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2.3 ENUNCIADO E SUA RELAÇÃO COM OS GÊNEROS DO DISCURSO

2.3.1 Os elementos que constituem os gêneros do discurso

Para Bakhtin ([1963] 2011), o estudo da natureza do enunciado e da diversidade de formas de gêneros do discurso consiste numa categoria útil para linguística porque a investigação de um material escolhido é vista como concreta, complexa e aberta a campos de análise. No caso específico desta tese, destacaremos como as propagandas são concretas e ligadas a vários campos da atividade humana e da história da língua, inseridas, portanto, numa dinâmica de comunicação social.

Grillo (2006) defende que os elementos constitutivos do gênero indicam uma semântica do texto. Em outras palavras: o método de investigação do enunciado na pesquisa, por excelência, é de natureza dialógica, constituído pela interação entre o sujeito-pesquisador e o sujeito-autor do texto estudado, considerando, no estudo do enunciado, os elementos que constituem os gêneros.

Estes três elementos, segundo Bakhtin ([1963], 2011), estão indissoluvelmente ligados ao todo do enunciado (conteúdo temático, estilo e construção composicional), marcados pela especificidade de uma esfera de comunicação. Por isso, é importante compreendê-los para assegurar maior profundidade no estudo de enunciados. Assim, subdividimos essa seção em outras para melhor organizar a compreensão desses elementos constituintes dos gêneros do discurso.

2.3.1.1 Conteúdo temático

O conteúdo temático, segundo Bakhtin/Volochinov ([1929] 2002), personifica as formas e os tipos de interação, uma vez que organiza o projeto de dizer, estabelecendo-lhe uma unidade de sentido e uma orientação ideológica específica. Por estar diretamente ligado ao enunciado, ―o tema da enunciação é na verdade, assim como a própria enunciação, individual‖ (BAKHTIN/VOLOCHINOV, [1929] 2002, p. 124) porque ele representa uma situação histórica concreta que deu origem à enunciação. Logo, sua composição se dá tanto

pelos elementos linguísticos que entram na composição do enunciado, como pelos elementos da situação ―em ligação com as condições concretas em que se realiza‖ (BAKHTIN/VOLOCHINOV, [1929] 2002, p. 124). Por isso, conforme a autor, no estudo de determinada situação de interação,

Se perdermos de vista os elementos da situação estaremos tão pouco aptos a entender os elementos da enunciação como se perdêssemos suas palavras mais importantes. O tema da enunciação é concreto, tão concreto como o instante histórico ao qual ele pertence. Somente a enunciação tomada em toda sua amplitude concreta, como fenômeno histórico, possui um tema (BAKHTIN/VOLOCHINOV, [1929] 2002, p. 124, grifos nossos).

Como exposto nas palavras do filósofo da linguagem, não há como estudar o tema de um enunciado, presentificado em determinado gênero discursivo, sem considerar o contexto sócio-histórico que lhe organiza. Nas palavras de Rodrigues (2001), todo objeto, quando transformado em tema de enunciado, adquire um sentido particular porque se circunscreve dentro de uma vontade, de um propósito discursivo de um autor, de um querer dizer. A partir disso, pode-se entender que, para Bakhtin ([1979] 2011), todo gênero do discurso tem um conteúdo temático específico. Em outras palavras, o tema do enunciado é diferente à medida que se diversificam as situações de interação. Por isso, nas palavras de Costa-Hübes (2014), ―compreendermos que o tema (ou conteúdo temático) atua nos gêneros para situá-los nas situações interativas, representando as diferentes formas de conceber a realidade‖ (COSTA- HÜBES, 2014, p. 24). Desse modo, o conteúdo temático diz respeito à maneira como o gênero seleciona elementos da realidade e como os trata na constituição de seu conteúdo temático.

2.3.1.2 Estilo

O estilo é outro elemento constitutivo dos gêneros do discurso. É nesse item que Bakhtin ([1979] 2011) trata do estilo de linguagem que, segundo o autor, difere de acordo com o gênero aplicado e em determinadas condições discursivas, preocupando-se com a função comunicativa.

O autor assinala, ainda, que, ao estudar o estilo de um gênero, não podemos dissociá- lo das questões históricas, pois o estilo do gênero corresponde ao estilo da língua que, por sua vez, devido à sua dinamicidade, pode sofrer alterações. Segundo ele, ―a língua escrita corresponde ao conjunto dinâmico e complexo constituído pelos estilos da língua, cujo peso

respectivo e a correlação, dentro do sistema da língua escrita, se encontram num estado de contínua mudança‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 266).

Segundo o autor russo, a questão da mudança é um sistema complexo que obedece a outros princípios. Para ele, desvendar a complexa dinâmica histórica desses sistemas, para passar da simples (e em geral superficial) descrição dos estilos que se sucedem, e chegar à explicação histórica dessas mudanças, ―é indispensável colocar o problema específico dos gêneros do discurso (e não só dos gêneros secundários, mas também dos gêneros primários) que, de uma forma imediata, sensível e ágil, refletem a menor mudança na vida social‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 267). E, por ser assim, o estilo de um gênero não é sempre estável, mas reflete a própria dinamicidade da língua e do gênero.

Nessa questão, os enunciados/gêneros do discurso são os meios de transmissão que levam a história da sociedade à história da língua. Por isso, ―nenhum fenômeno novo (fonético, lexical, gramatical) pode entrar no sistema da língua sem ter sido longamente testado e ter passado pelo acabamento do estilo-gênero‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 267).

Bakhtin ([1979] 2011) esclarece que há o estilo do gênero, isto é, aquilo que aquela forma de organizar o discurso – aquele gênero do discurso - permite em termos linguísticos (que são estabelecidos sempre no contexto social e histórico da enunciação) e o estilo do próprio autor. Quanto ao estilo do gênero, o autor informa que ―todo estilo está indissoluvelmente ligado ao enunciado e às formas típicas de enunciados, ou seja, aos gêneros do discurso‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 265). Ou seja, a seleção lexical, frasal, gramatical, formas de dizer que têm sua compreensão determinada pelo gênero. Nesse sentido, Bakhtin explica que existe uma relação orgânica e indissolúvel entre estilo e gênero que se revela na questão dos estilos de linguagem, pois ―os estilos de linguagem ou funcionais não são outra coisa senão estilos de gênero de determinadas esferas da atividade humana e da comunicação‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 266). Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo e a esses gêneros correspondem determinados estilos.

Sobral (2013) afirma que ―o estilo é o aspecto do gênero mais ligado à sua mutabilidade: é ao mesmo tempo expressão da relação discursiva típica do gênero e expressão pessoal, mas não subjetiva, do autor no âmbito do gênero‖ (SOBRAL, 2013, p.174). Entende- se, portanto, que o autor, independente de seu estilo, não pode mudar o estilo inerente a cada gênero discursivo. Mediante tal definição, percebemos que cada gênero discursivo tem seu estilo próprio, e que, em alguns casos, não é possível que o autor revele seu estilo de linguagem.

O estilo do gênero é indissociável de sua unidade temática e de sua construção composicional, assim como do tipo de relação que estabelece com o falante e com outros participantes do discurso. É o estilo do gênero que permite identificá-lo e reconhecê-lo em determinado contexto de interação.

Quanto ao estilo individual do gênero, esse corresponde ao estilo do autor, daquele que produz seu enunciado. E, nesse, sentido, Bakhtin afirma que: ―todo enunciado – oral e escrito, primário e secundário e também qualquer campo da comunicação discursiva – é individual e por isso pode refletir a individualidade do falante (ou de quem escreve), isto é, pode ter estilo individual‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 265).

Entretanto, sabe-se que nem todo gênero é propício ao estilo individual. Há gêneros que não permitem essa digressão, mantendo-se mais estático do que outros. Como exemplo, pode-se citar a maioria dos gêneros da esfera judiciária, que, devido à natureza do enunciado, não permitem que o autor se revele com seu estilo. Por outro lado, conforme Bakhtin, ―os gêneros mais favoráveis da literatura de ficção: aqui o estilo individual integra diretamente o próprio edifício do enunciado, é um dos objetivos principais‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 265). Nesses, sim, o autor pode revelar o seu estilo de linguagem, a sua maneira particular de organizar o discurso porque a esfera literária, por lidar com a subjetividade humana, possibilita isso. Assim como essa esfera, pode-se encontrar uma gama muito grande de gêneros do discurso que também permitem que o autor imprima seu estilo.

2.3.1.3 Construção composicional

A construção composicional diz respeito, conforme Pereira (2012), à disposição, à orquestração e ao acabamento do enunciado, levando em consideração os participantes da interação. Em outras palavras, corresponde à estrutura, à forma que o gênero adquire, ou seja, a construção composicional nos permite, de certa forma, reconhecer e identificar determinado gênero entre os demais.

Todavia, Costa-Hübes (2014) lembra que, embora esteja, de alguma forma, relacionada à estrutura formal do gênero, não se pode aprisionar a construção composicional em formas estruturais rígidas, haja vista que todo gênero se organiza dentro de uma dimensão fluida e dinâmica, tendo em vista o próprio estilo que o autor pode lhe conferir, dentro dos limites instáveis do contexto.

Como afirma Rodrigues: ―Na produção do enunciado, é a noção acerca da forma do enunciado total, isto é, de um gênero do discurso específico, que coloca o discurso em

determinadas formas composicionais e estilísticas‖ (RODRIGUES, 2001, p. 44). Ou, de acordo com Bakhtin, a forma composicional está ligada a uma ―forma padrão relativamente estável de estruturação de um todo‖ (BAKHTIN, [1979] 2011, p. 301). Logo, não há como tratar desse elemento constituinte do gênero sem relacioná-lo ao conteúdo temático e ao estilo, uma vez que estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado, conforme assevera o próprio autor.

A amalgamação desses três conceitos – conteúdo temático, estilo e estrutura composicional - culmina na construção dialógica do discurso, também denominada como dialogismo ou relações dialógicas. Isso é pontuado por Brait, ao afirmar que ―O que se observa é que é necessário considerar tanto a materialidade linguística, aquilo que pode ser considerado interno ao texto/ discurso/ enunciado, como a exterioridade, o extralinguístico incluído na complexidade do discurso, das relações dialógicas...‖ (BRAIT, 2012, p. 22).

Portanto, para compreender a língua/linguagem como discurso, torna-se imprescindível considerá-la vinculada aos participantes – locutores e interlocutores, aos atos de fala destes sujeitos, ao campo de atividade humana, bem como aos valores ideológicos que norteiam as relações dialógicas, levando em consideração o gênero escolhido para materializar tais discursos e ideologias. Na sequência, verificaremos como todas essas relações se configuram na constituição do discurso publicitário.