Nesta pesquisa, navegamos por ribeirões piscosos e percorremos distintas veredas, em que refresquei minha alma; junto a muitos buritis e à tororoma enredei-me pela corrente de novas águas. Primeiro, imergimos nas águas do contexto do Urucuia e dos textos de JGR. Nesse mergulho, constatamos o enredamento social do Autor, um ator que atravessa as águas urucuianas, levando ao mundo, por meio de sua obra, a palavra póetica do urucuiano. Na consciência de Riobaldo, o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia (85).
As travessias realizadas no Vale foram variadas, causaram grande repercussão, porque engendraram o real urucuiano: passadas, paragens e passagens no Vale. Entre a travessia de todos – os índios, os colonizadores, os fugitivos, os posseiros, os fazendeiros, os trabalhadores, os políticos, os escritores, os leitores, os estudantes, os ouvintes, enfim, o sertanejo – o traço constante: o humano, que, no espaço fluvial do não-humano, compõe e concretiza o social.
A existência do Rio Urucuia determina a essência do homem daquela região e seu sentimento de pertencimento. JGR contribui com a sua obra para a reafirmação desse sentimento. Nessa rede de ações e intenções, os estabelecimentos de ensino participam, apenas no sentido informativo. Isso constatado, lancei-me nas águas urucuianas, para buscar vestígios relativos à leitura e ao conhecimento de JGR.
Nessa busca, no contexto do Vale, entrei em contato com dois grupos: pessoas alfabetizadas de idades variadas, na maioria jovens, e pessoas acima de sessenta anos. Do primeiro grupo, apliquei questionários a 60 pessoas, e, do segundo, entrevistei 10 pessoas idosas. Com elas estabeleci um diálogo produtivo, mergulhando mais profundamente no espaço, no tempo e na alma urucuianos.
A partir desse mergulho, confirmei que, infelizmente, nas águas doces do Urucuia, a comunidade local não lê, efetivamente, a obra de JGR, apesar de o seu nome referendar e incentivar projetos e festas na região: o sistema literário não se completa. Tornou-se evidente o fato de as escolas, cuja função precípua é amarrar os nós das teias sociais, não participarem da
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rede que se institui em torno de JGR e do Rio. Apesar de ser o ambiente propício para o desenvolvimento da habilidade leitora dos sujeitos que passam por ela, apesar de ser reconhecida pelo seu influente papel social, a instituição escola não se revela protagonista da ação de mediar a leitura da literatura rosiana. Assim, do mergulho inicial houve muitos desdobramentos, imergi-me em outras veredas.
Durante os mergulhos, percebi que há, no contexto nacional, pesquisas realizadas na área de letras e do letramento, literário ou não; observei também que as práticas relacionadas à educação libertadora, à leitura reflexiva e construtiva ainda não se realizam, de fato, nas escolas. Muitos anunciam que a Literatura está em perigo. O preciosismo com o qual é tratada, a permanência do historicismo e da perspectiva intencionalista têm distanciado o leitor, cada vez mais, da leitura da palavra literária.
Acreditando que pesquisar é, além de detectar problemas, buscar e propor soluções – mesmo que parciais e incompletas –, resolvi executar a intervenção política, pedagógica e poética, na região de Arinos, a partir da leitura de JGR. Este processo desdobrou-se em duas fases: primeiro qualificando professores (e a mim mesma) para que tenha confiança em mergulhar na palavra artística; depois, com os professores que se dispuseram, experimentamos os sabores e os saberes encontrados nas águas lidas. Comprovamos a hipótese de que é possível a leitura significativa da obra de JGR. Todo o ser humano precisa mergulhar na efabulação da palavra. Ele tem necessidade e condições de desfrutar da literatura erudita; nossa experiência mostra que o obstáculo para a leitura erudita é a falta de oportunidade, não é a incapacidade.
Isso tanto é válido que, com esta pesquisa, comprovamos que os cidadãos menos escolarizados, no Vale do Urucuia, tal qual os do Brasil inteiro, se e quando não leem JGR, não é porque sejam incapazes, mas porque a vida lhes impõe obrigações para a sobrevivência, e não lhes oportunizou a leitura, lembramos o narrador Rodrigo S M, em A hora da estrela, que nos afirma que a leitura é um bem “supérfluo para quem tem uma leve fome” (38). Pela prática da leitura de mundo – condição necessária para a sobrevivência – chegam, se e quando podem, ao desenvolvimento da leitura da palavra escrita, também necessária e, talvez, até, da palavra literária.
A leitura da palavra é um prolongamento da leitura de mundo. Por tal constatação, concluímos e afirmamos a nossa crença de que a escola tem o dever político de formar para além dos conteúdos; deve assumir seu papel de protagonismo na grande teia social,
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contribuindo para o desenvolvimento da consciência de pertença de todas as pessoas das comunidades em que elas se situam.
Cremos e afirmamos, em consonância com Paulo Freire, que o processo pedagógico está intrinsicamente ligado à ação política. Assim, a mudança necessária para que o ensino da leitura da literatura se efetive antecede a inserção da escola nos processos sociais: a mudança deve primar pela formação continuada dos professores, no sentido de levá-los a compreender o seu papel de protagonistas nessa grande rede, atores necessários que devem marcar significativamente o outro com e pela sua passagem.
Advogamos que é urgente a formação dos professores no que se refere às pedagogias, sobretudo à pedagogia do letramento e da leitura do texto literário. Observamos que aulas de leitura não existem. Sendo uma arquicompetência, perpassa todo o fazer pedagógico, é responsabilidade de todos os docentes, independente da disciplina que ministra; mas não é domínio de ninguém. Dessa forma, ressaltamos a necessidade de que exista a aula de leitura, planejada no diálogo construtivo, em que a voz do mediador ilumine as reflexões, numa posição acolhedora de todas as vozes que se propõem a realizar a leitura de forma coletiva, ampliando a compreensão do texto literário realizada pelos estudantes.
Tal conduta associada ao planejamento pedagógico resulta numa aula produtiva, bem- sucedida. Nessa condição, o texto literário deixa de ser apenas pretexto para o ensino de conteúdos, que podem ser e são ensináveis a partir da leitura. Temos certeza de que, a partir deste relato e de outros similares, centrados na leitura, possa-se desencadear novas atitudes, aprimoradoras de caráteres, na consolidação de subjetividades singulares.
Sem a presunção de colocar o galardão desta pesquisa nos efeitos produzidos, ressalto que eles são decorrentes, necessariamente, do contato que o leitor teve com a obra de arte, o texto literário. A nossa recompensa advém não apenas do efeito; mas, sim, da possibilidade do encontro entre o sujeito e a arte, águas que marcam e fazem (re)nascer o humano. O encontro entre o homem e a arte literária reverbera efeitos estéticos.
O efeito estético, derivado da leitura da literatura, é capaz de organizar e construir discursos em perspectivas individuais e coletivas. Nisso consiste a dimensão ética da literatura. A leitura literária é discurso: um ato de interlocução entre o autor, o texto e os leitores, todos socialmente situados. A compreensão da obra de arte, a partir seus efeitos estéticos, desenvolve uma ética relacionada ao dever humano para com a comunidade. Ética e estética estão
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intimamente ligados: o dever ético está subsumido ao estético, até na estrutura da palavra. Acreditamos que a leitura da literatura é um ato humanizador.
Temos a consciência de que, em relação ao caráter estético, tanto na perspectiva pós- estruturalista quanto na focalização discursiva, considerando a imanência dos textos e a transcendência da leitura, os trabalhos resultantes das cirandas não têm grande tratamento artístico, no sentido que nos informa Jauss, poeticamente desejável. Alegrou-nos observar que os participantes das cirandas vivenciaram uma atitude responsiva em relação ao texto rosiano e em relação ao ato de ler a palavra literária; sentiram-se provocados e estimulados a escrever e fizeram do ato da escrita uma comunidade de iguais nas suas diferenças. Pela escrita literária, promovida pela leitura, os leitores também tiveram condições de socializar e perenizar o sentimento emanado do ato de ler, que, para alguns, é singular e efêmero.
Acreditamos que, por meio da leitura, enriqueceram-se os discursos dos estudantes, levando-os a produzir uma escrita criativa, menos engessada pelas categorias escolares. Os textos lidos e a produção escrita compõem a história dos leitores, enriquecendo-os e levando- os a viverem a experiência estética. As releituras e ressignificações dos textos rosianos fizeram- lhes se inscreverem nas obras, dando-lhes a possibilidade de (re)conhecerem a própria individualidade e a identidade coletiva.
Destacamos a relevância dos efeitos experimentados pelos leitores: a compreensão, traduzida diretamente na ação original de cada participante ao produzir seus textos. Pela leitura, o leitor urucuiano de JGR se transforma. As cirandas ascendem outra perspectiva acerca de si enquanto leitor e enquanto escritor, pois proporcionam a identificação, o espelhamento do leitor urucuiano real com o urucuiano transfigurado na obra de JGR.
Nesta navegação e nos reiterados mergulhos, a pesquisa mostrou o transbordamento das águas, com ancoragem no porto esperado. Confirma-se a tese de que o professor tem de ser um mediador de qualidade e eficiência para ampliar os horizontes dos aprendizes e leitores da literatura. Confirma-se a tese de que a leitura da literatura é possível e necessária; é um direito. Esperamos que o perpétuo que se instaura pelo nome de JGR continue movendo as águas da segunda margem, alargando os rios, ampliando as veredas, agregando mais águas nessa correnteza de ideias rosianas. Que as escolas, transformadas pelo processo pedagógico e pela vibração da palavra literária, contribuam significativamente para o demoramento e a expansão da literatura, constituindo a margem que JGR iluminou pela palavra poética. Que as pessoas transbordem-se em palavras e, pela palavra do Autor, reconheçam-se em sua prosa e, por meio
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de sua poética, transcendam para além de si mesmas. Que as reflexões propostas e os resultados colhidos em cada mergulho sejam divulgados e possam guiar os caminhos de muitos outros navegadores em suas travessias.
A JGR nós, professores, devemos a leitura prazerosa e reveladora de nós mesmos. O povo urucuiano deve a ele todo o louvor que o conduz, nessa travessia, por protagonizar estórias e a própria história. A palavra literária é energia e, na voz de JGR, ela vibra contagiando a todos cujo contato ocorra a partir da leitura.
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UM CHAMADO JOÃO
João era fabulista Fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum?
“Projetava na gravatinha a quinta face das coisas inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?” Tinha pastos, buritis plantados no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho?
Era um teatro e todos os artistas no mesmo papel, ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada? Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando? Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia nome, curva, fim e no destinado geral seu fado era saber
172 o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos, civilmente mágico, apelador de precípites prodígios acudindo a chamado geral?
Embaixador do reino que há por trás dos reinos, dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo? Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino? Por que João sorria se lhe perguntavam que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com… (sei lá o nome) ou ele mesmo era a parte de gente
servindo de ponte entre o sub e o sobre que se arcabuzeiam de antes do princípio, que se entrelaçam para melhor guerra, para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João e se João existiu
173 E AGORA, PROFESSOR?