3 CENÁCULO DE NOSSA SENHORA: UM ESPAÇO DE
3.3 O PAPEL DA MULHER NA FAMÍLIA NA CONCEPÇÃO DO CNS DO
3.3.4 Mulher como provedora espiritual da família
A família, sacralizada e legitimada pela Igreja como “o último reduto de amor e decência” (LASCH, 1991, p. 19), é tradicionalmente concebida por ela, numa visão patriarcalista, típica de nossa cultura ocidental, como um organismo, do qual o pai é a cabeça, considerando igualmente que a mulher seja o coração desse organismo, ficando, assim, evidente, conforme bem ilustra Edith Stein (1999, p. 164; 229), que a ela também cabe “uma missão não menos importante do que a do cabeça na formação dos membros da família”, que consiste na “atuação em prol da salvação das almas só que precipuamente no âmbito familiar”. Por força dessa vocação natural, portanto, a autora entende que a mulher tem uma missão santa a cumprir, que é a de levar o esposo e os filhos “ao desenvolvimento mais puro e perfeito possível”, pressupondo, assim, para ela, “uma atitude de serviço desinteressado de si: ela não pode considerar os outros como propriedade sua como meios para seus fins, e sim, como um bem que lhe foi confiado”. Dessa forma, numa maior medida, deve afirmar isto como uma missão sobrenatural, que lhe é própria, por natureza, a formação para o céu, cabendo-lhe “acender ou avivar no coração do marido e dos filhos a centelha do amor de Deus”. Essa missão poderá ser cumprida pela mulher “na medida em que ela própria se entende e se prepara como instrumento de Deus” (STEIN, 1999, p. 130-131). Este papel da mulher envolvendo uma dimensão espiritual torna-se muito claro nas falas dos cenaculistas, cabendo à mulher
[...] resgatar o que vem sendo perdido, o amor às pessoas, o respeito, a falta de fé, levar os filhos para catequese, a leitura da Bíblia (E16). Não deixar Deus sair de nosso lar, de nossos atos. A de não deixar com que a família aceite o ateísmo que tudo pode, perder as rédeas da união e ser ou pelo menos tentar dar bom exemplos. Na medida do possível dar espaço para Maria passar na frente (E9). Educar, ensinar os caminhos de Deus para seus filhos, ser fiel, dar exemplo de vida (E5). Na minha opinião, tradicionalmente, conduzir os filhos e o marido à Igreja (E6). O papel de nós, mulheres, é cuidar de nossas casas e nossa família, educar nossos filhos no caminho de Deus em primeiro lugar (E8). [A mulher] é a orientadora espiritual incansável dos filhos, irmãos e sobrinhos (E3).
Como se vê, no CNS do SMT há uma preocupação muito grande em preservar a família, no mundo de hoje. Acredita-se que a violência que impera em nossa sociedade, seja fruto de uma desestruturação espiritual da família, que já não é aquela família espelhada em Jesus, Maria e José. Nesse sentido, é mais que
natural que um dos papéis apontados pelos entrevistados, sobre a atuação da mulher na família, seja o de levar o esposo e filhos para a Igreja. Ou seja, fazer com que eles trilhem o caminho de Deus, papel este a que denominamos de ‘provedora espiritual da família’. Esta é uma função típica feminina, porque a mulher é muito mais afeita à religião que o homem. Nessa função, a mulher encontra, na figura arquetípica de Maria, um exemplo de espiritualidade feminina, de uma vida de oração, de discipulado e de entrega a Deus. Se, como acredita E10, “Nossa Senhora seja um caminho pra levar a Jesus“ ou “um canal que leva a Jesus”, logicamente, a mulher mãe e esposa é aquela que também leva a Ele, o esposo e os filhos, por meio de Nossa Senhora. Assim, enquanto ao marido cabe o provimento material tão necessário para a sobrevivência da família, à mulher cabe o papel de provedora espiritual, fazendo com que todos ‘sobrevivam espiritualmente’.
De acordo com Maria das Dores C. Machado (2005, p. 98), justamente por ter maior afinidade com a esfera religiosa, cabe à mulher “a responsabilidade de educar as crianças e estimular a espiritualidade nos familiares”. Em seu papel de provedora espiritual da família, ela se torna o fiel da balança, no sentido de procurar sempre manter a estabilidade do lar, lançando mão da religião, a fim de manter a harmonia no núcleo familiar. Ela é consciente de que a religião proporciona um modo de vida coerente e solidário, que traz paz, amor e felicidade ao lar. Na religião ela encontra o bálsamo que lhe dará forças para a resignação,71 nos momentos mais difíceis da vida, fazendo do próprio sofrimento um dom de Deus (PRANDI, 1975), tendo como arquétipo Nossa Senhora, que tudo suportou aos pés da cruz. Com seu exemplo de uma mulher espiritualizada, ela não medirá esforços junto a seus filhos e ao marido para que a acompanhem em sua jornada espiritual.
Para Simone de Beauvoir (2009, p. 253), quanto à mulher espiritualizada, desde o surgimento do cristianismo, “mais profundo do que o mistério carnal há em seu coração uma secreta e pura presença em que se reflete a verdade do mundo. Ela é a alma da casa, da família, do lar”. No exercício de sua espiritualidade, as mulheres demonstram, com mais veemência que os homens, sentimentos de amor, ternura e sensibilidade, encarnando mais facilmente a dimensão espiritual. Muito provavelmente, por ser o representante da família no mundo externo, o leque de
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Essa ideia de resignação lembra uma prática que existia na Idade Média, em que, à semelhança de Jó, o cristão pensava salvar-se anulando-se perante Deus. A regra era esta: “Eleva-se aos olhos de Deus quanto mais parece diminuir-se” perante Ele (LE GOFF, 2008, p. 177).
opções do homem, no dia a dia, envolvendo não só o trabalho, mas também o encontro com amigos para o lazer, é muito mais amplo do que o da mulher dona de casa, sobrando-lhe pouco tempo para ocupar-se com a religião. A espiritualidade da mulher, mãe e esposa, torna-a um elo de ligação do esposo e dos filhos com a Igreja e consequentemente com Deus. Assim, através da oração diária, incentiva a todos a participarem da catequese, dos movimentos da Igreja, dos eventos litúrgicos, dos trabalhos pastorais, dos encontros de casais com Cristo, etc.
Esse papel de provedora espiritual, embora tenha um sentido positivo para a harmonia familiar, contudo pode se tornar ambíguo, por dois motivos: Em primeiro lugar, pode levar a mulher a uma passividade com relação ao marido, a fim de manter a indissolubilidade do matrimônio, canalizando tudo a um sentido de realização espiritual, pela via da anulação de seu corpo, de sua sexualidade, enfim, da própria dignidade. Em segundo lugar, ao ligar-se à inculcação de valores, impostos pela Igreja, referidos à sexualidade, há um risco de que, como educadora do lar, uma potencial formadora da personalidade, venha a se tornar um instrumento de manipulação e alienação, por parte da Igreja, concorrendo, assim, para a perpetuação da negação da sexualidade e da dominação do homem sobre a mulher.