3.4. O PERFIL SOCIAL DA COMUNIDADE JOANINA
3.4.1. Mulheres, escravos e pobres como protagonistas da comunidade
Além do perfil étnico e religioso marginal, é preciso considerar o lugar proeminente que as mulheres ocupam no EJ. Mulheres como Maria, a mãe de Jesus (2,11-12; 19,24), a samaritana (4), Maria e Marta (11-12), Maria Madalena (20,11- 18) e demais mulheres que foram testemunhas da morte de Jesus (19,25). Ringe mais uma vez nos traz um panorama bastante significativo em relação ao papel e presença das mulheres na comunidade joanina:
Nada no Evangelho fornece informações explícitas sobre os papéis e lugar na comunidade joanina das mulheres. As mulheres, no entanto, figura proeminente na narrativa evangélica. Essa evidência literária sobre as atitudes em relação às mulheres é ambígua. O número de mulheres personagens é bastante pequeno, mas eles desempenham um papel-chave no drama. O pedido da (sem nome) mãe de Jesus solicita que o primeiro dos "sinais" (2:11-12) mobilize um Jesus em direção ao semeion final da cruz em que ele será "levantado" (3:13-15 ). A mulher samaritana em João 4 é a primeira pessoa realmente descrita como portadora da mensagem sobre Jesus para a sua comunidade. Ela faz isso com base em discussão teológica diversificada sobre o culto adequado no entendimento das leis de pureza para judeus e samaritanos e o papel de Jacó como ancestral. Maria e Marta estão envolvidas na Ressurreição de seu irmão feita por Jesus, episódio que desencadeia a explosão final de hostilidade contra Jesus. Martha expressa o modelo de confissão de Jesus como o Cristo (11:27) que os Sinóticos atribuem a Pedro [...]. Um grupo de mulheres é listado como testemunhas da morte de Jesus (19:25) . Maria Madalena é identificada como a primeira a ver Cristo ressuscitado (20:11-18), e ela leva a mensagem da ressurreição de Jesus aos outros discípulos108 (RINGE, 1999, p. 16).
108 “Nothing in the Gospel provides explicit information about women's roles and place in the Johannine community. Women do, however, figure prominently in the Gospel narrative. That literary evidence about attitudes toward women is ambiguos. The number of women characters is rather small, but they play key roles in the unfolding drama. The request of the (unnamed) mother of Jesus prompts the first of the 'signs' (2:11-12) an moves Jesus toward the ultimate semeion of the cross on which he will be 'lifted up' (3:13-15). The Samaritan woman in John 4 is the first person actually described as carrying the message about Jesus to her community. She does so on the heels of a multilayered theological discussion about appropriate worship, Jewish an Samaritan understandings of purity laws, and the role of Jacob as acestor. Mary and Martha are involved in Jesus' raising of their brother, the episode that triggers the final burst of hostility against Jesus. Martha voices the model confession of Jesus as the Christ (11:27) that the Synoptic attibute to Peter […]. A group of women is listed as witnesses to Jesus' death (19:25). Mary Magdalene is identified as the first to see risen Christ (20:11- 18), and she carries the message of Jesus' resurrection to the other disciples”.
Contudo, o mais importante sobre a presença da mulher e a posição que ela ocupa na comunidade para a finalidade de nossa análise do lava-pés fica evidenciado quando comparamos o episódio de Jo 13,1-17 com o da unção de Jesus por Maria (12,1-10). O modelo de comportamento deixado por Jesus – lavar os pés uns dos outros – e que deve ser seguido pelos discípulos (13,12-17) é, de fato, cumprido por Maria, irmã de Marta. Neste sentido, ela é apresentada como exemplo do seguimento de Jesus e de cumprimento de sua vontade (RINGE, 1999, p. 16). Por isso, não há como negar a importância da mulher, de seu status e de seu papel, na significação do relato do lava-pés para a comunidade joanina, especialmente quando consideramos, em ambiente familiar, a predominância do costume que determinava a lavagem dos pés como tarefa de mulheres, crianças e escravos.
Do mesmo modo, não é difícil imaginar e inferir a presença de crianças e escravos na comunidade. Embora não haja evidência no texto joanino da existência de crianças, não há porque duvidar dessa possibilidade. O Jovem, que pode ser traduzido como criança (paida,rion-6,9) é o modelo de ação que propõe o sinal da partilha dos pães e peixes (6,1s). Além disso, é também um criado (paidi,on - 4,49), filho ou criança (ui`o.j - 4,47.50) o motivo de preocupação e do pedido de cura que o funcionário real faz a Jesus (4,46s).
Com relação aos escravos a menção em 15,15 é suficiente e relevante: “Não vos chamo mais de escravos, mas de amigos...”. O discurso é direto e faz referência, provavelmente, como em boa parte das comunidades do cristianismo primitivo, a um contingente inegável de escravos que aderiam à fé em Cristo. Ekkehard Stegemann e Wolfgang Stegemann se dedicaram ao estudo da composição social das comunidades cristãs primitivas e depois de comentar o que propõem diferentes autores a esse respeito chegam à seguinte conclusão sobre o que declaram ser a composição social
das comunidades crentes em Cristo após o ano 70:
De acordo com a análise aqui apresentada, portanto, dificilmente se pode afirmar que a composição social das comunidades neotestamentárias após o ano 70 representava algo como um “reflexo fiel da estratificação social em geral” ou um “corte transversal representativo” da sociedade da época. Faltam membros das posições mais elevadas da sociedade (ordines) assim como do grupo dos absolutamente pobres (ptochoí), se considerarmos que as viúvas pobres recebiam auxílio das comunidades. Registros de crentes em Cristo ricos provenientes de círculos subdecuriais são um tanto parcos, mas perfeitamente dignos de nota (STEGEMANN & STEGEMANN, 2004, p. 352).
Quando os mesmos autores passam a descrever o contingente de pessoas que pertenciam ao estrato inferior nas comunidades cristãs primitivas, assim eles se pronunciam:
[...] Também no tempo de Paulo, escravos e escravas já integravam as comunidades crentes em Cristo. Essa tendência parece avançar à proporção que casas inteiras são batizadas (senhores crentes em Cristo como donos de escravos e a pertença de seus escravos à comunidade crente em Cristo são atestados pelas parêneses de Cl 3,18s e Ef 5,22s. Pelo visto, porém, ocorreu uma alteração por volta do final do século 1, pois então também pertenciam à comunidade escravos sem senhores crentes em Cristo [...]. No seu conjunto, é difícil estimar quantitativamente a parcela de escravos nas comunidades após o ano 70, mas os numerosos registros prosopográficos indicam que um número considerável integra esse grupo ou deve ser considerado como liberto. (STEGEMANN & STEGEMANN, 2004, p. 353)
O panorama acima descrito pode servir para caracterizar de modo geral a comunidade joanina no último quarto do século primeiro, mas com relação ao cristianismo primitivo em geral são válidas as observações cuidadosas de Stegemann a esse respeito
Não é possível esclarecer definitivamente a questão se as comunidades crentes em Cristo também contavam com membros oriundos do estrato inferior absolutamente pobre (ptochoí) (a palavra-chave não ocorre, por exemplo, em At). Os dados prosopográficos mostram que determinadas pessoas eram escravas (cf. apenas Rode: At 12,13; Tíquico: At 20,4; Êutico: At 20,9; Onésimo: Cl 4,9), mas nada indica que elas vivessem abaixo do mínimo necessário à existência. Igualmente as demais referências a escravas e escravos podem ser interpretadas dessa forma. Entre as mulheres, as viúvas recebem menção especial. Aqui se pode presumir um enquadramento natural aos absolutamente pobres (1Tm 5,3s); Mc 12,40s; Tg 1,27), mas ele tampouco é obrigatório (At 9,39.41). Incerta permanece também a caracterização da comunidade crente em Cristo de Esmirna, em Ap 2,9 (ela é louvada por sua pobreza – ptocheía). Uma discussão à parte requer as informações indiretas no Evangelho de Lucas e na Carta de Tiago. Os dois escritos tratam mais extensamente a oposição entre “pobre” e “rico” e, por conseguinte, suscitam a pergunta se o seu interesse por essa temática pode ser explorada sociologicamente para os respectivos destinatários (STEGEMANN & STEGEMANN, 2004, p. 353).
Como conclusão a essa tentativa de apresentar em linhas gerais o que se pode deduzir do perfil social da comunidade joanina, vale destacar quatro pontos que consideramos significativos para a compreensão do lava-pés:
1º) A presença de mulheres com status diferenciados socioculturalmente (samaritanas, escravas e outras que parecem desfrutar de situação relativamente confortável como Marta e Maria, irmãs de Lázaro, capazes de abrigarem em sua casa o grupo de Jesus). São mulheres que independentemente do status sociocultural que ostentam fora da comunidade, exercem papel de destaque na comunidade joanina, pois são apontadas como símbolos e modelos de discipulado. O testemunho delas apreentam os principais elementos da fé joanina. É indiscutível que o que se afirma dessas mulheres está em contraste com o status que raramente lhes confere a cultura mediterrânea daquela época. O caso da mulher samaritana é típico. Ela é discriminada por razões de gênero, etnia e religião. No entanto, na comunidade joanina ela é modelo sobre o qual muitos, por causa da palavra de seu testemunho, creram em Jesus (4,39).
2º) Constatação da presença de gente do estrato inferior da sociedade como escravos, pobres109 e pessoas em situação de vulnerabilidade social como
doentes e outras discriminadas por razões igualmente étnicas e religiosas.
3º) Há pessoas provenientes de outros estratos sociais apresentando diferentes condições socioeconômicas e, portanto, sendo identificadas com status distintos. Do mesmo modo há uma composição complexa e plural no ambiente joanino que não é apenas social, mas também étnica e religiosa, considerando as origens anteriores dos membros da comunidade.
4º) Ainda que possa existir pessoas que pertençam individualmente ao
estrato superior da sociedade, com status elevado, como senhores, gente de posse
ou de prestígio social, como são os casos representados por José de Arimatéia, Nicodemos e talvez o próprio discípulo amado que é conhecido do Sumo Sacerdote e tem acesso ao seu Pátio (18,15), a comunidade joanina como entidade coletiva está muito mais próxima ao estrato inferior da sociedade. Na condição de grupo excluído da sinagoga vive em situação de marginalização e perseguição socioreligiosas.
109 Sobre a presença de pobres na comunidade joanina, o artigo de Johan Konings (1993), à luz da análise que faz da unção em Betânia em 12,1-8, é bastante esclarecedor.