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4.3 Os momentos do direito e desenvolvimento

4.3.2 O segundo momento

4.3.2.1 O movimento Law and Finance

Nesta subseção, pretendemos estudar o movimento Law and Finance, por considerarmos que se trata de um exemplo de agenda de pesquisa típica do segundo momento

53 A defesa de direito humanos e o movimento de proteção da liberdade de mercado, conforme definido nesta

seção, supra.

54 Sobre este ponto, é interessante a seguinte afirmação de Trubek (2009b, p. 2007): “O amálgama do IDD-I

favorecia fortes proteções constitucionais ou quase constitucionais para as liberdades econômicas básicas, entre elas, o direito de propriedade, a liberdade de contrato e a proteção contra regulamentações excessivas e arbitrárias. Ao mesmo tempo, enfatizava a expansão do acesso à justiça, o empoderamento popular e formas mais democráticas de governança. Em algum momento, essas duas abordagens estavam destinadas a se chocar, caso governos democraticamente eleitos decidissem regulamentar suas economias e intervir nos processos de mercado”.

do direito e desenvolvimento, com suas características de defesa ao livre mercado (sem intervenção estatal) e proteção aos direitos de propriedade.

Nos anos 1990, seguindo o segundo momento do D&D, alguns juristas e economistas passaram a aproximar o crescimento econômico com o desenvolvimento do sistema financeiro. Com essa orientação, alegavam esses autores que, quanto mais desenvolvido fosse o sistema financeiro de um país, mais crescimento econômico ele produziria (FABIANI, 2011, p. 45). Ao conjunto de estudos sobre esse tema foi conferida a denominação de Law and Finance55 (ou L&F). Os principais autores participantes deste movimento são Rafael La Porta,56 Florencio Lopez de Silanes,57 Thorsten Beck,58 Ross Levine,59 Asli Demirgüç-Kunt,60 Andrei Shleifer61 e Robert Vishny.62

A abordagem da L&F é caracterizada por associar o grau de desenvolvimento dos mercados financeiros à qualidade do direito, inclusive por meio da utilização de métodos quantitativos, como afirma Fabiani (2011): “Law and Finance busca identificar quais características do direito incentivam poupadores a investir recursos em projetos que demandam financiamento de terceiros para a geração de riquezas.” (FABIANI, 2011, p. 46).

Schapiro (2010b) afirma que o surgimento do Law and Finance está vinculado à valorização da noção de Estado de direito (Rule of Law) como meio de proporcionar o desenvolvimento. De fato, a principal preocupação desses autores era a proteção aos investidores, que deveria ser garantida por meio de regras de propriedade, de disposições contratuais, objetivas e desprovidas de conceitos vagos ou ambíguos, bem como por um Poder Judiciário confiável, célere e eficaz na aplicação do direito (LA PORTA; LOPEZ DE SILANES; SHLEIFER, 1996).

Outra importante característica do Law and Finance é a comparação da qualidade do direito em diferentes países, com base em critérios eleitos pelos autores do movimento, e,

55 Também título do artigo publicado por La Porta, Lopez de Silanes e Shleifer (1996).

56 Professor na Tuck School of Business, da Dartmouth College, em Hanover, New Hampshire, EUA. 57 Professor da EDHEC Business School, em Paris, França.

58 Atualmente professor da Universidade de Tilburg, na Holanda. Trabalhou no Banco Mundial. 59 Professor da Haas School of Business, da Universidade da Califórnia, EUA.

60 Diretora de Políticas de Desenvolvimento na Vice-Presidência de Desenvolvimento Econômico do Banco

Mundial.

61 Professor do Departamento de Economia da Universidade de Harvard. 62 Professor da Booth School of Business da Universidade de Chicago.

após essa comparação, os ordenamentos jurídicos dos países são classificados quanto às respectivas tradições jurídicas (i.e., common law ou civil law). Esse tipo de comparação desemboca no argumento de origem,63 que em resumo afirma que a qualidade de um ordenamento jurídico está vinculada à sua tradição jurídica de origem. Por exemplo, países de common law oferecem maior proteção aos acionistas e, por esse motivo, o mercado de capitais é mais desenvolvido nestes países. Podemos encontrar este tipo de análise em La Porta, Lopez de Silanes e Shleifer (1996).

A partir dessas premissas, a Law and Finance analisa esquematicamente os ordenamentos jurídicos de diferentes países, criando um ranking de proteção aos credores, e, após isso, organiza os países segundo a tradição jurídica: países de common law e países de civil law. Estes ainda se subdividem em civil law de origem francesa, de origem alemã e de origem nórdica (LA PORTA; LOPEZ DE SILANES; SHLEIFER, 1996).

Um exemplo de análise da Law and Finance ressaltado por Schapiro (2010b) diz respeito ao sistema financeiro. Segundo La Porta, Lopez de Silanes e Shleifer (1996), na ausência de proteção jurídica adequada aos direitos de propriedade e de crédito no sistema financeiro, o custo de uma gestão oportunista tende a ser reduzido, o que causaria uma vulnerabilidade aos investidores. Estes, por sua vez, adotariam atitudes de autopreservação, tais como a indisponibilidade de participar das operações financeiras ou a precificação exagerada dos recursos disponibilizados, o que implicaria um funcionamento deficiente dos mercados de crédito e de capitais (SCHAPIRO, 2010b, p. 225).

Dessa forma, para a obtenção da melhor eficiência no mercado financeiro, seria imprescindível a existência de uma proteção efetiva a credores e acionistas (LA PORTA; LOPEZ DE SILANES; SHLEIFER, 1996). Prosseguindo o argumento da Law and Finance, naqueles países em que a proteção aos direitos de propriedade e de crédito são deficientes, haveria uma maior presença do Estado no setor financeiro, como uma forma subótima, para compensar a ineficiência do setor privado criada em função da baixa proteção fornecida pelo Estado de direito ou Rule of Law.64 Outro exemplo de compensação seria a previsão de

63 “[...] Assim, dependendo do contexto, a discricionariedade pode ser tomada como positiva (países de common

law) ou como negativa (países de civil law), uma vez que se entende que na common law ela é parte do sistema e o constitui, enquanto na civil law pode representar um risco à lógica estabelecida por uma lei ou por um código” (FABIANI, 2011, p. 53).

distribuição obrigatória de dividendos no direito francês. Isso representaria, segundo a Law and Finance (LA PORTA; LOPEZ DE SILANES; SHLEIFER, 2000), uma solução subótima (second best) adotada em função das supostas fragilidades do próprio direito francês, conforme conclui Schapiro (2010a, p. 48).

Desde a criação do projeto Doing Business pela Vice-Presidência para o Desenvolvimento do Setor Privado do Banco Mundial,65 a literatura da Law and Finance passou a desempenhar papel de destaque no campo prático das reformas jurídicas, já que seus métodos de mensuração da qualidade do direito foram adotados para embasar pesquisas comparativas sobre ambiente de negócios nos países membros do Banco Mundial (FABINI, 2011, p. 51). Também exerceu influência internamente no Brasil, como podemos ver da análise feita por Bacha e Oliveira Filho (2007).

No entanto, contra a postura da literatura Law and Finance é possível apresentar algumas críticas. Em primeiro lugar, como alega Fabiani (2011, p. 106), há uma confusão entre o que é descrição e o que é prescrição em suas análises. Além disso, a análise das diferentes tradições jurídicas existentes entre os diferentes países beira a caricatura (FABIANI, 2011, p. 107), ao afirmar, por exemplo, que há discricionariedade plena dos juízes de common law e vinculação absoluta dos juízes da civil law à lei, como se todas as regras existentes em países de common law fosse derivado diretamente de case law e como se não existissem leis e códigos também nestes países (FABIANI, 2011, p. 108).

Também é criticável o fato de a Law and Finance fundamentar suas análises em dados colhidos nos anos 1990, o que enfraquece suas conclusões, considerando que resultados diferentes podem surgir se outras bases de dados forem utilizadas.66 Além disso, os postulados da Law and Finance levam a concluir que qualquer interferência do Estado no mercado conduz a produção de ineficiências capazes de comprometer o desempenho das economias (SCHAPIRO, 2010a, p. 87).

65 Para maiores informações sobre o projeto, ver: DOING BUSINESS PROJECT. Disponível em:

<http://www.doingbusiness.org>. Acesso em 18 mar. 2013.

66“Adotando uma estratégia de pesquisa de corte longitudinal, um estudo de Rajan e Zingales, por exemplo,

reúne dados de desenvolvimento do mercado de capitais de vários países para o período de 1913 a 1999. Esses dados permitem observar que o mercado de capitais francês, antes da Segunda Guerra Mundial, era muito mais desenvolvido que o dos EUA. Ao longo da segunda metade do século XX, contudo, essa situação se inverteu, a despeito de a variável tradição jurídica ter permanecido constante” (FABIANI, 2011, p. 109).

Por fim, entendemos que a capacidade de persuasão da Law and Finance foi reduzida na medida em que o segundo momento do direito e desenvolvimento chegou a seu fim, o que abriu caminho para novas possibilidades de análises e entendimentos.