• Nenhum resultado encontrado

Multiparentalidade nos Tribunais: reconhecimento e efeitos jurídicos

No documento Multiparentalidade e Direito Sucessório (páginas 38-55)

Pretto (2013) refere que a multiparentalidade começou a ganhar espaço nos Tribunais diante das ideias doutrinárias inovadoras e considerando o que vinha acontecendo na realidade fática da sociedade.

Diante disso, faz-se importante evidenciar as jurisprudências que estão sendo desenvolvidas em vista dessa evolução do Direito de Família frente à justiça.

2.4.4 Recurso Extraordinário nº 898.060 e análise da Repercussão Geral 622

RECURSO EXTRAORDINÁRIO 898.060 SÃO PAULO RELATOR : MIN. LUIZ FUX

RECTE.(S) : A. N.

ADV.(A/S) : RODRIGO FERNANDES PEREIRA RECDO.(A/S) : F. G.

EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUSSÃO GERAL RECONHECIDA. DIREITO CIVIL E CONSTITUCIONAL. CONFLITO ENTRE PATERNIDADES SOCIOAFETIVA E BIOLÓGICA. PARADIGMA DO CASAMENTO. SUPERAÇÃO PELA CONSTITUIÇÃO DE 1988. EIXO CENTRAL DO DIREITO DE FAMÍLIA: DESLOCAMENTO PARA O PLANO CONSTITUCIONAL. SOBREPRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA (ART. 1º, III, DA CRFB). SUPERAÇÃO DE ÓBICES LEGAIS AO PLENO DESENVOLVIMENTO DAS FAMÍLIAS. DIREITO À BUSCA DA FELICIDADE. PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL IMPLÍCITO. INDIVÍDUO

COMO CENTRO DO ORDENAMENTO JURÍDICO-POLÍTICO.

IMPOSSIBILIDADE DE REDUÇÃO DAS REALIDADES FAMILIARES A MODELOS PRÉ-CONCEBIDOS. ATIPICIDADE CONSTITUCIONAL DO CONCEITO DE ENTIDADES FAMILIARES. UNIÃO ESTÁVEL (ART. 226, § 3º, CRFB) E FAMÍLIA MONOPARENTAL (ART. 226, § 4º, CRFB).VEDAÇÃO À DISCRIMINAÇÃO E HIERARQUIZAÇÃO ENTRE ESPÉCIES DE FILIAÇÃO (ART. 227,§ 6º, CRFB). PARENTALIDADE PRESUNTIVA, BIOLÓGICA OU AFETIVA. NECESSIDADE DE TUTELA JURÍDICA AMPLA. MULTIPLICIDADE DE VÍNCULOS PARENTAIS.

(ART. 226, § 7º, CRFB). RECURSO A QUE SE NEGA PROVIMENTO. FIXAÇÃO DE TESE PARA APLICAÇÃO A CASOS SEMELHANTES. 1 O prequestionamento revela-se autorizado quando as instâncias inferiores abordam a matéria jurídica

2 invocada no Recurso Extraordinário na fundamentação do julgado recorrido, tanto mais que a Súmula n. 279 desta Egrégia Corte indica que o apelo extremo deve ser apreciado à luz das assertivas fáticas estabelecidas na origem.

2. A família, à luz dos preceitos constitucionais introduzidos pela Carta de 1988, apartou-se definitivamente da vetusta distinção entre filhos legítimos, legitimados e ilegítimos que informava o sistema do Código Civil de 1916, cujo paradigma em matéria de filiação, por adotar presunção baseada na centralidade do casamento, desconsiderava tanto o critério biológico quanto o afetivo.

3. A família, objeto do deslocamento do eixo central de seu regramento normativo para o plano constitucional, reclama a reformulação do tratamento jurídico dos vínculos parentais à luz do sobre princípio da dignidade humana (art. 1º, III, da CRFB) e da busca da felicidade.

4. A dignidade humana compreende o ser humano como um ser intelectual e moral, capaz de determinar-se e desenvolver-se em liberdade, de modo que a eleição individual dos próprios objetivos de vida tem preferência absoluta em relação a eventuais formulações legais definidoras de modelos preconcebidos, destinados a resultados eleitos a priori pelo legislador. Jurisprudência do Tribunal Constitucional alemão (BVerfGE 45, 187). 5. A superação de óbices legais ao pleno desenvolvimento das famílias construídas pelas relações afetivas interpessoais dos próprios indivíduos é corolário do sobreprincípio da dignidade humana.

6. O direito à busca da felicidade, implícito ao art. 1º, III, da Constituição, ao tempo que eleva o indivíduo à centralidade do ordenamento jurídico-político, reconhece as suas capacidades de autodeterminação, autossuficiência e liberdade de escolha dos próprios objetivos, proibindo que o governo se imiscua nos meios eleitos pelos cidadãos para a persecução das vontades particulares. Precedentes da Suprema Corte dos Estados Unidos da América e deste Egrégio Supremo Tribunal Federal: RE 477.554-AgR, Rel. Min. Celso de Mello, DJe de 26/08/2011; ADPF 132, Rel. Min. Ayres Britto, DJe de 14/10/2011.

7. O indivíduo jamais pode ser reduzido a mero instrumento de consecução das vontades dos governantes, por isso que o direito à busca da felicidade protege o ser humano em face de tentativas do Estado de enquadrar a sua realidade familiar em modelos pré-concebidos pela lei.

8. A Constituição de 1988, em caráter meramente exemplificativo, reconhece como legítimos modelos de família independentes do casamento, como a união estável (art. 226, § 3º) e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes, cognominada “família monoparental” (art. 226, § 4º), além de enfatizar que espécies de filiação dissociadas do matrimônio entre os pais merecem equivalente tutela diante da lei, sendo vedada discriminação e, portanto, qualquer tipo de hierarquia entre elas (art. 227, § 6º).

9. As uniões estáveis homoafetivas, consideradas pela jurisprudência desta Corte como entidade familiar, conduziram à imperiosidade da interpretação não reducionista do conceito de família como instituição que também se

AYRES BRITTO, Tribunal Pleno, julgado em 05/05/2011).

10. A compreensão jurídica cosmopolita das famílias exige a ampliação da tutela normativa a todas as formas pelas quais a parentalidade pode se manifestar, a saber: (i) pela presunção decorrente do casamento ou outras hipóteses legais, (ii) pela descendência biológica ou (iii) pela afetividade. 11. A evolução científica responsável pela popularização do exame de DNA conduziu ao reforço de importância do critério biológico, tanto para fins de filiação quanto para concretizar o direito fundamental à busca da identidade genética, como natural emanação do direito de personalidade de um ser. 12. A afetividade enquanto critério, por sua vez, gozava de aplicação por doutrina e jurisprudência desde o Código Civil de 1916 para evitar situações de extrema injustiça, reconhecendo-se a posse do estado de filho, e consequentemente o vínculo parental, em favor daquele utilizasse o nome da família (nominatio), fosse tratado como filho pelo pai (tractatio) e gozasse do reconhecimento da sua condição de descendente pela comunidade (reputatio).

13. A paternidade responsável, enunciada expressamente no art. 226, § 7º, da Constituição, na perspectiva da dignidade humana e da busca pela felicidade, impõe o acolhimento, no espectro legal, tanto dos vínculos de filiação construídos pela relação afetiva entre os envolvidos, quanto daqueles originados da ascendência biológica, sem que seja necessário decidir entre um ou outro vínculo quando melhor interesse do descendente for o reconhecimento jurídico de ambos.

14. A pluriparentalidade, no Direito Comparado, pode ser exemplificada pelo conceito de “dupla paternidade” (dual paternity), construído pela Suprema Corte do Estado da Louisiana, EUA, desde a década de 1980 para atender, ao mesmo tempo, ao melhor interesse da criança e ao direito do genitor à declaração da paternidade. Doutrina.

15. Os arranjos familiares alheios à regulação estatal, por omissão, não podem restar ao desabrigo da proteção a situações de pluriparentalidade, por isso que merecem tutela jurídica concomitante, para todos os fins de direito, os vínculos parentais de origem afetiva e biológica, a fim de prover a mais completa e adequada tutela aos sujeitos envolvidos, ante os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III) e da paternidade responsável (art. 226, § 7º). 16. Recurso Extraordinário a que se nega provimento, fixando-se a seguinte tese jurídica para aplicação a casos semelhantes: “A paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro público, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante baseado na origem biológica, com todas as suas consequências patrimoniais e extrapatrimoniais”.

Em 22 de setembro de 2016, o Superior Tribunal Federal aprovou a tese que assumiu caráter revolucionário no âmbito do Direito de Família. A corte decidiu que “a paternidade socioafetiva, declarada ou não em registro, não impede o reconhecimento do vínculo de filiação concomitante, baseada na origem biológica, com os efeitos jurídicos próprios”, conforme refere o Relator Ministro Luiz Fux.

não havendo registro, bem como, manifestou entendimento de que a paternidade biológica e a afetiva estão no mesmo patamar. Diante da manifestação, as portas ao conceito da multiparentalidade foram abertas no ordenamento jurídico.

Pode se dizer que a conclusão pela maioria dos Ministros foi ousada, visto que rompeu o paradigma de que uma pessoa pode possuir apenas um pai e uma mãe. Conforme afirma Schreiber (2016): “o STF adotou um posicionamento claro e objetivo, em sentido diametralmente oposto ao modelo da dualidade parental, consolidado na tradição civilista e construído à luz da chamada “verdade” biológica.”

Conforme Calderón (2016), a tese possui três aspectos relevantes, quais sejam: o conhecimento jurídico da afetividade, vínculo socioafetivo e biológico em igual grau de hierarquia jurídica e a possiblidade jurídica da multiparentalidade.

O autor ainda destaca o que José Fernando Simão refere acerca do reconhecimento jurídico da multiparentalidade: o surgimento de demandas que visam unicamente o patrimônio como finalidade.

Calderón (2016) finaliza dizendo que:

“Por tudo isso, parece que os ganhos foram muitos, de modo que merecem destaque para que reverberem de forma adequada na avançada doutrina jusfamiliarista brasileira. É alvissareira a decisão do STF, que certamente remete a outras questões e a novos desafios, mas nos traz a esperança de uma nova primavera para o direito de família brasileiro12. Esse movimento faz lembrar o poema de Clarice Lispector "Sejamos como a primavera que

renasce cada dia mais bela… Exatamente porque nunca são as mesmas flores."

Diante do pensamento trazido pelo autor, entende-se que o reconhecimento da Multiparentalidade pelo Superior Tribunal Federal é um avanço significativo no campo do Direito de Família, pois traz uma nova percepção de filiação. No entanto, devemos ter noção de que essa mudança pode ser benéfica em muitos casos, porém, deve ser utilizada apenas em casos específicos, devendo ser analisado com muita cautela antes de ser utilizado.

29 de abril de 2017.

2.4.1 TJ-SC - Apelação Cível : AC 20160157016 Joinville 2016.015701-6

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE C/C ALIMENTOS. EXTINÇÃO DO FEITO, SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO PELA IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO E ILEGITIMIDADE DA

REPRESENTANTE DA AUTORA. RECURSO DA AUTORA.

RECONHECIMENTO DA LEGITIMIDADE DA GENITORA DA AUTORA LHE REPRESENTAR EM JUÍZO, VISTO INEXISTIR CONFLITO DE INTERESSES. REPRESENTAÇÃO CONFORME ARTIGO 1.634, DO CÓDIGO CIVIL. DIREITO PERSONALÍSSIMO DOS SUJEITOS DIRETAMENTE ENVOLVIDOS NA RELAÇÃO PARENTAL. EXEGESE DO ARTIGO 27 DO ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. EVIDENCIADO O INTERESSE DE AGIR DA FILHA A FIM DE VER ESCLARECIDA SUA ASCENDÊNCIA BIOLÓGICA. EXISTÊNCIA DE LAÇOS AFETIVOS COM O PAI REGISTRAL QUE NÃO SE AFIGURA

OBSTÁCULO INTRANSPONÍVEL AO RECONHECIMENTO DA

PATERNIDADE BIOLÓGICA. POSSIBILIDADE DO REGISTRO CIVIL DA MULTIPARENTALIDADE. PRECEDENTE UNÂNIME DO GRUPO DE CÂMARAS DE DIREITO CIVIL DESTA CORTE. INTERESSE DE AGIR CONFIGURADO. NECESSIDADE DE RETORNO DOS AUTOS A ORIGEM PARA INSTRUÇÃO PROCESSUAL. SENTENÇA CASSADA. RECURSO CONHECIDO E PROVIDO.

- "A preexistência da paternidade socioafetiva não impede a declaração judicial da paternidade biológica, com todas as consequências dela decorrentes, inclusive as de natureza patrimonial." (TJSC, Embargos Infringentes n. 2014.084742-5, j. 09-03-2016).

Trata-se de Apelação Cível, analisada pela presidente e relatora Denise Volpato, julgada pela Sexta Câmara de Direito Civil do Tribunal de Justiça de Joinville/SC em 19/04/2015.

Relato do caso:

Conforme o site JusBrasil, cuida-se de ação de investigação de paternidade c/c alimentos em que a parte autora, menor de idade, representada por sua genitora, ingressou contra o atual marido de sua mãe. Alega que sua mãe foi casada com um indivíduo sendo que se separaram de fato em 2010. Após o término da relação, sua

amoroso durou cerca de 06 meses.

Do relacionamento adveio o nascimento da menor, sendo que o marido (à época) de sua genitora assumiu sua paternidade, diante do amor que possuíam e da outra filha que tinham em comum. Mesmo sabendo que não era o pai biológico da criança, o marido registrou a criança. A menina teve alguns encontros com seu pai biológico, mas atualmente não mantém muito contato.

O réu da demanda está bem empregado e, diante das dificuldades que a autora apresenta, ingressou com a demanda para que seja incluído o nome do pai biológico em sua certidão de nascimento, sem prejuízo ao pai registral.

Julgamento

O recurso foi interposto contra a Sentença que considerou a inexistência de ilegitimidade da representante da autora, bem como, a impossibilidade jurídica do pedido, sendo extinta a demanda.

A autora refere que ajuizou a ação com o consentimento do pai registral, e o pai biológico interessado em realizar o exame de DNA e reconhecer a filha. Afirma a genitora que não tem intenção de afastar o pai registral da menina, apenas que seu pai biológico seja reconhecido. Requereu a reforma da decisão, a fim de que seja reconhecida sua legitimidade e a possibilidade jurídica do pedido.

A relatora em seu julgamento entendeu que a decisão do Magistrado não está correta, pois é dever de ambos os pais zelar pelos direitos dos filhos, sendo parte legítima para ingressar no litígio.

Quanto ao registro do pai biológico em sua certidão de nascimento, a relatora refere que é direito da criança ver o nome de seu pai consanguíneo em seu assento de nascimento, fato este que faz gerar uma série de direitos e deveres, compreendendo seu melhor interesse.

afeto une as pessoas. Diante disso, a criança possui o pleno direito em receber os cuidados sejam eles afetivos ou financeiros de seus familiares biológicos, como também dos afetivos. Dessa forma, mesmo que a criança possua um forte vinculo afetivo com seu pai registral, isso não exclui o direito da mesma de pleitear o reconhecimento jurídico de sua paternidade biológica.

Dito isso, a Relatora vota no sentido de ser conhecido o recurso e dar-lhe provimento, sendo a decisão unânime, para cassar a Sentença feita pelo Juízo a quo, retornado os autos para a regular instrução do feito, sendo realizada a prova pericial, exame de DNA.

2.4.2 Caso nº TJ-RR - Apelação Cível : AC 0010119011251

DIREITO CIVIL. DIREITO DE FAMÍLIA. APELAÇÃO. AÇÃO DE ANULAÇÃO DE REGISTRO DE NASCIMENTO. EXAME DE DNA. PAI BIOLÓGICO QUE VINDICA ANULAÇÃO DO REGISTRO DO PAI REGISTRAL. EXCLUSÃO DO NOME DO PAI REGISTRAL. INOVAÇÃO RECURSAL. INCLUSÃO DO PAI BIOLÓGICO SEM PREJUÍZO DO PAI REGISTRAL. INTERESSE MAIOR DA CRIANÇA. FAMÍLIA MULTIPARENTAL. POSSIBILIDADE. RECURSO PROVIDO. SENTENÇA REFORMADA. 1. 1.

Resguardando o melhor interesse da criança, bem como a existência de paternidade biológica do requerente, sem desconsiderar que também há paternidade socioafetiva do pai registral, ambas propiciadoras de um ambiente em que a menor pode livremente desenvolver sua personalidade, reconheço a paternidade biológica, sem, contudo, desfazer o vínculo jurídico oriundo da paternidade socioafetiva. 4. Recurso provido na parte em que foi conhecido para reformar a sentença.

Conforme JusBrasil, trata-se de Apelação Cível, analisada pela Relatora Juíza convocada Elaine Cristina Bianchi, do Tribunal de Justiça da Câmara Única de Roraima em 29/05/2014.

Trata-se de Apelação Cível interposta diante da Sentença proferida nos autos de Ação de Anulação de Registro que julgou improcedente a pretensão autoral, sendo mantido o registro de nascimento da primeira requerida, sendo o feito extinto nos moldes do Art. 269, inciso I, do CPC.

O Apelante refere que a sentença merece ser reformada, visto ser o pai biológico da requerida. Não obstante o marido da genitora da menina a tenha registrado, este sempre soube que a criança não era sua filha, visto que ela possuía um grande carinho e afeto por ele, inclusive chamando-o de pai. Alega que o vínculo dos dois deu-se apenas enquanto o pai registral era casado com a genitora da menina, sendo que após o divórcio, tal vínculo restou rompido.

Dessa forma, requer o provimento do presente recurso, anulando o registro da menor, sendo que o nome dele deve ser retirado do registro da menina, bem como os avós paternos, devendo ser incluído seu nome no registro da criança.

No julgamento a Relatora, a fim de resguardar o melhor interesse da menor, analisando ser a paternidade biológica tão importante quanto a socioafetiva, importantes para propiciar um ambiente em que a menor consiga desenvolver sua personalidade, reconheceu a paternidade biológica do autor, sem contudo, desfazer o vínculo jurídico oriundo da paternidade socioafetiva.

2.4.3 Caso Nº 70064909864 (N° CNJ: 0176364-89.2015.8.21.7000) 2015/Cível

APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO DE ADOÇÃO. PADRASTO E ENTEADA. PEDIDO DE RECONHECIMENTO DA ADOÇÃO COM A MANUTENÇÃO DO PAI BIOLÓGICO. MULTIPARENTALIDADE. Observada a hipótese da existência de dois vínculos paternos, caracterizada está a possibilidade de reconhecimento da multiparentalidade.

DERAM PROVIMENTO AO APELO.

Trata-se de Apelação Cível, analisada pelo Relator Alzir Felippe Schmitz, Oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Porto Alegre, em 16/07/2015.

Conforme TJ/RS, versa a presente Apelação interposta pelos Apelantes Juan e Juliane, diante da insatisfeita sentença nos autos do processo de adoção que julgou parcialmente procedente o pedido para determinar a adoção de Juliane com a

do nome da menor.

O Apelante Juan alega a paternidade socioafetiva em relação a Juliane, desde o casamento dele com a genitora dela, quando esta apenas possuía 6 anos de idade. Juliane não tem interesse em suprir a paternidade biológica de seu assento de nascimento, tampouco de excluir seu sobrenome. Refere que seu pai biológico faleceu quando esta apenas possuía 02 anos de idade, não possuindo lembrança dele.

Os Apelantes requerem o reconhecimento da multiparentalidade.

No julgamento o Relator alega que o pedido dos Apelantes é juridicamente possível, sendo que analisada as provas nos autos, tem-se que a relação de Juan com Juliane consolidou-se com o passar dos anos de convivência, sendo criado um laço afetivo muito forte.

Outrossim, mesmo que o pai biológico da Apelada faleceu quando esta possuía apenas 02 anos de idade, o exercício da paternidade afetiva não pode afastar a memória da pai biológico, nem afastar a família de seu genitor.

Dessa forma, como existem os dois vínculos paternos, é possível que seja reconhecido o instituto da multiparentalidade, sendo incluído no registro de nascimento da Apelante o nome de seu pai socioafetivo concomitante com seu pai biológico, sem prejuízo algum.

CONCLUSÃO

O direito de família é o ramo mais complexo do Direito Civil Brasileiro, pois trata das relações mais íntimas que os seres humanos possuem: a família. Dessa forma, mesmo existindo legislações, doutrinas e jurisprudências, cada família possui um jeito de ser, sendo necessário que o jurista ou o legislador consigam compreender à realidade de cada família, buscado a satisfação de todas as pessoas.

As famílias foram modificadas nos últimos anos, sendo recriadas através de novos conceitos, orientações e reflexões, orientadas pela realidade social e pela Constituição Federal, sendo que, atualmente, o que move a família é o sentimento de afeto. Este passou a regular os vínculos da filiação, sendo que os critérios legais que antes regulavam o direito não são mais tão relevantes para orientar as famílias nos dias atuais.

No presente trabalho, o principal objetivo foi demonstrar através de doutrinas e jurisprudências, como o afeto está dominando as famílias, destacando a importância do pai afetivo em relação ao filho, este arcando com as responsabilidades da paternidade, assegurando o pleno desenvolvimento de crianças e adolescentes, propiciando amor, carinho, educação, proteção e sustento, criando, dessa forma, direitos e obrigações entre pais e filhos.

Com o reconhecimento do afeto, surgiu a Multiparentalidade, que é a possibilidade do filho possuir o reconhecimento da filiação biológica concomitante com a filiação socioafetiva, sendo que ambas devem ser registradas no assento de

devem estar em harmonia. Essa garantia no ordenamento jurídico brasileiro se dá através do reconhecimento do princípio da igualdade entre os filhos e do afeto.

Em meio aos direitos e deveres que os filhos multiparentais possuem, está inserido o direito sucessório – direito à herança. Diante da não distinção dos filhos, eles estão incorporados em meio aos herdeiros necessários, equiparando-se na sucessão com os demais filhos.

Com o reconhecimento da multiparentalidade, os filhos, possuindo dupla paternidade/maternidade, serão contemplados com o bônus da severa reciprocidade entre pais e filhos, principalmente no tocante à sucessão. É em virtude disso que os Tribunais brasileiros ainda possuem algumas resistências no tocante ao seu reconhecimento, tendo em vista que passarão a existir inúmeras demandas de cunho puramente patrimonial entre pais e filhos.

A principal finalidade dessa monografia foi analisar o instituto da multiparentalidade e seu reconhecimento jurídico, apreciando se este fenômeno contribuiu para a evolução do Direito de Família, ou se houve uma precipitação e um consequente retrocesso ao ser reconhecido em sede de Repercussão Geral.

É possível concluir que mesmo que as transformações que acontecem na sociedade requeiram uma ação por parte do ordenamento jurídico brasileiro, é necessário que haja prevenção ao serem estabelecidas algumas diretrizes, sob pena de se ver extinto o instituto familiar em sua essência, perdendo-se o verdadeiro significado de pais e mães, diante do reconhecimento da multiparentalidade visando apenas a questão patrimonial.

Por fim, é de se ressaltar que outras medidas poderiam ter sido criadas para que todos os indivíduos da relação familiar sejam beneficiados, como a criação de

No documento Multiparentalidade e Direito Sucessório (páginas 38-55)

Documentos relacionados