O mero surgimento de um novo suporte para os meios de comunicação não faz com que uma nova gramática se estabeleça de imediato e esse meio seja utilizado em toda sua potencialidade. Fatores econômicos das empresas, em um ambiente de produção industrial, e de formação de profissionais fazem parte do caminho a ser trilhado para que as bases de um modelo sejam lançadas e para que essa nova gramática surja de forma coesa e capaz de apontar para caminhos de desenvolvimento futuros.
Experimentações e experiências se acumulam pelo caminho, são deixadas de lado ou melhoradas. Assim é o processo cumulativo que levou ao estabelecimento do ciberjornalismo como prática da comunicação social no ciberespaço e que, por certo, não surgiu pronta e acabada. Tendo em vista que o próprio meio, impulsionado pela tecnologia, se desenvolve continuamente, tampouco é possível dizer que estejamos próximos de um modelo definitivo para o fazer jornalístico ou que a gramática empregada hoje seja, de fato, a base de um paradigma perene.
35 Guardadas as devidas proporções e assimetrias, assim foi, por exemplo, com o advento do cinema. Dos primeiros filmes mudos aos filmes 3D, um século de experimentações transcorreu. “Nas três primeiras décadas do século XX, os cineastas inventaram coletivamente o meio através da criação de todos os principais elementos da narração fílmica, incluindo o close-up, a cena de perseguição e o comprimento do filme padrão” (MURRAY, 2003, p. 73).
Do que se acredita que tenha se passado na noite de 28 de dezembro de 1895 – quando os irmãos Lumière projetaram a imagem em movimento de um trem chegando à estação La Ciotat, em Paris, que teria causado pânico entre os espectadores – até o estabelecimento de uma forma narrativa própria, principalmente com a dramaturgia, o processo foi marcado por tentativas. No início, chamados de photoplays (algo como “fototeatro”), esses filmes eram experiências de arte aditivas (foto e teatro) que retratavam cenários tão estáticos quanto o movimento inexistente das câmeras. “A lenda do café de Paris nos satisfaz porque une, erroneamente, a chegada da tecnologia de representação com a do meio artístico, como se a simples construção da câmera tivesse resultado nos filmes.” (MURRAY, 2003, p. 73)
Processo semelhante de apropriação de uma nova tecnologia e desenvolvimento se passou com o livro, três séculos antes do cinema. Incunábulos: assim eram chamados os primeiros livros desde o surgimento da prensa de tipos móveis e a publicação da Bíblia de Gutenberg, por volta de 1455, até cerca de 1500. Essas obras eram como manuscritos impressos. Capítulos, parágrafos, recuos, folha de rosto, elementos que marcam a composição de qualquer obra atual não faziam parte dessas publicações. Foram necessários quase 50 anos para que o livro assumisse características próprias e se desenvolvesse de forma a estabelecer uma linguagem que permitisse à narrativa também se desenvolver.
Com o jornalismo digital ocorre o mesmo. Como visto acima, seu desenvolvimento passou e passa por diferentes etapas até a emergência do ciberjornalismo.
Num primeiro momento, os produtos oferecidos eram reproduções de partes dos grandes jornais impressos, que passavam a ocupar o espaço na internet. É muito interessante observar as primeiras experiências realizadas: o que era chamado então de ‘jornal online’, na web, não passava da transposição de uma ou duas das principais matérias de algumas editorias. Esse material era atualizado a cada 24 horas, de acordo com o fechamento das edições do impresso. (MIELNICZUK, 2003, p. 32)
Das primeiras experiências com o uso de bancos de dados integrados e participação dos leitores, via comentários nas reportagens ou endereçadas aos jornalistas, ao estágio atual de desenvolvimento, mais de uma década se passou. O período foi marcado por experimentações no mercado jornalístico e pela sistematização dessa forma de fazer jornalístico pela academia.
36 A definição e conceituação de algumas características do meio digital, computadores, tabletes, celulares, em que a prática se desenvolve, são fundamentais para o entendimento do processo. Murray (2003) define assim as seguintes características dos ambientes digitais que proporcionam uma experiência narrativa nunca antes experimentada com tamanhas possibilidades em outros meios:
A) Os ambientes digitais são Procedimentais - Dizer que os ambientes digitais são procedimentais equivale a dizer que eles respondem da forma que foram programados para responder. O computador tem o poder de processamento de regras definidas pelo seu programador. Dessa forma, uma narrativa digital somente é computada mediante instruções definidas pelos seus autores. Estas instruções formarão o enredo desejado para a narrativa, que deverão ser codificadas pelos programadores de forma a abstrair o comportamento desejado na interação do autor e sua audiência.
B) Os ambientes digitais são Participativos - Os programas de computador reagem às informações ou comandos inseridos pelo interator, proporcionando novos caminhos para suas narrativas multiformes.
C) Os ambientes digitais são Espaciais - Enquanto meios lineares como livros e filmes retratam os espaços tanto pela descrição verbal quanto pela imagem, os ambientes digitais oferecem espaços nos quais é possível se movimentar.
D) Os ambientes digitais são Enciclopédicos - O poder de armazenamento, recuperação e processamento de informação por meio dos computadores é algo além do imaginado. Esta quantidade de informação armazenada proporciona a criação de um ambiente rico em detalhes.
São essas as características que proporcionam às narrativas digitais desbravarem novos campos e formas de contar histórias e transformam o fazer jornalístico tanto quanto o jornalista, que agora deve ser capaz de entender e interpretar o meio em que está inserido e o que a ele será pedido como requisito para a elaboração de seu trabalho.
Segundo Murray, “a beleza narrativa não depende do meio. Contos de tradição oral, histórias ilustradas, peças de teatro, romances, filmes de cinema e programas de televisão, todos podem variar do fraco e sensacionalista ao comovente e brilhante.” (MURRAY, 2003, p. 255). Ou seja, a estética da narrativa não depende exclusivamente do meio. No entanto, cada meio oferece características que podem tornar a narrativa mais ou menos interessante e mais perto
37 ou não de seu objetivo. Portanto a escolha do meio pelo qual o autor deseja veicular sua narrativa torna-se uma decisão crucial para que existam mais pessoas interessadas na sua história.
Um meio com características próprias pode, também, ter estética própria. Segundo a autora, três pontos focais representam a estética do meio: a imersão, a agência e a transformação. Esses pontos são assim explicados por ela:
a) A imersão representa a experiência de ser transportado para um lugar primorosamente simulado.
b) A agência se refere à capacidade de realizar ações significativas e ver os resultados de nossas decisões e escolhas. A navegabilidade oferecida pelos espaços virtuais ou hiperlinks emerge o prazer da tomada de decisão pelo interator.
c) A transformação significa escrever as regras para o envolvimento do interator, isto é, as condições sob as quais as coisas acontecerão em resposta às ações dos participantes. (MURRAY, 2003, p. 149)
Uma vez que o ato narrativo, entendido como o estabelecimento de um fato ou de um acontecimento, bem como suas causas e consequências no espaço e no tempo, é indissociável do fazer jornalístico, e seu desenvolvimento no meio analógico e eletrônico, jornais, revistas, rádio e televisão, foram alcançados ao longo do tempo, avanços em direção ao estabelecimento de uma linguagem própria também são esperados no meio digital. Algumas iniciativas apresentadas dentro e fora dos grandes meios de comunicação, como a série aqui analisada e exemplos do jornalismo independente, já se fazem notar. Nesse cenário, Murray (2003) aponta dois caminhos possíveis:
A) Exógeno - Como a inovação e o estabelecimento de linguagem nova e própria passa pela crise identitária fundamental dessa indústria, de ter que se reinventar para sobreviver, o processo será exógeno, resultante do avanço do ato narrativo experimental vindo de fora do campo específico do jornalismo.
B) Colaborativo - Iniciativas independentes e/ou colaborativas podem ser uma saída para essa crise e apontar para novos caminhos e experimentos que tendem a refletir.
E para onde essas características e suas potencialidades apontam? De acordo com Murray, “não há, provavelmente, duas coisas mais difíceis de prever neste mundo do que o futuro da arte e o futuro do software”. Com isso, a autora defende que imaginar os desdobramentos também do ato narrativo em um ambiente tecnológico em constante mudança
38 é um ato especulativo. No entanto, ela se esforça para imaginar os impactos no porvir dessa mesma tecnologia, em especial na forma de contar histórias.
A criação e o refinamento de fórmulas narrativas são os pré-requisitos necessários para a criação de qualquer obra de arte. Sem aquelas repetitivas peças de vingança, que hoje só são lidas nas universidades, não haveria Hamlet. Tampouco o realismo psicológico de Jane Eyre poderia existir sem a simplista tradição gótica das heroínas ameaçadas e trancadas em castelos assombrados. (MURRAY, 2003, p. 259)
Marques (2016) reforça essa reflexão, mais especificamente sobre as narrativas jornalísticas e as possibilidades abertas pela tecnologia, em face do desenvolvimento de formatos digitais de storytelling, que se organiza na perspectiva da humanização do relato jornalístico, e a posição de destaque das personagens nesse contexto.
O storytelling constitui uma técnica para narrar fatos como se fossem histórias. Ao enfatizar a narração e descrição, há um esforço de recriar cenas e personagens, tarefa estética de despertar sensações no consumidor de notícia, seja ela impressa ou audiovisual, para que ele se identifique com o relato e goste do texto jornalístico como apreciaria um texto mais elaborado, propriamente literário ou poético. (CUNHA; MANTELLO, 2014, p. 58)
O que Cunha e Mantello (2014), assim como Marques (2016), defendem é que a aproximação do jornalismo do texto literário, assim como o feito pelo New Journalism, no século XX, guardando suas diferenças, dá ao leitor maior possibilidade de envolvimento com a narrativa. Esse envolvimento será fundamental para que, seja qual for a arquitetura do produto noticioso apresentado, a narrativa se imponha e prenda a atenção do leitor em uma experiência que pode recorrer nos mais diferentes formatos.
Seja qual for o caminho a seguir, o que parece certo é que a reportagem é o meio e o caminho para as experimentações. “A reportagem é um dos principais campos de experimentação que o jornalismo possui, permanecendo como uma modalidade expressiva central para a informação diferenciada, profunda e aberta.” (CANAVILHAS, 2014, p. 14)
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