II. DAS FONTES
2 DA CONSTITUIÇÃO DO CAMPO POLÍTICO BRASILEIRO ATÉ A ASCENSÃO DO PT NO RIO GRANDE DO SUL
2.2 MUDANÇA ESTRUTURAL NO CAMPO POLÍTICO APARENTE
A reforma partidária de 1979 é vista pela literatura como uma tática sustentada pelo regime militar para fracionar o heterogêneo bloco oposicionista abrigado no MDB, e enfraquecendo a autonomização das novas forças mobilizadoras antagônicas à estrutura militar. Sabedor de que o bloco oposicionista tinha o caráter de uma “frente ampla”, a estrutura autoritária militar teria estabelecido essa reforma para barrar o crescimento do MDB, em franca ascensão desde as eleições de 1974. Adiciona-se o fato de a reforma eleitoral ter estabelecido o voto vinculado, validando só a cédula em que todos os candidatos fossem do mesmo partido, proibindo coligações e obrigando as legendas a lançarem candidatos para todos os cargos, restringindo também a propaganda eleitoral.56
Obstruía-se uma articulação conjunta da oposição contra o partido do regime, impedindo a somatória de forças, capitais e agentes contrários ao agrupamento do PDS. Era uma queda de braço entre uma nova ordem, que trabalhava para alterar a estrutura vigente, contra a que estava em crise, que lançava mão dos recursos disponíveis para manter ao máximo o controle sobre esse processo com a reforma partidária. PMDB, PDT, PTB, PDS e PT foram os partidos que surgiam nessa fase que começava a enterrar o campo
político aparente e dar vazão a uma arena de lutas, forças e agentes que começariam a
disputar visões de mundo mais legítimas para controlar o aparelho do Estado. Essa fase foi marcada ainda por uma tutela que só teria fim com a transição civil em 1985.
Já nesse período é possível identificar como estas siglas se colocavam na estrutura do campo político. O PMDB, herdeiro de todo um capital objetivado investido desde 1964 como oposição consentida, colocava-se a favor da abertura da estrutura autoritária. Estava no lado oposto ao PDS, ex-Arena, o partido apoiado pelo regime. Este aproximava-se naquela estrutura em muitos momentos do PTB, que trazia elementos simbólicos remetentes ao período pré-1964, mas que, sem os agentes mobilizadores do trabalhismo ‘histórico’, carecia da mesma força pela ausência de porta-vozes do período.
Os trabalhistas ‘históricos’ fundaram o PDT, mais voltado ao polo da esquerda no campo político, que abrigou os agentes que se colocavam como porta-vozes do
56 LAMEIRA, Rafael Fantinel; PERES, Paulo. O lugar do PMDB na política brasileira: o limite das
tipologias partidárias. Primeiro Seminário Internacional de Ciência Política: Estado e democracia em mudança no século XXI. Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015; BARRETO, Alvaro Augusto de Borba. Eleições e mudanças políticas no Brasil nos 80: análise a partir de uma unidade subnacional (Pelotas, RS). Pensamento Plural. Pelotas, n. 4, Janeiro-Junho 2009; Jornal Estadão, 30 de Outubro de 2010. Arquivo Estadão.
movimento no pré 1964. Estes agentes individuais dotados de capital de prestígio, sobretudo Leonel Brizola, conseguiram dar razoável notoriedade política ao PDT, pois o agrupamento não tinha estrutura pré-concebida, como no caso dos dois primeiros partidos citados. Por fim, o PT surgia como a sigla posicionada mais à esquerda, e seus recursos convertidos em capital político provinham, sobretudo, de movimentos sociais, intelectuais e católicos, mas a ausência de agentes individuais dotados de algum tipo de habitus político transformou a legenda em um grupo puritano, minoritário e até mesmo antissistema. O perfil de sua composição motivou alguns estudos clássicos a chamarem o agrupamento de “anomalia”.57
O PT e PDT emergiam como as oposições de esquerda. Apesar do perfil distinto de onde retirariam seus recursos que seriam convertidos em capital, as siglas, por estarem em polos próximos no campo político, disputariam a fala legítima em nome da esquerda brasileira. Se o PDT trazia um capital político incorporado à figuras vinculadas ao antigo
trabalhismo existente no campo destituído pelo golpe civil-militar de 1964, o PT formaria
seus recursos por meio de mobilizações de grupos e sindicatos e conseguiria, com isso, dar gradual visibilidade aos porta-vozes desses movimentos. Nesse sentido, o PT, por se colocar como um puritano e estar constituindo recursos de movimentos que estavam se consolidando, não conseguiu acompanhar o PDT nos primeiros anos. Este, com recursos mais sólidos e agentes dispostos a participar do laissez-faire pelo sucesso na política institucional, conseguiu galgar espaço maior com a obtenção de cargos parlamentares e Executivos.
Neste caso, há de se ressaltar que a rivalidade entre as duas siglas teria variações. Essa luta entre os agrupamentos é particularmente importante de se considerar, tendo em vista que o PDT se constituiria como uma força política importante no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, estados onde o reduto eleitoral do brizolismo pré golpe de 1964 era relevante e conseguiu ser resgatado em parte pelo novo agrupamento. Naquilo que concerne ao Rio Grande do Sul, também por representar o crescimento do PT, primeiramente com a hegemonia em Porto Alegre e, depois, com a ascensão ao governo do estado. As vitórias petistas ocorrem depois de os trabalhistas deixarem o governo tanto no âmbito estadual como em Porto Alegre.
Na estrutura do campo político desenhado pela eleição de 1982, o PDT polarizava com o PMDB o posto de liderança das oposições no Rio Grande do Sul. Aqui acabou
57 Refiro-me ao estudo de Margareth Keck, arrolado na bibliografia, e comumente citado em estudos sobre
sendo “o único estado onde a tática divide et impera foi bem sucedida”, o que não ocorreu nos três maiores estados: Minas Gerais, São Paulo (PMDB) e Rio de Janeiro (PDT). O PDS ganhou doze governos estaduais contra nove do PMDB, sobretudo no Nordeste58, onde o partido formou seu “cinturão de ferro”, e garantindo sua força política e estrutural. Já o PDT ganhou apenas o pleito carioca, enquanto os demais não obtiveram vitórias. Para o Senado e Câmara Federal, o PDS seguiu na frente dentro de uma perspectiva geral, mas com pequena diferença. Na Câmara, por exemplo, o partido da ditadura não conseguiu ter 50% das cadeiras. Fora do arco PDS-PMDB, só o PDT teve um senador.59
Se o PDS conservava, neste primeiro pleito, a condição de partido com maior peso eleitoral, ao mesmo tempo assistia à ascensão das forças antagônicas vinculadas aos movimentos sociais que contestavam o regime militar do qual a sigla era herdeira. Portanto, o PMDB ascendia no campo político em formação para uma situação dominante e o PDS sinalizava uma posição descendente nos locais cujo capital econômico e autonomia do campo político era mais preponderante, justamente onde a abertura ocorria mais solidamente. Já o PDT galgou alguns espaços, mas do ponto de vista institucional não conseguiu disputar frente ao capital político objetivado do PMDB, que convertia em recursos eleitorais a posição que manteve por quase 20 anos na oposição, governando cidades no interior e em capitais, tendo vereadores, deputados e militantes profissionais que cediam ao partido uma estrutura mais solidificada do que a dos trabalhistas. Além disso, no campo político aparente tinha resultados ascendentes desde 1974, confirmando no processo de transição essa trajetória na arena de lutas e forças.
No estado, as forças pedetista e peemedebista contribuíram para a eleição do candidato do PDS, que viria a suceder Amaral de Souza. Soares venceu por menos de 22
58 Utilizando dos recursos estruturais que possuía com o comando e controle da ditadura militar ao processo
de abertura, o PDS conseguiu controlar a maioria dos estados. Mas a predominância no nordeste não era um acaso. A região era uma das mais pobres do país, cuja dependência do Estado colocava aquela região em uma situação de dependência do aparelho dominante controlado pela ditadura. Isso somado, também, às características daquela região, majoritariamente rural, agrária e pouco industrializada. Esta condição era diversa das regiões onde PMDB e PDT conseguiram se firmar “surfando” em movimentos sociais em constituição e, não por acaso, também seria onde o PT conseguiria converter seus recursos sociais em capital político. Localidades com maior capital econômico e onde outros órgãos, como a imprensa, ganhavam autonomia para pautar o poder político, as siglas de oposição conseguiram se impor frente ao aparato do regime militar. Isso era visível desde 1979, onde os movimentos sociais que começavam a questionar a legitimidade da estrutura autoritária e a gradual independência da imprensa vinham das regiões sul e sudeste, onde o desempenho do PDS foi ínfimo. Mesmo nessas regiões, o processo se deu em capitais e cidades industrializadas, não ocorrendo o mesmo no interior.
59 BAQUERO, Marcello. As eleições de 1982 no Rio Grande do Sul num contexto de abertura política. In:
BAQUERO, Marcello (org.). Abertura política e comportamento eleitoral nas eleições de 1982 no Rio
Grande do Sul: Porto Alegre: Editora da Universidade, 1984; NICOLAU, Jairo Marconi. Multipartidarismo e democracia: um estudo sobre o sistema partidário brasileiro (1985-1994). Rio de Janeiro: Editora da FGV,
mil votos Pedro Simon (PMDB). Os votos divididos foram decisivos nesse fracionamento Olívio Dutra, com 1,5% apenas dos sufrágios, já tinha votação suficiente para desequilibrar contra o candidato da ditadura.60 O regime militar teve no Rio Grande do Sul sucesso em dividir o bloco vinculado à oposição. As forças políticas que se opunham ao regime militar somaram 61,8% dos votos. Mas a vitória eleitoral coube ao candidato do regime, em um contexto em que inexistia segundo turno. A ação elaborada pela estrutura militar autoritária não foi eficiente de um modo geral, mas o caso rio-grandense foi uma exceção dessa estrutura.
Dentro do espectro nacional, ainda que o PDS tenha obtido maior votação para o Legislativo federal e governos estaduais, postos chave na federação passaram para o comando oposicionista. Este fator é relevante também para compreender a posição ascendente da oposição na estrutura do campo. A obtenção do controle de Executivos regionais por ela daria mais recursos que poderiam ser convertidos em capital político para seus agentes e suas mobilizações. É o que vai explicar, junto a outros fatores, o desfecho de uma campanha como as Diretas Já, onde, apesar da contrariedade da estrutura militar, vai conseguir ganhar legitimidade, ser vista, reconhecida e ser capaz de mobilizar um amplo número de profanos.
Sob o escopo regional, há de se ressaltar o perfil do parlamento eleito em 1982. A maior bancada da Assembleia Legislativa coube ao PMDB, com 27 deputados. Logo depois, o partido do governo tinha 23 assentos. A legislatura foi completa com o PDT, com doze deputados.61 Em função do voto vinculado imposto ao campo político em formação pela estrutura militar autoritária, as cadeiras distribuídas no Legislativo refletiram o desempenho obtido pelos candidatos ao Executivo. Não obstante, há de se ressaltar as mudanças entre as bancadas durante a legislatura: o PDS esvaziou-se ainda mais, perdendo cinco deputados para o recém fundado Partido da Frente Liberal (PFL). Junto a isso, o Partido Democrático Trabalhista passou de 12 para 14 lugares na ALERGS.62 Os partidos, como microcosmos que também estão em disputa por agentes individuais que lutam entre si para fazer valer a visão mais legítima da própria agremiação e de como ela deve se posicionar no campo político, formam dissidências que, em muitos
60 TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DO RIO GRANDE DO SUL. Ata das eleições de 1982. Arquivo
digitalizado do TRE-RS; SOARES, Jair. Uma vida em ação: memórias políticas. Porto Alegre: Orquestra, 2012.
61 SOARES, Débora D.; ERPEN, Juliana. O parlamento gaúcho: da província de São Pedro ao Século XXI.
Porto Alegre: Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, 2013.
62 BUENO, Ricardo; MISKULIM, Karim. Recontando a história do Rio Grande do Sul: a sociedade, os
casos como o daqui analisado, desemboca na formação de outras siglas e trocas de legendas entre parlamentares. No caso regional, foi um reflexo de articulações em nível nacional. Muitos deles, percebendo a crise da estrutura autoritária, saíram do PDS em uma tentativa de preservar o capital incorporado que possuíam.
Quando falamos de parlamento estadual em 1982, é preciso recuar para entender de qual Assembleia Legislativa estamos falando. Depois do golpe civil-militar de 1964, o
campo político aparente no Rio Grande do Sul teve um formato curioso. O MDB possuía
maioria legislativa durante o primeiro governo militar, e conseguiu “fazer” a constituição regional com a abstenção da Arena. Ao governador, só restou solicitar a impugnação de 54 artigos, parciais e integrais. Mas a duração da carta foi breve:
Diante dos novos eventos, a Constituição sul-rio-grandense precisava ser convenientemente adaptada. Um novo processo constituinte foi então instaurado na Assembleia em 1969. Dessa vez, entretanto, o governo se precaveu. Valendo-se das prerrogativas conferidas pelo AI-5 foram cassados tantos deputados quanto o necessário para que a Arena vibrasse maioria. Entre março e abril de 1969 nove titulares do MDB perderam o mandato. O resultado foi um esforço constituinte traumático. A Arena foi à forra e patrolou o MDB, que negou-se à assinatura do texto promulgado em 27 de janeiro de 1970. Invertiam-se as posições, e pela segunda vez o plenário ficava cheio de um lado e deserto do outro.63
Era ainda sob este contexto, influenciado diretamente por um conjunto de regras e leis ainda vigentes que foram impostas pela estrutura militar autoritária que a 46ª legislatura funcionou. Desta forma, podemos afirmar que era uma legislatura marcada pelas limitações constitucionais presentes pelo “entulho autoritário” do período militar, mas ressoava as mudanças estruturais que o cenário político brasileiro experimentava, como o relativo predomínio do PMDB e do PDT somados.
2.3 A FASE TRANSITÓRIA NO RIO GRANDE DO SUL: AS DIRETAS JÁ E A