AS QUATRO ESCOLHAS
3. MUDAR A NOSSA ATITUDE
As duas primeiras escolhas são mais centradas no evitamento e na fuga de abordar a situação ou a pessoa difícil.
Esta terceira escolha tem um papel mais ativo e adaptativo na forma como escolhemos lidar com as pessoas difíceis.
Por vezes, nós pensamos que tudo seria mais fácil se os outros mudassem, ou seja, se as pessoas difíceis deixassem de ser difíceis, mas a realidade não é assim tão simples. Não conseguimos mudar os outros, o máximo que conseguimos é dar passos que tentem influenciar a perceção e o comportamento dos outros.
A única coisa que realmente conseguimos controlar somos nós e a forma como reagimos às situações.
Adicionalmente, mesmo que essas pessoas difíceis comecem a ter alguma mudança positiva nos seus comportamentos, o mais provável é que nós continuemos a vê-las como difíceis.
Há uma tendência no ser humano para procurar informação que seja consistente com as suas hipóteses e crenças e evitar a informação que vá contra aquilo que acredita, ou seja, o ser humano tem um enviesamento para a confirmação.
Quando temos uma ideia formada, procuramos informação que confirme essa visão, e ao mesmo tempo, ignoramos e rejeitamos informação que possa lançar dúvidas sobre essa ideia. Então, tornamo-nos prisioneiros das nossas crenças, não analisando a informação de forma racional.
Um líder que pense que o seu colaborador não é dedicado, inteligente ou profissional, vai estar atento à informação que vá ao encontro dessa crença, reforçando a mesma. A informação que não se adapte a essa ideia, será descartada ou mesmo reinterpretada, de forma a encaixar-se na sua crença.
Um dos motivos por que temos este enviesamento, é que o nosso cérebro tem a função de otimizar energia. Aceitar a informação que confirma as nossas crenças, requer pouca energia mental. Por outro lado, contradizer informação, requer um maior esforço e energia mental.
Outro grande motivo, deve-se à necessidade do cérebro em manter uma congruência cognitiva, lutando contra a dissonância cognitiva. A dissonância cognitiva acontece quando existe um conflito entre a informação que recebemos, as nossas atitudes, crenças ou comportamentos.
Esta dissonância produz um sentimento de desconforto, levando à alteração das nossas atitudes, crenças ou comportamentos, de forma a reduzir esse desconforto e recuperar a harmonia e congruência cognitiva.
Então, a terceira escolha passa por mudar a nossa atitude perante a pessoa e situação e com isso começarmos a ver outro tipo de situações que fazem com que fiquemos menos stressados, melhorando o nosso comportamento e alimentando a relação de outra forma.
Pode parecer que mudar a nossa atitude e expectativa sobre a outra pessoa não tem efeito nenhum. Se pensares assim, vais ver que estás enganado/a.
Existe um fenómeno que é conhecido pelo “efeito Pigmalião”, que mostra que quanto maiores são as expectativas relativamente a uma pessoa, melhor o seu desempenho.
Ou seja, a perceção que temos de alguém e o que esperamos dela, vai fazer com que essa pessoa se aproxime dessa perceção. Este efeito não é mágico, mas ocorre devido à forma como vamos tratar os outros e como a outra pessoa, com base nesse tratamento, se vai comportar.
O “efeito Pigmalião” foi assim apelidado pelos psicólogos americanos Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, durante um importante estudo sobre como as expectativas dos professores afetam o desempenho dos alunos.
Nesse estudo, feito em 1968, foi dito aos professores de uma escola primária da Califórnia que os seus alunos tinham sido submetidos a um teste de inteligência e informaram-nos que 20% das crianças tinham conseguido grandes pontuações e que tinham um elevado potencial para terem grandes resultados académicos. Sem que as respetivas crianças soubessem, os professores foram informados dos seus nomes.
O que aconteceu então? No final do ano, aqueles 20% tiveram realmente um desempenho significativamente melhor.
Mas o volte-face é que Rosenthal e Jacobson tinham mentido aos professores no início do ano. As crianças tinham sido escolhidas aleatoriamente.
Os pesquisadores concluíram que, ao elevarem as suas expectativas sobre aqueles alunos, os professores mudaram sua atitude em relação aos mesmos e tornaram-se mais encorajadores, recetivos e envolvidos na aprendizagem. Isso criou um clima de maior afeto, cumplicidade, entusiasmo e confiança que influenciou positivamente o desempenho dos alunos.
Segundo os autores, professores que têm uma visão positiva dos alunos tendem a estimular o lado bom desses alunos e estes tendem a obter melhores resultados. Inversamente, os professores que não têm apreço pelos seus alunos tendem a adotar posturas que tendem a comprometer negativamente o
No seguimento do estudo, foi dado aos seus comandantes uma série de táticas para mudar o comportamento dos LP, tal como ensinaram-lhes algo novo.
Os comandantes disseram aos LP que acreditavam na sua capacidade de mudar e trataram-nos como vencedores. Essa expectativa positiva revelou-se poderosa.
Os LP começaram a melhorar em todos os aspetos, recebendo menos castigos, apresentando um desempenho geral mais positivo e melhorando mesmo o seu aspeto pessoal. Foi o “efeito Pigmalião” em ação: esperar o melhor das pessoas pode ser uma profecia que se cumpre por si mesma.
Muitos treinadores de atletas, assim como os bons gestores, sabem desde há muito tempo, que podem conseguir melhorar os resultados de uma pessoa dando-lhes um desafio adequado, acompanhado de um voto de confiança.
Na gestão, este efeito é conhecido como “profecia auto-realizável” que foi verificada num célebre estudo de Douglas McGregor, na década de 1960, em que mostrou que a expectativa dos gerentes afeta o desempenho dos colaboradores.
Quando o gerente espera coisas positivas dos seus colaboradores, esses tendem a obter resultados mais positivos; quando, por sua vez, tem expectativas negativas, estas provavelmente também serão confirmadas. Em termos práticos,
se alguém vê o outro como "difícil", pouco cooperativo ou mesmo como
"inimigo", tende a agir como se o outro realmente fosse assim, levando-o a fechar-se e a tornar-se parecido com a imagem criada.
Portanto, segundo McGregor, quem tem expectativas negativas sobre os outros, não acredita neles ou não vê as suas qualidades, costuma colher o pior dessas pessoas; já quem tem expectativas positivas, tende a obter o melhor de cada uma delas.
Então, uma das formas de melhorarmos os nossos relacionamentos é começar a pensar qual é a perceção e opinião que temos das pessoas à nossa volta.
Porque isso vai influenciar a forma como analisamos os seus comportamentos e como os tratamos, gerando por sua vez um determinado comportamento.