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Capítulo I - MULHERES EM MOVIMENTO

FOTO 12 – Atividades sociais femininas

Década de 1950 -Jamile Derviche eleita Presidente da Sociedade Damas Israelitas Fonte: Rachel Mizrahi86

Assim, além das oportunidades econômicas favoráveis que ajudaram a estabelecer e reconstruir a comunidade, famílias e indivíduos, a própria comunidade auxiliou nesse enraizamento. O crescimento e o desenvolvimento são exemplificados na criação e na envergadura cada vez maior das ações das instituições, fundações culturais e assistenciais, o hospital, sinagogas, escolas e clubes judaicos.

86 MIZRAHI,Rachel. Imigrantes Judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro, p.229

No entanto, os imigrantes não configuravam um contingente homogêneo, haviam os comerciantes e artesãos que viviam em pequenas comunidades voltados ao suprimento de sua aldeia ou vila conhecida por “shtetl” e eram muito arraigados aos valores judaicos. Em situação oposta, havia os judeus liberais que vivenciavam uma integração maior com a sociedade laica, desde os tempos da Revolução Francesa87, eram mais tolerantes e assimilados, do ponto de vista religioso. Inseridos à sociedade usufruíam as possibilidades tecnológicas ofertadas pelas cidades desenvolvidas e cosmopolitas da origem, experiência esta que em muito facilitou sua integração em São Paulo:

(....)originários de estratos sociais médios, comunicando-se em ladino e não raro em francês, (idiomas próximos ao português) integraram-se rapidamente nas médias e altas camadas da sociedade brasileira. Estes se ligaram a negócios de importação e exportação de café, cereais, frutas, tecidos finos, tapetes orientais, seguros, minérios e posteriormente no ramo imobiliário (...)88

Enquanto criavam uma nova São Paulo, é interessante constatar que, não tinham percebido que estavam fazendo parte de uma importante transformação socioeconômica na cidade. Mas esta trajetória foi fruto de muito trabalho e não raro sem discriminação. “Ser imigrante é não ter nada a perder”, definiu uma das entrevistadas89 e sem a preocupação com a imagem e seus papéis sociais, sentiam-se livres para tentar fazer o que fosse possível. Assim, fizeram self-made-men90, ou melhor, self-made-women, como este trabalho vem constatando.

No grupo étnico, as diferenças culturais impulsionaram as pessoas de variadas maneiras na busca das soluções de sobrevivência, e os fatores que as influenciaram foram os hábitos apreendidos nos países de origem. Como identificá-los e sabê-los pertencente ao grupo? Construindo a idéia de pertinência, a própria história compartilhada têm garantido a convicção de seus membros sobre semelhanças e diferenças. Porém, a diversidade de influências, que o povo judeu absorveu, nas distintas regiões por onde se estabeleceu, permitiu a criação de vários grupos culturais, que, novamente, irão encontrar-se.

87 RATTNER, Henrique. Tradição e Mudança ( A Comunidade Judaica em São Paulo), p.115 88 MIZRAHI,Rachel. Primeiras Comunidades de Imigrantes do Oriente Médio em SP e RJ.

89 Relato de Dália a MFW em SP, 2000.

90 IANNI,Otávio. O Estado e o Planejamento no Brasil, p. 36

Esses grupos culturais serão analisados a seguir, e foram definidos com base nos estudos de concepção de Burke e Herder que chamaram de “naturalista”, “determinista”, ou ainda, “organicista” ao combinar os aspectos biológicos e culturais.

O conjunto dos costumes de um povo é sempre marcado por um estilo; eles formam sistemas. Estou convencido de que estes sistemas não existem em número ilimitado, e que as sociedades humanas, assim como os indivíduos (...) jamais criaram de modo absoluto, mas se limitam a escolher combinações num repertório ideal que seria possível reconstruir.91

Partindo do conceito de reconstruir ou coligar o grupo, o idioma étnico foi a característica utilizada para identificar os três principais grupos culturais judaicos que, para São Paulo, imigraram no período estudado.

“Mantendo a identidade religiosa e as antigas tradições as diferenças aparecem até mesmo na condução da liturgia e nos costumes”.92

2.2 - Diferentes grupos cultural-judaicos

Ao objetivar uma leitura multicultural das mulheres judias que imigraram para a cidade de São Paulo, entre 1945 e 1956, onde se tornaram empresárias, buscamos aprofundar nossos estudos a respeito das diferenças culturais existentes no grupo étnico-judaico, que são frutos da História construída pelas próprias mulheres judias por onde fincaram raízes, recriando seus códigos de convivência com a sociedade local.

Para tanto, apresentamos os parâmetros utilizados para entender os valores comuns do conjunto desse grupo étnico e a cada subgrupo, considerando a História e seu modo de vida até o momento da ruptura, quando contingências históricas arrancaram estas emigrantes de seus países de origem e, por diversos caminhos, chegaram ao Brasil, após a Segunda Guerra Mundial.

91 LEVI-STRAUSS,G. Tristes Trópicos, p.167

92 MIZRAHI,Rachel. Imigrantes Judeus do Oriente Médio:São Paulo e Rio de Janeiro, p.28

Neste trabalho, as mulheres pesquisadas vieram de regiões de fala ídiche (língua baseada no alemão arcaico, mesclada a hebraísmos e eslavismos), chamadas de ashkenazitas; as sefarditas de fala ladino (cuja ancestralidade advém da Península Ibérica); e as orientais, procedentes do Oriente (Próximo e Médio). Embora geograficamente determinadas, as incessantes diásporas fizeram com que esses grupos vivessem em outras áreas, concomitantemente, embora se mantivessem separados. No mapa abaixo, está esboçada a distribuição dos três grupos culturais judaicos analisados.

MAPA 01 – Distribuição da população judaica no início do século XX nas comunidades de origem

Fonte: Esboço sobre mapa do Início do século XX - Mapa de Martin Gilbert93

→ Ashkenazitas:

As mulheres que vieram da Europa Central e Oriental, constituem-se no maior número de entrevistadas deste trabalho, assim, iniciamos pelo grupo lingüístico-cultural identificado com o ídiche - ashkenazitas.

A maioria dos judeus da Europa conheceu o período de consolidação das revoluções do século XVIII tendo participando do “Estado Burguês”. Este cenário é o da modernidade, determinante na separação definitiva entre as esferas do público e privado. Nas sociedades tradicionais judaicas, as relações sociais caracterizam-se pela:

(....)intimidade, comensalidade, solidariedade primária afetiva, emocionalidade, padrões rigorosos de controle social, núcleo familiar organizado em torno da parentela sanguínea que constitui

93 GILBERT,Martin. Atlas de la História Judia, p.60

além de sua função reprodutiva biológica, uma unidade de produção econômica e de consumo coletivo.94

No contexto do final do século XIX, as mulheres judias do shtetl (aldeota, vila, bairro étnico) vão precisar redefinir seus novos limites de âmbito privado, quando o público laico passa a não mais só circundar, como interferir em seu cotidiano.

FOTO 13 – Agrupamento de judeus ashkenazitas em meados do século XIX

Comerciantes judeus em meados do século XIX, em Odessa, mostrando a vestimenta do shtetl e ao centro o chapéu típico do judeu da região, chamado de “shtreimel”.

Fonte: Unterman95

O processo é válido para toda a comunidade, pois, em primeira instância objetiva o fortalecimento da família judaica. Assim, a autoridade do

(....) pai é formal, de acordo com os costumes e a lei judaica, mas o domínio real do espaço doméstico pela prática da vivência cotidiana é da ”ídiche mame”. Ela manipula os recursos materiais e simbólicos existentes no interior da família (....)

(....) A aceitação pela família desse direito significa o reconhecimento implícito de sua autoridade (....) explicando (....) segundo a visão tradicional da vontade divina(....)não percebendo ou não querendo assumir explicitamente o papel de interventora. 96

94 LEWIN, Helena. “Idiche Mame”- A mulher Judia e a Controvérsia entre o tradicional e o moderno.In:

NOVINSKY, Anita; KUPERMAN,Diane (Org.). Ibérica-Judaica: Roteiros da Memória, p. 448 95 UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, p. 247

Apoiando-se no texto citado, a mãe, a responsável pela definição dos papéis e das urgências, estabelece os quinhões com certo grau de autonomia. É seu dever acompanhar os estudos, sobretudo dos filhos homens, conforme a cultura e a religião enfatizam (pois, é a garantia da continuidade comunitário-judaica). Esses encaminhamentos são fundamentais por definirem responsabilidades, ao mesmo tempo, em que hierarquizam as relações na futura geração.

O estudo talmúdico para os homens, por exemplo, é tão valorizado a ponto de as mulheres improvisarem algum trabalho remunerado para garantir as despesas e poupar o esposo dessa preocupação, sem levá-lo a interromper. Acrescenta-se um reconhecimento social da família que tem um sábio (o conhecedor dos mistérios do sagrado, o estudado), que é vista como nobre e abonada, dada a capacidade de prover o filho por tantos anos.

FOTO 14 – Livro Sagrado

Torah – O Livro Sagrado.

Fonte: Unterman97

Dentro desse cenário, o poder visível–invisível vai sendo construído e dilatado e, num momento de separação, essa perda ganha um enorme significado no plano afetivo e de poder. Afinal, as mulheres judias parecem tornar-se significantes em seu papel de mães e, para isso, necessitam do objeto. Na ausência do filho, o mito de mulher fraca e dependente configura-se; no contrário, isto é, no completo, em sua maternidade, a máxima e plena força manifesta-se numa existência percebida como altruística, prover e proteger.

Essas mulheres ora mães, ora esposas são pessoas que irão concomitante participar dos processos sociais do período e, especificamente das pequenas cidades da Europa

96 LEWIN, Helena. “Idiche Mame”- A mulher Judia e a Controvérsia entre o tradicional e o moderno.In:

NOVINSKY, Anita;KUPERMAN,Diane (Org.) Ibérica-Judaica: Roteiros da Memória, p. 452

Central e Oriental. Aos poucos, o mundo judaico vai ganhando novas formas e o espaço privado invadido por distintas necessidades, abrindo outro setor à mulher.

A sobrevivência econômica, a profissionalização, o proletariado, as novas exigências de competência individual, a secularização da sociedade, entre outros fatores, foram dissolvendo os muros que continham esse universo público em separado e distante da realidade privada judaica do período.

A separação entre público e privado, sendo rompida por pressões externas e, também, num movimento interno para o mundo intelectual em diversas áreas.

Personalidades consagradas da comunidade judaica viviam, em sua maioria, nas grandes cidades, sobretudo, da Europa Ocidental inseridas no cotidiano laico, lutando pela renovação mundial que incluía a integração judaica.

O Iluminismo, iniciado na última década do século XVIII, ventilou a filosofia judaica para além de sua religião, vislumbrou novas abordagens, releu o judaísmo tradicional criando novos paradigmas.

Muitos judeus da Europa Ocidental pertencentes às camadas médias da população chegaram às universidades, imprensa e literatura, tiveram indústrias, bancos e até trabalharam em repartições públicas ou comércio, integrando-se à sociedade laica, usufruindo os direitos iguais para o exercício da cidadania recém-conquistada.

No início do século XX, a Rússia e a Polônia formavam o grande centro judaico, foi um período de florescimento da literatura ídish e, até 1933, havia mais de 25 periódicos98, intercomunicando por volta de três milhões de judeus, que mantinham o sistema escolar em ídish e, nas escolas mais novas, o hebraico. Mas, em 1918, os judeus poloneses perderam sua conquista de 120 anos, quando foram reconhecidos como poloneses, se bem que sua

“nacionalidade” permanecesse judaica99.

Os filhos de famílias abastadas foram estudar na Europa Ocidental, e aos demais restaram os estudos orientados dentro do corpo da comunidade. O universo de estudantes judeus em 1923 caiu de 24,5% para 3,2% em menos de dez anos. Mais de 70,0% das famílias judias100 viviam do comércio, integrando-se às cidades polonesas, conforme os dados referentes ao ano de 1914, caindo para 34,0% em vinte anos, levando quase a totalidade dos judeus à miséria. A exigência do conhecimento do idioma polonês escrito aos judeus artesãos impedia-os de exercer a profissão.

97 UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições, p. 235

98 HOJDA, Edith Gross. Imigração dos Judeus Poloneses em São Paulo(1925-1940), p. 74 99 MARGULIES,Marcos. Gueto de Varsóvia: Crônica Milenar de 3 semanas de luta, p. 55

Havia um movimento de assimilação e secularização de forma intensa visando a uma penetração no universo nacional, ”estes compunham a classe média urbana sendo em Kielce 60%, em Lublin 50% e Volínia mais de 70% de médicos”101

Essa polarização é recorrente na história, porém, com a queda do Império Russo, a Europa Ocidental e a Oriental viviam seus dilemas econômicos que estavam sendo recheados pelo movimento nacionalista. O conceito que valorizava o espaço de nascimento e moradia, também, infiltrou-se entre os judeus, abrindo uma fenda na comunidade entre os ideais sionistas e os socialistas.

Entretanto, diante das renovadas perseguições nem mesmo os sonhadores do Partido Socialista Polonês Ídicheista, chamado BUND, continuaram a acreditar na salvação judaica no socialismo vindo a assistir ao triunfo da intolerância religiosa.

Desse modo, a fase de convivência e absorção do judeu como parte integrante da sociedade local, chamada de emancipação, abriu espaço às mulheres para participarem de várias atividades econômicas, indo para dentro das escolas e conquistando lugar entre os letrados. Quebrou-se o estigma de que a mulher não tinha condições intelectuais de aprendizado, e muitas marcaram a história, a filosofia e a literatura, mudando os paradigmas comportamentais como Hannah Arendt, Marie Curie.

A partir da Primeira Guerra Mundial, com a Independência política da Polônia e de outros países da Europa Oriental, vários governantes passaram a pressionar discriminadamente os judeus. Medidas governamentais criaram leis e taxas, tornando o anti-semitismo à política oficial.

As mulheres européias ganharam uma identidade pelo exercício de suas capacitações e começaram a andar lado a lado com os homens. Nesse cenário efervescente, os escritos de vários autores (Isaac Deutscher, Bruno Bettelheim) relatam cenas de agressão e humilhação gratuitamente aplicada contra os homens e, assistidas pelas mulheres.

A disseminação das linhas antagônicas aos judeus e ao socialismo culminou com o alinhamento do fascismo de Mussolini à ideologia nazista de Hitler declarado em 14 de julho de 1938, período que se prolongou até 1943, propiciando um cenário de envergadura catastrófica.

Na Europa Oriental, grande número de judeus vivia mais em áreas rurais, menos favorecidos, como conseqüência da discriminação e exclusão social, ficando fechados em

100 HOJDA, Edith Gross. Imigração dos Judeus Poloneses em São Paulo(1925-1940), p. 82 101 Ibidem, p.161

sua comunidade, arraigados à consciência judaico-religiosa. Trabalhavam como artesãos, sapateiros, alfaiates, carpinteiros, serralheiros, entre outras, e, em face ao cotidiano restrito ao vilarejo, estavam menos expostos às influências, mantendo seu modus-vivendi judaico tradicional.

Para muitos historiadores, filósofos e literatos como Isaac Deutscher (1970) “ a hostilidade mantém a consciência e injeta sempre nova vitalidade, atuando como fator de agregação e manutenção do judaísmo”102. Essas folgas de perseguições ora de católicos, ora de protestantes, ou ainda, das monarquias são um engodo. Se o anti-semitismo não fosse tão arraigado, persistente e poderoso na civilização européia, os judeus, provavelmente, não mais existiriam como comunidade distinta.

A idéia da construção da fronteira como alimento da separação, que consolida o grupo, e o excluído reage discriminando, dividiu o universo judaico em diversas ideologias no fim do século XIX. As mudanças de mentalidade e os movimentos sociais penetraram nas comunidades judaicas da Europa e Varsóvia que já se consagravam pela densidade populacional judaica, e assistiam entre outros movimentos, a dois grupos distintos formados por judeus.

Os “Mitnagdim” (assimilacionistas), advindos em sua maioria da Alemanha sob a influência do iluminismo judaico, confrontam os partidários do judaísmo tradicional, oriundos da Lituânia. Em outro grupo, entre várias oposições, estava os que lutavam pela divulgação e utilização da língua hebraica no cotidiano, ensinando hebraico nas novas escolas. O Clube dos Escritores, oponentes diretos, lutava pela difusão da literatura ídiche. Havia ainda os messiânicos que confrontavam os sionistas, influenciados pelos russos, defendiam a imigração para a Palestina, visando a construção do país dos judeus pautados numa sociedade igualitária:

(....)movimento da juventude sionista Há Tehiyyah, fundado em 1903 ou a companhia Geulat formada em 1904 participando da aquisição de terras para a sociedade Ahuzzat que iniciou a construção de Tel-Aviv 103 que tinham a oposição dos messiânicos.

No período, há o reinício das hostilidades contra os judeus, que vão sendo semeadas nos movimentos trabalhistas, sobretudo alemães, ingleses e franceses. Não

102 DEUTSCHER,Isaac. O Judeu não-judeu e outros ensaios, p. 48

103 HOJDA, Edith Gross. Imigração dos Judeus Poloneses em São Paulo (1925-1940), p. 67

bastasse o passado, o presente também apresentava sinais de distinção entre trabalhador judeu ou não. O BUND organizava massas proletárias e gerava lutas entre patrões e operários, primando pela solidariedade comunitária, criando motivos para críticas discriminatórias.

Muitos judeus acreditavam que a religião era coisa do passado e, a partir daquele momento, judeus e gentios eram iguais. O grupo enfrentava os que militavam no Partido Comunista levantando questionamentos que causaram a desintegração da comunidade judaica local, favorecendo a intensificação do preconceito e da discriminação. Por outro lado, ao aceitarem empregos e suas escalas de trabalho, ao participarem do movimento operário, estavam escolhendo romper com a tradição ao não cumprir o “Shabat” (dia do descanso santificado).

FOTO 15 – Mesa para comemoração de Shabat

Preparação da Comemoração do “Shabat”- dia santo de descanso que se inicia ao pôr-do-sol da sexta-feira com o acendimento pela mulher de duas velas brancas acompanhado de prece. Esta noite inclui um jantar

familiar servido numa toalha especial com vinho e pães bentos.

Fonte: Unterman104

Na oposição, o partido ZKN (Zydowski Komitet Narodovry) alinhava-se ao movimento sionista105 que abriu uma nova alternativa econômica aos já preteridos, inclusive, como mão-de-obra, os judeus. Assim, marginalizados do consumo, realimentaram o círculo vicioso da reconstrução do estereótipo: o diferente, novamente ficando sujeito às ondas democráticas, que no período ficavam cada dia mais distantes.

104 UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições , p. 63

105 MARGULIES,Marcos. Gueto de Varsóvia: Crônica Milenar de 3 semanas de luta, p. 103

A Primeira Guerra Mundial e os movimentos nacionalistas ao ganharem espaço político provocaram mudanças, impelindo as mulheres e ou mães, que ainda permaneciam no universo doméstico, para onde encontrassem formas de sobrevivência. No entanto, as novas leis de proibição do exercício de diversas atividades aos judeus, ajudaram na cristalização ao boicote à comunidade judaica, justificando uma idéia de solução aos problemas socioeconômicos que, inicialmente, a Alemanha enfrentava no período. Era um retrocesso da política liberal para a intolerância.

Nesse período, a violência contra o povo judeu iniciou-se com ataques à população (pogroms), expulsão dos empregos, de suas casas e perda de posses. Foram levados aos guetos (bairros fechados e controlados, em condições de miséria humana). Em circunstâncias mínimas para garantir a saúde física, sobreviveram à falta de água, aquecimento, alimentação e medicamentos. Sem atividade ou possibilidade de produção econômica ao menos para a subsistência, e sem encontrar no horizonte uma esperança de liberdade, a agonia da dignidade maculava a sanidade mental. Os acontecimentos geraram transformações que a guerra terminou por arrancar pedaços, pessoas e, não raro, famílias desta existência.

O momento era de fugas e esconderijos para zonas rurais ou onde fosse possível, pois, na maioria dos países potencialmente receptores de imigrantes, já, imperava o sistema de cotas e os judeus não estavam na lista dos preferenciais. Os destituídos estavam obrigados a depender das entidades assistenciais, ou seguir, intermináveis caminhadas que levariam por entre esconderijos a outros países (França, Itália, Inglaterra e Países baixos).

As mulheres, às vezes, como esposas e mães ou filhas exerceram um papel de destaque na luta pela sobrevivência. Suas articulações, ingerências, estratégias e atuação como porta-vozes do grupo que protegiam, puderam mostrar sua força, inteligência e competência para resistir e vencer em tempos de guerra, enquanto os homens permaneciam escondidos, fugindo da possibilidade de serem arrancados dali e submetidos a trabalhos forçados.

No Brasil, após a Segunda Guerra Mundial e o fim do Governo Vargas, comemorou-se o fim do autoritarismo e buscou explicitar suas características mais democráticas, permitindo a imigração e pode-se enfatizar o recurso de solidariedade grupal, com a carta-convite (mecanismo instituído pela embaixada que exigia endosso aos predicados do potencial imigrante). Esta imigração só se tornava possível mediante a

garantia ao governo de que o residente receptor era responsável pela sobrevivência do imigrante que efetivamente tinha uma formação intelectual diferenciada.

Assim, o País vivia um clima desenvolvimentista que abria espaço para a incorporação do estrangeiro imbuído do significado desejado: desenvolvido e evoluído.

Diante dessa congruência de interesses, um acordo tácito de receptividade e não de competitividade facilitou a inserção na economia do trabalhador estrangeiro.

Considerando o período de imigração, após a Segunda Guerra Mundial, os sobreviventes que, para São Paulo, vieram, juntaram-se aos aqui radicados, facilitando sua absorção e integração. A necessidade de sobreviver e as dificuldades inerentes a cada imigrante compuseram as histórias das mulheres ashkenazitas no cenário paulistano do período.

O processo de imigração dos judeus da Europa Central e Oriental deu-se pela assistência da HIAS (Hebrew Immigrant Auxiliary Service) ou AJDC (American Joint Distribuition Committee), instituições americanas espalhadas pelo mundo106. Os ashkenazitas identificados pelo idioma ídish foram integrando-se às regiões geográficas

O processo de imigração dos judeus da Europa Central e Oriental deu-se pela assistência da HIAS (Hebrew Immigrant Auxiliary Service) ou AJDC (American Joint Distribuition Committee), instituições americanas espalhadas pelo mundo106. Os ashkenazitas identificados pelo idioma ídish foram integrando-se às regiões geográficas