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3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

3.3 As Mulheres e os Jogos Olímpicos

3.3.1 Os Jogos Olímpicos da Antiguidade

3.3.1.1 Mulheres gregas e as atividades atléticas

Segundo Spears (1984), talvez o primeiro registro de uma mulher, no caso uma parthenoi (mulher virgem em idade para casar), a se envolver em atividades atléticas tenha sido na Odisséia de Homero. Dentre as muitas personagens, Nausícaa, a jovem filha virgem do Rei Alcínoo e da Rainha Arete, é a única engajada em jogos lúdicos e atividades atléticas. A cena se passa antes de seu encontro com Ulisses, que acabará de deixar a ilha da ninfa Calipso. Nausícaa com mais algumas jovens vão ao rio para lavar roupa e enquanto esperam as roupas secarem, se entretêm com banho de rio e brincadeiras com bola, acordando Ulisses que havia naufragado e se encontrava                                                                                                                          

nu e perdido. Spears (1984), ressalta que a linguagem do poema explicita o sentido dado por Homero ao usar a palavra brincadeira, ao invés de esporte ou jogo, e banhar- se no rio, ao invés de nadar. O foco da cena não era as atividades praticadas pelas garotas, mas sim um dispositivo literário para descobrir Ulisses e apresentá-lo para o Rei Alcínoo, que o ajuda a voltar para sua casa em Ítaca.

A prática de atividades atléticas na civilização helênica fazia parte da Paidéia, ou seja, o sistema de educação e formação ética que tinha como objetivo a formação completa do cidadão. Dentre as outras atividades, além do desenvolvimento corporal, estavam inclusos a música, artes, poesia, etc. No entanto, isto não se referia às mulheres.

O conhecimento que temos sobre o papel da mulher na antiga sociedade grega é limitado as escassas evidências que sobreviveram até o presente período, e que, ao serem investigadas, nos trazem alguns detalhes sobre a vida na Grécia Antiga. Entretanto, é importante frisar que não é possível falarmos da mulher grega de forma genérica, pois a Grécia era fracionada de cidades-estados, muitas vezes antagônicas e que não formavam uma unidade politicamente ou socialmente constituída. Dos documentos que chegaram até nós sobre as mulheres gregas, muito está relacionado às classes mais altas e principalmente referente à Atenas e Esparta, nos fazendo pensar que provavelmente haviam variações na vida em cada cidade-estado (BRANDÃO, 1989).

Evidências sobre a vida cotidiana das mulheres gregas no período arcaico (800 a.C. – 500 a.C.) foram retratadas principalmente por Homero6, nas obras Ilíada e Odisséia, e também por outros autores como Hesíodo, Semônides e Safo7. Em parte da Grécia, a areté feminina envolvia beleza, “castidade, modéstia, obediência e comportamento conspícuo” (NORTH, 1966 apud SPEARS, 1984). Esperava-se que as esposas tivessem filhos, se destacassem em tarefas como fiação e tecelagem, e gerenciassem a casa. Estes poetas retratam a vida das cidades-estado do continente e da Ásia Menor, nas quais as vidas das mulheres eram de alguma forma semelhantes.

                                                                                                                         

6 Embora Homero tenha vivido alguns séculos depois do que foi retratado em suas obras, elas ainda são os principais registros sobre a sociedade grega nesse período.

7 Cada autor apresenta uma visão sobre a mulher grega. Enquanto Hesíodo, e posteriormente, Semônides descrevem as mulheres de forma satírica, mas necessárias para gerenciar o ambiente doméstico, Safo o faz de maneira aprazível em seus poemas, muito provavelmente por ser uma mulher, expressando seu amor pela vida, bem como por outras mulheres (BRANDÃO, 1989).

Em Atenas, desde o nascimento, a menina já era tida como indesejável, pois não resolveria a questão da sucessão e herança, além de não assegurar a continuidade do culto familiar. As jovens eram confinadas nos gineceus e aprendiam a manusear a roca e o tear, aguardando serem escolhidas por um homem para o matrimônio. Ao se casarem, as mulheres passavam a participar do culto familiar do marido e ainda eram acompanhadas de um dote, ou proîx. Isso ocorria exclusivamente com as eugeneis, ou seja, mulheres da pólis, filhas de cidadãos gregos, diferentemente de concubinas, heteras, escravas ou prostitutas8. Na educação das mulheres atenienses não estava incluídas atividades relacionadas ao exercício físico, até porque eram voltadas para a preparação para a guerra e eram de extrema violência, algo que não condizia com a conduta feminina (BRANDÃO, 1989).

Na capital Atenas, os princípios tradicionais sobre o comportamento das mulheres eram preservados. Os atenienses acreditavam que as mulheres deveriam andar cobertas e não serem vistas em público; portanto, não podiam participar de competições atléticas porque exporiam seus corpos, estes que deveriam ser apenas condicionados para o parto (REESE; VALLERA-RICKERSON, 2002).

Há alguns relatos sobre a vida das mulheres nas ilhas de Creta e Lesbos. Segundo Brandão (1989), dada a estrutura matrilinear da comunidade de Minos, configurada religiosamente na Grande Mãe, as mulheres em Creta eram detentoras dos mesmos direitos que os homens. Mas com isso, não se pretende dizer que elas representassem uma liderança na célula familiar. Apenas que poderiam participar de todas as atividades da pólis, sem serem enclausuradas nos gineceus. Em Mitilene, a capital de Lesbos, o contato permanente com o Egito, onde a mulher sabidamente gozava de alta consideração, cooperou muito para o modo de vida das mulheres de lá. Sob o domínio dos eólios desde o século XII a.C., a educação mitilenéia valorizava aspectos artísticos, sociais, além de físicos. As jovens de Lesbos se dedicavam com afinco as atividades atléticas para conservarem a beleza de seus corpos, a graça e encantos femininos. Mas pode-se considerar Lesbos apenas como um hiato, ou “um Oásis no vasto deserto de repressão masculina” (BRANDÃO, 1989, p.22).

Segundo Spears (1984) em Esparta as mulheres levavam uma vida bem diferente do que nas demais cidades-estados e em sua educação era incluído um                                                                                                                          

8 Concubinas eram como uma espécie de segunda esposa, podendo ser atenienses de famílias pobres, estrangeiras (gregas de outras pólis) ou escravas. Enquanto heteras eram amantes, a maioria das vezes escravas.

regime rigoroso de atividades físicas. Enquanto os meninos eram treinados para se tornar guerreiros, as meninas se tornariam mães saudáveis e vigorosas para gerar filhos fortes. Para as mulheres espartanas era exigido que lidassem com as propriedades de seus maridos (reclusos em grupos militares), aparecessem fora de casa e levassem uma vida mais pública do que as mulheres de outras cidades-estados. Tal estilo de vida foi retratado principalmente por Xenofonte e Platão e, posteriormente por Plutarco. Embora as espartanas tivessem a prática de exercícios físicos presentes em suas vidas, elas eram apenas vistas como máquinas para procriar filhos fortes e robustos (BRANDÃO, 1989).

No entanto, a lei espartana imposta por Licurgo (700-630 a.C.) no século VII a.C., expressava a importância do ato de dar luz a uma criança, como o serviço de um guerreiro para o estado. Esta lei, que permaneceu inalterada em toda história de Esparta, permitia que tanto um guerreiro morto em guerra, quanto uma mulher morta durante o parto, tivessem seus nomes inscritos em sua tumba, algo que não era comum (LERNER, 1986).