores da sociedade, influenciando a atuação do governo Dilma. No mês de maio, o Supremo Tribunal Federal aprovou o direito à união civil aos casais do mesmo sexo, após a proposta ser barrada por mais de quinze anos no Congresso Federal. No dia 25 do mesmo mês, a presidenta suspendeu o kit do Escola Sem Homofobia, após a pressão aberta das bancadas religiosas. Em 23 de junho, a 19ª Marcha para Jesus, com ao menos um milhão de pessoas na rua, se transformou em marcha contra a união estável. Em reação à ofensiva de setores religiosos, o movimento LGBT paulista revidou, três dias depois, na 15ª. Parada LGBT de São Paulo, com o tema religioso ―Amai-Vos Uns Aos Outros: Basta de Homofobia! 10 anos da lei 10.948/01, Rumo ao PLC 122/06‖, que reuniu cerca de quatro milhões de pessoas e causou polêmica ao utilizar a simbologia de santos na campanha pelo uso de preservativos. No trajeto, centenas de cartazes foram expostos nos postes, com imagens de modelos masculinos seminus, que representavam ícones como São Sebastião e São João Batista, junto às mensagens: ―Nem Santo Te Protege‖ e ―Use Camisinha‖138

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Disponível em: http://www.estadao.com.br/noticias/geral,parada-gay-usa-imagens-de-santos-e-cria- polemica,737459. Acesso em dezembro de 2014.

Mas o anúncio de que esse ano seria difícil para o movimento LGBT, sobretudo para aquela fração que tinha relações diretas com o governo federal, fora feito no ano anterior durante as campanhas eleitorais para presidente. Para acalmar os ânimos dos setores religiosos cristãos, a candidatura de Dilma lançou o manifesto ―Carta aberta ao povo de Deus‖, em agosto. Nele, procurava-se aproximar a figura da candidata dos valores cristãos: ―o sonho e o compromisso do evangelho são, em muitos aspectos, o sonho e o compromisso de um governante sensível e comprometido com o povo e com os menos favorecidos‖. E afirmou como os programas sociais dos governos do PT, como o ―Bolsa Família‖ e o ―Minha casa minha vida‖, traduziam o compromisso de resgatar ―os valores da vida, da cidadania e da dignidade humana, valores universais que trazem em si a semente do evangelho. Valores estes que nosso governo tem se esmerado a perseguir e que nos impulsionam a buscar mais um mandato‖. Mas, a questão central da mensagem veio algumas linhas depois:

A família sempre foi e será o baluarte de uma sociedade saudável. Quanto mais estruturada é a família, menos caos social teremos. É no desajuste familiar que vemos nascer o abandono infantil gerando os chamados meninos de rua. (...) É no caos familiar que temos os altos índices de agressões contra mulheres e mães indefesas. Isso nos leva ao compromisso de fazer da família o foco principal do nosso governo. Respeitar o elo sagrado das famílias e lutar para que todas elas tenham dignidade, respeito e valor será o norte do nosso próximo governo.

Compreendemos o quanto as igrejas, todas sem distinção de denominações cristãs, são importantes e necessárias neste projeto de apoio e resgate da família e da sociedade.

Ao prometer colocar a família no centro das ações e preocupações de seu futuro governo, a candidata deu legitimidade para os discursos e a visão de mundo das igrejas cristãs, distanciando-se de antigas concepções do projeto petista, de que os problemas sociais são antes fruto das desigualdades sociais (de classe, gênero, raça e sexualidade) e não, primordialmente, da ―saúde‖ ou ―estrutura‖ do conjunto das famílias brasileiras. E não só, esquivou-se da defesa de duas demandas históricas do movimento feminista e do movimento LGBT, a saber: a descriminalização do aborto e o casamento entre pessoas de mesmo sexo.

Lembro também a minha expectativa que cabe ao Congresso Nacional a função básica de encontrar o ponto de equilíbrio nas posições que envolvam valores éticos e fundamentais, muitas vezes contraditórios, como aborto, formação familiar, uniões estáveis e outros temas relevantes, tanto para as minorias como para toda a sociedade brasileira.

Naquele momento, a candidata era muito pouco conhecida pelo conjunto do eleitorado brasileiro: ministra-chefe da Casa Civil entre 2005 e 2010, no governo Lula, era a primeira

vez que Dilma concorria a um cargo eletivo. A carta foi uma estratégia para angariar os votos de eleitores cristãos, ao procurar neutralizar a imagem ―negativa‖ de Dilma junto a esse segmento, sobretudo no que tange às assim chamadas ―questões morais‖. A primeira questão explorada por seus adversários foi a opinião dela sobre o aborto. Um vídeo, que fazia parte de uma entrevista concedida por Dilma à Folha de São Paulo em 2007, em que ela defendia a discriminalização do aborto, entendendo a questão como de saúde pública139, havia se difundido pela internet e não demorou em despertar o enfrentamento de líderes religiosos.

Entre inúmeras reações, duas ganharam maior notoriedade. A primeira foi de um líder católico, dom Luiz Gonzaga Bergonzini, bispo diocesano de Guarulhos (SP). Bergonzini apelidou o PT como o ―partido da morte‖ e ―partido abortista‖, e pregou contra a campanha de Dilma em missas realizadas nas paróquias da cidade, escreveu artigos e (no segundo turno das eleições) organizou uma campanha com a produção de milhões de panfletos que traziam a assinatura de parte de bispos da CNBB, recomendando voto contra o PT. Por determinação da Justiça Eleitoral, a Polícia Federal apreendeu cerca de um milhão de panfletos que estavam prontos para serem distribuídos140.

Outra reação, que ganhou destaque, foi a do pastor Silas Malafaia, integrante da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e apresentador do programa evangélico ―Vitória em Cristo‖. O principal líder evangélico a declarar apoio à candidata Marina Silva, do PV e fiel da Assembleia de Deus, retirou o seu apoio seis dias antes das eleições e declarou voto ao candidato do PSDB, José Serra. Durante a campanha, Marina, que havia declarado ser contra o casamento homossexual, sugeriu a convocação de plebiscitos para decidir sobre a legalização da maconha e a descriminalização do aborto141. Estava muito visível que, com essa proposta, a candidata procurava driblar as críticas originadas do interior do PV, partido ao qual ela se filiara para disputar as eleições, e do PT, seu antigo partido; ambos historicamente defendiam essas bandeiras. Mesmo assim, foi a principal justificativa anunciada por Malafaia para mudar seu apoio. Em carta enviada aos fiéis, o pastor pergunta: ―O que esta mulher tem a falar sobre plebiscito? Desce do muro, minha filha! O cristão tem

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Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2010/10/807505-dilma-diz-que-nao-mudou-de-ideia- sobre-aborto.shtml. Acesso em dezembro de 2014.

140

Disponível em: www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2307201023.htm, www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1710201010.htm, www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2410201023.htm, www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1810201021.htm. Acesso em dezembro de 2014.

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Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2009/09/627187-marina-evita-polemica-sobre-aborto-e- critica-antecipacao-da-disputa-eleitoral.shtml. Acesso em dezembro de 2014.

que dizer a que veio, senão boto chumbo na hora‖. E, mais à frente, afirma: ―Infelizmente, Marina não nega suas raízes petistas‖142

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Durante o segundo turno, em que Dilma concorreu com Serra, o bispo Edir Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus, que apoiou a candidata, questionou nas redes sociais a razão pela qual Malafaia passou a apoiar Serra: ―Para justificar que não apoiaria a candidata Dilma, acusou o PT de ser a favor do aborto e apoiar o casamento de homossexuais. Pronto, o caminho estava aberto para, sabe-se lá com que interesse, apoiar o candidato Serra‖. E mais, ―o que fez o pastor Malafaia mudar de lado?‖. Em resposta, Malafaia veiculou um vídeo, também pela internet, em que classifica o bispo de ―mentiroso‖ e diz que ele foi "comprado pelo governo‖, acusando a emissora da qual é proprietário, a Rede Record, de receber milhões do governo federal143.

O embate entre duas das principais lideranças evangélicas, às vésperas do segundo turno, era mais um episódio da forte investida e participação de igrejas pentecostais e neopentecostais no processo eleitoral. Desde o início desse processo, tais igrejas ganharam força e visibilidade, não apenas por causa do rápido crescimento do número de eleitores evangélicos, mas também pelo fato de que uma das principais candidatas, Marina Silva, ser ela mesma evangélica, o que despertou o interesse desses eleitores para escolherem um representante alinhado com suas convicções religiosas. Com isso, o discurso e o debate de líderes evangélicos ganharam maior centralidade – se comparado com as eleições anteriores –, sendo o apoio deles disputado palmo a palmo pelos três candidatos que tinham maior probabilidade de se eleger. Entre outros fatos que também marcaram a campanha, e que aconteceram perto do primeiro turno das eleições, dois ainda merecem destaque.

Um foi a exibição, em centenas de outdoors no Rio de Janeiro, da imagem de Malafaia sorrindo e apontando para a mensagem: ―Em favor da família e da preservação da espécie humana. Deus fez macho e fêmea (Genesis 1:27)‖144

. Com essa mensagem, o pastor e sua igreja difundiram sua concepção de família que, nesse caso, mistura elementos religiosos e ―biologizantes‖, ao mesmo tempo em que procura deslegitimar as demandas dos movimentos sociais de descriminalização do aborto e de aprovação legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estas questões jamais podem ter algum avanço caso a compreensão de que a ―preservação da humanidade‖ depende exclusivamente da construção do ser ―macho‖ e do ser ―fêmea‖ for uma ―verdade‖ inquestionável.

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Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2809201019.htm. Acesso em dezembro de 2014.

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Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po2210201024.htm. Acesso em dezembro de 2014.

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Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/monicabergamo/1171799-nao-estou-em-concurso-de- beleza-diz-pastor-silas-malafaia.shtml. Acesso em dezembro de 2014.

O outro fato foi a campanha difamatória contra a candidata Dilma, promovida uma semana antes do primeiro turno. Em vários blogs, espalhou-se a notícia de que uma ex- empregada doméstica da candidata, com o nome de Verônica Maldonado, estaria reivindicando o reconhecimento da relação sexual-afetiva que ambas tiveram por mais de quinze anos. Na notícia, a suposta ex-empregada afirmava ter documentos que comprovavam o relacionamento, como cartas e fotos, e que pleitearia direito à pensão na justiça. Tal pedido teria como base a decisão da Justiça do Pernambuco que, em abril do mesmo ano, teria reconhecido a união estável de duas mulheres lésbicas, concedendo o direito à pensão para uma delas, servindo o caso como jurisprudência145. Apesar de o relacionamento entre Dilma e Verônica nunca ter sido provado, a onda de boatos contra a petista influenciou em grande medida a sua agenda de campanha. As difamações contra a candidata, que a classificavam como lésbica146 e abortista, se difundiram nesta eleição presidencial por um meio de comunicação em expansão: a internet e as redes sociais, tão ou mais eficaz que o boca-a-boca ou a pregação de padres e pastores, pois por esse meio circularam inúmeras mensagens não apenas contra a petista, mas também contra o PNDH-3147.

Já durante o segundo turno, Dilma assinou mais uma carta direcionada aos setores cristãos, como forma de ―pôr um fim definitivo à campanha de calúnias e boatos espalhados por meus adversários eleitorais‖. Nela, a candidata afirmou ser ―pessoalmente contra o aborto‖, defendendo ―a manutenção da legislação atual sobre o assunto‖, que prevê aborto para casos de estupro ou risco de morte para a pessoa gestante. Com isso, assumiu o compromisso de não tomar ―a iniciativa de propor alterações de pontos que tratem da legislação do aborto e de outros temas concernentes à família e à livre expressão de qualquer

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A notícia se espalhou em dezenas de blogs. Em vários deles, foi citado o blog

http://catageral.blogspot.com.br/2010/09/dilma-roussef-e-lesbica-afirma-mineira.html como a fonte da notícia. Mas quando consultado em janeiro de 2015, a notícia havia sido apagada. Entre vários endereços, pode-se conferir a notícia em http://www.midiaindependente.org/pt/red/2010/09/477931.shtml;

http://www.suasnoticias.com.br/materia.asp?idmt=6658&idnot=2;

http://movimentoordemvigilia.blogspot.com.br/2010/09/dilma-rousseff-e-lesbica-mas-nunca-quis.html;

www.g1gospel.com/2010/09/dilma-esta-sendo-processada-pela-ex.html. Este último, trata-se de um blog de notícias voltados para evangélicos.

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Questionar o desejo sexual de Dilma Rousseff se tornaria constante, sobretudo, no começo de seu governo. Em novembro de 2011, por exemplo, o deputado Jair Bolsonaro, ao criticar o kit do Escola Sem Homofobia, questionou à presidenta na tribuna da Câmara: ―O ‗kit gay‘ não foi sepultado ainda. Dilma Rousseff, pare de mentir! Se gosta de homossexual, assuma! Se o seu negócio é amor com homossexual, assuma, mas não deixe que essa covardia entre nas escolas do primeiro grau‖. Disponível em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/11005-da-tribuna-da-camara-deputado-questiona-a-opcao-sexual-de- dilma.shtml. Acesso em dezembro de 2014.

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Segundo pesquisa do Datafolha mostrou, mais da metade do eleitorado brasileiro (56%) tinha acesso à internet em 2010. Entre os internautas, quase um terço (30%) recebeu mensagens virtuais com críticas a algum dos presidenciáveis (14% do total do eleitorado). O alvo mais frequente foi Dilma (28%), seguido por Serra (8%) e Marina Silva (2%). ―14% já receberam spam contra candidatos‖. 11/10/2010.

religião no País‖. Além disso, amenizou o PNDH-3, classificando-o como ―uma ampla carta de intenções, que incorporou itens do programa anterior‖, que fora lançado no governo FHC. Afirmou que o programa estaria sendo revisto e, se eleita: ―não pretendo promover nenhuma iniciativa que afronte a família‖.

Apesar de o tema sobre o aborto ter aparecido nos PNDHs anteriores, inclusive apoiando alteração da legislação para ampliar os casos considerados como aborto legal, foi na primeira versão do PNDH-3, lançado em dezembro de 2009, que o tema foi tratado de forma mais incisiva: ―apoiar a aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, considerando a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos‖. Aqui está bastante explícita a assimilação da linguagem e dos motivos defendidos pelo movimento feminista, que historicamente reivindica a descriminalização do aborto. Contudo, a resistência de diversas forças sociais, sobretudo de setores religiosos cristãos, fizera o governo Lula retroceder na questão, por meio de decreto assinado em maio de 2010, substituindo o parágrafo por outro que já estava presente no PNDH-2: ―considerar o aborto como tema de saúde pública, com a garantia do acesso aos serviços de saúde‖ (BRASIL, 2010, p. 112). Se antes o governo federal deveria apoiar a adequação do Código Penal para descriminalizar o aborto, após o decreto, restou no texto apenas uma recomendação ao Poder Legislativo para fazer a alteração legal.

O tema do aborto, no entanto, não era a única questão presente no PNDH-3 que supostamente ―afrontaria a família‖. Entre ações a serem executadas, o texto previa o apoio ao ―projeto de lei que disponha sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo‖, promover a ―garantia do direito de adoção por casais homoafetivos‖, além de ―reconhecer e incluir nos sistemas de informação do serviço público todas as configurações familiares constituídas por lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, com base na desconstrução da heteronormatividade‖ (BRASIL, 2010, p. 120-1). Mas, o compromisso de Dilma na segunda mensagem ao ―povo de Deus‖, divulgada no dia 15 de outubro, incluiu também um parágrafo sobre o PLC 122, que naquele momento tramitava no Senado. Afirmou que, caso aprovado, o PLC seria sancionado em seu ―futuro governo nos artigos que não violem a liberdade de crença, culto e expressão e demais garantias constitucionais individuais existentes no Brasil‖. No ―vale tudo‖ das eleições, a campanha petista não apenas assimilou a linguagem das igrejas cristãs. Ela legitimou também as concepções dessas igrejas sobre a família, as quais reconhecem apenas a família heterossexual e monogâmica, e sobre a criminalização da homofobia, que supostamente poderia limitar a ―liberdade de expressão‖ de líderes religiosos. E mais, legitimou a própria influência e presença diretas dos setores cristãos na política institucional.

Essa segunda mensagem de Dilma, que seria distribuída em cultos e igrejas na forma de panfleto, foi mais uma tentativa de amenizar as críticas advindas dos setores religiosos contra ela. Na mesma semana em que essa carta foi lançada, Dilma se reuniu com dezenas de lideranças evangélicas que exigiram o compromisso de vetar qualquer projeto aprovado no Congresso Nacional que fosse ―contra a vida e valores da família‖. A mensagem, contudo, foi considerada em muitos pontos ambígua, sobretudo para as lideranças críticas ao PT, uma vez que a candidata não se comprometeu a vetar a descriminalização do aborto caso fosse aprovado pelo Congresso. Tão pouco não citou que vetaria legislação sobre o casamento de pessoas do mesmo sexo e de adoção de crianças por casais homossexuais, outra exigência das referidas lideranças148. Nesse ponto, a intenção da candidatura de Dilma foi de não escolher de forma peremptória entre os interesses dos setores religiosos e os interesses das pessoas e do movimento LGBT. Até mesmo porque, segundo o jornal Estado de São Paulo, o grupo que comandava a campanha petista avaliou que Dilma poderia perder mais votos do que ganhar, ao se posicionar contra o casamento homossexual149.

No mesmo dia em que a segunda mensagem de Dilma para os eleitores evangélicos foi publicada, a ABGLT divulgou carta aberta às candidaturas de Dilma e Serra, onde defendeu a laicidade do Estado e lembrando que

o avanço da democracia brasileira é que tem nos permitido pautar, nos últimos anos, os direitos civis dos homossexuais e combater a homofobia. Também tem nos permitido realizar a promoção da autonomia das mulheres e combater o machismo, entre os demais avanços alcançados150.

E criticou o peso concedido aos interesses e concepções de setores religiosos durante a campanha:

Nos últimos dias, temos assistido, perplexos, à instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral. Não é aceitável que o preconceito, o machismo e a homofobia sejam estimulados por discursos de alguns grupos fundamentalistas e ganhem espaço privilegiado em plena campanha presidencial151.

Desde o início dessas eleições, as concepções religiosas foram referências importantes nos debates e embates das campanhas dos presidenciáveis. O lançamento do PNDH-3, no final de 2009, e a reação inicial dos setores religiosos, aliado ao fato de uma das principais

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Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/poder/po1610201009.htm. Acesso em dezembro de 2014.

149

Disponível em: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,dilma-resiste-a-assinar-manifesto-antiaborto-imp- ,625088. Acesso em dezembro de 2014.

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Disponível em: http://www.abglt.org.br/port/basecoluna.php?cod=145. Acesso em fevereiro de 2014.

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candidatas ser evangélica, foram ingredientes fundamentais para que questões sexuais e reprodutivas ganhassem ênfase na disputa eleitoral. Nessa contenda, Dilma, apontada estatisticamente como a preferida do eleitorado, foi um alvo fácil para as acusações que moralizavam os debates, explorando as declarações da petista dadas anteriormente. Fornecidas em entrevistas quando ministra-chefe da Casa Civil, suas declarações não apenas afirmavam ser favorável à descriminalização do aborto, como também dizia não ser praticante de religião alguma. A estratégia da candidatura de Dilma foi tentar neutralizar essas declarações, ao mesmo tempo em que fazia aliança com setores religiosos. Temas considerados ―polêmicos‖ deveriam ser silenciados ao máximo. Ao contrário da campanha anterior para presidente, a candidatura do PT não lançou material oficial voltado para o grupo LGBT. Segundo um militante gay, que foi secretário da ABGLT e integrante do Setorial LGBT do PT,

nós não conseguimos nem fazer cartilha e nem rodar material LGBT. Sabe como foi rodado o material LGBT? Isso ninguém quer contar em público. Um amigo meu da coordenação da campanha rodou sem colocar o CNPJ da campanha. Para não dizer