• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO IV DOS DIREITOS POLÍTICOS

E, Bernardo Gonçalves Fernandes arremata:

2.2. Nacionalidade Originária e Nacionalidade Derivada

A nacionalidade primária, também conhecida como nacionalidade originária, natural

ou de origem, pode ser entendida como aquela atribuída ao indivíduo pelo fato natural do

nascimento, adquirida no momento de sua concepção, independentemente de sua vontade; por

sua vez a nacionalidade secundária, também nomeada como nacionalidade derivada,

adquirida ou de eleição, pode ser conceituada como a nacionalidade que pode ser requerida

pelo indivíduo e, portanto atribuída após o seu nascimento, ou seja, esta, ao contrário daquela,

o indivíduo possui o ânimo de escolher o vínculo da nacionalidade que deseja, mas só pode proceder dessa maneira se a ordem jurídica do Estado ao qual solicitar o estabelecimento do vínculo possibilitar a opção e o indivíduo observar os critérios estabelecidos. Como se demonstrará, o Brasil possui em sua Constituição os parâmetros para estabelecimento da nacionalidade primária e secundária.

Sobre a conceituação das espécies de nacionalidade, a lição de Bernardo Gonçalves Fernandes:

Espécies de Nacionalidade. Nacionalidade primária (originária): é aquela que surge por meio de um fato natural (o nascimento).

Nacionalidade secundária (derivada/adquirida): é aquela que surge de um fato volitivo (independe do nascimento), ou seja, de um ato de vontade do indivíduo de adquirir a nacionalidade secundária.249

Em que Rodrigo Padilha acrescenta:

Nacionalidade de origem – ou originária, ou primária, ou nata – ocorre quando o direito à nacionalidade resulta do fato do nascimento. O nascimento concede o direito à pessoa a pleitear sua nacionalidade, mesmo que esta não seja adquirida no mesmo momento.

Nacionalidade secundária, adquirida ou decorrente de naturalização ocorre quando o direito à nacionalidade se adquire depois do nascimento e por ato voluntário. Ao nascer, o nascituro não possui direito à aquisição da nacionalidade.

Ao crescer e cumprir determinados requisitos, passa a ter direito a pleitear a nacionalidade.250

Por esses conteúdos fica consolidado que a nacionalidade primária (originária) é aquela que sobrevém com o nascimento do indivíduo, fato natural que repercute juridicamente e independentemente da vontade da criança, com a atribuição do vínculo da nacionalidade.

Salientando-se que não necessariamente essa vinculação se dê de pronto, podendo haver um hiato entre o nascimento e estabelecimento do vínculo, sendo necessário que o indivíduo ou seus pais pleiteiem a nacionalidade, sendo que o nascimento concede o direito ao indivíduo pleitear sua nacionalidade, caso ela não se dê prontamente, mas tal questão não afasta essa nacionalidade como primária.

249 FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Curso de Direito Constitucional. 12ª ed. ver. atual e ampl. Salvador:

JusPodivm, 2020, p. 932. E-book.

250 PADILHA, Rodrigo. Direito Constitucional. 6ª ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2020, p.

476. E-book.

Já a nacionalidade secundária (derivada) provém de fato diverso ao nascimento, esse conceito ajuda-nos a melhor definir ambas, porque tanto a nacionalidade primária quanto secundária podem ser atribuídas posteriormente ao nascimento (sendo a nacionalidade primária, normalmente atribuída concomitantemente ao nascimento, mas não somente), mas a questão primordial é que a nacionalidade primária se dá por conta exclusiva do nascimento;

por seu turno a nacionalidade secundária é por qualquer outro fundamento que não o nascimento, podendo, dar-se por meio de naturalização, que, por exemplo, pode se dar por critérios outros, como já verificado, como, por exemplo, o indivíduo estabelecer domicílio com ânimo definitivo em outro Estado nacional, exercer atividades profissionais em prol de outro Estado que não o de origem, casar-se com nacional de outro Estado, dentre outras situações que viabilizem os indivíduos a pleitearem a nacionalidade derivada.

Luiz Alberto David Araujo e Vidal Serrano Nunes Júnior, em concordância com as primeiras conceituações, acrescentam à definição de nacionalidade primária (originária) e à nacionalidade secundária (derivada) as seguintes elucidações:

Nacionalidade primária, ou originária, é aquela que o indivíduo adquire por força do nascimento. Portanto, o vínculo jurídico estabelecido emana de uma atribuição unilateral do Estado, fazendo com que o indivíduo adquira a qualidade de nacional junto àquele, independentemente de sua vontade. Nacionalidade secundária, ou adquirida, diferentemente, é aquela que provém de uma manifestação híbrida, ou seja, de um lado, o indivíduo, apátrida ou estrangeiro, que solicita ou opta por essa nova nacionalidade e, de outro, o Estado, que assente nessa escolha, formalizando a naturalização.251

Os autores destacados, como já observado, conceituam a nacionalidade primária como aquela que independe da vontade do indivíduo a que lhe é atribuída e esta provém exclusivamente do nascimento; já a nacionalidade secundária decorre de uma manifestação híbrida, veja-se, que o indivíduo pode buscar pleitear a nacionalidade secundária junto a determinado Estado, manifestando sua vontade de que o vínculo jurídico-político lhe seja estendido, porém não basta unicamente sua vontade e opção para que dessa forma seja estabelecido o vínculo, tendo-se em vista que cabe ao Estado assentir ou não essa escolha, e somente caso o Estado aceite que será formalizada a naturalização deste indivíduo que solicita sua nacionalidade secundária.

251 ARAUJO, Luiz Alberto David; NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. Curso de direito constitucional. 23ª ed., ver.

e atual. Santana de Parnaíba/SP: Manole, 2021, p. 259.

Por sua vez, atrelando as espécies de nacionalidade, primária e secundária, com os critérios de atribuição já explorados no item acima, há a lição de Guilherme Peña de Moraes:

No tocante ao momento de aquisição, a nacionalidade é dividida em originária, também denominada nacionalidade primária, natural ou de origem, e derivada, também designada nacionalidade secundária, voluntária ou de eleição. A nacionalidade originária é adquirida por fato natural, isto é, pelo nascimento. A propósito, a nacionalidade primária, natural ou de origem é informada pelos critérios ius soli – aquisição da nacionalidade do país em cujo território tenha havido o nascimento, imanente dos Estados de imigração – e ius sanguinis – aquisição da nacionalidade dos pais à época do nascimento, inerente dos Estados de emigração. A nacionalidade derivada é atribuída por fato voluntário, posterior ao nascimento, ou seja, pela naturalização. A respeito, a nacionalidade secundária, voluntária ou de eleição é inspirada pelos critérios ius domicilii – aquisição da nacionalidade do país em cujo território tenha sido fixado domicílio – e ius laboris – aquisição da nacionalidade do país em favor do qual foram prestados serviços relevantes.252

Referido autor faz interessante e necessário paralelo entre as espécies e os critérios, e por sua explicação, nota-se que a nacionalidade primária é informada pelos critérios do jus soli e do jus sanguinis, os principais critérios de atribuição do instituto da nacionalidade, já no que diz respeito à nacionalidade secundária, esta é lastreada por outros critérios, quais sejam, o jus domicilli, o jus laboris, jus communicatio, que já foram explorados. Portanto, essa lição faz contraponto com o último item analisado, como também guarda contraponto com o próximo, ao qual é muito íntimo, e para introduzir um paralelo deste com o próximo, dentro do contexto brasileiro, há a prelação de Walber de Moura Agra:

Pode haver dois tipos de nacionalidade, o nato e o naturalizado, igualmente chamados de nacionalidade primária e secundária. Nato é aquele que sempre teve a nacionalidade brasileira, adquirida com o nascimento, sem tê-la obtido posteriormente. Esse critério de nacionalidade é realizado segundo os parâmetros do jus soli, prevalecendo o local de nascimento. Naturalizado é aquele cidadão que obteve outra nacionalidade em detrimento da sua anterior, ou seja, ele não adquiriu a nacionalidade pátria pelo jus soli, mas sim por meio de um procedimento jurídico. É o critério de aquisição em que o estrangeiro, cumprindo os requisitos dispostos em lei, pode adquirir a nacionalidade brasileira.253

Sendo a este esclarecimento acrescido o do Marcelo Gomes Franco Grillo:

A nacionalidade poderá ser originária, que sucede com o nascimento, ou derivada, que ocorre pelo ato jurídico da naturalização. Pode ser também ius soli ou ius sanguinis. A primeira é decorrente do local onde se nasce, a segunda observa critérios de conexão com a nacionalidade dos pais, podendo, deste modo, para esta

252 MORAES, Guilherme Peña de. Curso de direito constitucional. 10ª ed. ver. atual. e ampl. São Paulo: Atlas, 2018, p. 232. E-book.

253 AGRA, Walber de Moura. Curso de Direito Constitucional. 9ª ed. Belo Horizonte: Fórum, 2018, p. 352. E-book.

última, o filho nascer em um Estado diverso dos seus genitores e, mesmo assim, manter a mesma nacionalidade de seus ascendentes.

A Constituição Federal, no seu art. 12, considera que são brasileiros natos os nascidos no Brasil, ainda que de pais estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país. Vigora, aqui, portanto, o princípio do ius soli. Para o mesmo artigo ainda são considerados brasileiros natos os nascidos no estrangeiro, de pai brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do Brasil, bem como os nascidos no estrangeiro, de pai ou mãe brasileiros, desde que sejam registrados em repartição brasileira competente ou venham a residir no Brasil e optem, em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira. Nestes dois casos, o princípio é do ius sanguinis. Caso a pessoa não seja brasileira nata, em algumas situações poderá ser declarada brasileira naturalizada. Dispõe o art. 12 da CF acerca dos casos possíveis de naturalização do estrangeiro de qualquer nacionalidade. Para tanto, deverá residir no Brasil há mais de 15 anos ininterruptos e sem condenação penal e requerer a 1 nacionalidade brasileira. Preenchidas estas condições e havendo a requisição, o poder público deverá obrigatoriamente conceder a nacionalidade brasileira, tratando-se, portanto, de ato administrativo vinculado e não discricionário.254

Essas lições apontam que as espécies de nacionalidade, primária (originária) e secundária (derivativa), correspondem à nacionalidade nata e à naturalização, respectivamente. Sendo que a nacionalidade nata brasileira pode ser atribuída por meio do critério do jus soli (regra predominante), estabelecida pela regra do artigo 12, inciso I, alínea

“a”, da CRFB/88 e, também, pelo critério do jus sanguinis, conforme o artigo 12, inciso I, alíneas “b” e “c”, da CRFB/88.

Por seu turno, os casos em que os estrangeiros podem solicitar a naturalização

brasileira, ou seja, aqueles que não são brasileiros natos podem pleitear ao Estado brasileiro a

nacionalidade secundária, conforme o artigo 12, inciso II, alíneas “a” e “b”, da CRFB/88,

observados os critérios do jus domicilli e idoneidade moral, conforme será explorado no

próximo item.