R. Meu nome é JOC, mas todo mundo me conhece por (diz o apelido). Hoje eu tenho 87 anos.
P. E qual é o nome completo da senhora e a sua idade? R. ATVC, tenho 84 anos.
P. O senhor é de Arinos?
R. Sou de Arinos, fui o primeiro prefeito de Arinos e hoje sou fazendeiro aqui na região. P. E a senhora? É de Arinos?
Sou natural de Arinos. Nasci e cresci aqui, sou neta de Joaquina do Pompeu, já ouviu falar dela? Foi uma fazendeira poderosa aqui, dona de muita terra.
Sim, claro...
P. O senhor e a senhora estudaram em Arinos?
R. Estudei em Januária, fiz até o 4º ano do grupo escolar, participaram da banca da minha diplomação três professores, pessoas muito importantes na região. (o senhor busca o diploma e mostra para provar que houve banca na sua diplomação de 4º ano do grupo escolar).
P. O senhor já ouviu falar de João Guimarães Rosa.
R. Ele é muito conhecido na região sim, andou essa região toda, a cavalo, tem estória dele com uns companheiros. Eu conheço só através das estórias de Napoleão que divulga muita coisa, ele fez muita coisa sobre Buritis e Arinos. Ele divulga, teve o negócio de... de, muié me dá uma luz aqui, uma sociedade dos Urucuianos em Brasília. Ele fala dessas coisas
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tudo. Aquele negócio que Napoleão fez sobre os urucuianos em Brasília, como é que é? (A esposa trouxe um jornal antigo e mostrou para demonstrar o trabalho de Napaleão Valadares)
P. O senhor já leu alguma obra, algum texto de João Guimarães Rosa?
R. Já li sim, dele mesmo não, já li sobre ele. Já li os livros de Napoleão que fala sobre ele. Eu não sei o que... que fala sobre ele. Os livros de Napaleão fala sobre isso. Ele andou esse sertão tudo aqui, daqui para Chapada Gaúcha, andou esses trens, fazendo pesquisa de sertanejo, no município de São Francisco, Chapada Gaúcha, por exemplo, tá na confluência de 4 municípios, município de Januária, Arinos, ou 3 municípios, São Francisco né, aí a confluência, né, tá na cabecerinha do município, compreende 3 municípios, pertencia a Serra das Araras, Serra das Araras que é a vila mais velha não conseguiu se transformar em cidade, os gaúchos vieram ali para Chapada para trabalhar, pra fazer, para produzir né, que a intenção dele era essa e é até hoje, né? Ele tem fazenda aí, mas mora em Brasília. (pausa)
Guimarães passou aqui, mas não é daqui. Ele é de Codisburgo, que não é muito diferente daqui, é um sertão só. (Pausa)
O Napaleão é muito inteligente e tem a cabeça boa, por isso ele escreve sobre o Guimarães Rosa. A mãe dele queria que ele fosse médico. Eu conheci o pai dele.
P. O senhor acha que ele tem a importância que dão para ele aqui na região?
R. Que tem tem, né. Tem placa nessa região toda nas beiras de estradas sobre “sertão vereda”.
P. Napoleão é uma pessoa importante na região, é viva, estuda, pesquisa e poucas pessoas conhecem, aí e Guimarães? Guimarães está lá no passado, provavelmente só as pessoas mais velhas e que moram aqui há mais tempo e fazem parte da estória de Arinos é que devem conhecê-lo. O que o senhor acha disso?
R. Z não é de lê essas coisas assim não. P. E a senhora? Gosta de ler o quê?
R. Eu gosto de ler, mas não Guimarães Rosa.(risos) Eu não gosto de ler essas coisas assim não, eu gosto é de romance.
P. Que tipo de romance a senhora gosta de ler? R. Romance de amor (risos).
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R. Mas diz que ele era feio, mas era bão. Os velhos daqui da cidade quase todos são discípulos de Benevides, o pai de Napoleão foi aluno dele, Teté foi... (Daí resgata um texto no mesmo jornal em que havia a foto do senhor Benevides) e pede para que leia um texto em que se explora a narração de um diálogo entre uma pessoa jornalista e um caipira... o qual se encerra com a ideia de que “ Daí que cada um tem as suas ignorâncias”. (Nesse mesmo jornal há várias reportagens sobre a cidade de Buritis e daí surge a pergunta abaixo) P. Buritis tem uma cultura muito parecida com a daqui, né?
Isso aqui (aponta para a foto) aqui tem uma estória, isso aqui é na praça lá em Buritis, eu conheço lá demais (aponta para foto), e que tinha uma família ali, a família de Saturnino, a estória é um irmão dele que o cara matou, tava na porta dessa casa aqui, aqui a calçada é alta, era irmão dele, gêmeo com outra mulher, chamava Emetério e Emetéria. E teve uma desavença entre eles, e o povo de primeiro era tudo na bala, né? Com os Rodrigues, aqui que tem uma fazenda pra lá de Buriti, que chamava... Camilo... o nome da véia Noberta era o nome da mulher lá. E cá embaixo aqui nessa confrontação pra cá pra baixo assim num barrerito, tinha a casa do Marcol e a casa da outra irmã do Camilo Rodrigues. E ele entrincheirou lá na casa da irmã pra matar o outro lá na outra casa, e era uma distância enorme, rapaz, a praça que tinha a igreja, era transversal assim, aquelas casas que tem do lado de cima. E ele, o rapaz ficou lá e não saia de jeito nenhum e ele ficou lá na janela com a janela meia aberta, com a carabina esperando ele sair. E ele saiu e ele sabia que só quem fumava lá na casa era ele, né? e ele saiu fumando um cigarro e ele tirou o cigarro da boca dele na bala, mas não matou, só tirou o cigarro, já pensou como o nego era bom no gatilho, o Camilo Rodrigues, bom e aí montou na mula e trovejou no mundo, foi embora, mas teve notícia que não matou, voltou pra trás, veio e ficou lá, pra matar? pra matar, no mesmo lugar na casa da irmã, e ele saiu com uma menininha no braço, o Emetério saiu um dia de tardinha com uma menina no braço aqui do lado daqui e ele atirou por riba do peito dele, e foi uma só, e não atingiu a menina, não atingiu a menina, atirou em cima do peito dele, é irmão do Saturnino. Mas era bom motivo? E aí passados muitos anos, muitos anos, ele veio de avião aí pra ver as irmãs, né? E ele, Saturnino, era um homem assim que era só chegar procurava, hora que via qualquer movimento, procurava quem tivesse alguma condução, que tinha uns caminhão, mas não tinha quase carro pequeno. Alcides Pimentel é que foi de caminhão mais ele, chegou lá era o arqui-inimigo dele, que matou o irmão dele, mas ele
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ficou prali, mandou Alcides levar ele e ficou sozinho lá no campo. Buritis é um lugar muito perigoso, de povo matador...
P- O senhor é um verdadeiro contador de estórias, tem que registrar para essas estórias não se perderem. O senhor pensa nisso?
Pensar a gente até que pensa... Mas é muita dificuldade... Entrevista VI P. Qual é o seu nome e sua idade?
R. JS, 78 anos em agosto, pela idade eu estou mais ou menos, né? (risos) P. O senhor é de Arinos?
R. Eu nasci em Arinos em 1934, eu nasci na fazenda Barra da Vaca, sou pioneiro. Pai veio pra aqui em 1925 e pôs um comércio, eu não tinha nascido ainda.
P. Então o senhor conhece muita coisa aqui da região? R. Mais ou menos, né?
P. O senhor estudou em Arinos?
R. Eu estudei só aqui e em Formosa. Estudei só um pouco. P. O senhor já ouviu falar de João Guimarães Rosa?
R. Eu conheço, eu conheço, há muito tempo, é coisa muito importante, faz uma festa lá na Chapada Gaúcha e em Sagarana também, né? Grande descobridor disso aqui, dessa zona nossa aqui. Eu não sei bem contar não a estória de Guimarães, mas essa estória é muito bonita, né? Não me recordo a época. O comércio em Chapada divulga muito o nome dele. P. O senhor já leu alguma obra, algum texto de João Guimarães Rosa?
R. Quase que não, moça. É uma coisa muito importante, né? Deu muito nome aqui, ajudou muito, né? Coisa muito valiosa, merece mesmo ser comemorada. Existe muita comemoração. Aquele Napoleão Valadares, a senhora conhece ele? Ele sabe essas estórias todas. Você já entrevistou ele já?
Em relação algum fato importante sobre a estória de Arinos, o senhor pode nos contar alguma coisa interessante?
R- Isso aqui é o seguinte, quando nasci aqui era... era, podemos dizer, era um deserto, né? Não tinha estrada para lugar nenhum, ir a São Romão, a Formosa para estudar tem que ser a cavalo, né, sô. Só em 1952 nós compramos um caminhão, mas mesmo assim não tinha estrada, acesso a estrada. Depois de 6 meses com machado, com enxadão foi feito estrada inicialmente, aqui realmente era muito difícil, mas hoje, graças a Deus, hoje tá..., com
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Brasília aí, melhorou bastante. Tem dúvida não, né, sô, com a construção de Brasília melhorou bastante. O reflexo foi muito grande aqui, né? Sô? Melhorou pra zona toda, né? Sobre uma pessoa? Tem a Joaquina do Pompéu? Aqui foi uma pessoa muito importante, na época, ela tinha muita autoridade, ele mandava nisso aqui, ela era uma autoridade muito grande, ela era muito forte.
Entrevista VII P. Qual é o seu nome e sua idade?
R. AMJP, tenho 73 anos. P. O senhor é de Arinos?
R. Moro aqui desde antigamente, sou pessoa tradicional daqui, tenho 73 anos que moro aqui, nasci aqui pertinho. Não, 71 anos, porque 2 anos eu morei em Uberaba. Sou o funcionário mais velho inativo da prefeitura, o funcionário mais velho da prefeitura sou eu. Abri essas primeiras portas da prefeitura. Eu fiz um livro de minha autoria, da minha vida, do meu trabalho
P. O senhor estudou em Arinos?
R. Estudei pouco, mas estudei. Fiz um livro de minha autoria, do meu trabalho, da minha vida. Vou pegar para você ver. (Pega o livro e mostra)
P. O senhor já ouviu falar de João Guimarães Rosa.
R. Estória de Guimarães Rosa eu só conheço as que correm na cidade. Esse pessoal velho já morreram quase tudo. Tá pra acabar a estória de Arinos. Eu me alembro muito bem do primeiro delegado, do primeiro escrivão. Até porque o primeiro delegado que tinha aqui era um Pernambucano, chamava Zé Viana. A cadeia aqui era um pau, era uma árvore. Amarrava dois presos na árvore. E tinha um radiozinho na casa dele, não tinha delegacia né? Ele ligava pra São Romão pra trazer dois soldados pra levar esses, esses... eles vinham a cavalo. E os presos iam algemados um no outro, eu via assim oh.... eu tinha 10 anos de idade, era menino, mas menino não esquece de nada. Aí ia pra São Romão, aqui era distrito de São Romão. Aqui chamava Barra da Vaca, porque é... derivado de uma vereda que tem logo ali na frente, e atolava muito vaca. Então puseram o nome de vereda da vaca e através dessa vereda da vaca virou a população Barra da Vaca. Depois na hora de registrar, registrou Arinos, que é derivado daquele deputado Afonso Arinos. Eu mesmo não conheço nada de Guimarães, quem vai conhecer isso aí, conhece dona Zina? Não me lembro de estória dele não. Futuramente, vocês não vão saber de nada daqui, porque só tem gente de
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fora, que não conhece e não conheceu aqui. E outra coisa é jovem, jovem não sabe de nada. Só as pessoas de mais idade é quem sabe. O senhor Zebão é uma das pessoas aqui que pode te informar sobre Guimarães Rosa. Ele foi o primeiro administrador do município. Ele sabe muito, é... ele sabe... E tem a Dona Zina que foi a diretora da escola aqui muito tempo, e acompanhou o pai dela que sabia tudo... Não, era taxista, eu fui de 86 pra cá... Eu fui vítima de bandido. Eu fui vítima. Eu ganhei uma bala na nuca, ela entrou aqui e saiu aqui (apontou para a cabeça). No mato, no cerrado, de noite. Por conta de assalto, ele me puxou pro cerrado, eu e meu filho. Meu filho ele atirou no mesmo lugar, amarrado e eu caí já morrendo. E eles pegaram o carro e sumiram. Aí, meu filho me chamou, chamou... eu deitado, só respirando, eh, meu pai tá morrendo. Por ordem de Deus, eu mexi com a perna, eh, meu pai tá vivo ainda. Continuou chamando. Hoje eu acho graça da estória; mas, antes, não. Aí eu fui arrastando, segurei na calça dele e, olha, a corda estava solta. A senhora é evangélica ou católica? Que eu sou católico, mas daquele de muita fé. Aí eu pedi a Nossa Senhora Aparecida para interceder a Deus para me livrar, eu e meu filho para não morrer. Antes de levar o tiro! E aí, eu fiquei morrendo lá e ainda dei conta de levantar. A corda soltinha nele, só que ele não desatava. Procê ver, ele era forte igual eu, eu abracei ele, peguei a corda, desatei não, peguei a corda e ela saiu. O milagre foi tão grande que a corda tava solta, solta. Era um pedaço, fina. E aí, Pai o senhor tá atirado. Que eu olhei em mim, tava sangrando. Aí ele segurou no meu braço e nós fomos andando pela estrada, caçando carona. Até que eu arranjei uma, evinha da fazenda e me trouxe até aqui. Eu atirado, daí pra cá, meus filhos falaram: pai, vende esse carro e não mexe com isso mais não. Aí eu vendi, mas eu demorei. Recuperou o carro. A polícia foi e buscou o carro. Eu larguei, vendi o carro e comprei esse outro daí, para eu andar e não ficar quieto. Tô aposentado, mas não estou satisfeito, porque não é meu costume ficar assim... Eu dirigi 53 anos... Eu tenho que ficar agora quietinho... Tive 8 filhos e um neto que tá homem e que eu criei. Minha esposa teve 9 filhos, mas nós perdemos uma com 5 anos de idade. Sofreu câncer, eu também sofri câncer, quase que eu vou. Quatro tumores. Queimou. Eu estou em observação, e tem mais de 5 anos, é capaz de não ter mais nada. Eu tô fazendo os exames constante, o médico manda ou não manda eu faço por minha conta.
P. O senhor já leu alguma obra, algum texto de João Guimarães Rosa?
R. Estórias da cidade eu até conheço algumas coisas, mas não dá pra refletir. De Guimarães? Não, não, eu não conheço. Na minha época que eu estudei não falava nele.