5.9 CLAUDIA E O APARENTE DISCURSO DO NOVO
5.9.9 Mulher e a nova beleza
O texto afirma que é necessário comprar com atitude, mas não explica sobre o que seria esse consumo sustentável do politicamente correto. Outro conselho é o investimento na beleza essencial, num dialogismo que remonta à essencialidade do espírito. Com o crescimento da indústria da beleza, no século XX, e sua efetiva sedimentação no século XXI, a mulher tem um aparato amplo para manter-se bela, com produtos diversificados. A propaganda serve-se desse cenário para vender produtos e perpetuar o ideário da mulher bela e, ao mesmo tempo, ciente do seu papel social, enquanto profissional, mãe, amiga, entre tantas outras atribuições.
O texto remete a uma mulher que necessita estar conectada com o que o outro pensa, sente, enxerga. Para isso, há indícios semântico-discursivos sobre o comportamento a ser seguido:
17 Comprar somente o que lhe agrada - E não o que acredita que impressione os outros. Assim você fica mais feliz, encontra o próprio estilo e ainda contribui para a sustentabilidade do planeta ao adotar o consumo responsável.
18 Investir na beleza essencial - Postura, atitude e charme compõem o tipo de beleza que se mantém com o passar dos anos. Em um mundo competitivo, em que prevalece a exigência da juventude eterna, é fácil esquecer que algumas características pessoais são tão importantes quanto a estética. 19 Ser inteira - Não busque no parceiro um complemento do que falta em você: encontre em si mesma aquilo que acredita estar faltando (ou persiga como meta até conseguir!). Afinal, a história da cara-metade é muito antiga e chata. O parceiro deve ser (assim como você para ele) um agregador, alguém para compartilhar coisas boas e tristes.
20 Ter opinião - Nada é mais triste do que conversar com alguém que não tem o que dizer. A repetição de frases feitas ou de ideias onipresentes na mídia não prende a atenção de ninguém. Permita-se exprimir o que genuinamente pensa, mesmo que vá na contramão do senso comum. Assim você despertará mais atenção. (CLAUDIA, 2011, p. 124-125).
O texto da matéria é carregado de múltiplos sentidos, de subjetividade e de contradições. Com um tom de aconselhamento, mostra às leitoras alguns caminhos trilhados pela mulher nos 50 anos e as marcas que este comportamento deixou no mundo. A primeira marca discorre sobre a violência doméstica, seguida de outras com forte apelo emocional. Acompanhe:
1 Dizer não à violência - Depois de séculos de opressão, um grito foi ouvido: chega de agressões contra a mulher. Uma farmacêutica cearense que sofreu duas tentativas de assassinato por parte do marido e ficou paraplégica virou porta-voz da causa. Maria da Penha Maia Fernandes colocou o agressor na cadeia e levou o caso à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Inspirou a Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, que coíbe e pune esses atos, modelo copiado em outros países Dizer não à violência;
2 Acreditar - No coração de uma mulher, a esperança, substantivo feminino, se transforma em fé, depois vira determinação e por fim leva à conquista; 3 Flexibilizar o mundo dos negócios- Foi depois que as mulheres entraram nas companhias que conceitos como inteligência emocional e resiliência foram incorporados ao vocabulário empresarial.[...].
4 Agregar - Pense na solidez do núcleo familiar, na força centralizadora, na balança das relações. Provavelmente, você visualizou uma mulher. (CLAUDIA, 2011, p. 125).
As primeiras marcas falam de uma forma genérica e não aprofundam o assunto. Na marca cinco, por exemplo, cita-se o movimento feminista. Entretanto, é contraditório, uma vez que a própria revista, em matéria na mesma edição, traz dicas sobre os cuidados com os filhos. Há várias reportagens e propagandas sobre mães e seus filhos. Assim, o adjetivo de mãe zelosa continua sendo propagado, de várias formas, por Claudia:
5 Recriar papéis sociais Esposa exemplar, mãe zelosa, donzela eterna. Não faz tanto tempo assim, esses eram os papéis que nos cabiam. Reescrevemos a história. Em 1832, Nísia Floresta publicou, com apenas 22 anos, Direito das Mulheres e Injustiça dos Homens. Em 1949, a filósofa francesa Simone de Beauvoir escreveu em dois volumes O Segundo Sexo, em que usava conhecimentos de biologia, psicologia, história e economia para constatar que a suposta condição de inferioridade feminina era uma invenção cultural. Nascia ali o movimento feminista, que ganhou ainda mais força em 1963 com o lançamento de A Mística Feminina, de Betty Friedan.
6 Perdoar Pesquisa recente da Universidade do País Basco comprova que as mulheres conseguem perdoar com mais facilidade do que os homens. Porque têm maior empatia, ou seja, a sábia capacidade de se colocar no lugar dos outros. (CLAUDIA, 2011, p. 125).
Percebemos outra contradição do discurso. A reportagem remonta ao perdão, um valor de forte apelo moral e religioso, mas não inclui quais os casos que merecem este perdão, como o da primeira matéria, que é sobre a violência. ―Pesquisa recente da Universidade do País Basco comprova que as mulheres conseguem perdoar com mais facilidade do que os homens. Porque têm maior empatia, ou seja, a sábia capacidade de se colocar no lugar dos outros‖ (CLAUDIA, 2011, p. 171).
Brait (2003) declara que o dialogismo/polifonia implica necessariamente o conceito de vozes:
[...] não podem ser reduzidas nem às relações lógicas, nem às relações psicológicas, nem às relações naturais ou mecânicas. Elas constituem uma classe específica de relações de sentidos, cujos participantes podem ser unicamente enunciados completos, ou vistos como completos, e por trás do quais estão os sujeitos discursivos. (BRAIT, 2003, p. 25).
No caso do texto de Claudia, há vários sujeitos discursivos, como o autor do texto, que remete a outros que consultou para realizar o elenco de conselhos; este por sua vez, ligado a uma outra cadeia de discursos sociais.
Barros (1999) reafirma que o dialogismo é o princípio constitutivo da linguagem e da condição do sentido do discurso. Nessa dinâmica de recursos comunicacionais, o discurso não é individual, neutro. ―[...] não é individual porque se constrói entre pelo menos dois interlocutores que, por sua vez, são seres sociais; não é individual porque se constrói como um "diálogo entre discursos", ou seja, porque mantém relações com outros discursos‖ (BARROS, 1999, p. 31).