2. A RADIODIFUSÃO CHEGA A SANTA CRUZ DO SUL
2.4 Mudanças de administração na Rádio Santa Cruz
A partir dos anos 50 do século XX, a história do município de Santa Cruz do Sul e em parte da região, confunde-se com a trajetória da Rádio Santa Cruz e vice-versa. Para Luiz Bartolomay (2010)30, que foi gerente da emissora por 15 anos, a Rádio Santa Cruz viveu suas décadas de glória e de referência absoluta na região, mas a partir dos anos 80 aconteceu uma onda de concessões que concedeu canais de rádio para cidades pólos na região, como Encruzilhada do Sul, Venâncio Aires e Lajeado e “a Santinha” foi perdendo terreno, diminuindo sua audiência, mas continuou como referência na região até mesmo por Santa
29 Entrevista concedida ao autor da dissertação, aos 04 de abril de 2010, em Santa Cruz do Sul.
30 Entrevista concedida ao autor da dissertação em 2010.
Cruz do Sul ser um município pólo e convergente nos quesitos de comércio (compra e venda), lazer e cultura.
A Rádio Santa Cruz teve três fases ou administrações, a saber: a primeira foi a fase da administração inicial, dos fundadores, a Rede Ballvé, também denominada Emissoras Reunidas. Esta fase veio da fundação, em 1946, até 1990, quando a Rede Emissoras Reunidas foi vendida para a Rede Comunidade coordenada pela família Proença. Os Proença coordenaram a Rede Comunidade até os anos 90 quando, após várias tentativas de recuperação da credibilidade, da audiência e do orçamento dos áureos tempo, sem sucesso, decidiram vendê-la. Não encontrando um investidor que adquirisse a rede integral, resolveram fatiar a rede, vendendo emissora por emissora, e começaram pela Rádio Santa Cruz que, em 2002, foi adquirida por um grupo local liderado pela Mitra Diocesana (Diocese de Santa Cruz do Sul), que sinalizava a terceira fase de administração da emissora. Iniciou-se, então, a primeira administração da Rádio Santa Cruz, feita a partir do município de Santa Cruz do Sul, no dia 1º de setembro de 2002, quando a emissora estava com 57 anos de atividades.
O tempo inicial da Rede Ballvé foi de euforia e entusiasmo: então tudo floresceu, inclusive com o apoio e facilidades da comunidade e do Poder Público da época que cedeu os terrenos para as torres e para a edificação do prédio onde a emissora está localizada nos dias atuais. Numa entrevista realizada por Ferraretto (2007, p. 52), Arnaldo Ballvé (filho) informa que das emissoras da Rede Ballvé, a Rádio Santa Cruz era a que “mais faturava”.
Quando Arnaldo Ballvé (pai) se afastou do trabalho e passou os empreendimentos para os filhos, começou a faltar assistência às emissoras distantes. Nos anos 80 começaram também a surgir outras emissoras de rádio no interior do Estado e a audiência e o faturamento começaram a ser divididos. A negligência na programação, a divisão na audiência e no faturamento causaram, com o tempo, o desinteresse na manutenção do negócio, por parte da Rede Ballvé. Concentrando forças nos empreendimentos de Porto Alegre, a família vendeu a Rede Ballvé, constituída de 15 emissoras no interior do Estado, para a família Proença (Rede Comunidade) que, posteriormente, resolveu fatiar o patrimônio e vendeu a Rádio Santa Cruz (2002) para um grupo comandado pela Mitra Diocesana de Santa Cruz do Sul, que assumiu no dia 1º de setembro de 2002.
Conforme Nogueira (2010)31, técnico da emissora, “a administração dos Proença foi mais no sentido de arrecadação do que de promoção e renovação das emissoras”.
31 Entrevista concedida ao autor da dissertação, aos 14 de janeiro de 2010, das 10h30min às 11h45min, em Santa Cruz do Sul.
Administrando a partir de Porto Alegre e levando todo o faturamento para a matriz, as rádios do interior foram praticamente abandonadas, entrando rapidamente num processo de sucateamento técnico e vertiginosa queda no faturamento. Enquanto outras emissoras cresciam, a Rádio Santa Cruz começou a encolher. A Rádio Santa Cruz, que se consagrou por suas transmissões de eventos e solenidades na região, deixou de atuar fora, passando a falar apenas do morro, do estúdio. A Unidade Móvel foi levada para outra emissora da região metropolitana, os equipamentos precisavam de renovação ou troca e o prédio precisava de manutenção.
Nogueira (2010) informa que, na administração dos Proença, a emissora estava técnica e profissionalmente sucateada, faltando “computadores, profissionais, Unidade Móvel, válvula para o transmissor grande, enquanto o pequeno já demonstrava sinais de cansaço e a folha de pagamento atrasava em até três meses”. Acrescenta que “o ânimo estava sempre em baixa”. E informa: “Íamos levando”. Sobre a troca de administração, revela que “deu novo ânimo e dinâmica na emissora, bem como logo percebemos e sentimos a diferença técnica e profissional, equipando a emissora, contratando novos profissionais e colocando a folha de pagamento sempre em dia”.
A administração local, a partir de 1º de setembro de 2002,, logo denominada de A voz das comunidades trabalhou no sentido de resgatar os antigos vínculos da emissora com as comunidades da região. Resgatou antigos programas, criou outros, procurou consertar equipamentos, adquirir novos equipamentos, fez reparos no prédio, melhorou a infra-estrutura e, principalmente, botou a rádio para fazer transmissões de festas, eventos e solenidades. Em pouco tempo a Rádio Santa Cruz voltou a ser notada nas comunidades e os efeitos foram sentidos a partir do faturamento32. Para não ficar atrás, a concorrente, que já estava sozinha, também teve que se reciclar, inovar e se modernizar. Como os lucros não iam mais para Porto Alegre, passaram a ser reinvestidos na infra-estrutura e modernização da própria emissora que, em pouco tempo, comprou Unidade Móvel, um transmissor de última geração, passou a operar 24 horas no ar e contratou mais profissionais.
Conforme a administradora Bruna Bogorni (2010)33, “a Rádio Santa Cruz foi a primeira na região a ter um site, a ter um telefone no estúdio só para receber torpedos e a ter um transmissor preparado para a era digital”. E o site foi uma das grandes ferramentas de
32 Em setembro de 2002, quando o grupo local assumiu a emissora, o faturamento anterior (mês de agosto) da mesma foi de R$ 20.000,00, sendo que o primeiro faturamento da nova gestão (divulgado no dia 05 de outubro de 2002), foi de R$ 22.000,00.
33 Entrevista concedida ao autor da dissertação, aos 05 de março de 2010, das 9 horas às 11h30min, em Santa Cruz do Sul.
ampliação da rede de ouvintes da emissora, pois pessoas daqui que vivem em Porto Alegre, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, nos Estados Unidos e na Europa passaram a ouvir a emissora e a enviar e-mails com mensagens para parentes ou apenas para matar a saudade.
“Abriu-se um leque muito grande”, conforme Bogorni (2010), e “enquanto as pessoas foram se comunicando, foram também trazendo a emissora para seu patamar de a mais querida e mais ouvida da região. Aos poucos fomos também recebendo visita das pessoas que, em férias, fizeram e ainda fazem questão de visitar antigos amigos e conhecer os novos comunicadores da emissora”. “Foi o resgate da Rádio Santa Cruz”, recorda, sem esquecer que a nova administração “colocou em dia os salários dos funcionários, não atrasando a folha mensal, mantendo o grupo animado e sempre renovado, pois quanto mais o tempo passava se necessitava de mais profissionais”, arremata.
O grupo local, liderado pela Diocese de Santa Cruz do Sul, assumiu a Rádio Santa Cruz no dia 1º de setembro de 2002 e, desde então, a emissora tomou fôlego, ganhou duas licitações de transmissão das sessões da Câmara de Vereadores, ganhou prêmio do Rotary Clube e, principalmente, foi renovada tecnologicamente. Conforme informação da administradora da Mitra Diocesana, Bruna Bogorni (2010), a Rádio Santa Cruz foi adquirida por R$ 1.400.000,00 (Um Milhão e Quatrocentos Mil Reais) e, como a nova administração não tem fins lucrativos “todos os lucros da emissora foram reinvestidos em melhoramentos da infra-estrutura em todos os campos: tecnológico, ambiente e profissional”. Os valores, segundo estimativas de Bogorni (2010) já ultrapassaram a soma de “R$ 300.000,00 (Trezentos Mil Reais)”.
Prova do crescimento e da virada da emissora é que hoje em dia a nova administração está construindo um prédio de quatro andares para a futura sede da emissora no centro da cidade, (BOGORNI, 2010) numa previsão orçamentária de mais de R$ 500.000,00 (Quinhentos Mil Reais). A instalação no novo prédio também significará mais investimentos, pois a mudança, com a maioria de novos equipamentos será de “mais de um milhão de reais”, segundo estimativa apresentada pelos engenheiros responsáveis pelo projeto à administradora da emissora.