no âmbito geral do mercado de trabalho, as mudanças são tão ou mais intensas que na própria agricultura. a emergência da globalização desencadeou um processo específico de transformações no mundo do trabalho, sendo as princi- pais de caráter qualitativo, uma vez que alterações na organização e divisão do trabalho e sua subseqüente distribuição setorial afetam todas as categorias de trabalhadores, mais fortemente aquelas categorias cujas condições de trabalho vêm se deteriorando sistematicamente.
desse modo, pode-se dizer que está em curso um aprofundamento da di- visão do trabalho, o qual tende a afastar a mão-de-obra menos qualificada dos mercados mais competitivos. Sem dúvida, essa situação parece ser mais dramá- tica naqueles países que adotaram estratégias passivas e subordinadas diante do novo cenário internacional. nesses países tem-se, ainda, o agravamento das condições de trabalho devido às políticas econômicas implementadas na última década do século 20.
O Brasil, particularmente, adotou políticas que procuraram atacar tanto os desequilíbrios macroeconômicos – como o déficit público, problemas na balan- ça comercial e o controle da inflação, quanto os desequilíbrios microeconômicos, como o desempenho da produtividade, as pressões dos custos dos insumos e a obsolescência dos investimentos anteriores.
diversos estudos mostram que essa racionalização econômica afetou a capacidade de geração de emprego de vários setores econômicos, levando a uma redução acentuada da dimensão ocupacional do trabalho assalariado, so- bretudo nos mercados urbanos e metropolitanos. a partir de então, intensi- ficou-se no país um processo de composição do mercado formal de trabalho, com destaque para o crescimento das contratações por tempo determinado e parcial; a liberdade das empresas para determinar as relações trabalhistas e a remuneração por princípios qualitativos do trabalhador, e não mais apenas pelas horas contratadas.
Considerando-se esses elementos e os limites das informações disponíveis, analisam-se algumas características do mercado de trabalho dos cem maiores tomadores de crédito do Pronaf, a partir do estoque de emprego nos municípios e no setor agropecuário, registrado pelo Cadastro Geral de emprego e desem-
Impactos do Pronaf: análise de indicadores
prego (Cagfed/MTe), além do comportamento dos postos formais de trabalho por meio do Relatório anual de Informações Sociais (Rais/MTe)11.
O movimento de contratações, demissões e o saldo dos postos formais de trabalho nos municípios do ranking (anexo 12) mostra a dinâmica do mercado formal de trabalho local e, particularmente, desse mesmo mercado no setor agropecuário.
do ponto de vista do comportamento do emprego total nos municípios estudados, verifica-se que, em 2001, o saldo foi positivo para 81 deles, ou seja, em 81% dos municípios, as contratações superaram as demissões, revelando a capacidade das economias locais de gerar emprego em um cenário adverso no âmbito do país. deve-se registrar que entre os municípios em que as demissões superaram as contratações, 11 deles se localizavam no estado do Rio Grande do Sul, o qual figura com o maior número no ranking. especificamente em relação ao setor agropecuário, nota-se que, no mesmo período, o saldo foi positivo em apenas 54 municípios. entre os municípios do ranking com saldo negativo, 24 se localizavam no RS, nove em SC e oito no PR.
no ano de 2004, esse quadro se altera consideravelmente e de forma bas- tante positiva. assim, os dados agregados revelam que em 96 municípios do
ranking ocorreu expansão do emprego formal, significando que a expansão eco- nômica agregada local teve um efeito importante sobre o mercado de trabalho, elevando o nível de contratações. esse processo também deve ter favorecido o setor agropecuário que teve saldo positivo em 72 municípios do ranking. entre aqueles municípios em que as demissões superaram as contratações, 14 se localizavam no RS, sete em SC e cinco no PR.
O mais importante é analisar o comportamento do estoque de emprego formal acumulado no período considerado (anexo 13). Para o conjunto dos setores de atividade econômica local, verifica-se que 94 municípios do ranking aumentaram o estoque de emprego, fato que pode estar indicando um processo de retomada de expansão das atividades econômicas locais. entre os municípios em que não houve elevação dos postos formais de trabalho, quatro se localiza- vam no RS e dois no PR.
em relação ao setor agropecuário, nota-se que o estoque formal de trabalho cresceu em 69 municípios da lista. Considerando-se as especificidades das re- 11 Deve-se registrar que esses instrumentos são limitados para analisar o comportamento do em- prego agrícola, devido ao elevado índice de informalidade existente neste mercado. Entretanto, diante da inexistência de dados estatísticos mais abrangentes, optou-se pelo uso do Caged e Rais.
Nead Estudos 11
lações de trabalho no setor (marcadas pela informalidade), pode-se considerar esse resultado bastante positivo, permitindo afirmar, inclusive, que as atividades econômicas ligadas ao sistema familiar de produção reagem favoravelmente quando estimuladas.
de um modo geral, o comportamento verificado nos municípios ranquea- dos poderem estar indicando uma reação do mercado de trabalho dessas loca- lidades frente ao cenário geral do país dominado pelos elevados índices de de- semprego. essa expansão da formalidade, que deverá melhorar a qualidade do trabalho, possivelmente guarda relações com o volume de recursos destinado a esses municípios, haja vista as externalidades positivas, especialmente do setor agropecuário, sobre os setores do comércio e de serviços dessas localidades12.