3. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3.3 As Mulheres e os Jogos Olímpicos
3.3.3 Mulheres Olímpicas Brasileiras
3.3.3.3 O profissionalismo e os processos migratórios
A partir de suas pesquisas envolvendo os atletas olímpicos brasileiros, Rubio (2017), afirma que o esporte no Brasil se apresenta como um fenômeno causador de deslocamentos e processos migratórios. No entanto essa temática é ainda pouco estudada no que se refere a essa população, embora tenha sido estudado em outros países em relação ao futebol masculino profissional. A autora sugere que estes deslocamentos, quando pensados a partir dos atletas olímpicos, ganham contornos específicos relacionados a sua ocorrência precoce e a intensidade, principalmente a partir do processo de profissionalização iniciado na década de 1980 (RUBIO, 2015; 2017; NUNES, 2011; PISANI, 2012).
Como citado anteriormente, o processo de profissionalização do esporte alterou radicalmente sua estrutura, bem como a posição do sujeito atleta dentro do movimento olímpico, principalmente por seus desempenhos terem ganhado um novo enfoque e importância em relação à posição que esta ocupava no início da história olímpica contemporânea. Nesse sentido:
[...] os interesses políticos latentes passaram a se somar às necessidades econômicas manifestas, tanto na manutenção do sistema esportivo geral como na realização dos Jogos Olímpicos em particular, tornando as fronteiras entre o público e privado, entre os interesses nacionais e internacionais fluídas e frágeis (RUBIO, 2017, p.57).
Para tanto, como um trabalhador em busca de disponibilizar sua mão de obra qualificada no mercado, o atleta vive intensamente, desde muito cedo, o processo de migração atrás de melhores oportunidades para desenvolver suas habilidades e fazer desta sua profissão. Muitas vezes, este deslocamento envolve experiências de perdas
de ordem familiar, social, cultural e emocional, mas também a obtenção de novos valores que reorganizam sua subjetividade (RUBIO, 2017).
De acordo com Rubio (2017), os atletas brasileiros de estados carentes de políticas para o desenvolvimento esportivo, são levados a locais específicos para a prática esportiva especializada em busca de condições de treino, principalmente nas regiões sul e sudeste. Devido às diferenças regionais, este deslocamento provocado pela necessidade de melhores condições materiais para o desenvolvimento de sua carreira, desencadeia um processo de adaptação, socialização e aculturação dentro de diferentes padrões e nem sempre de fácil assimilação. Estas diferenças, referentes à questões mais simples até as mais complexas, relacionadas a comida, o clima, as formas de linguagem de cada região, podem fazer com que o atleta, por vezes se sinta um estrangeiro dentro do próprio país, dificultando assim sua a adaptação e comprometendo seu desempenho atlético.
Em relação às mulheres olímpicas brasileiras, Melo e Rubio (2017) iniciaram um estudo sobre as migrações e deslocamentos destas atletas, classificando-as em migrações nacionais e migrações internacionais e relacionando com o histórico e características de cada modalidade.
As autoras apontam que as olímpicas brasileiras são originárias de 24 estados, além do Distrito Federal, e aquelas nascidas nas regiões norte, nordeste e centro-oeste vivenciaram mais intensamente a migração nacional em busca de melhores oportunidades e infrainstrutura de treinamento. As migrações nacionais têm maior ocorrência entre atletas da natação, atletismo, futebol, voleibol, triatlo, judô e ginástica rítmica – modalidades que possuem centros/clubes referenciados ou adequados para as confederações. Em relação as migrações internacionais, estas ocorrem quando as atletas estão um pouco mais estabelecidas na modalidade e aquelas de esportes coletivos como basquetebol, voleibol, handebol e futebol, vivenciam esta experiência com mais frequência. Estas atletas saem em busca de oportunidades de jogarem em times internacionais que as proporcionem melhores salários. Os destinos mais pretendidos são Estados Unidos e países do continente europeu – cada esporte tem países como principais referências. Por outro lado, as atletas de modalidades individuais partem em busca de aprimoramento esportivo ou pela oportunidade de realizar um curso superior – o destino mais procurado são os Estados Unidos (MELO; RUBIO, 2017).
Basquete
No caso específico do basquetebol, a modalidade se desenvolveu muito na cidade de São Paulo e principalmente nas cidades do interior do estado, onde se instalaram grandes times femininos e masculinos. Com isso, as medalhista olímpicas do basquetebol são todas provenientes do estado de São Paulo, com exceção de uma atleta, e as migrações nacionais ocorreram também dentro do estado.
O que se observa é o grande número de atletas naturais de cidades onde a modalidade já era consagrada, contudo, elas acolheram times que mudaram de nome durante a fase do profissionalismo, atendendo assim às demandas do mercado – com essa demanda as equipes passaram a adotar o nome de empresas e não mais o da cidade; o mesmo ocorreu com o voleibol (MELO; RUBIO, 2017).
No basquetebol observa-se o fenômeno de imigrações locais, posto que os deslocamentos ocorrem para localidades próximas e conhecidas, embora atendesse à necessidade de busca de trabalho (MELO; RUBIO, 2017).
Futebol
De acordo com Pisani (2012), o futebol praticado por mulheres permaneceu, por muito tempo, como prática desportiva amadora. Somente com a criação da Lei Pelé, que regula os desportos nacionais, é que o futebol de mulheres começou a ser, mesmo que minimamente, organizado e profissionalizado.
As migrações nacionais no futebol feminino, ocorrem principalmente para cidades da região sudeste e muitas vezes pela falta apoio e de salários ou pelo fim das equipes. Há poucos times bem estabelecidos no Brasil e frequentemente equipes são criadas apenas para participar de determinado campeonato e depois são desfeitas, fazendo com que suas jogadoras vivam mais intensamente estas mudanças, carregada por inseguranças em relação ao próximo destino e quanto tempo ele irá durar.
Em relação as migrações internacionais, as jogadoras vão em destino aos Estados Unidos, continente europeu e alguns países asiáticos onde a modalidade tem bom apoio e prestígio.
Voleibol
A profissionalização do voleibol serviu como modelo para outras modalidades que buscaram as condições materiais para ampliar o número de praticantes e organizar campeonatos tão rentáveis. No entanto, somente na década de 1990 que as atletas
usufruíram efetivamente do profissionalismo honestamente remunerado. Isso explica a grande mobilidade vivida de atletas da modalidade que não apenas transitaram pelo país onde o mercado de trabalho apresentava oferta variada tanto na região sul, como na Sudeste, e também ampliou as fronteiras levando atletas a jogarem em países como Japão, Itália e Turquia, ampliando os horizontes das gerações posteriores (RUBIO, 2017).
Rubio (2017) ressalta que, similar ao que ocorreu com o basquetebol, ao longo da década de 1990 os times perderam a identidade com a cidade onde eles desenvolviam suas atividades e passam a depender mais e mais das empresas patrocinadoras, o que obriga os atletas a mudar de cidade sempre que assim a empresa o desejar, em função da estrutura oferecida para seu estabelecimento. Colabora para essa situação os contratos por temporada, e não anuais, obrigando os atletas a se mobilizarem em busca de novas oportunidades sempre que uma empresa desistia de manter uma equipe competitiva.
Nesse sentido, Rubio (2017) faz referência a afirmação de Briggs (1980) sobre o entendimento das motivações daqueles que migram: “[...] parece ser a resultante de uma acumulação de muitos temores e esperanças, da interação de muitas forças coletivas” (p.631).