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3. MULTIDIMENSÕES DAS FORMAS DE USO E CONSERVAÇÃO DO

3.1 Mudanças nas formas de interação com a biodiversidade

Diante dos problemas apresentados acima, que se agravaram a partir da década de 1980, os primeiros diagnósticos sobre os resultados desse modelo de desenvolvimento agrícola procuraram analisar, por um lado, o progresso técnico e, por outro lado, o fracasso destes projetos, que vinham seguidos de degradação ambiental do meio rural. Pesquisadores da área das ciências agrárias conseguiram provar, naquele período, que havia aumento no número de insetos que estavam se tornando pragas nas lavouras e que, segundo eles, são o resultado do uso dos agrotóxicos, muitos deles não seletivos na sua ação, eliminando os inimigos naturais e aumentando a resistência das pragas e das doenças.

Numa relação de produção menos dependente do mercado de insumos, Petersen (2009) assegura que o modo camponês de fazer agricultura possui uma relação econômica diferenciada, pois é moldado em estilos de desenvolvimento rural com relações positivas com o ecossistema. Dessa forma, as economias regionais são desenvolvidas por meio da diversificação das atividades desenvolvidas pelos agricultores familiares, que se adaptam às mudanças das condições climáticas, econômicas e socioculturais nos locais em que vivem. Para Ploeg (2009, p. 17), a ―agricultura camponesa é fortemente baseada no capital ecológico22 (especialmente a natureza viva)‖, de outro lado, a agricultura empresarial afasta-se da natureza, usando insumos artificiais para substituir os recursos naturais.

Numa perspectiva diferenciada do manejo dos agroecossistemas, observa-se que a forma como os agricultores familiares desenvolvem seus cultivos agrícolas pode influenciar na manutenção da diversidade biológica

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vegetal. Desse modo, a agricultura familiar tem sido condicionada até hoje como área de preservação de recursos genéticos em nível local de muitas espécies de vegetais, graças à manutenção das reservas legais e áreas de preservação permanente, que são áreas distintas numa propriedade. Ploeg (2009) afirma que os agricultores apresentam-se como sujeitos diferenciados com grande capacidade de integração com o ambiente natural onde vivem, procurando manter os recursos naturais, pois dependem diretamente dessas interações, tendo consciência de que, se exterminarem os recursos naturais, colocam em risco sua própria existência.

A resistência camponesa tem, nos seus princípios, indicativos de preservação da biodiversidade, adotando o manejo diferenciado, através de policultivos de plantas e com ênfase na produção orgânica de alimentos. Essa forma de manejar os ecossistemas e de relacionar-se com o meio ambiente e com a sociedade pode ser inserida no ―enfoque agroecológico que visa ir além da intensificação produtiva da agricultura em bases sustentáveis, por meio da integração dos meios científicos e dos saberes locais de domínio popular‖, levando em conta os aspectos sociais, onde se desenvolve a agricultura (PETERSEN, 2009, p. 10).

Ploeg (2009) observa que, à medida que as unidades de produção buscam a transição para padrões poliprodutivos ou multifuncionais, buscam formas de cultivo com maior diversidade de plantas, propiciando condições para a sustentabilidade e sendo consideradas práticas de resistência, isto é, forma de resistir ao padrão de agricultura dominante com base em monocultivos. Podem- se citar como formas de resistência: uso e conservação das sementes crioulas, produção de vegetais em sistemas de policultivo, que permitem aos agricultores terem autonomia na forma de produzir. Essas formas de resistência estão sendo criadas e mantidas de modo contrastante ao modelo convencional de produção, dando ênfase às trocas socialmente mediadas. Ainda Ploeg (2009, p. 29) assinala que:

há uma notável capacidade dos camponeses de elaborar mecanismos de conversão que diferem das transações comerciais. Os mercados operam cada vez mais como o domínio exclusivo onde se organizam todas as conexões, transformações e traduções. Com a prática da

resistência, estão sendo criados ou mantidos modos contrastantes, como a reciprocidade, trocas socialmente mediadas e empreendimentos voltados para o auto abastecimento, que permitem às pessoas se organizarem para além dos limites do mercado.

Essas práticas de resistência citadas por Ploeg (2009) são conhecimentos que os camponeses adquiriram através do tempo e que foram sofrendo adaptações em função dos condicionantes dos locais que habitam. Nesta abordagem, buscou-se associá-los aos aportes produzidos por Toledo e Barrera- Bassols (2009) com as contribuições de Caballero (1993). Disso resulta que a produção do conhecimento é ―geracional‖, está em constante modificação. Além disso, para compreender a relação homem-natureza é necessário levar em conta as ―multidimensões‖ que envolvem as tomadas de decisões do homem nas suas ações e interações com a natureza.

Neste sentido, a construção do conhecimento e a conservação do butiazeiro pelos agricultores, mostra que os agricultores, ao longo dos anos, vão construindo uma relação com a planta do butiazeiro. Eles produzem conhecimento sobre formas de uso e de manejo ao longo dos anos, sendo também influenciados por técnicos e pesquisadores. Desta maneira, todas essas relações, às quais os agricultores estão ligados e influenciados, se desenvolvem e se constroem de maneira cíclica no passar do tempo, convergindo para a maior ou menor conservação, que está em constante alteração no decorrer do tempo.

Wanderley (2009) enfatiza que os agricultores nascidos em um determinado território, e que têm um vínculo com o local em que vivem e trabalham, possuem um vasto conhecimento sobre como relacionar-se com o ambiente local. Dessa forma, tais sujeitos assumem uma função importante na preservação dos recursos naturais e na promoção de iniciativas de organização produtiva e social. A autora destaca também que os agricultores têm feito sua parte, acumulando experiências virtuosas no manejo dos recursos naturais.

Neste sentido, o manejo com respeito ao meio ambiente e seu equilíbrio poderá ser alcançado na medida em que haja uma maior diversidade de plantas em um cultivo, buscando formas de manejar os agroecossistemas o mais próximo possível aos ecossistemas naturais. Assim sendo, os cultivos com maior

biodiversidade propiciam uma maior resiliência ao agroecossistema, isto é, teriam uma maior capacidade de adaptar-se frente às adversidades climáticas encontradas durante a produção dos cultivos (NICHOLLS; ALTIERI, 2012).

Ploeg (2009) argumenta que, nas bases conceituais e nas práticas da Agroecologia, existe uma ampla gama de práticas heterogêneas e crescentemente interligadas, sendo reflexos da materialização da resistência camponesa. Pode-se citar o exemplo da conservação in situ das sementes crioulas, em que os agricultores produzem suas sementes e armazenam-nas para os cultivos seguintes. O autor salienta que, quando vistas num conjunto, essas formas de resistência podem tornar-se poderosas e com possibilidade de modificar o panorama atual de dominação pelos grandes impérios agroalimentares.

Neste contexto, menciona-se o manejo de frutas nativas, que visa a resgatar iniciativas das pessoas com conhecimentos tradicionais das formas de uso. Como exemplo de manejo mais adequado dos recursos naturais, fazendo uso da biodiversidade, faz-se menção ao uso do butiazeiro pela sua importância devido às grandes variabilidades de usos. Por outro lado, verifica-se que essas plantas estão desaparecendo, seja pela forma como se desenvolve a agricultura, ou pelo fato de os agricultores não conhecerem as formas de uso, além da sua real importância para o meio ambiente.

Os pressupostos mencionados apresentam duas realidades: de degradação do meio ambiente e de uma relação com o meio ambiente que contribui para a conservação da biodiversidade. Com base nesses dois apontamentos, o enfoque desta pesquisa está direcionado para o estudo das formas de uso do butiazeiro, localizado no Bioma Pampa, em específico, no município de Santa Vitória do Palmar (RS) e a sua relação com a sua conservação.

Após esta breve revisão de trabalhos de pesquisa desenvolvidos sobre o butiazeiro (Butia odorata), bem como sobre trabalhos que apontam para a severa degradação que vêm sofrendo os palmares no Bioma Pampa, apresenta- se, em seguida, um modelo explicativo sintético que explora algumas das relações que se estabelecem entre os fenômenos estudados, ou seja, a relação

da conservação pelo uso do butiazeiro. Dessa forma, no texto, segue um marco explicativo sobre como se dá a relação anteriormente explícita e para isso levando em conta as dimensões: econômica, sociocultural e ecológica. Estas dimensões estão presentes, de forma interligada, dentro da relação entre as formas de uso e a conservação do butiazeiro.