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Núcleo C – Nova subjetividade e a perda do referencial coletivo

CAPÍTULO III – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS

3.2 Núcleos temáticos do Grupo 1

3.2.3 Núcleo C – Nova subjetividade e a perda do referencial coletivo

O núcleo apresenta alguns dados sobre como as condições de trabalho produzem efeitos negativos, tanto para o trabalho na escola de uma forma geral, quanto para o trabalho dos próprios sujeitos. Os dados indicam que o controle e as políticas impostas fazem emergir o sentimento de culpa, de medo e até de responsabilização pessoal com relação aos resultados apresentados pela escola.

Subnúcleo C 1 – O medo, a culpa e a responsabilização pelos resultados da escola

A escola intensifica suas ações para consolidar as metas e resultados acordados nos planos educacionais de governo. Neste sentido, as avaliações são o centro das atividades e desenvolvimento de projetos. No entanto, os recursos se mantêm escassos e as condições de trabalho inapropriadas, a luta de todos no dia a dia tem feito emergir um sofrimento diante da impotência em reverter a situação. A entrevista da diretora demonstra esses sentimentos de culpa:

“A questão, que de repente é falha nossa... a falha nossa, dos especialistas de estar tentando, fazendo o trabalho de meio de campo de ir... de colocar mais professores neste projeto, fazer mais professores entrarem. Mediando mesmo, para mais professores entrarem. E outros professores também, eu

acho que vai mais é da comodidade mesmo. [...] eu acho que a gestão e os especialistas não estão conseguindo fazer, ou convencer” (MARIA, Diretora da escola; em 19/08/2015- Entrevista).

A diretora esclarece sobre quais pontos que prejudicam seu trabalho, mantendo a responsabilização. Os excertos longos foram mantidos para apresentar claramente um momento de “desabafo” da diretora:

“[...] muitas vezes você fica envolvida em acontecimentos nos problemas do dia-a-dia com aluno e professor e parece que quando você vai embora... é que não fez nada... que nada aconteceu... a não ser ficar apagando incêndio [...] que não foi produtivo aquele dia. Ir embora para casa com esta sensação é muito ruim, muito ruim mesmo. É decepcionante assim, é ... lidar com isto é... principalmente à noite é... Você fica pensando de repente outra pessoa no lugar poderia fazer de uma forma... quero dizer um trabalho mais eficaz, ou sei lá, fazendo as coisas acontecerem de uma maneira bem melhor do que a gente está fazendo, do que eu na realidade estou fazendo. Isto é frustrante, trabalhar com isto é muito frustrante. Não vendo as coisas acontecerem como de repente a gente idealizou, ou queria que acontecesse, então é muito frustrante.[...]Me angustia muito quando eu vejo, a supervisora fez lá o gráfico de notas, a outra fez e você olha aquele índice de alunos com média perdidas... aquilo é o resultado de um trabalho que não foi realizado, um processo que não aconteceu. Uma aprendizagem que não aconteceu então isto é muito frustrante, angustiante mesmo.[...]Este não envolvimento da família é preocupante também, mais ainda é a postura dos profissionais da educação que só querem jogar a culpa deste insucesso dos meninos para a família ou para o próprio aluno. Não chama para a gente esta falta [...]quando muitas vezes a culpa é nossa também. É nossa enquanto escola, enquanto professores, diretor também de não estar conseguindo chegar neste menino. [...] A família tem um papel importante nisto, mas se nós que somos educadores não estamos conseguindo convencê-los de que este é o caminho, isto é frustrante também. [...] São meninos que passaram pelas nossas mãos, que cresceram

aqui e é uma sensação de impotência, “poxa” passaram aqui na escola e a gente não conseguiu fazer nada [...] Muita angustiada, até doente mesmo, não deixa de ser, esta questão de você ficar... perdendo o sono algumas noites seguidas... a gente sabe que afeta mesmo fisicamente” (MARIA, Diretora da escola; em 19/08/2015- Entrevista).

Durante a entrevista, os olhos da Maria se encheram de lágrimas por alguns momentos e, assim que o gravador foi desligado e encerramos a entrevista, ela chorou. Foi triste participar deste momento. Na escola, todos vinham percebendo que, nos últimos anos, Maria tem enfrentando alguns problemas de saúde, stress, insônia, arritmia cardíaca e, recentemente, um grave problema de saúde – distúrbios da tireoide. Era comum escutar de alguns professores mais próximos a ela, que ela estava cada dia mais doente. Maria é muito comprometida e envolvida com a escola; consegue-se observar bem isto por ser alto o nível de cobrança em relação a sua função. A frustração foi uma marca constante na entrevista:

“Bom, a inspeção pode ser uma grande ajuda e é, mas me sinto tão cobrada e sei que não dou conta mesmo. Não sei se é assim, mas me frustro” (MARIA, Diretora da escola; em 11/03/2015-Diário de Campo).

A supervisora e as professoras também deixam transparecer a ideia de que a subjetividade está afetada:

“Não dá tempo, é assim parece que estou falhando sempre. Eu levo muita coisa para casa e tem dia que parece que não faço nada aqui” (LAURA, supervisora da escola: em 13/03/2015-Diário de Campo).

“Você pensa assim: eu não vou dar conta. A primeira coisa que você pensa é isto, não vou dar conta” (AMANDA, professora da escola; em 30 /10/2015-Entrevista).

“A criança não aprende, aliás você vê o desenvolvimento dela, no trabalho, aí vem a prova do Estado, e aquilo tudo cai. Será que sou incompetente?” (JOANA, professora da escola; em 10/03/2015-Diário de Campo).

“Nunca está bom, eu acho que eu tenho que mudar, mas é difícil. Você faz um trabalho na sala como acredita e o resultado não satisfaz” (BEATRIZ, professora da escola; em 5/12/2104--Diário de Campo).

“Tem dias que fico triste ao vir para cá, não estou preparada. Quando chega dia da provinha mesmo, se eles não vão bem fico muito frustrada” (GABRIELA, professora da escola; em 13/04/2015-Reunião).

O cotidiano escolar parece revelar a falta de consciência sobre todos os condicionantes do resultado. Assim, a responsabilização e a frustração emergem com frequência.