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3. Diagnóstico do Problema

3.3 Mudança do Clima e Desmatamento no Cerrado

DESMATAMENTO NO CERRADO

A mudança do clima ocorre em função da varia- bilidade climática natural bem como da contribuição antrópica para a alteração da concentração de gases de efeito estufa (GEE) e da quantidade de aerossóis na atmosfera. Segundo o IPCC (2007a), é muito pro-

vável (mais de 90% de probabilidade) que a maior parte do aumento observado nas temperaturas mé- dias globais desde meados do século XX se deva ao aumento observado nas concentrações antrópicas de gases de efeito estufa.

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A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima estabelece como obrigações para todas as Partes formular, implementar, publi- car e atualizar regularmente programas nacionais e, conforme o caso, regionais, que incluam medi- das para mitigar a mudança do clima, enfrentando as emissões antrópicas por fontes e remoções por sumidouros de todos os gases de efeito estufa não controlados pelo Protocolo de Montreal. A Conven- ção reconhece, ainda, que a natureza global da mu- dança do clima requer maior cooperação entre todos os países. Para uma resposta internacional efetiva e apropriada, os países devem agir de acordo com as responsabilidades comuns, mas diferenciadas de acordo com as respectivas capacidades e condições sociais e econômicas.

Em termos mundiais, o setor de oferta de energia teve, entre 1970 e 2004, a maior parcela de aumen- to (145%) das emissões globais de gases de efeito estufa (IPCC, 2007b), com os países desenvolvidos contribuindo com a maior parcela. No mesmo perío- do, o setor de uso da terra, mudança no uso da terra e florestas apresentou um aumento de 40% (IPCC, 2007b). A principal fonte de aumento da concentra-

ção atmosférica de dióxido de carbono desde o pe- ríodo pré-industrial se deve ao uso de combustíveis fósseis, com a mudança no uso da terra contribuin- do com uma parcela menor, mas significativa. Com base nos anos 90, as emissões de dióxido de carbono provenientes da queima de combustíveis fósseis fo- ram de 80%, na melhor estimativa (variação de 72% - 92%), e de 20%, na melhor estimativa para o setor de mudança no uso da terra (variação de 8% - 28%) (IPCC, 2007a).

Segundo o 1º Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa não Controlados pelo Protocolo de Montreal, submetido pelo Brasil em 2004, como parte de sua Comunica- ção Nacional Inicial à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (MCT, 2004), cerca de 76% das emissões de CO2 ou 55% das emissões nacionais de CO2 equivalente provêm do setor “mu- dança no uso da terra e florestas” (estimativa com base no ano de 1994). O desmatamento e as queima- das na Amazônia e no Cerrado são responsáveis pela maior parte dessas emissões, indicando a importân- cia de implementar e fortalecer medidas de controle do desmatamento nesses biomas.

Tabela 11. Emissões Líquidas por bioma para o período 1988-1994.

Os dados preliminares do 2º Inventário Nacional de Emissões e Remoções Antrópicas de Gases de Efeito Estufa (MCT, 2009) indicam a manutenção da alta participação do desmatamento nas emissões nacionais. O setor de mudança do uso do solo apa- rece contribuindo com 76% das emissões nacionais de CO2, ou 57,7% em termos de CO2 equivalente, em 2005. Em termos de CO2, o restante das emissões segue associada à queima de combustíveis fósseis (sendo 9% no setor de transportes, 7% na indústria e 5% em outros setores), processos industriais (2%) e emissões fugitivas (1%).

Esses dados preliminares trazem estimativas de que as emissões do Cerrado foram da ordem de 189 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 1990 e de 379 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2005. Para a Amazônia, esses números são 410 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 1990 e 714 milhões de toneladas de dióxido de carbono em 2005 (MCT, 2009).

Vale lembrar que a Convenção Quadro das Na- ções Unidas sobre Mudança do Clima define a mu- dança do clima como aquela que possa ser direta ou indiretamente atribuída à atividade humana. Ela defende o estabelecimento de medidas de mitiga- ção, enfrentando as emissões antrópicas por fontes e remoções por sumidouros de todos os gases de efei- to estufa. Prega a promoção da gestão sustentável, bem como a promoção e cooperação na conserva- ção e fortalecimento, conforme o caso, de sumidou- ros e reservatórios de todos os gases de efeito estufa, incluindo a biomassa, as florestas e os oceanos como também outros ecossistemas terrestres, costeiros e marinhos. Portanto, sinaliza a importância das flores- tas como fonte e sumidouro de dióxido de carbono, que é captado da atmosfera para a biomassa através do processo de fotossíntese. Assim, a redução do desmatamento no Cerrado constitui relevante ação de mitigação da mudança do clima.

A Tabela 11 mostra que, para o período de 1988 a 1994, o Cerrado contribuiu com 188,47 milhões de toneladas de CO2 por ano, ou seja, 26% das emissões líquidas de CO2 do setor de mudança do uso da terra

e florestas. Considerando as emissões dos principais gases de efeito estufa avaliados no Inventário Nacio- nal3, as emissões originadas no Cerrado representa-

ram 13% do total nacional para o ano de 1994.

* Período 1990-1995. Fonte: MCT, 2004

Biomas

Conversão de Florestas

para outros usos Abandono de Terras cultivadas Emissões Líquidas

Área 88- 94 (km2) Emissão Bruta (Tg CO2/ano) Área 88- 94 (km2) Remoção Bruta (Tg CO2/ano) (Tg CO2/ ano) % Amazônia 92.100 556,23 82.600 127,97 428,27 59,29 Cerrado 88.700 246,03 17.700 57,57 188,47 26,09 Mata Atântica* 4.600 43,27 2.000 1,83 41,43 5,74 Caatinga 24.000 36,67 - 0 36,67 5,08 Pantanal 9.800 37,77 3.400 10,27 27,5 3,81 TOTAL 219.200 919,97 105.400 197,63 722,33 100

3 Os principais gases de efeito estufa incluídos no Inventário Nacional de Emissões são: dióxido de carbono (CO2), metano (CH4), óxido

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É relevante registrar também que a mudança no uso da terra resulta em perda ou ganho de carbo- no, seja na biomassa aérea como no solo. Diferen- temente do 1º Inventário Nacional, em que foram consideradas apenas duas transições (a conversão de florestas para outros usos e a regeneração de áreas abandonadas), o 2º Inventário utiliza a meto- dologia mais detalhada do IPCC e considera todas as transições possíveis entre diversos usos (vegetação nativa, agricultura, pastagem, vegetação secundária, reflorestamento, área urbana, áreas alagadas e reser- vatórios e outros usos). Apesar de a diretriz do IPCC recomendar a contabilização da remoção em toda área considerada manejada, não são consideradas, nos dados preliminares do 2º Inventário, as remo- ções de CO2 nas áreas de vegetação nativa, as quais, de maneira conservadora, foram consideradas como não antrópicas. Esta questão é extremamente rele- vante e deverá ser mais discutida durante o período de consolidação do Inventário. São também incluí- das nesse setor as emissões de CO2 por aplicação de calcário em solos agrícolas.

Em termos de emissões oriundas do desmata- mento, as atenções estão voltadas em grande parte para a Floresta Amazônica. No entanto, de acordo com o Monitoramento da Cobertura Florestal da Amazônia (INPE, 2010), este quadro começa a se alterar diante dos resultados recentes do monitora- mento do desmatamento da Amazônia que regis- trou em 2009 a menor taxa histórica: 7.464 km². A redução contínua e consistente das taxas de desma- tamento na Amazônia vem ocorrendo desde 2004, após o lançamento e implantação do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Os resultados positivos do PPCDAm servem de inspiração para a implanta- ção do PPCerrado.

Se os níveis atuais de desmatamento do Cerrado forem mantidos, o bioma passa a assumir papel de maior destaque nas emissões nacionais de gases de efeito estufa, sendo de extrema importância, portan- to, que o PPCerrado seja realizado e consiga alterar o eventual cenário de aumento das taxas de desmata- mento no Bioma.

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A preocupação com a possível manutenção de ta- xas elevadas de desmatamento no Cerrado decorre também do fato de que esse tem elevado potencial de emissões. A maior parte da biomassa do Cerrado está no subsolo, podendo constituir até 70% da bio- massa total, dependendo da vegetação dominante (CASTRO & KAUFFMANN, 1998). De modo inverso, na Amazônia, a maior parte da biomassa encontra-se na parte aérea e somente cerca de 21% da biomassa to- tal é subterrânea (MCT, 2004).

De acordo com o IPCC (2000), o estoque de car- bono no Bioma é de cerca de 29 t/ha na vegetação e 117 t/ha no solo (até 1 metro de profundidade). Considerando toda a extensão do Bioma estes va- lores podem chegar a 5,9 bilhões de toneladas em toda a vegetação e 23,8 bilhões de toneladas em todo o solo. De acordo com Bustamante et al. (2006), o carbono orgânico do solo do Cerrado varia de 87 t/ ha até 210 t/ha. Já segundo Abdala (1993) apud Lal (2008), o total de carbono estocado no Cerrado do Brasil central é de 265 t/ha, sendo:

- estrato arbóreo = 28,5 t/ha - estrato herbáceo = 4 t/ha - serrapilheira (litter) = 5 t/ha - raízes e detritos = 42,5 t/ha

- reservatório de carbono orgânico do solo (1 metro de profundidade) = 185 t/ha Levando em conta o estoque de carbono esti- mado, as ações nacionais voluntárias de mitigação da mudança do clima no Cerrado constituem uma importante contribuição do Brasil, a qual se soma a diversas outras iniciativas. Destaca-se, novamente, que a redução do desmatamento na Amazônia está sendo alcançada, o que mostra a eficácia de planos de governo com tal objetivo. E o PPCerrado pode ser considerado como um primeiro instrumento para ampliar a agenda de prevenção e controle do des- matamento em outros biomas no Brasil.

4. Gestão Territorial e

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