As famílias foram unânimes em dizer que antes se utilizava mais plantas. Sobre as plantas medicinais relatam que era o recurso de tratamento de saúde que tinha na época. E quanto às PANC (principalmente aquelas espontâneas nativas), não tinha muitas opções de sementes, sobretudo de hortaliças, e não tinha muitas variedades de frutíferas cultivadas, então se aproveitava a biodiversidade que tinha no local.
De acordo com os/as entrevistados/as antigamente existiam mais áreas florestais (fonte para o extrativismo de recursos medicinais e alimentícios). Além disso, havia o costume de cultivar mais plantas medicinais próximas às residências. As dificuldades em acessar postos de saúde, médicos e medicamentos, faziam com que as pessoas utilizassem as plantas.
A agricultora CAROBA e seu esposo GUAMIRIM contam que antes sabiam muito mais sobre o uso das plantas medicinais. GUAMIRIM lembra que antigamente os tratamentos eram à base de ervas medicinais “[...] minha vó era farmacêutica prática e parteira, eu vivia com eles de 1955 a 1960 [no Rio Grande do Sul] eu lembro que falavam da tal da penicilina que iam na farmácia comprar, o resto era só erva e ervas.” Sobre a erosão do conhecimento tradicional afirma “[...] esse conhecimento até eu perdi muito, se ir no mato não sei mais como antes”(GUAMIRIM). E a senhora CAROBA complementa “eu também perdi muito, antes saia lá fora via um pezinho de mato e sabia prá que era, perdi deixei de fazer no dia a dia e hoje me arrependo.”
Dona BELDROEGA explica que “[...] as pessoas mais antigas conheciam mais, a gente era criança ia aprendendo, via eles fazerem, via prá que que era.” Nesse sentido, o agricultor AÇAFRÃO afirma que:
[...] as pessoas mais novas da última geração... é usado muito pouco, é mais usado pelas pessoas mais velhas que têm aquela raiz, aquela cultura de usar medicamento natural, geralmente a pessoa começou dá uma gripe já corre pro médico, não faz remédio caseiro [...] a ciência moderna acabou com os remédio natural, por dizem que intoxica, que é mal usado, que não faz efeito, mas medicamento natural cura, se perdeu muito, tanto que nas casas dificilmente você vê uma casa que tem bastante ervas medicinais, tem casos que tem, mas tem casos que não tem quase nada e se tem a pessoa nem conhece (AÇAFRÃO).
Dona PITANGA afirma que “antigamente se sabia muito, a cultura se perdeu, quando começa a aparecer hospital o povo dexa de acreditar na medicina caseira.” Dessa forma, a agricultora ARARUTA explica que um dos fatores para a substituição das plantas medicinais foram as unidades de saúde nas comunidades rurais “[...] antigamente ficava doente para ir no médico era lá na cidade, se não tinha outro jeito tinha que apelar prás plantas medicinais, pros chazinho.”
O agricultor HIBISCO também descreve que antigamente se conhecia mais sobre as plantas medicinais “[...] antes tinha mais conhecimento porque nóis moremo nuns lugares que nem hospital não tinha, era muito distante muito longe onde tinha um hospital.” O senhor FISÁLIS também destaca que “hoje usa menos até pela facilidade de acesso nos posto de saúde.”
Provavelmente, uma das principais razões para as pessoas deixarem de utilizar as plantas medicinais, é porque antigamente era o que se tinha de recursos, as famílias muitas vezes viviam em locais distantes, com dificuldades de locomoção, não se tinha acesso à medicina convencional. Com o passar dos anos, as pessoas têm mais acesso às cidades e aos seus recursos e ao mesmo tempo em que o Estado passa a investir em postos de saúde e medicamentos.
Bem como destacou Battisti et al. (2013), das plantas medicinais pode ser influenciado pela questão econômica, o alto custo dos medicamentos e o difícil acesso a consultas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), também pela dificuldade de locomoção daqueles que residem em áreas rurais.
Há uma redução na utilização das ervas medicinais e dos remédios caseiros, utilizados eventualmente. Mesmo assim, ARARUTA considera importante a utilização das plantas medicinais “o chá você devia de usar um chá que conhece que sabe que não vai prejudicar sua saúde, a cura do chá é mais lenta, e o medicamento da farmácia é mais rápido a melhora, se fizer bem certinho [tratamento com as plantas medicinais], é mais lenta, mas cura.”
Apesar de antigamente se conhecer e utilizar mais plantas medicinais, o entrevistado CEDRO relata que hoje se tem um conhecimento mais apurado acerca da forma correta de preparar os remédios caseiros:
[...] na época nóis usava muitas plantas medicinais que hoje, por exemplo, se for olha hoje usa adequadamente, na época minha mãe pegava um feixe assim socava lá dentro de uma vasilha e fervia que ficava preto e nóis tomava, hoje dizem que podem até matar. Hoje sabemo a forma certa de preparar (CEDRO).
Isso demonstra que o conhecimento tradicional não é estático, vai se modificando com o tempo, vai ocorrendo o diálogo de saberes entre os conhecimentos tradicional e o científico, através de estudos em livros, da formação, dos ensinamentos dos especialistas locais. Pois, muitos dos/as entrevistados/as relatam que quando apresentam algum problema de saúde recorrem aos especialistas da comunidade, que indicam as plantas adequadas e outros tratamentos, sempre explicando como proceder, quais plantas podem ser misturadas, qual a quantidade e a forma correta de preparo. Isto indica um uso consciente das plantas.
Como visto o uso das plantas não é indiscriminado, há consulta aos especialistas locais, estudo nos livros sobre o tema, como descreve o agricultor GUAMIRIM “[...] e nóis sabemo toda planta é remédio até onde pode usar, ou ela se torna veneno”. Ao contário do que
é descrito por Nicoletti et al. (2007) que afirmam que as plantas medicinais são utilizadas de uma forma indiscriminada através da automedicação.
Por outro lado, há famílias que relatam que gostariam de usar mais plantas, às vezes não sabem como utilizar e preparar, demonstrando interesse em aprender mais sobre o tema em formações (palestras, oficinas).
A senhora CALÊNDULA, especialista local que trabalha com terapias naturais afirma que há “[...] procura das pessoas prá medicina natural, então o pessoal tá procurando bastante, e outros tipos de terapias né? Além da medicina normal, então tem muitas outras terapias que são trabalhadas”. Assim como exposto por Battisti (2013), atualmente tem-se uma tendência na utilização de plantas medicinais e outros recursos naturais como alternativa aos medicamentos.
CALÊNDULA afirma:
[...] agora é valorizado mais do que em alguns anos atrás, porque teve uma época que não era usado plantas na medicina, hoje não, hoje até já tem alguns postos alguns médicos que também trabalham com plantas, que mandam tomar chazinho e já tem alguns postos de saúde que já tem os pacotinho de chá, a pessoa pode escolher se pode tomar chá ou remédio pronto, aqui nessa região não foi aderido ainda, tem em Cascavel, Foz do Iguaçu a gente vê que aderiram bastante nos postos de saúde mas aqui acredito que não (CALÊNDULA).
A entrevistada se refere à Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF), que tem como objetivo melhorar o acesso da população às plantas medicinais e fitoterápicos, o uso sustentável dos bens naturais e a valorização dos conhecimentos tradicionais. Visa ainda, o receituário de plantas medicinais pelos médicos, e fornecimento das plantas no SUS (BRASIL, 2009).
Sobre a importância das plantas medicinais na unidade produtiva, o senhor HIBISCO relata “[...] além de ter uma medicina natural, pura né? Tá economizando uns troco porque lá na farmácia o produto lá é químico e caro né?” Nesse sentido, as plantas medicinais contribuem com a autonomia da família camponesa com relação ao mercado, à medida que proporcionam uma redução de custos tanto na reprodução social da família como na produção agropecuária. Fornecendo remédios para a família e os animais, defensivos para as plantações, aumentando a biodiversidade funcional no agroecossistema, sem contar que estas plantas podem ser nativas, que crescem espontaneamente, e mesmo as cultivadas em muitos casos não dependem de mercado, pois a família conserva as plantas e quando precisa realiza troca de sementes e outras estruturas de propagação com familiares e vizinhos.
Com relação às PANC de forma geral os/as entrevistados/as afirmam que utilizavam mais antigamente, principalmente aquelas plantas espontâneas e naturalizadas, como é o caso da chicória. Neste caso, a agricultora BERTALHA destaca “[...] comimo mais antigamente porque não tinha outra salada né? Fomos substituindo por outras verduras, me lembro que quando a gente ia carpi, catava bastante, ia com um maço prá casa, já fazia uma polenta, fritava uma carne e tava pronto o almoço, que coisa mais boa”.
De forma geral, algumas famílias ainda consomem, dizem que gostam, por outro lado outras famílias afirmam que deixaram de consumir porque passaram a cultivar verduras comerciais, alguns relatam que não consomem mais em razão das plantas não ocorrerem na unidade produtiva.
Dessa forma, verificou-se que antigamente de utilizava mais plantas medicinais e PANC, e por diversos motivos estas plantas foram gradativamente deixadas de utilizar. Mesmo assim, há famílias que mantém seus costumes e continua fazendo uso de vegetais já conhecidos e de outros que vão adquirindo com amigos, familiares e encontros.