Ao longo deste capítulo, foram analisados, sob o ponto de vista da narrativa e da análise feminista, os encontros de Jesus com mulheres ao longo do Evangelho de Marcos. O que se percebe, ao tentar colocar essas mulheres como protagonistas é que, apesar da maioria aparecer anônima, à exceção das mulheres na crucificação, sepultamento e ressurreição, as mulheres não assumem os papéis tradicionais de esposa e mãe. Em sua maioria, estão sozinhas, sem relação com homens, violando as regras de conduta feminina e as regras de pureza vigentes.
As que estão mais próximas ao padrão feminino esperado pela sociedade da época são a sogra de Pedro, que é identificada pela relação com um homem, e a mãe da filha de Jairo. Ainda assim, ambas quebram o padrão, uma pelo serviço e outra pela falta de identificação com um homem e pela participação na ressurreição da filha.
Além disso, as mulheres apresentam caracterizações positivas. Estão sempre em conformidade com os padrões do Reino de Deus, ao lado de Jesus, sendo exemplos de seguimento por meio da fé, da perseverança no seguimento e da diaconia. As suas narrativas apresentam pontos de inflexão na história. Elas são representativas de muitas quebras de paradigmas, redirecionamento do ministério de Jesus, simbologias e do verdadeiro discipulado. Os encontros de Jesus com as mulheres criam uma expectativa a respeito do discipulado perfeito. O que faz com que a evolução da história mostre que as mulheres também compõe uma subtrama que evolui do recrutamento ao seguimento, a partir das curas, até a demonstração do verdadeiro discipulado, com os exemplos da viúva pobre, da mulher que unge Jesus e das que acompanham a morte, sepultamento e se tornam apóstolas da ressurreição.
Marcos as mostra, portanto, como mulheres livres, independentes e comprometidas com a práxis e a proposta libertadora de Jesus. Ele escolheu revelar sua presença entre os discípulos nos últimos momentos da trama, quando sob a cruz, apresenta-se a visão completa do discipulado. Não escolhe, porém, fazê-las heroínas e termina seu texto com o silêncio e medo dessas mulheres, para, dessa forma, transferir a missão de continuar o seguimento aos leitores.
Frente a essa imagem multifacetada construída por Marcos a respeito das mulheres, o capítulo seguinte tratará do desenho o evangelho faz da masculinidade de Jesus em relação com essas mulheres e de que modelos de mulheres a narrativa coloca. Parte, porém, de um estudo sobre a violência contra a mulher como um problema da época do texto, mas também atual, a que se podem aplicar tais princípios de relação de gênero desenvolvidos ao longo Evangelho de Marcos. A partir desse entendimento da violência, também como processo histórico que ocorria com profundidade à época da composição do Evangelho, pode-se perceber que sua narrativa foi revolucionária nas questões de gênero e como pode influenciar positivamente as relações de gênero de hoje.
3 AS RELAÇÕES DE GÊNERO EM MARCOS E IMPLICAÇÕES PARA HOJE
O alimento de uma narrativa é o simbólico. Ela apresenta uma forma diferente de aprender, interpretar e entender a realidade sem estar necessariamente amarrada em conceitos. Pois torna acessível a uma comunidade um evento e transmite realidades fundamentais da experiência humana (LIBANIO, 2012, p. 7). As metáforas, imagens e mitos enriquecem a linguagem narrativa ao prolongar o símbolo. E, assim, ao se tecer de ditos e não ditos, a narrativa traduz realidades profundas em forma descritiva, espacial e sensível, fazendo visualizar, em linguagem popular, experiências arquetípicas do ser humano e valores absolutos (LIBANIO, 2012, p. 8). Ela parte da experiência e gera comunidade, ao estabelecer um vínculo entre o narrador e o ouvinte/leitor.
Portanto, “mitos de origem, genealogias e etiologias, e narrativas, por exemplo, são mecanismos de construção do outro e do si mesmo” (ZABATIERO e LEONEL, 2011, p. 185). No caso das narrativas bíblicas, elas apresentam uma autoridade numinosa geradora de sentido que faz com que homens e mulheres tenham seus parâmetros como modelo de comportamento e de identidade. Os textos evangélicos são, até hoje, orientadores da vida social e religiosa de comunidades cristãs. Definem valores e relações a partir do paradigma colocado pela figura de Jesus. Jesus é apresentado nos evangelhos canônicos como uma pessoa cuja prática de relacionamento recupera a identidade daqueles ao seu redor, livrando-os de situações de opressão, seja social, religiosa, econômica ou física, por meio de ensinamentos, curas e exorcismos. Ele estabelece assim um novo modelo relacional. Dentro desse modelo relacional, está incluída a relação de gênero.
As mulheres que encontraram Jesus no Evangelho de Marcos traziam consigo muito sofrimento. Refletem a vida das mulheres naquele tempo, meio a pobreza, marginalização e opressão, exploração de seu trabalho, exclusão de vivências religiosas. As mulheres sofriam, portanto, violências diversas (físicas, psicológicas e simbólicas) devido ao domínio romano e aos sistemas patriarcais em conflito na região. O Evangelho de Marcos traz novas perspectivas de ser homens e mulheres e de uma sociedade mais justa e não-violenta ao narrar essas experiências de libertação e resistência vivenciadas nas relações com Jesus. Essas perspectivas carecem, ainda, de mais pesquisa para serem conhecidas e exploradas tanto no âmbito sócio-religioso como no acadêmico.
Este capítulo busca propor masculinidades e feminilidades a partir dos dados obtidos nas análises do capítulo anterior. Tais propostas de imagens foram construídas a partir da relação de Jesus com as mulheres; ou seja, de uma relação de gênero, isto justifica nossa abordagem com categorias e referenciais relacionados aos estudos de gênero.
O uso da categoria de gênero na releitura bíblica cria instrumentos e ponto de partida para os homens e mulheres se interrogarem sobre a sua presença no mundo em pleno sentido de si. O termo gênero tornou-se uma categoria analítica chave para a análise feminista. É visto como um fator de classificação que impõe à identidade sexual biológica um significado social, psicológico, cultural, religioso e político. Por isso, como categoria de análise, questiona e desmascara as origens socioculturais das diferenças entre mulheres e homens (SCHÜSSLER FIORENZA, 2009, p. 130).
Assim,
as tradicionais abordagens metodológicas e interpretativas de textos bíblicos demonstraram que ainda não conseguem alcançar a profundidade de mecanismos de opressão que principalmente mulheres e crianças, escravas ou não, enquanto minoria qualitativa, sofriam em seu contexto histórico-social. A categoria de gênero, instrumental de análise interdisciplinar, ajudou a perceber e a enfatizar o caráter social das distinções construídas a partir das diferenças biológico-sexuais (RICHTER REIMER, 2010, p. 45).
Diante disso, a proposta da hermenêutica feminista, e deste trabalho, é trazer reinterpretações da tradição bíblico-teológica, provocando a reflexão de novos comportamentos, neste caso, a partir da vida de Jesus e da sua relação com as mulheres. Dessa forma, faz uma abordagem que pretende resgatar a dignidade da mulher a partir do fenômeno religioso (BERGESCH, 2008, p. 120-122; SANTOS, 2011, p. 97-102).
Alguns referenciais hermenêuticos feministas devem ser destacados quando se trata da análise de textos sagrados. Em primeiro lugar, eles são ‘testemunhos de fé’ e possuem determinado contexto histórico-cultural. Assim, as ‘experiências de vida’ são referenciais para sua leitura e compreensão dentro de seus contextos, numa dinâmica de intra, inter e extratextualidade. Os nossos corpos históricos e suas experiências são importantes, assim como o cotidiano e sua ligação às esferas pública e privada todas as dimensões humanas (sociais, culturais, afetivas, econômicas, políticas etc.). Busca-se, dessa forma, romper o silêncio a respeito de
experiências de opressão e libertação/resistência vivenciadas nas relações de gênero (RICHTER REIMER, 2005, p. 34-35; RICHTER REIMER, 2010, p. 45-46).
Para Gebara (1998, p. 19), a hermenêutica feminista é política, pois
o processo de construção e reconstrução [proposto pela hermenêutica feminista da libertação] alarga o próprio significado do texto e faz aparecer relações que a princípio não podiam ser vistas pelas leitoras formadas na tradição patriarcal. Pouco a pouco vai se influindo na cultura e criando novas maneiras de pensar o relacionamento entre os humanos.
Apesar de fomentar várias mudanças, é preciso manter em mente que
os novos mitos que ora evoluem e as imagens da teologia feminista necessariamente compartilham de pressuposições culturais e dos estereótipos de nossa tradição e sociedade sexistas nas quais foram socializadas tanto as mulheres como os homens. A condição prévia e absoluta dos novos mitos e imagens cristãs libertadores não é apenas a modificação da consciência individual, mas também das estruturas societais, eclesiais e teológicas. Todavia, ao mesmo tempo, as teólogas feministas devem procurar novas imagens e mitos que possam encarnar nossa visão das mulheres cristãs e funcionar como protótipos a ser imitados. Uma tal [sic!] pesquisa não deveria singularizar e tornar absoluta uma imagem e um mito e sim apresentar uma variedade de imagens e histórias, que deveriam ser, ao mesmo tempo, críticas e libertadoras (SCHÜSSLER FIORENZA, 1995, p. 89).
Nesse sentido, entende-se que as imagens propostas a partir das análises das narrativas em que Jesus e as mulheres se encontram em Marcos, feitas no capítulo anterior, se somam a essa variedade e são, ainda, multifacetadas. Além disso, podem ajudar a transformar identidades de gênero, estruturas e estratégias sociais. Portanto, podem alterar a realidade das relações de gênero a partir do fenômeno religioso. Para tornar essas propostas de mudança mais reais e compreensíveis, é interessante fazer a abordagem de problemas de relação de gênero que se fazem reais tanto no passado, sendo uma vivência das mulheres ao tempo de Jesus, como na atualidade. Para tal, foi escolhido o tema da violência contra a mulher e sua ligação com o aspecto religioso.