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Níveis de realidade

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3 COMPLEXIDADE E TRANSDISCIPLINARIDADE

3.2 Transdisciplinaridade

3.2.2 Níveis de realidade

Esse não é um tema recente. Desde a antiguidade os homens imaginavam uma realidade multidimensional principalmente associado ao dogma religioso.

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A natureza da luz pode servir como um exemplo. Se considerarmos num mesmo nível a característica onda (A) e corpúsculo (não-A) da luz parecem contraditórias, mas se considerarmos em outro nível (T), o quantum, essa contradição desaparece constituindo uma unidade.

A ciência do século XVII ao XIX floresceu ao estabelecer profundas rupturas com o mundo multidimensional fundamentada na idéia de total separação entre a realidade e o sujeito que a observa.

Diante desse cenário a ciência se baseou em três idéias básicas: a continuidade (o espaço é contínuo, não se pode ir de um ponto a outro sem se passar por pontos intermediários), a causalidade local (qualquer fenômeno físico é compreendido por um processo contínuo entre causa e efeito) e o determinismo (se em dado instante soubermos a posição e a velocidade de um objeto pode-se prever sua posição e velocidade em qualquer outro instante). Dessa forma os fenômenos aconteciam somente em um nível de realidade.

Com a descoberta do quantum por Max Planck esse cenário começa a mudar, mostrando que a realidade da Física clássica, baseada no paradigma da simplicidade, não seria adequada para explicar a nova realidade que estava a se mostrar. Ele descobriu que a energia não é contínua, ela se move por saltos, derrubando, assim, a visão de continuidade prevista pela Física clássica.

Pensarmos na descontinuidade é imaginarmos um local onde não há nada, nem objetos, nem átomos, nem partículas, nada, um total vazio. E é exatamente isso que os físicos descobriram, no mundo quântico existe praticamente o vazio. Se questionarmos a continuidade é colocarmos em questão a causalidade local. No nosso mundo habitual a interação entre duas coisas diminui com o seu afastamento, porém, no mundo quântico por mais distante que os entes estejam afastados eles ainda continuam a interagir, o que nos leva ao conceito de uma causalidade global.

A idéia do determinismo foi derrubada por Werner Heisenberg. No diminuto mundo quântico as partículas ora se apresentam como onda ora como corpúsculo e não podem ser localizadas com precisão num ponto do espaço, as trajetórias desses entes quânticos não podem ser determinadas porque são duas coisas ao mesmo tempo. No mundo quântico nada é determinado com exatidão, tudo é incerto, tudo é indeterminado.

Diante dessa nova realidade a visão de um mundo unidimensional já não fazia sentido. Segundo Sousa Luz (2009, p. 25) “a partir desse ponto os físicos passaram a aceitar a existência de pelo menos dois níveis de realidade: um microfísico relacionado ao mundo quântico e outro macrofísico de dimensões supra-atômicas que coexistem sob a ação de leis totalmente diferentes”.

A idéia de níveis de realidade, segundo Mello (1999) surgiu inicialmente com o teorema da incompletude 30do matemático tcheco Kurt Gödel cuja existência foi demonstrada por ele.

Um nível de realidade corresponde, segundo Nicolescu (1999), a um conjunto de sistemas invariáveis regidos por um conjunto de leis. De acordo com o autor:

Deve-se entender por nível de Realidade 31 um conjunto de sistemas invariantes sob a ação de um número de leis gerais: por exemplo, as entidades quânticas submetidas às leis quânticas, as quais estão radicalmente separadas das leis do mundo macrofísico. Isto quer dizer que dois níveis de Realidade são diferentes se, passando de um ao outro, houver ruptura das leis e ruptura dos conceitos fundamentais

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O primeiro teorema de Gödel provou que sistemas que contém a aritmética não podem ser completos, e que alguns teoremas de teoria de números nunca poderão ser provados verdadeiros ou falsos, não importa o esforço que façamos. O segundo teorema mostra que a confiança que temos na aritmética não pode nunca ser perfeita [...]. O resultado do segundo teorema implica que, para provar a consistência de um sistema A, devemos fazê-lo ou informalmente, ou através de argumentação num sistema B. Desta forma, obtemos apenas uma consistência relativa para A, uma vez que a consistência de A agora depende da consistência de B. Mas, por sua vez, a consistência de B deve ser provada através da argumentação em um sistema C, e assim por diante. (PIMENTEL, 2005)

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Segundo Nicolescu (1999, p.28) entende-se por realidade, em primeiro lugar, aquilo que resiste às nossas experiências, representações, descrições, imagens ou formulações matemáticas.

(como, por exemplo, a causalidade). Ninguém conseguiu encontrar um formalismo matemático que permita a passagem rigorosa de um mundo ao outro. As sutilezas semânticas, as definições tautológicas ou as aproximações não podem substituir um formalismo matemático rigoroso. Há, mesmo, fortes indícios matemáticos de que a passagem do mundo quântico para o mundo macrofísico seja sempre impossível. Contudo, não há nada de catastrófico nisso. A descontinuidade que se manifestou no mundo quântico manifesta-se também na estrutura dos níveis de Realidade. Isto não impede os dois mundos de coexistirem. A prova: nossa própria existência. Nossos corpos têm ao mesmo tempo uma estrutura macrofísica e uma estrutura quântica (NICOLESCU, 1999, p. 29-30).

A existência de vários níveis de realidade coloca em xeque a percepção de um mundo contínuo, determinista, de causalidades locais e começa a dar lugar ao de um mundo descontínuo, de causalidades globais e indeterminista, um mundo de relações dinâmicas onde os opostos não se excluem mas se complementam, onde tudo e todos somos uma rede de relações e inter-relações.

O desenvolvimento da Física quântica levou ao aparecimento de pares de contraditórios tais como onda/corpúsculo, continuidade/descontinuidade, separabilidade/não separabilidade que são contraditórios se analisados através da lógica clássica e de seus axiomas.

A realidade complexa, como vista sobre a ótica transdisciplinar, não vê esses pares como contraditórios e sim como complementares. Se algo parece contraditório, se analisado num nível de realidade, existirá sempre um outro nível de realidade, na qual temos um estado T, onde aquilo que parecia desunido está realmente ligado.

Segundo Nicolescu (1999, p.55) “os diferentes níveis de Realidade são acessíveis ao conhecimento humano graças à existência de diferentes níveis de percepção”, que se acham em correspondência biunívoca com os níveis de realidade.

Esses níveis de percepção permitem uma visão cada vez mais geral, unificante, englobante da realidade, sem jamais esgotá-la inteiramente. De acordo com Nicolescu (2002, p.55) “a unidade dos níveis de percepção e sua zona complementar de não resistência constituem o que chamamos Sujeito transdisciplinar”.

Para haver comunicação, entre o Sujeito transdisciplinar e o Objeto transdisciplinar, a zona de não resistência de ambos devem ser idênticas. Se um fluxo de informação atravessa coerentemente os diferentes níveis de realidade, a esse deve corresponder um fluxo de consciência atravessando coerentemente os níveis de percepção. Os dois fluxos estão interligados graças à existência de uma só e mesma zona de não resistência.

“O conhecimento não é nem exterior nem interior: é simultaneamente exterior e

interior” (NICOLESCU, 2002, p.56). O estudo do universo e o estudo do ser humano

sustentam-se um ao outro.

A unidade aberta entre o Objeto transdisciplinar e Sujeito transdisciplinar se traduzem pela orientação coerente do fluxo de informação, que atravessam os níveis de realidade, e o fluxo de consciência, que atravessam os níveis de percepção.

Essa orientação coerente de fluxos de informação e consciência dá um novo e mais profundo sentido à verticalidade do ser humano no mundo. Uma verticalidade humana que não seja individual, mas sim uma verticalidade consciente e cósmica, que perpasse os diferentes níveis de realidade e percepção. O fundamento de todo projeto social viável, na visão transdisciplinar, se baseia nessa nova verticalidade.

A transmissão coerente da informação e da consciência, em todas as regiões do universo, só será assegurada se elas convergirem para um mesmo ponto. Esse ponto de convergência, associando a informação e a consciência, descrevem o terceiro termo do conhecimento transdisciplinar: “o termo de Interação entre o Sujeito e Objeto, que não pode

A divisão da tríade Sujeito-Objeto-Interação é radicalmente diferente do binário Sujeito-Objeto que constituiu o alicerce da lógica moderna do conhecimento.

Atualmente, com as novas descobertas da Física, a ciência percebe a complexidade que envolve o universo em diferentes níveis e o abre para o mistério da realidade e de seu leque de significados.

A existência comprovada de dois níveis de realidade, regidos por leis diferentes e que coexistem, mostra-nos que várias outras barreiras devem ser rompidas. O modelo disciplinar instaurado pela lógica clássica se mostra inadequado e com isso as fronteiras entre as disciplinas começam a ser vencidas com abordagens pluri e interdisciplinares.

Hoje, não basta estabelecer apenas o diálogo entre as disciplinas e para dar conta dessa nova visão precisa-se de uma abordagem que considere o multidimensional e o multireferencial. Estudos apontam que essa ciência começa a emergir: a transdisciplinaridade.

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