A perspectiva da antropologia social e cultural de Malina e Rohrbaugh (1998) é, além de fonte inspiradora, ponto de partida para o que pretendemos demonstrar como significado sociorreligioso do lava-pés. Eles consideram Jo 13 narrativa que propõe ao leitor uma inversão dos comportamentos e dos status vigentes naquela sociedade. O EJ é para eles expressão de uma comunidade que afirma sua identidade de grupo marginalizado pela sociedade e, por isso, evoca uma linguagem simbólica e cultural que eles denominam de antilinguagem. A antilinguagem é linguagem de gente que se compreende fazendo parte de uma
antisociedade.
A identidade da comunidade joanina em Jo 13,1-17 tem tudo a ver com essa perspectiva de elaboração de nova linguagem. Só não concordamos com Malina e Rohrbaugh (1998) quando tomam o lava-pés num sentido simbólico focado exclusivamente para o tema do perdão. Sentido semelhante atribui ao episódio Joham Konings (2005). Também não concordamos com Carson (2007) que traduz o lava- pés como realidade simbólica última do sacrifício de serviço ou morte de Jesus. Entendemos que esses significados acabam sobrepondo interpretações redutiva e exclusivamente teológicas ao sentido originário mais fortemente sociorreligioso e cultural que o relato do lava-pés supõe quando consideramos o auditório mais imediato da comunidade joanina num contexto mais complexo de desenvolvimento da redação de Jo 13. Desconsiderar esse contexto é perder o horizonte dos conflitos vividos pela comunidade como base para a compreensão do lava-pés 33.
33 Assim confirmam as teorias de Brown (1985) e Vidal (1997) sobre a história da comunidade joanina com base inclusive no testemunho da primeira carta de João faz referência explícita a esses conflitos internos que causaram a ruptura definitiva de certos grupos com a comunidade (1 Jo 2,19).
Novas possibilidades de interpretação de Jo 13, 1-17 são motivadas pelos estudos de Adriana Destro e Mauro Pesce (2002), uma vez que eles também recuperam a dimensão cultural e sociológica do relato joanino e o inserem no significado que o texto tem para aquele contexto de uma comunidade que precisa construir uma nova identidade, ainda que fluída, mas própria, diante de outras identidades sociorreligiosas de seu tempo. Para isso esses autores entendem o EJ como processo de construção dessa identidade exclusiva em constante confronto com outras externas e internas ao grupo.
Destro e Pesce pensam o EJ à luz de um processo de instituição de novas ações rituais para afirmar e constituir a identidade do novo grupo religioso. Com base nesse processo de oposição e desconstrução dos ritos e significados rituais (Jo 2; 3;6; 9; 13), frente a outros grupos mais próximos e com os quais a comunidade joanina rivaliza, ela vai construindo sua própria identidade. Trata-se de um processo doloroso de profunda marginalização sociorreligiosa (Jo 16,2). Desse modo, Jo 13 é visto como instituição de uma retórica de desconstrução e inversão ritual a partir da reconstituição de uma cena em banquete noturno em que gestos e palavras oferecem a identidade exclusiva dos discípulos de Jesus para os seus leitores. Os padrões do comportamento comum em situações como aquela são usados de maneira a inverter posições e status sociais alicerçados no comportamento cotidiano e no universo do imaginário sócio-cultural.
Pretendemos acompanhar essa ótica sociorreligiosa de instituição e reversão ritualística de Destro e Pesce. Entretanto, queremos especificar que tipo de inversão está sendo proposta em Jo 13, 1-17. A narrativa joanina é expressão de ruptura e apresentação de relacionamento social alternativo a uma comunidade que busca se auto-compreender como comunidade seguidora de Jesus. Destro e Pesce, ao se concentrarem numa ótica exclusivamente ritual acabaram entendendo o lava-pés como nova proposta, mas ainda como ritual para a comunidade, o que não é exatamente o caso, ou pelo menos se o rito caracteriza o lava-pés, é preciso explicar melhor de que forma ritual se trata.
Outra boa contribuição, agora mais metodológica do que de conteúdo, à análise do lava-pés encontramos na obra de Rafael Aguirre (1994). Ao analisar as refeições comunitárias, sobretudo a partir dos textos do Evangelho de Lucas, ele nos traz informação e aplicação metodológica de usos e costumes do mundo mediterrâneo do primeiro século em literatura paralela e de fundamental importância
para a compreensão de textos como o de Jo 13. Ele aplica o método das ciências sociais de maneira a destacar a antropologia cultural em sintonia com a sociologia e a história na abordagem dos textos. Sua intenção deixa de lado aquela pretensão historicista de trazer a realidade; o que ele pretende é evocar o imaginário pressuposto no próprio texto. Autor e leitores implícitos compartilham um imaginário social comum que é necessário para validar a comunicação entre eles. Nessa comunicação está implícito o imaginário social compartilhado tanto pela comunidade leitora quanto pelo narrador. Na interação de ambos encontra-se o significado da narrativa.
O foco antropológico tem prioridade da análise de Aguirre. A comida é tomada como expressão singularíssima da cultura e do modo como se dão as relações sociais. Seu pressuposto fundamental é encontrar nas formas de organização do “comer” a indicação dos valores de todo ordenamento social. Ele se baseia em literatura preciosa sobre comidas, gestos e rituais de mesa tanto de hoje como na da cultura mediterrânea do primeiro século. Os dados que Aguirre apresenta servem como fundamento para compreensão dos cenários, palavras, expressões e discursos que se não estão explícitos, formam o contexto implícito dos textos daquela época, inclusive de Jo 13,1-17 como demonstraremos principalmente nos capítulos III e IV.
A grande contribuição do trabalho de Aguirre está na maneira exemplar como aplica o instrumento da antropologia cultural para compreender conflitos e desigualdades sociais e como tudo isso serve para perceber os textos de Lucas provocando inversões de práticas e valores a partir de seus gestos e palavras em torno da mesa. É isso que usaremos para compreender Jo 13, 1-17. Os conceitos chaves de oposição pureza ritual (puro-impuro), honra e vergonha e patrão–cliente estão na base do imaginário social pressupostos nestes textos e achamos que estão também no EJ.
Mediante o uso dessas preciosas contribuições será preciso investigar a relação entre mito e rito na constituição mesma da narrativa joanina para assim extrair significados sociorreligiosos subentendidos e pressupostos a partir das estratégias que o redator pretendeu produzir em seus leitores imediatos. Nesse sentido, esse trabalho vai estabelecer um diálogo necessário com John Christopher Thomas (1990) que procurou, em sua pesquisa, defender o lava-pés como rito de perdão dos pecados pós- batismais na comunidade joanina. Evidentemente, não é o que encontramos como mensagem fundamental do lava-pés joanino. Mas os detalhes
da fundamentação e informações levantadas por Thomas não devem ser ignoradas e algumas delas serão de grande valor para apontar justamente o que consideramos não ter sido digno de nota por ele: o significado sociorreligioso do lava-pés e não apenas o seu significado sacramental.
CONCLUSÃO
A análise do EJ exige do intérprete uma abordagem crítica na escolha dos pressupostos teóricos e metodológicos. Esse primeiro capítulo procurou levantar o que julgamos mais relevante, consensual e oportuno para o trabalho de análise do lava-pés.
Em primeiro lugar os instrumentos teóricos e metodológicos se desenvolvem e deixam marcas na interpretação do EJ. A exegese alegórica predominantemente doutrinal, apologética e sacramental dominou a maior parte da história da interpretação dos textos joaninos.
O método histórico crítico, na história relativamente recente da pesquisa do EJ, tem gerado o uso de mediações científicas diversas e levado os estudiosos a novos enfoques. Métodos da história, sociologia e antropologia tornaram-se fundamentais na análise do contexto, linguagem e sentido cultural dos símbolos joaninos. O significado cultural e sociorreligioso do lava-pés aqui perseguido depende e está diretamente condicionado pelo uso dessas novas perspectivas de abordagem teórica e metodológica.
O outro tópico importante desse primeiro capítulo está na apresentação de uma proposta para a história da comunidade joanina que esteja fundamentada nos elementos literários e de crítica redacional sobre o texto. Da história do texto se deduz a história da comunidade; esta, por sua vez, aponta para novos significados do texto. Essa relação entre texto e história da comunidade tem impacto significativo no modo como entendemos o lava-pés como veremos na exegese e no último capítulo.
Finalmente, o capítulo I, como que estabelecendo uma ponte com os demais capítulos, abre algumas das novas perspectivas de interpretação do lava-pés. O uso da antropologia social de Malina & Rohrbaugh, da antropologia cultural de Destro & Pesce e de Aguirre mostra como a mediação cultural permite compreender mais
adequadamente fenômenos como lava-pés numa ótica de percepção cultural dos conflitos e desigualdades sociais nele implicados.
Há, portanto, para fins da análise do lava-pés, uma convergência no rumo das novas abordagens que levam em conta as relações sociais desde a cultura com seus costumes, instituições e valores sem que se perca o eixo da identidade religiosa de documentos como o EJ. A Crítica retórica sociorreligiosa é, neste sentido, instrumento teórico metodológico de fundamental importância para a interpretação do lava-pés joanino.
CAPÍTULO II
EXEGESE DE JO 13,1-17
A exegese de Jo 13,1-17 impõe desde o início que se justifique por que a análise restringe a perícope a esse recorte textual que vai do v. 1 ao 17 e não se estende aos demais versos. Por que não tomar 13,1-20, 13,1-30, 13,1-33, 13,1-35 ou ainda 13,1-38? A delimitação do texto exige a tarefa de estruturação do contexto literário no qual o relato do lava-pés está inserido. Por isso é preciso demonstrar a estrutura literária a partir da qual se enquadra Jo 13,1-17 no conjunto da narrativa maior de Jo 13-17. Unidades menores fazem parte dela e de certa formam se comunicam com o lava-pés.
A delimitação precede e, de certa forma, dá inicio a análise exegética, pois é condição para os demais tópicos dessa etapa da análise crítica. Em seguida apresentaremos nossa tradução tendo como base o texto de Nestle-Aland (2006). Daremos preferência a uma forma mais literal procurando favorecer as considerações exegéticas da etapa seguinte. Desse modo, o presente capítulo organiza-se nessa sequência:
- delimitação da narrativa; - tradução; - crítica textual; - estrutura literária; - gênero; - crítica da redação; - exegese das subunidades; - conclusões sob ótica sincrônica.
O objetivo da divisão proposta é oferecer as bases críticas da exegese (Capítulo II) como condição para a demonstração da tese no capítulo IV. A interpretação do lava-pés em sua significação especificamente cultural e sociorreligiosa será assunto dos Capítulos III e IV.