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2.3 A estrutura e as componentes da Literatura para a Infância

2.3.3 Narrativa

É importante referir, de acordo com Rigolet (2009), que o livro tenha introdução, desenvolvimento e conclusão, no entanto, para falar de enredo teria que ser um grau mais complexo não podendo o livro ser aberto em qualquer página pois perderia a sequência.

De acordo com esta mesma investigadora há quatro aspetos que constituem um texto e que devem ser considerados quando se seleciona uma obra, tendo em consideração a sua adequação ao público para quem se direciona, são eles: a) Composição geral; b) Linguagem; c) Pertinência do tema e os d) Valores

a) Composição geral – equivalente à espinha dorsal, o que sustém a composição geral do livro e que implica a extração da trama de uma obra unindo as diferentes partes de um todo coerente, interligado e dinâmico. Estas diferentes partes são constituídas pela:

introdução global; introdução particular; desenvolvimento da história; conclusão particular e conclusão global. Esta informação pode ser lida, na página seguinte, e de forma detalhada no Quadro 1. Composição geral da narrativa

Quadro 1 – Composição geral da Narrativa

b) Linguagem- É preciso sublinhar que mesmo que a linguagem seja mais

complexa para o atual nível de desenvolvimento da criança, uma leitura “bem contada”

Linhas da

Composição geral Descrição das linhas da composição geral

Introdução global:

- parte da narrativa pouco precisa ficando o leitor vagamente situado quanto ao contexto geral da história;

- Engloba os seguintes itens os quais poderão, de acordo com a idade do leitor, estar mais ou menos desenvolvidos: Lugar onde a história decorre; personagens; tempo, situando o contexto onde se desenvolve; a ação, onde estão comprometidas as personagens e na qual deverá aparecer o herói, para cumprir uma missão diferente mas ligado às outras ações a decorrer.

- Nesta primeira etapa há espaço para um movimento de generalização de

compreensão, um movimento que vai do particular ao global, do singular ao plural, do regional ao universal Rigolet (2009)

Introdução particular

- Parte da narrativa que implica incutir a cada aspeto abordado um relevo que o particularize e que fomente a vontade de ler o resto da história;

- Através deste momento procura-se problematizar o assunto, levantar questões que o desenvolvimento resolverá.

Desenvolvimento da história

-Dá-se um encadeamento de ações, meandros de acontecimentos sucessivos até ao climax, momento em que tudo parece insolúvel sendo considerado o ponto alto da história, segue-se o momento de viragem;

- Nesta etapa da história podem-se considerar as descrições; definição de emoções, diálogos, as atitudes e expectativas; as frases que interligam a trama e que permitem um fio condutor; climax da história onde se acentua o suspense e antecipa-se a conclusão particular

Conclusão particular

- É um momento onde se pretende dar solução a cada personagem principal e secundária; cada ação, tempo e lugar têm um desfecho terra a terra. Dá-se também aqui um movimento retroativo, quase a relembrar o que aconteceu para trás.

Conclusão global Leva o leitor a uma espécie de moral da história, a um movimento proativo, promovendo reflexões futuras sobre o que se poderá passar.

pelo adulto pode encanta-la pela melodia da sua voz, pelo ritmo das palavras como pela beleza artística das ilustrações, criando no educando, desde cedo, uma exigência estética ímpar (Rigolet, 2009). Ao nível da linguagem utilizada e se é pretendido uma adaptação ao público para quem se dirige a obra, há alguns itens a considerar são eles:

- A composição frásica (sintaxe, discurso direto ou indireto, as ações são afirmativas ou interrogativas);

- o nível semântico (vocabulário empregue o qual deverá ser simples mas não simplista, especifico e preciso; adjetivos deverão ter uma riqueza expressiva e poderão ser substituídos por substantivos que descrevam de forma clara e simbólica o que se pretende dizer; os verbos definindo atitudes, posturas, gestos e intenções como “tentar”, “descobrir”, “seguir”; a diferença entre oralidade e a escrita usando termos como “sussurar” em vez de “falar baixinho” ou “perguntar” em vez de “fazer perguntas”; o uso

de outras expressões pouco usadas e que se distinguem na sua forma de escrita coloquial

e analista distanciando a oralidade e a escrita dando qualidade à obra, como por exemplo “tornar a fechar” em vez de “fechar outra vez”; a construção verbal que reflete, põe em hipótese, sublinhando a expectativa; as formas repetitivas as quais permitem prever acontecimentos e “entrar” na história, permitindo também a memorização de algumas partes do texto implicando previsibilidade e assegurando a compreensão progressiva do texto; a pontuação para dar ênfase a determinadas palavras ficando entre vírgulas ou o ponto final para pausas especificas; resumo das descobertas, do percurso efetuado com resultado final; presença de animais que agem e que pensam como pessoas mas que não são pessoas implicam que qualquer humano possa acompanhar o desenvolvimento da história como sendo “exterior a ele” distanciando-se das suas personagens. Para o desenvolvimento é importante “afastar-se de casa” e voltar quando se quer para reencontrar raízes, as suas referências, valores essenciais, aconchego físico e psíquico. Rigolet (2009) refere o vocabulário distinto, com bastantes adjetivos e verbos, como uma referência que implica na qualidade da obra.

c) Pertinência de um tema – O adulto deve gostar espontaneamente da obra e se possível ainda gostar mais dela quando procede à sua análise. Há que ter em consideração a forma como o tema é tratado, nomeadamente tendo em linha de conta a extensão com a

qual é aprofundado devendo promover uma sucessão de acontecimentos que criem

suspense, motivação, que permitam uma identificação com o herói sob o risco de não constituir uma história mas um acumular de situações problema; a linguagem também

deverá estar adequada ao nível de linguagem da própria criança insistindo, não nos aspetos dolorosos, difíceis e insolúveis mas deixando clara uma mensagem de esperança e de paz; os valores que são transmitidos deverão estar próximos da realidade do leitor e do ouvinte devendo ser claramente percetíveis; o humor e verdade são temas importantes que soam a autenticidade e qua apostam nos sentimentos mais puros das crianças e dão corpo à motivação para permanecer com atenção ao longo de todo o enredo.

d) Valores – É importante estar atento aos temas atuais, no entanto continuam a existir tabus e preconceitos que deverão ser de alguma forma respeitados e considerados. Um livro para crianças não deverá parecer um tratado de conceitos bem pensantes e moralizantes contudo é importante que os temas sejam atuais e concordantes com os valores do próprio mediador.

Rigolet (2009) dá ênfase ao texto e ao seu valor literário e estético como sendo importantes para a seleção da obra: as palavras deverão ser bem escolhidas, especificas, as expressões sintáticas variadas, deverá haver um entrelaçar de descrições, um discurso indireto acompanhado da ilustração. Tudo isto adjacente a um conjunto de personagens, ou humanos ou animais, com toques de humor.