DESENHO 12 – Criança autista (suj 9, experiente)
5. RESULTADOS
5.1 Concepções sobre a chamada criança autista
5.1.2 As estórias
5.1.2.2 Narrativas dos professores não-experientes
Para os docentes não-experientes, um dia de semana de uma criança dita normal envolve escola, estudo, brincadeiras e contato com a família. A escola é um local que eles acreditam ser freqüentado também pelas crianças chamadas autistas, com exceção de uma professora que se pergunta se essa criança vai à escola. Para três professores desse grupo, uma criança dita autista tem um dia de semana como qualquer outra criança, apenas necessitaria de maior acompanhamento e atenção da família e da escola.
Outros três professores focalizam características da chamada criança autista que inserem diferenças na rotina em relação à criança “normal”: é uma criança que vai à escola, mas está sempre sozinha, ou tem momentos de contato para logo retornar ao seu “mundo”; é uma criança agitada, que não pára quieta e necessita de auxílio nas atividades diárias. Uma professora afirma que a rotina dessa criança fica à mercê do que a família pode lhe oferecer; assim, famílias de maior poder aquisitivo teriam mais condições de proporcionar melhores oportunidades de tratamento, lazer e escolarização.
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Um dia de final de semana de uma criança é preenchido com passeios, visitas a parentes e brincadeiras com amigos. Diante do pedido de descrever um dia no final de semana de uma criança “autista”, surgem visões mais variadas: três professores acreditam que crianças ditas autistas têm as mesmas atividades de lazer e convívio familiar que crianças “saudáveis”, não existindo diferenças na rotina. Outros três professores pensam que o final de semana de uma criança dita autista depende do que a família lhe proporciona, podendo ser mais restrito – ficar em casa, sem atividades ou diversão - ou mais expansivo, saindo de casa e convivendo com a família e amigos. Uma professora diz que essa criança prefere ficar em casa nos finais de semana, não gosta de sair.
Quanto à sondagem do mundo interno das crianças representadas, temos os seguintes dados:
TABELA 5: respostas de professores inexperientes à pergunta “o que ela [criança] está pensando?” (N = 7)
Numa brincadeira 3
Que é feliz por ter uma família estruturada 1
Que sua vida é agitada 1
Que quer estar com a mãe 1
Não respondeu 1
Observamos que quatro entre seis professores respondentes imaginam que uma criança dita normal ocupa seus pensamentos com conteúdos agradáveis (diversão ou bem estar junto à família).
TABELA 6: respostas de professores inexperientes à pergunta “o que ela [criança autista] está pensando?” (N = 7)
Conteúdos ligados à condição autista 5
Brincadeiras, passeios 2
* “Conteúdos ligados à condição autista”: suposições de que a criança autista tem um pensamento “concreto”, relacionado ao imediato; de que ela se pergunta sobre o que há de bom em interagir com outros; que ela pensa num mundo em que só existam crianças como ela
ou pensa que está mais segura em casa do que na escola, um ambiente diferente com pessoas que não têm o mesmo amor que a família.
TABELA 7: respostas de professores inexperientes à pergunta “como ela [criança] está se sentindo? (N = 7).
À vontade, bem, feliz, alegre. 5
Às vezes feliz, às vezes triste. 1
Às vezes tranqüila, às vezes agitada. 1
TABELA 8: respostas de professores inexperientes à pergunta “como ela [criança autista] está se sentindo? (N = 7).
Triste e/ ou sozinha 4
Nem feliz nem infeliz/ a criança não expressa o que sente
2 Sente tudo o que qualquer criança sente, com mais intensidade
1
Nessas respostas, opõe-se a visão de uma infância “normal” feliz a uma infância triste que se imagina para uma criança dita autista. Há ainda professores que imaginam uma indiferença afetiva no autismo, ou uma incapacidade de expressar sentimentos. Uma professora acredita que a vivência afetiva de uma criança com autismo é mais intensa que a de uma criança dita normal.
Analisando os dados dos desenhos e estórias em conjunto, percebemos que, na produção de desenhos, os professores inexperientes distribuem-se de maneira equilibrada entre representar as crianças autistas como iguais a todas as outras ou representá-las com diferenças significativas; as professoras experientes, em sua maioria, não distinguem os dois desenhos. Nas entrevistas, ambos os grupos de professores apontam diferenças quanto ao modo de se comportar e à rotina das crianças ditas autistas. Tomando-se os dois grupos de docentes, temos que a representação de uma infância triste e solitária é mais forte nos desenhos e estórias das crianças autistas, enquanto a criança “normal” é predominantemente representada como uma pessoa alegre, despreocupada e brincalhona.
Assim narra uma professora experiente, sobre o desenho de uma criança:
No final de semana acorda tarde, (...) assiste televisão a tarde toda, sai com a mamãe pra fazer compras, volta, pega um filminho, brinca com o vídeo-
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game (...). Vai brincar com o coleguinha, na rua ou em casa (...) essa criança é uma criança feliz. Tem um lar ajustado. Tem papai, tem mamãe. (...) Tem os brinquedinhos que ele quer. (...) Enfim... é uma criança feliz. Normal. (suj. 2, exp.)
E sobre o desenho de uma criança autista:
Em casa eu acredito que ele só come e fica assistindo televisão. O dia todo. Eu não creio que esse menino saia. Às vezes o passeio que ele faz é ir pro terapeuta. (...). Eu creio que [se sente] assim, feliz, com ele mesmo, que tem um mundinho separado. Mas ao mesmo tempo triste, porque é uma pessoa inteligente, e percebe que é diferente.
Uma professora não experiente diz, a respeito da criança que desenhou:
“muita brincadeira na vida dela. E a escola (...) disponibilizando para ela todas as condições pra que ela aprenda. (...) [Sente-se] muito saudável, muito bem, muito livre.” (suj. 1, inexp.) E sobre a criança autista que desenhou:
“Eu tenho a impressão que ela se sente sempre muito só. (...) Eu acho que tem medo de se comunicar, talvez. Eu acho que ela tem medo do outro, da proximidade da outra pessoa”.
Observa-se que os dois grupos de professores entrevistados compartilham da mesma representação de infância, em que estão presentes a escola, as brincadeiras, momentos de lazer e cuidado da família. Um tempo predominantemente feliz, sem preocupações.
No que tange à imagem da infância marcada pelo autismo, tanto as professoras experientes quanto os inexperientes inserem a escola na narrativa da rotina dessa criança. A escolarização vem a ser o elemento que torna as chamadas crianças autistas iguais a todas as outras, porque na escola todas ganham a condição de aprendizes. Entretanto, os docentes destacam que a criança dita autista apresenta comportamentos bastante singulares: Tem momentos de isolamento e recusa de contato, não brinca, é agitada, possui maneirismos e comportamentos estranhos.
As professoras que possuem experiência com alunos “autistas” narram seus finais de semana (das crianças) como solitários e responsabilizam a família por não lhes proporcionar momentos de lazer. Suas narrativas têm relação com o que conhecem da rotina dos seus alunos. Já os professores inexperientes nesse campo deixam abertas algumas alternativas, e dividem-se entre acreditar que os finais de semana dessas crianças são semelhantes ao de qualquer outra, com lazer e convívio familiar, e em pensar que o final de semana vai depender
do que a família puder lhe oferecer, podendo ser mais restrito ao lar ou mais aberto a outras experiências.
Os professores experientes se dividem entre supor a existência de atividade de pensamento em crianças com autismo ou duvidar da mesma, expressando ceticismo quanto à capacidade de raciocínio lógico. Todos os professores inexperientes, todavia, supõem atividade de pensamento no autismo, embora caracterizem um “pensamento autista” a partir de conteúdos próprios e qualitativamente distintos dos conteúdos de pensamento de uma criança “normal”. Parece-nos que a aproximação real com as crianças chamadas autistas torna maior o estranhamento dos professores experientes, que se perguntam se elas raciocinam como os outros.
No grupo dos professores inexperientes, a maioria acredita que uma criança “autista” sente-se triste e solitária, enquanto as opiniões no grupo dos professores experientes dividem- se entre imaginar que as crianças se sentem felizes (na escola, em seu mundo próprio, por exemplo) ou tristes e/ ou sozinhas (em casa, por perceber que são diferentes dos outros).