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2. EMERGÊNCIA DO SISTEMA MULTILATERAL

2.1 Direito Internacional e relações econômicas

2.1.2 Mudança de conceito de soberania estatal

A soberania é um dos conceitos fundamentais do direito internacional e faz parte dos princípios que reafirmam a igualdade e independência política dos Estados do Artigo 2 da Carta das Nações Unidas17.

Os elementos que compõem o conceito clássico de soberania aparecem claramente no cenário internacional do século XVII com o final da Guerra dos Trinta Anos18. Os tratados de Vestfália que puseram fim a guerra foram um marco para a sociedade européia daquele século. Pode-se dizer que na medida em que restabeleceram a paz na Europa, os tratados estabeleceram o início de uma nova fase na história política daquele continente: ao mesmo tempo em que eliminaram o poder supremo da igreja, deram aos Estados o direito e o poder de negociar livremente perante a política internacional19.

No final do século XV foi entendido que a soberania era um poder ilimitado e perpétuo, sujeito somente às leis naturais e divinas. Acreditava-se então na necessidade de concentrar de maneira plena o poder nas mãos do dirigente em direção a seus sujeitos tirando seu poder soberano e transferindo-o inteiramente para o representante divino.

O conceito de soberania foi sistematizado pela primeira vez pelo jurista francês Jean Bodin. Esse autor, um forte defensor da monarquia, examinou o princípio da soberania no seu Les six livres de la Republique, no qual ele conceitua a soberania como sendo um poder

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Crawford, 2002, p. 74.

17

Carta das Nações Unidas, 1945.

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A Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) consistiu numa série de conflitos religiosos e políticos sangrentos, especialmente na Alemanha onde assuntos constitucionais alemães, especialmente a rivalidade entre católicos e protestantes era gradualmente estendida para o resto do continente europeu. Apesar da causa religiosa, o conflito envolveu os esforços da França e Suécia para eliminar a dinastia de Habsburg na Áustria.

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De acordo com Daillier, Dinh e Pellet, os Tratados de Vestfália foram descritos como Carta Constitucional Européia que legalizavam formalmente o nascimento dos Estados soberanos e a nova carta política européia que resultou deles. Ver Daillier; Dinh; Pellet, 2003.

ilimitado e perpétuo cujos limites são sujeitos somente a leis naturais e divinas20.

O conceito primitivo de soberania do rei era relativo até então, mas com a teoria de Bodin ele se tornou absoluto. O autor deixa claro que a soberania absoluta existe somente quando as pessoas são roubadas de seu poder soberano que é transferido para um governante21.

O termo soberania então estava estreitamente ligado à definição do Estado moderno. O Estado se manifesta através da soberania que por sua vez justifica as ações dos Estados absolutos ao atribuir aos mesmos o poder absoluto.

Passada a Idade Média, o poder do Estado foi considerado independente e foi oferecido ao príncipe, incondicionalmente, todo o poder do Estado. A doutrina da soberania foi transformada em absolutismo. Além disso, e de acordo com Jellinek, ao contrário de Bodin que estava inserido nas turbulências das guerras civis, ele pode ter considerado que a única forma de salvação para o Estado estava no reconhecimento da onipotência do rei22.

Ainda assim, Bodin distingue entre soberania interna e soberania externa. O aspecto externo da soberania foi desenvolvido com o surgimento do direito internacional moderno, antes da existência de uma teoria que tratasse da soberania interna. Os aspectos da soberania externa foram desenvolvidos através dos escritos de teólogos espanhóis no século XVI, iniciados por Francisco de Vitoria e depois seguido por Gabriel Vasquez Menchaca, Balthazar de Ayala e Francisco Suarez, todos antes do trabalho do jurista holandês Hugo Grotius. De acordo com Luigi Ferrajolli, o desenvolvimento da doutrina de soberania externa feita por esses autores foi baseado na necessidade de dar apoio legal às conquistas do Novo Mundo depois de sua descoberta23.

Como o mesmo rigor do autor francês, Thomas Hobbes aparece no século seguinte para reforçar a teoria absolutista de soberania desenvolvida por Bodin. Hobbes inicia então no século XVII a publicar ideias que reforçam os conceitos sistematizados por Bodin, ainda que ele seja contra a origem divina do poder, afirmando que o poder se origina de um contrato político24.

20 Bodin, 1977. 21 Id. 22 Jellinek, 2000, p. 415. 23 Ferrajoli, 2002, p.06. 24 Id., p. 16-17.

Hobbes entendia que a soberania primária pertencia a cada homem antes do contrato e começava a pertencer à autoridade criada a partir do pacto que nunca poderia ser terminado. A autoridade do contrato é ―um agente com poder ilimitado, absoluto e inquestionável‖25

.

Na medida em que o tempo avança, a mudança conceitual do termo soberania pode ser notada em consonância com as formas de organização de poder. A ideia de poder supremo que era o centro da noção de soberania incomodava e fez com que pensadores que discordavam desse pressuposto surgissem.

Rousseau foi o grande pensador contratual depois de Hobbes, adaptando seu conceito de pacto às suas próprias teorias, mas de uma forma bem diferente do autor inglês26.

Para Rousseau a soberania pertence às pessoas. Seu conteúdo é colocado na legislação como uma expressão de vontade geral e todo o poder é estabelecido em favor dos governados. A função do soberano é reforçar as leis e sua função é revogável a qualquer tempo. Entretanto, assim como a soberania de Rousseau é o exercício da vontade geral, ela não pode ser transmitida. A soberania é alienável, indivisível e não é suscetível a representação ou limites27.

Mais recentemente, no início do século XX, ao discutir a legitimidade do poder soberano, Leon Duguit analisou o tema da soberania fazendo uma crítica à sua origem divina, que segundo ele utilizava a onipotência do termo que o estado legitimava para abusar do poder uma vez que o mesmo vem de Deus.

Completamente contra a divina teoria de poder, Duguit argumenta que na França a doutrina do direito divino era afirmada no século XVII, tendo servido para que o rei negasse qualquer supremacia do imperador alemão ou do Papa28.

Também se faz necessário ressaltar que Duguit lida com a responsabilidade de manter o absolutismo a que se refere o princípio de soberania quando se trata das relações internacionais entre Estados. Para 25 Azambuja, 1996, p. 59. 26 Rousseau, 1978. 27

Id., p. 43-46. Inspirado nos discursos de Rousseau, a definição mais conhecida de soberania adotada por muitas constituições se estabelece na Europa, mais precisamente em 1789 na Revolução Francesa, com a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

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confirmar sua teoria, Duguit menciona a Liga das Nações -um ―super- Estado‖-, que estava acima de todos os Estados que aderiram a ela29

. A noção que inspirou a primeira era do pós-guerra da Liga das Nações foi a de que era necessário evitar que qualquer poder acionasse novamente qualquer calamidade no mundo. Por infortúnio, a maneira como as relações entre os países naquele momento se deu não permitia que a Liga das Nações funcionasse. O conceito de soberania absoluto ainda era forte.

Entretanto, mesmo com a falência da Liga das Nações é possível observar uma grande mudança nas relações internacionais nos anos que se seguiram no século XX. Especialmente após as duas guerras mundiais, a grande maioria dos Estados soberanos se uniu ao mundo globalizado.

Para que se unissem definitivamente, no entanto, países tiveram que ceder parte de sua soberania para se submeter às regras e padrões legais de uma comunidade global à medida que o mundo se tornava uma verdadeira federação de países. O Estado moderno na sua formulação clássica de poder absoluto e soberano faliu30.

As ratificações de instrumentos internacionais, bem como a participação numa organização multilateral requer que o Estado ceda parte de sua soberania interna, o que não implica em uma perda de poder soberano, mas sim, em uma possibilidade de novos padrões de coexistência e colaboração entre Estados.

A história indica que a soberania perde poder absoluto quando são sancionada a Carta das Nações Unidas, em 26 de junho de 1945 e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão em 10 de dezembro de 1948, aprovadas pela Assembleia Geral da ONU31. Com esses documentos o conceito de soberania absoluta dá espaço a interesses comuns de países no mundo todo. O imperativo de paz e proteção de direitos humanos ganhou maior dimensão e importância.

A norma internacional adquire um status de superioridade em grande parte das constituições nacionais ao redor do mundo. Enquanto isso se poderia observar, como fez Hans Kelsen, que o estado soberano significa que a ordem legal nacional é aquela acima da qual

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Id., p. 190-191. A Liga das Nações era uma organização internacional concebida primeiramente em janeiro de 1919 em Versalhes. No início as nações vitoriosas na primeira guerra mundial se encontraram nessa data para negociar um acordo de paz.

30

Martins, 1998, p. 13-28.

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não há nenhuma. A única ordem que pode ser superior a lei nacional é a ordem internacional32.

O princípio da soberania então encarou, após da formação do Estado moderno, a promulgação de constituições baseadas na declaração de 1789, e mais recentemente, com a formação da ONU, um processo de relativismo e desconstrução.

Isso também é verdade no escopo da OMC. Quando os Estados decidem se tornar membros da Organização, eles concordam em ser parte de uma instituição onde existem regras que devem ser seguidas e respeitadas; argumentos com respeito à soberania dos Estados não podem ser aceitos quando são utilizados por um membro para eximir de suas obrigações no âmbito da OMC.

2.1.3 Relações econômicas internacionais: globalização econômica