2 PARTICIPAÇÃO POLÍTICA NA CULTURA DIGITAL
2.2 Movimentos Sociais, Ativismo e Redes de Movimentos
As Jornadas de Junho podem ser consideradas uma expressão de movimentos sociais? Seriam elas exemplos de ativismo? Se o que ocorreu nas ruas foram claramente protestos, e portanto ações coletivas, o mesmo se pode dizer dos acontecimentos ocorridos paralelamente, nos sites de redes sociais? Para discutir essas questões, cabe refletir brevemente sobre alguns dos termos e conceitos empregados aqui, partindo primeiramente da noção de “movimentos sociais”.
O conceito de movimentos sociais, considerado central para muitos estudos em Sociologia, originou-se no século XX, em referência às organizações sindicais de trabalhadores; contudo, sua utilização vem sendo expandida progressivamente, de modo a contemplar, hoje, todas as formas de associação da sociedade civil. Diante dessa expansão indiscriminada, autores como Merlucci (1999) chegam até a propor que o termo seja substituído por variações mais genéricas, como “ação coletiva”. Merlucci (1999) justifica essa proposição elucidando ainda que o conceito de “movimentos sociais” surgiu, primeiramente, nas próprias lutas sociais, para só depois ser empregado por pesquisadores que passaram a estudá-lo ⎯ donde resulta, muitas vezes, que o termo seja utilizado de maneiras pouco objetivas, carregadas com as expectativas otimistas de estudiosos engajados. Nesse sentido, Merlucci (1999) defende que tanto “movimentos sociais” quanto “ação coletiva” sejam entendidos enquanto categorias analíticas, e não como fenômenos empíricos.
A proposição de Merlucci (1999) é confirmada pelo trabalho de Scherrer- Warren (2006), para quem a noção de movimentos sociais corresponde às diferentes formas de organização da sociedade civil, estabelecidas ao redor de interesses públicos sob a perspectiva da cidadania, o que as distingue, por exemplo, dos fenômenos de mercado e de Estado, caracterizados pela lógica da regulação e do exercício de poder. A autora explica que
A sociedade civil é a representação, de vários níveis, de como os interesses e os valores da cidadania se organizam em cada sociedade para encaminhamento de
suas ações em prol de políticas sociais e públicas, protestos sociais, manifestações simbólicas e pressões políticas. (SCHERER-WARREN, 2006, p.2)
Ainda para Scherer-Warren (2006), essas formas de organização se estruturam, no Brasil, em três níveis: o associativismo local, as formas de articulação interorganizacionais e as mobilizações na esfera pública. Por associativismo local entendem-se movimentos comunitários envolvidos com causas sociais ou culturais ligadas ao cotidiano de seus membros; por exemplo, algumas ONGs, expressões locais do Movimento dos Sem-Terra e até tribos urbanas com proposta política marcada (grupos neoanarquistas, por exemplo). Os coletivos que estabelecem mediação entre essas diferentes associações civis e destas com o Estado constituem as chamadas formas de articulação interorganizacionais, como os fóruns da sociedade civil, as associações nacionais de ONGs ou a organização nacional do MST, por exemplo. É a partir desses grupos que se negociam e se estabelecem, de maneira institucionalizada, parcerias entre a sociedade civil e o Estado. Esses dois níveis de organização da sociedade civil apresentam regularidades de funcionamento e são, de alguma maneira, institucionalizados, seja através de registros legais, seja através de normas de conduta que disciplinam o cotidiano do movimento, e determinam suas possibilidades de filiação. Contudo, o mesmo não se pode dizer do terceiro nível, correspondente às manifestações na esfera pública, que, para Scherrer-Warren (2006, p. 4)
são fruto da articulação de atores dos movimentos sociais localizados, das ONGs, dos fóruns e redes de redes, mas buscam transcendê-los por meio de grandes manifestações na praça pública, incluindo a participação de simpatizantes, com a finalidade de produzir visibilidade através da mídia e efeitos simbólicos para os próprios manifestantes (no sentido político-pedagógico) e para a sociedade em geral, como uma forma de pressão política das mais expressivas no espaço público contemporâneo.
O desdobramento da noção de movimentos sociais em diversas instâncias de atuação não é exclusivo de Scherer-Warren (2006): o trabalho de Touraine (2003), por exemplo, sugere evitar o uso do termo “movimento social” para descrever todo tipo de ação coletiva, grupo de interesse ou instrumento de pressão. Ele explica que a concepção de movimentos sociais inclui, na realidade, três tipos de movimentos, os movimentos societais
(suscitados pela existência de um conflito e consequente projeção de um adversário), culturais (ações focalizadas na afirmação de direitos culturais e baseadas na noção de pertencimento) e históricos (caracterizados pela oposição a uma elite, e pela apelação ao povo, contra o Estado). Entretanto, além dessas classificações restritivas, que não são interesse desta pesquisa, Touraine (1998) propõe também refletir sobre os movimentos sociais a partir da noção de “chamamento ao sujeito”, que, para estudos posteriores, permite abrir as possibilidades de análise dos fenômenos coletivos (GOSS; PRUDÊNCIO, 2010).
A noção de “chamamento ao sujeito” consiste, para Touraine (1998), numa concepção que propõe olhar os movimentos sociais como formas de resistência, em defesa de direitos individuais, o que se observa claramente nos chamados “novos movimentos sociais”, articulados nas últimas décadas do século XX, como o feminismo, o movimento negro e o movimento LGBT. Até então, a noção de movimento social reduzia-se à identidade de uma classe trabalhadora, articulada aos sindicatos; contudo, com o surgimento e a consolidação dos novos movimentos sociais, disseminaram-se ações coletivas suscitadas não pelo sentimento de pertencimento e igualdade de classe social, mas pela lógica da identificação entre indivíduos que, embora diferentes em muitos aspectos, enfrentam um mesmo problema enquanto sujeitos. Essa perspectiva relaciona-se às discussões de Latour (2003) acerca do regime de enunciação da política: neste, busca-se constantemente constituir o público, constituir uma coletividade a partir da identificação, do mesmo modo que, para Touraine (1998), a organização de lutas sociais por direitos individuais surge como um chamamento a sujeitos que se identificam por compartilhar um mesmo problema.
O mesmo tipo de reflexão é levantado por Jordan (2002), para definir o termo “ativismo”. Para ele, o ativismo corresponde justamente a fenômenos coletivos articulados por princípios compartilhados de transgressão e solidariedade. Por transgressão, entende-se a busca por mudar o status quo, a partir do confronto com o modo como normas, crenças desigualdades e opressões sociais são reproduzidas (JORDAN, 2002). Já a solidariedade refere-se à experiência de identidade compartilhada, no sentido de que os participantes de uma ação coletiva reconhecem uns nos outros o mesmo sentimento (raiva, desejo, angústia) em relação às mudanças que propõem. Para Jordan (2002), transgressão e solidariedade
produzem formas diversas de ativismo, mais ou menos comprometidas com a manutenção das instituições vigentes e de sua dinâmica de funcionamento.
Embora todas essas concepções possam ser relacionadas aos acontecimentos de junho de 2013, não é minha intenção discutir os pormenores acerca de cada um dos termos que se poderiam utilizar para descrever as Jornadas. Assim, não pretendo aqui definir as manifestações, enquanto ação coletiva, como mobilizações da esfera pública, segundo Scherer-Warren (2006), ou enquadrá-las em algum dos movimentos descritos por Touraine (2003), ou ainda classificá-las como ativismo segundo Jordan (2002). Mais que isso, penso que cabe refletir sobre o modo como cada dessas concepções lança luz à compreensão das Jornadas enquanto acontecimento político, segundo a compreensão de Latour (2003): nos dias dos protestos, por exemplo, a conclamação “vem pra rua” foi muito difundida, consolidando um verdadeiro chamamento à população, para que lutasse por problemas supostamente compartilhados por todos, de modo a garantir direitos individuais negligenciados pelos governos.
O sentimento de transgressão em busca das reinvindicações levantadas e o sentimento de solidariedade construído através do uso de símbolos nacionais também foram marcas das manifestações, o que repercutiu na publicação de mashups em sites de redes sociais, por exemplo, as quais foram apontadas como componentes centrais à articulação contemporânea de movimentos e ações coletivas em rede. Assim, é sobre as particularidades da relação entre as tecnologias digitais e ação coletiva que me debruço na seção a seguir.