Aurino Ribeiro Filho1
1 Introdução
E
mmy era uma mulher gentil, de aparência séria e despojada, não muito alta, que não dava muita importância ao que vestia ou cal-çava, usava óculos, os cabelos, às vezes, não estavam arrumados, mantinha uma vida privada discreta, gostava de discutir matemática, intermitentemente, era dotada de generosidade e de franqueza em suas críticas, era brilhante, original e causava um enorme fascínio nos seus colegas e, principalmente, nos seus alunos e orientandos de ambos os sexos. Apesar de seus contemporâneos e comentadores terem ten-tado caracterizá-la assim para a posteridade, a sua carreira científica foi desenvolvida ultrapassando os cânones habituais de sua época.Ela desistiu de se tornar uma docente de línguas estrangeiras a fim de se tornar, a exemplo de seu progenitor, uma pesquisadora/professora de matemática, além de se interessar pelos problemas sociais, de seu tempo, não se esquecendo de sua condição de mulher judia, ao enfren-tar, corajosamente, as barreiras que se apresentaram às suas convic-ções políticas e ideológicas (BREWER, 1981; DICK, 1981; TENT, 2008;
NEUENSCHWANDER, 2011).
A mencionada cientista era uma mulher politizada e grande admiradora da ciência e do regime político existentes na antiga União Soviética (URSS). Ela conseguiu de maneira brilhante contribuir para a
1 Instituto de Física da UFBA – PPGFIS e PPGEFHC [email protected]
implementação ou renovação da álgebra clássica, tornando-se um dos mais reconhecidos talentos matemáticos de todos os tempos, indepen-dentemente de gênero, de tal forma que o algebrista Irving Kaplansky a rotulou de “mãe da Álgebra Moderna”. Apesar de ser considerada, na atualidade, um monstro sagrado da ciência desenvolvida no século XX, com contribuições importantes à matemática e à física, estranhamente ela se tornou uma quase desconhecida entre a juventude estudantil e pesquisadores de nossa época. O seu nome é Amalie Emily (Emmy) Noether, mais conhecida por Emmy Noether. Conforme nos relembram alguns autores (KLEINER, 2007, p. 91), outro importante matemático, Saunders MacLane, afirmou que “a álgebra abstrata, como uma disci-plina consciente, começa com o artigo de Noether, de 1921, ‘Idealtheorie in Ringbereichen´” (Teoria geral dos ideais em anéis), enquanto para Hermann Weyl ela “mudou a face da álgebra com o seu trabalho”.
Para ratificar a importância e o reconhecimento de seu imenso trabalho como algebrista, um de seus colaboradores e alunos mais pró-ximos, o holandês Bartel Leendert van der Waerden, dizia que a essên-cia do credo matemático de Emmy Noether estava contida na seguinte máxima (KLEINER, 2007, p. 92):
“Todas as relações entre números, funções e operações tornam-se lúcidas, capazes de generalização, e verdadeira-mente proveitosas, depois de serem retiradas de exemplos concretos e rastreadas a conexões conceituais”
Apesar de tais referências, Natalie Angier (2012), colunista do jornal New York Times, surpreendeu muitos dos admiradores de Emmy Noether, ao relembrar os 130 anos de seu nascimento, em artigo reedi-tado na seção História do jornal O Globo, de 7 de abril de 2012, sob o título “A matemática que o mundo esqueceu”. A citada jornalista chama a atenção para o trabalho da mencionada cientista e relembra que Albert Einstein a considerava “o mais significativo e criativo matemático do sexo feminino de todos os tempos”. Enfatiza que um dos mais impor-tantes pilares da física moderna e contemporânea é o célebre teorema demonstrado em 1918 por Emmy Noether, que une dois conceitos: as
leis universais de conservação e as simetrias na natureza. Conforme discutiremos no presente trabalho, o impacto desta contribuição cientí-fica da mencionada autora para a física-matemática influenciou a física clássica e a física moderna – mecânica, teoria eletromagnética, teorias da relatividade, teorias de campos, física não linear ... –, dando suporte teórico às mais extraordinárias descobertas da física nos últimos dois séculos.
Não é uma tarefa simples sumariar o trabalho e a influência de Emmy Noether na física e, principalmente, na matemática, campo em que demonstrou 37 teoremas; porém não é de espantar o fato de não ser ela uma cientista popular na mídia contemporânea. Como já citado antes, o fato de ser mulher, de origem judaica, simpatizante da doutrina marxista e trabalhadora talentosa, em um ramo científico (matemática) que, àquela época, para muitos machistas e preconceituosos, era uma área “inadequada” para mulheres, fez com que ela viesse sofrer dis-criminações múltiplas e, paradoxalmente, receber defesa e reconhe-cimento de figuras célebres, a exemplo do matemático David Hilbert (1862-1943), ao qual ela muito auxiliou cientificamente, inclusive como uma espécie de assistente, já que, por algum tempo, não conseguira ter uma posição de docente, da qual era merecedora, na Universidade de Göttingen (Alemanha). Esse fato desconcertante fez com que o célebre Hilbert, ao constatar a sua impotência para influenciar, positivamente, para que Emmy Noether conseguisse a posição de docente universitária a qual pleiteara, de Privatdozent, emitisse uma asserção que se tornou famosa: “Não vejo em que o sexo da candidata possa ser um argumento contra sua admissão como Privatdozent. Afinal, nós somos uma univer-sidade e não uma casa de banhos” (NASCIMENTO, 2012, p. 32).
Tentaremos destacar, um pouco, as suas contribuições à física--matemática e à matemática, a partir de um sumário de suas origens familiares, de sua formação acadêmica, bem como o impacto de suas ideias, apesar da mencionada constatação de Angier (2012) de um quase esquecimento de seu nome na atualidade. No clássico livro Men of Mathematics, o seu autor (BELL, 1937, p. 261) descreve a vida e as realizações de grandes matemáticos desde Zenon (495-435 a.C) a Poincaré (1854-1912). É interessante destacar que, mesmo não havendo
nessa publicação nenhum capítulo dedicado exclusivamente a mate-mático do sexo feminino, existe entretanto, no capítulo 22, intitulado
“Master and Pupil”, dedicado a Weierstrass (1815-1897), um certo des-taque ao trabalho de Sonja Kowalevsky (ou Sophie Korvin-Kroukowsky Kovalevskaia) (1850-1891). Além disso, no capítulo 14, sobre Gauss (1777-1855), intitulado “The Prince of Mathematicians”, são citadas duas matemáticas: Sophie Germain (1776-1831), que se correspondeu com o mencionado Gauss, e Emmy Noether (1882-1935), que é para o autor do citado livro “a mulher matemática líder de nossos tempos”.
Apesar de não relatar as contribuições científicas desta matemática; no pé de página, o autor escreve: “Quando os nazistas expulsaram a senho-rita Noether da Alemanha, porque ela era uma judia, a Faculdade de Bryn Mewr, da Pensilvânia, contratou-a. Era a algebrista abstrata mais criativa do mundo”. Com esta citação Bell destacava, mais uma vez, Emmy Noether como mulher, judia e grande matemática.