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1.3 Glossário analítico

2.1.2 O processo de iniciação do médium espírita

2.1.2.1 Na Fraternidade Peixotinho

Dentre os relatos dos médiuns que trabalham na Fraternidade Peixotinho poucos declararam ter tido o seu primeiro contato com o local por intermédio do atendimento fraterno e somente uma das entrevistadas comentou que foi nesse momento em que lhe foi revelada a sua aptidão mediúnica:

Passa por um processo do atendimento fraterno, depois para terapia de passe, de estudos dentro das obras de Kardec. Isso é num centro sério. Depois de um longo período que a gente frequenta e que procura também um trabalho que é importante na área da caridade. O leque que o centro tiver, você se integra. Então, basicamente é isso: o passe, o atendimento, o estudo e o trabalho na caridade. Então, quando eu fui receber, como ele chamava, o resultado daquele atendimento. Disseram: não. o atendimento não era para seu irmão, é para você. Você é portadora de uma coisa chamada mediunidade. E justamente o que eu estou dizendo a você, eu comecei a estudar e nesta noite eu fui colocada numa mesa, e eu comecei a servir meu lado físico para que as entidades pudessem se colocar. (Z., 68 anos, médium de incorporação,

trabalhadora-voluntária da Fraternidade Peixotinho).

De maneira geral o processo de iniciação do médium em um centro espírita ligado às federações possui as seguintes etapas:

1) contato inicial: pode ocorrer através da indicação da FEP (Federação Espírita Pernambucana), de alguma pessoa conhecida (familiares, amigos, colegas de trabalho, vizinhos), ou ainda pela tomada de conhecimento da existência do local através da campanha do quilo – momento em que os voluntários se espalham em sinais de trânsito nos arredores da Fraternidade e distribuem um panfleto onde consta uma mensagem diferente a cada semana (de um lado) e do outro as atividades e respectivos horários- dias em um quadro organizado cronologicamente além do endereço e dos meios para contato;

2) o estudo da doutrina99 e a prática de alguma atividade de caridade dentre as que são ofertadas no centro espírita – no caso da Fraternidade Peixotinho trata-se da

99

Feito de forma direcionada nas sessões de estudo da mediunidade que ocorrem nas quartas-feiras à noite e são ministradas pelo dirigente da Fraternidade.

77 distribuição de alimentos, visitas a lugares diversos (asilos, hospitais, orfanatos), dar aulas de reforço, campanhas do quilo, trabalho na cantina e na livraria. A sessão de

estudos mediúnicos, como já descrita em Leite (2011) consiste na

leitura acompanhada e comentada de algum livro espírita psicografado, normalmente os livros ditados pelo espírito André Luiz a Chico Xavier. A palestra consiste , portanto, da leitura de capítulos da obra escolhida, o que pode levar vários meses já que o foco é explicar os conceitos do Espiritismo presentes nos romances. A escolha por esse tipo de literatura está ligada à sua forma didática de expor os conceitos da doutrina espírita: por meio de estórias e personagens com os quais os leitores podem se identificar. Com isso os aspectos defendidos pelo Espiritismo são diluídos e contextualizados facilitando o seu entendimento; e, ao contrário dos livros codificados por Kardec, chegam a um número maior de pessoas, inclusive aquelas que não são espíritas. Neste ritual cabe ao dirigente fazer a leitura acompanhada dos livros abordados na palestra: o palestrante lê um trecho do livro e o comenta ou explica. Foi por iniciativa dele que esta sessão foi incorporada ao quadro de atividades do centro espírita e por tal razão assumiu a função de executa-la (P. 31);

3) curso de passe100; 4) educação mediúnica101;

5) reunião mediúnica.

A passagem da etapa 2 para as demais depende do individuo frequentar as sessões de estudo da mediunidade por um ano e comprovar a sua assiduidade por meio da assinatura de um caderno102 que é repassado entre os presentes no início da exposição e posteriormente colocado na mesa localizada na tribuna.

A progressão das etapas no contexto observado varia muito. Apesar de existir na Fraternidade Peixotinho a recomendação de que os médiuns devem frequentar a reunião de estudo da mediunidade por um ano antes de avançar para o próximo momento esse não é um fator determinante, pois de qualquer forma todos devem continuar frequentando essas sessões de estudo da mediunidade, mesmo aqueles que já

100

Durante o período da pesquisa de campo não ocorreram um cursos de passe. Eles não possuem uma frequência e periodicidade pré-determinada, variam de acordo com a demanda e a procura.

101

Serão descritas com mais detalhes no tópico “2.2.3 Reuniões da Fraternidade Peixotinho” neste capítulo.

102

Esse mesmo caderno é utilizado para sortear o nome daquele que irá proferir a prece inicial dessas sessões. O dirigente pede a um dos presentes – escolhido aleatoriamente – para dizer um número e então faz a leitura do nome ao qual corresponde na lista. A pessoa escolhida tem a opção de proferir a prece no lugar onde está sentada ou de se aproximar da tribuna e utilizar o microfone.

78 trabalham há anos nas sessões mediúnicas. Aqueles que chegam ao local já apresentando sinais claros de mediunidade ostensiva103 além de também participar dessas palestras são direcionados para frequentarem imediatamente a educação

mediúnica; existem pessoas que mesmo sendo assíduas há anos no estudo ainda não

lhe foi autorizado participar das sessões de educação ou de reuniões mediúnicas. Portanto os ciclos ocorrem com periodicidades específicas104 para cada médium, sendo as suas transições fortemente marcadas por convites e sugestões que partem dos responsáveis pelas atividades que envolvem manifestações mediúnicas e pelas sugestões dos dirigentes da Fraternidade.

O único momento de todo o percurso de iniciação mais abrangente são os cursos de passes que não tem uma recorrência com periodicidade determinada podendo ter em um ano e não no seguinte. Neles existe também uma abertura para a participação daqueles que não possuem mediunidade ostensiva, haja vista que para os espíritas todos nós possuímos mediunidade e somos capazes de doar fluidos – mesmo que minimamente.

Outro ponto a ressaltar é que ao contrário de em outros contextos – como já sinalizado, por exemplo, as religiões afro-brasileiras – não existe uma segregação entre as tarefas durante o progresso da iniciação, à medida que o indivíduo passa para uma nova etapa ocorre a acumulação das funções que já exerce: trabalhos voluntários, participação nas reuniões públicas e de estudos. Não se faz presente momentos de separação e recolhimento tais como as teorizadas por Van Gennep105, os iniciados progridem nas etapas conciliando a sua disponibilidade de tempo com as recomendações que lhes são feitas ao ponto de existirem alguns – normalmente os aposentados – que participam de todas as atividades do centro espírita ao passo de outros terem a liberdade de se afastarem ou reduzirem a sua carga-horária por motivos

103

Podem se caracterizar por: incorporações fora de uma reunião mediúnica, irritação, sonolência excessiva, dores físicas sem diagnóstico definido, crises de choro e pânico.

104

Por exemplo, nos casos em que o médium já trabalhava em outro centro espírita como integrante da equipe envolvida com atividades mediúnicas, tais como reuniões de desobsessão, ocorre uma supressão das etapas iniciais. Situações como a de Z., que chegou ao Peixotinho através de um processo de afastamento em massa de outro centro espírita por mediação de um frequentador que já tenha contato com os responsáveis pelo setor de reuniões mediúnicas.

105

Os Ritos de Passagem, 2011.

79 diversos – cuidar de parentes doentes e idosos, iniciar novo curso, mudança de emprego, etc..