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As Mulheres no Movimento de Jesus

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1.3 O CONTEXTO DAS MULHERES NA PALESTINA DO SÉC I

1.3.2 As Mulheres no Movimento de Jesus

Como explicitado acima, a sociedade do século I, na Palestina, incluindo a região da Galileia e também da Síria, apresentava um padrão sóciocultural androcêntrico e patriarcal, que exercia dominação sobre mulheres, relegando-as, majoritariamente, à condição de marginalizadas e oprimidas. Esse fato precisa ser compreendido também dentro uma dinâmica de dominação composta pelos patriarcados romano e judaico e pelos movimentos de resistências a tais dinâmicas. Dado que o patriarcado romano fazia parte do sistema de dominação, ocupação e exploração dos recursos naturais e humanos, tal violência e o escravagismo afetavam a vida nas regiões controladas pelo império tanto em nível familiar, como

social e político (RICHTER REIMER, 2005, p. 69-70; 2006) representando opressão e alteração dos sistemas sociais judaicos. O sistema patriarcal judeu já era vigente, como em toda a região mediterrânea, mas foi aprofundado como uma forma de resistência, em busca de sobrevivência histórico-cultural.

O cristianismo, assim como o farisaísmo, nasce como um movimento de renovação interno ao judaísmo e também em busca da sobrevivência e manutenção/reconstrução de identidade e, como tal, tanto participa do patriarcado quanto resiste a ele (RICHTER REIMER, 2005, p. 70-71; 2006). Os movimentos de renovação tinham maneiras diversas de pregar a vinda do Reino de Deus e partilhavam muitas esperanças em comum, apesar de desenvolverem características diferentes quanto às dinâmicas religiosas e sociais, inclusive nas relações de gênero.

É um dado comum aos quatro evangelhos canônicos que as mulheres participam da assembleia do Reino promovida por Jesus, e não apenas por acidente ou como coadjuvantes, mas de uma forma ativa e engajada. Jesus aparece curando e restaurando a dignidade da vida de mulheres, transmitindo-lhes ensinamentos acerca de relações familiares, étnicas, econômicas e sociais. Assim, elas são retiradas de um contexto de doença, opressão e exclusão e são inseridas ativamente no seguimento, discipulado, ensino e práxis transformada e transformadora.

Portanto, é difícil negar que a pertença de mulheres ao movimento de Jesus, mas não há sinal de que essas mulheres se voltaram conscientemente contra a práxis judaica do seu tempo, visto que muitas delas eram oriundas do próprio judaísmo, e se juntaram ao movimento como expressão de sua fé no messias. Por isso, essa pertença precisa ser compreendida a partir de algumas características desse movimento e da sociedade.

Apesar da dinâmica patriarcal,

mulheres das classes mais baixas eram ativas em seu mundo no contexto familiar, de produção e de comercialização dos produtos manufaturados. Nestas atividades, elas viajavam em grupos, como era comum na época, e também participavam dos collegia, uma forma de cooperativas/corporações em que se reuniam pessoas por questões de organização profissional, nas quais também celebravam sua fé. Era nestes contextos que elas se articulavam também politicamente, participando da formação, organização e liderança dessas instituições que também sofriam controle e vigilância por parte dos funcionários do Império Romano (RICHTER REIMER e SOUZA, 2012, p. 208).

O movimento de Jesus era carismático-itinerante, profético-sapiencial, com uma característica realmente revolucionária: não fazia acepção de pessoas, aceitando homens e mulheres, em igualdade, independente de sua posição social ou familiar (TEPEDINO, 1990, p. 69,78). Sendo assim, conquistou grande parte dos seus adeptos do estrato inferior empobrecido da sociedade em que as experiências carismáticas eram frequentes (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p. 429), e, no qual, eram encontradas muitas mulheres não casadas (STEGEMANN e STEGEMANN, 2004, p. 421).

Assim, aquelas mulheres que não se encaixam socialmente nos padrões patriarcais, aquelas pobres, viúvas, divorciadas ou sozinhas, encontraram acolhida no movimento de Jesus, além de outras que também abandonaram suas grandes famílias juntamente com seus maridos e que puderam seguir Jesus. Isso se deve ao fato de que, ali, o padrão interno da vida feminina não se baseava na obrigatoriedade do casamento, concepção de filhos e administração da casa, pois as condições para o seguimento eram fé e compromisso com o Reino de Deus. Percebe-se, em muitas passagens, que mulheres do movimento poderiam ser ditas independentes e curadas, embora muitas traduções e a história interpretativa imputem a elas as funções domésticas (SCHOTTROFF, 1995, p. 24; HORSLEY, 2001, p. 206).

Outro aspecto que pode ter colaborado para a participação das mulheres é que muitas tradições trazem imagens do cotidiano das mulheres, mostrando que, possivelmente, desde bem cedo o evangelho esteve próximo à vida das mulheres da época. Há parábolas resgatam o valor do trabalho doméstico das mulheres ao utilizá-los como metáforas para o Reino de Deus. Em especial no Evangelho de Marcos, Jesus aparece instruindo os adeptos do movimento em casas, isso altera o valor da casa, o ambiente principal de atuação das mulheres, agora é mais que o lugar da família, se torna um ambiente central em termos de espaço social e religioso, “elemento fundamental e estabilizador da ordem social e ao mesmo tempo [...] instrumento da missão e expansão do próprio movimento” (STRÖHER, 1998, p55),

O movimento de Jesus executa uma grande transposição de barreiras, visto que a mensagem de Jesus, o messias, é dirigida aos marginalizados, a mulheres e mulheres estrangeiras. A condição de segregação das mulheres é ultrapassada com

as atitudes de um messias que cura e tem mulheres a sua volta. Além disso, há também uma subversão da hierarquia tradicional, agora, publicanos e prostitutas chegam antes ao Reino (ALEXANDRE, 1990, p. 524, 525). Para o movimento de Jesus, não importa o estatuto, a posição social e as posses, de uma pessoa, é a diaconia, e não mais as relações de poder, que serve de paradigma para o Reino de Deus. Esse sentido da diaconia também colabora com a participação das mulheres, pois era a valorização justamente da atividade designada a mulheres e escravos.

As curas e exorcismos de Jesus “fazem das mulheres pessoas completas. O seu anúncio da “inversão escatológica” – muitos dos que são primeiros serão últimos e os últimos serão os primeiros [...] – aplica-se também às mulheres e a sua diminuição por estruturas patriarcais” (SCHÜSSLER FIORENZA, 1992, p. 153). Jesus convidava

à sua comunidade, não apenas mulheres, mas mulheres pecadoras notórias e bem conhecidas. Pecadores, prostitutas, mendigos, coletores de taxas, impuros ritualmente, aleijados e os mendigos – em resumo, o refugo da sociedade Palestina – constituíam a maioria dos seguidores de Jesus. Estes são os últimos que tornaram primeiros, os famintos foram saciados, os não- convidados foram convidados. E muitos destes eram mulheres (SCHÜSSLER FIORENZA, 1992, p. 163)

Para Schüssler Fiorenza (1992, p. 177, 178 e 189), o movimento cristão primitivo era inclusivo e tinha liderança feminina, por isso pode ser classificado como igualitário. Ele desafiava e fazia oposição ao sistema patriarcal dominante através da prática de um discipulado de iguais, onde o papel das mulheres não é periférico ou trivial, é basilar para a solidariedade proposta por Jesus. Jesus e seu movimento libertam aqueles desumanizados, subvertendo as relações humanas e com isso fazendo o mesmo implicitamente às estruturas econômicas patriarcal- androcêntricas.

Para Schottroff (1995, p. 139), no cristianismo primitivo, as mulheres tiveram participação e uma função extraordinária, considerando a consciência social da época, mas os relatores dessa história estavam parcialmente habilitados para fazer justiça a isso.

Uma das principais fontes para o estudo do movimento de Jesus, e a influência sobre homens e mulheres das comunidades que se seguem a ele é o Evangelho de Marcos. O Evangelho de Marcos é uma narrativa dos acontecimentos que deram origem a uma comunidade cristã, os aspectos significativos da vida de

seu fundador, Jesus, o agente capacitado pelo Espírito com autoridade divina para estabelecer o Reino de Deus. Sua história estabelece uma identidade fundada em comum com a religião judaica, acrescentando correções, releituras e perspectivas futuras, em termos de ética e práticas cultuais. Portanto, ao relatar a atuação das mulheres nessa história da origem da comunidade, ele tanto reflete como define essa atuação na comunidade receptora do texto. Ao definir valores, normas sociais e religiosas, o Evangelho de Marcos responde à cultura patriarcal dominante e participa da reinscrição cultural, em um pedido de resposta comunitária ao seu texto e aos paradigmas lançados com respeito às relações, econômicas, políticas, sociais e de gênero. “Marcos, pois, insere a história das mulheres na história do seguimento de Jesus [...] com a naturalidade [...] de relacionar-se com uma práxis autônoma das mulheres no seguimento de Jesus” (SCHOTTROFF,1995, p. 144).

Neste sentido e por este motivo, também importa compreender algumas características do texto, como sua estrutura, função e fontes. É o que faremos na próxima seção.

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