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Nossa Senhora como intercessora de ‘seus filhos’

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1 CENÁCULO DE NOSSA SENHORA: UM ESPAÇO DE DEVOÇÕES

1.3 DEVOÇÃO A MARIA NA VISÃO DO CENÁCULO DE NOSSA

1.3.1 Nossa Senhora como intercessora de ‘seus filhos’

Existem determinados fenômenos decorrentes da experiência humana que não são explicáveis apenas por meio de causas materiais e mundanas. De acordo com o indiano Amit Goswami (2008, p. 27), “a única explicação possível é que os fenômenos são causados pela intervenção de Deus”. O autor chama essa intervenção divina de ‘causação descendente.’ São forças sobrenaturais que agem sobre a imanência. Dada a proximidade de Nossa Senhora junto a Deus, acredita-se no Catolicismo que tenha grande poder de intercessão em favor de seus filhos. Conforme explica Elizabeth Johnson (2006, p. 111-112), “os católicos dizem que Maria forma Cristo neles, que Ela está espiritualmente presente para guiar e inspirar, que Ela é o elo entre eles e Cristo e que quem tem aspirações espirituais vai a Jesus por intermédio de Maria”. Ou seja, os católicos “pensam e pregam que toda graça vem de Deus por meio de Cristo via Maria”. No CNS do SMT, o ponto decisivo que fundamenta a ideia de Maria como intercessora, de acordo com o depoimento de E2, é o relato de João, sobre o milagre acontecido na festa de casamento de Caná da Galiléia (Jo 2, 1-11), em que estiveram presentes Maria, Jesus e seus discípulos.

Nossa Senhora sempre nos convida a pedirmos, a confiarmos nela. Ela como mãe de Jesus, assim como aconteceu com o primeiro milagre de Jesus, ela viu aquela situação ali e não tinha mais vinho, e conversou com o filho, então que a gente possa assim, confiar mais em Nossa Senhora, acreditar mais que ela realmente é nossa intercessora [...] Hoje em dia, confio muito e sinto muito a presença de Nossa Senhora em minha vida. Eu hoje estou muito feliz e muito grato por fazer parte do cenáculo (E2).

Assim como se deu com os outros dogmas, antes de seu reconhecimento, às vezes tardio, pela Igreja Oficial, a ideia da Mãe Intercessora, mesmo sem ter qualquer perspectiva próxima de reconhecimento, por parte da Igreja, está bastante tempo viva na memória popular (AUGRAS, 2006, p. 25). A própria Misericórdia personificada, Nossa Senhora, aparece facilmente ao ver a alma e o espírito de seus devotos “de coração partido, ferido, extenuado; e também quando a estrada é longa e o ouro dos carismas e talentos da alma representa um grande peso para a vida criativa, ou quando a vida da família ou do trabalho está emaranhada”. É como mãe que ama profundamente a seus filhos que, sobretudo nessas ocasiões, se curva a fim de cuidar da alma necessitada (ESTÉS, 2012, p. 16).

Repete-se no Cenáculo, conforme o relato de E2, esse ponto forte da devoção popular que tem em Maria, a Mãe que intercede junto a seu filho Jesus, por seus filhos terrenos, em momentos de dificuldade, de grande aflição. Com efeito, é muito forte no Cenáculo o duplo papel de Maria, como mãe e intercessora: “Nossa Senhora, além de minha mãe, é também a intercessora entre Jesus e os meus anseios”, diz E14, 53 anos, professora, casada, mãe de quatro filhos, resumindo em poucas palavras esta crença que é central na devoção a Maria, no CNS do SMT.

Da mesma forma como se crê, no Cristianismo, que a salvação proporcionada por Jesus ao ser humano seja extensiva a toda a humanidade,28 a especialidade de Maria como intercessora e mediadora tem igualmente um caráter universal, conforme o depoimento de E1, uma pessoa que tem uma caminhada há mais tempo dentro do Cenáculo e que, naturalmente, por experiência própria, conhece em maior profundidade o papel desempenhado por Nossa Senhora, que, conforme acreditam os cenaculistas, tem grande poder intercessor.

E o que mais me deixa encantado é que ela é intercessora de cada um de nós, a intercessora de todos os cristãos, de toda a humanidade. Ela está sempre rogando, sempre intervindo em todos os momentos difíceis por que passamos, todos os momentos que nossas famílias atravessam, de tribulações, de dificuldades, de desânimos, desespero, ela é a mãe suprema. [...]. Ela foi assunta aos céus, está à direita de Deus Pai, mas está sempre, eu imagino que ela está sempre intervindo, sempre pedindo, rogando, intercedendo pelas nossas dificuldades. Principalmente pelas famílias, porque ela foi um exemplo de chefe de família (E1).

Esse depoimento de E1, além de apresentar Maria como alguém sempre disponível, em qualquer situação da vida, sempre disposta a ajudar, com grande poder de ação junto à divindade, como que sintetiza todo o ideário que se tem de Maria no CNS do SMT. Isso é fundamental na vida das pessoas que participam do Cenáculo, pela confiança que nela depositam, a quem recorrem sempre para solucionar qualquer problema, desde o menor ao maior e, uma vez atendido, estão sempre a testemunhar no Cenáculo, a Ela atribuindo cura de doenças, de libertação de algum mal, a conquista de um emprego, o sucesso profissional, a compra de uma casa, de um carro, etc., o que legitima e intensifica ainda mais a fé e a devoção em Maria. De acordo com Simmel (2010, p. 32), por sua fé, a pessoa religiosa

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A singularidade do Cristianismo, que se constitui numa marca distintiva de outras religiões, é que “o deus cristão é o primeiro a estender seu reino até aqueles que nele creem e também aos que não creem nele” (SIMMEL, 2010, p. 81).

“experimenta as coisas de tal modo que estas só lhe podem trazer a bênção que ela procura”. Assim, no CNS do SMT, de uma forma ou de outra, os cenaculistas acreditam estarem sendo sempre abençoadas, pois, pela fé, atribuem todas as suas conquistas ao poder de intermediação de Nossa Senhora, junto ao seu filho, Jesus.

“Maria, passa na frente” é uma frase bastante conhecida no meio católico. Essa frase dá a ideia de proteção de todos os males que possam ocorrer às pessoas na vida cotidiana. É muito usada principalmente no meio carismático. Na Paróquia São Pedro, em Taguatinga Sul-DF, da qual faz parte o CNS do SMT, a banda de apoio do padre X, em suas Missas de Cura e Libertação, canta uma música de Maria em que um trecho da letra diz assim: “passa na frente, Maria, em ordem de batalha, passa na frente, abre o caminho da luz...”. Isso é lembrado por E2, para quem “Nossa Senhora é a mãezinha que sempre passa na frente de tudo, que toma de conta dos seus filhos e que sempre está intercedendo por todos nós. Ela nos guia no caminho que Jesus nos pede todos os dias”. Maria é apresentada aqui como exercendo uma função social, como aquela que está à frente de tudo, não só como intercessora, mas também como modelo que leva seus devotos ao filho Jesus. Esta é a função de Maria, enquanto ela mesma foi seguidora de Jesus. Como mãe e discípula, faz de seus fiéis, também, seguidores dele.

Historicamente, na piedade popular, Maria sempre esteve a atender aos reclames existenciais próprios de cada época. Um exemplo disso é a Virgem de Guadalupe, que veio suprir a necessidade que os autóctones (à época da invasão dessa parte do continente) tinham de ter alguém a quem recorrer contra a opressão que sofriam, por parte dos colonizadores ibéricos (PARKER, 1995, p. 34; AMALADOSS, 2001, p. 45). Maria assume funções efetivamente sociais, pois atende às necessidades concretas do povo. Conforme relata Coyle (1999, p. 80-81), devido “a desastres naturais como a peste negra, as experiências da Guerra dos cem anos e o Grande cisma ocidental, o povo rogava a Maria, Mãe de Misericórdia, por sua proteção dos perigos que os ameaçavam de todos os lados”. Esta capacidade de Maria como intercessora em favor dos aflitos fez com que fosse designada pela devoção popular como Rainha do Céu e Refúgio dos Pecadores, passando a ocupar lugar de centralidade no processo de salvação pessoal.

Coyle (1999, p. 80) atenta para o fato de que, se, por um lado, os teólogos, sobretudo protestantes, veem esse poder intercessor de Maria como uma usurpação do papel de Cristo, único mediador entre o homem e o Pai, por outro lado, os

antropólogos veem isso como algo positivo, uma valorização do feminino no mundo, pois todo o rigorismo de um Deus que ama, mas ao mesmo tempo pune, é resolvido nessa figura feminina que congrega qualidades como: cuidado e proteção. Assim vista, Maria preocupa-se com as condições materiais dos fiéis e se entristece com suas aflições, “em vez de castigá-los por suas ofensas” (COYLE, 1999, p. 80-81). E3, professora, 58 anos, casada, mãe de duas filhas, expressa muito bem a importância que Maria tem na vida cotidiana dos cenaculistas: “Eu a vejo sempre e peço sua bênção todos os dias. É minha Mãe, protetora e defensora de todas as ocasiões e acontecimentos da minha vida”.

Para os cenaculistas, portanto, pouco importa se Maria esteja ou não usurpando papéis ou títulos próprios de Jesus ou do Espírito Santo. O que importa é que veem seus problemas pessoais resolvidos no dia a dia, que de outro modo não seria possível resolver. Isso também é decisivo sob a perspectiva das Ciências da Religião, que se ocupam a analisar o fenômeno religioso, a fim de verificar suas implicações sociais na vida das pessoas. Na sequência, veremos como Maria é triplamente designada como mãe.

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