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Mapa 10 Migrantes nordestinos do Bairro Pintolândia: rota da

6.2 Abordagem Integradora: Multiterritorialidade

6.2.2 Multiterritorialidade do Território

O território tratado aqui é antes de tudo um território simbólico, subjetivo ou uma referência para construções de identidades, ligado a uma hibridização cultural constituída de uma identidade. Esse é um espaço cumutativo / disjuntivo; um solo que agrupa, cria e recria um ser social, um espaço de simbiose; vivem nas mesmas paisagens, participam de atividades cotidianas, de

culturas diversas, dividem representações afetivas, com cumplicidades múltiplas, formando um sistema. Enfim, é um espaço de dependências e apropriações, pertencente a diferentes conjuntos de mesma estrutura econômica, política e cultural, através dos atos cívicos, por intermédio da vida associativa multidimensional.

Dessa forma, considerar o território como um lugar subjetivo, acrescenta algo m ais, com dimensões que vão do físico ao mental, do social ao psicológico, em escalas diversas, pois na convergência destas características misturadas (de comutação /disjunção, de comensalismo / simbiose, de dependência / apropriação). No centro da noção de território, encontram-se dois sentidos: o da “identidade”, a individualidade (a maneira particular), pois o território é um espaço diferente para cada indivíduo que o compõe e o “temporal” através da evolução, das mudanças ao longo dos anos em uma localidade, uma nação que permanece substancialmente igual.

Há, portanto, uma acoplagem, um círculo dialético, dinâmico. E é este circuito em espiral que faz do território um lugar também subjetivo, onde a memória dos fenômenos culturais é e está expressa no espaço e que, como espaço produzido, é um território. A subjetividade, mesmo que em memória, modifica ou sugere um território distinto, particular; e o espaço, enquanto limite territorial, fornece uma subjetividade estável, para que o tempo, que esboça (que é a base) o ser individual ou coletivo, se exprima se transforme no lugar simbólico, na paisagem e no território, reproduzindo constantemente. Assim, o espaço se multiterritorializa com ações num tempo histórico, com a sobreposição de identidades (híbridas), recriando num movimento constante, novas características aos territórios.

Cada sujeito ou grupo, em cada um de seus atos, celebra a identidade/subjetiva. As projeções espaciais de lembranças, reconstituídas no presente e nos diversos espaços anteriormente vividos (territórios) sustenta a memória tornando o sujeito híbrido e o espaço por esse produzido numa multiplicidade cultural.

O espaço é a oportunidade fornecida às memórias, pois coloca diante dos olhos coisas e sujeitos, oferecendo a possibilidade de repensar naquilo que os momentos vividos não permitiram, oferecendo uma espécie de regeneração interativa do tempo. O espaço é memória objetiva do futuro e interpreta um papel maior na formação de identidade num complexo contexto de multiterritorialidades contribuindo para a formação social do sujeito.

O território pode, assim, como o tempo, tanto se extenuar como se confirmar. Os mesmos agentes de cristalização do território se encontram ao longo de todo o processo e esse se transforma, por sua vez, no guardião de memória.

A partir da subjetividade (lembranças identitárias) e da objetividade do espaço (paisagens construídas que identificam o território), o sujeito enquanto migrante tem sua formação social sendo constantemente reformulada, que pode ser representada apenas no momento e espaço em que se encontra, pois a partir do instante que se segue no fluxo, esse passa a ter novas identificações, portanto outro território passa a se (re) formar e enquanto sujeito social, esse ainda se encontra em formação, pois novas cargas culturais serão justapostas às anteriores.

O território construído pelo migrante enquanto sujeito híbrido é (des) provido de uma identidade mestre, que logo de início já é hibrida pelo próprio fato de que o mundo cibernético lhe assegura uma maior complexidade, mesmo sem se deslocar objetivamente do espaço, contudo essa identidade mesmo com novas relações impostas, pela dinamicidade atual é nata (própria).

Na percepção de múltiplos territórios (aqueles ainda não vividos, porém conhecidos), quando percorridos, vivenciados se arrumam se ajustam objetivamente, numa mescla de informações e imagens assimiladas e acopladas dinamicamente às anteriores, multidimensionando o poder de visão do sujeito (migrante). Mais uma vez, essa dinâmica contribui para a formação social do sujeito que sem perceber acumula identidades e reformula a sua, numa complexa teia de redes sociais que se forma, complementando o contexto analisado (Gráfico 3).

O sujeito híbrido possui concepções concretas e abstratas objetivas e subjetivas, numa complexidade de informações acumuladas tanto pelo hibridismo global como pelo aquele adquirido nas rotas dos fluxos. Assim, a multiterritorialização, que envolve o esforço de criação de novos territórios (pessoais

ou coletivos), que se fixam não num imaginário nacional, mas apenas num imaginário de autonomia local ou regional ou de soberania (poder) de seus recursos, tem sempre um esforço no sentido de criar e defender várias formas de direitos (formais ou informais, legais ou ilegais) que permitam que a comunidade deslocada (migrantes em redes sociais) continue a se reproduzir sob condições instáveis ao garantir acesso confiável aos meios materiais para reprodução.

Gráfico 3 - Formação social do sujeito enquanto migrante: o sujeito híbrido

Por todos os processos que o migrante passa, no decorrer da trajetória (Gráfico 3) carrega um conjunto de subjetividades adquiridas e acumuladas e que juntamente com a objetividade territorial (as paisagens construídas no espaço) formam o território muito mais significativo e cheios de perspectivas de uma estabilidade mais perene, formando, para si, território-rede, territórios múltiplos, na medida em que podem conjugar territórios zona (manifestados numa escala espacialmente mais restrita) através de redes de conexão (numa escala mais ampla). Enfim, manter ou recriar territórios imaginários representa uma "reterritorialização" a nível cultural que limitam e determinam os arranjos sociais, no contexto de que as culturas são coerentes, com fronteiras contíguas e persistentes e sempre se firmou na sensação de que a sociabilidade do sujeito é naturalmente localizada e limitada pelo local.

Esta idéia é absolutamente explícita nos estudos de cultura material que consideram as multi culturalismo multiterritorialidade vivências Identidade original SUJEITO HÍBRIDO hibridismo cultural Identidade híbrida territórios múltiplos territórios-rede TERRITÓRIO Território-Rede

práticas espaciais como sua fonte principal de evidência e análise, ainda há uma sensação bastante difundida de que os seres humanos são condicionados a demandar espaços de lealdade que constituem extensões do seu território.

Retomando as afirmações iniciais, não há como trabalhar hoje a Geografia numa perspectiva cultural sem entender que, ao mesmo tempo em que se projeta por todas as esferas da vida e da reflexão teórica, ela se vê -'contaminada’ por um hibridismo que, não separa natureza e cultura, materialidade e simbolismo, política, economia e cultura. Uma concepção como a de multiterritorialidade é capaz de apreender esta multiplicidade do espaço geográfico e, numa perspectiva de ênfase cultural, enfatizar os diferenciados processos de hibrid(iz)ação que se desdobram entre os grupos sociais em sua construção mais ou menos flexível, mais ou menos permeável, de seus espaços de vida.