PARTE I – A QUESTÃO DOS ORGANISMOS GENETICAMENTE MODIFICADOS
2.1 Nascimento e fortalecimento no Direito Ambiental
Em nível internacional, o princípio da precaução surgiu em meados da década de 60, quando a questão ambiental ganhou destaque. No entanto, foi introduzido nas políticas ambientais e positivado apenas no final dos anos 70 na Alemanha. Origina-se do direito alemão a partir do conceito do Vorsorgeprinzip, que exige atuação anterior à ocorrência do dano130.
A precaução traduz a ideia de uma atuação antecipada, consciente da possibilidade de danos irreversíveis, e racional, para com os bens ambientais, que vai além de simples medidas para afastar o risco. Pressupõe uma conduta pro ambiente e reforça a noção de que a degradação ambiental, uma vez consumada, é de recuperação improvável e de alto custo. Portanto, a ação para eliminar possíveis danos ao meio ambiente deve ser tomada mesmo antes de um nexo causal ter sido estabelecido com evidência científica absoluta131.
Importante destacar que a precaução vai além da noção de prevenção. A prevenção consiste em um mecanismo para gestão dos riscos, em curto prazo, voltado para inibir danos concretos ou potenciais, sendo esses visíveis e previsíveis pelo conhecimento humano. Ou seja, a ocorrência do dano é conhecida e esperada pela ciência. A atuação preventiva é mais ampla e genérica. Na precaução, a possibilidade de ocorrência do dano é incerta, isto é, não há
129 O tema do princípio da precaução já foi amplamente tratado em livro organizado por Marcelo Dias Varella e Ana Flávia Barros-Platiau, do qual participaram, além dos organizadores, os seguintes autores, Marie-Angèle Hermitte, Alexandre Kiss, Rüdiger Wolfrum, Philippe Sands, Nicolas de Sadeleer, Solange Teles da Silva, Virginie David, Olivier Godard, David Freestone, Helen Hey, Hélène Ruiz Fabri, Christine Noiville, Paulo Afonso Leme Machado e Aurélio Virgilio Veiga Rios (PLATIAU, Ana Flávia Barros; VARELLA, Marcelo Dias. Princípio da precaução. Belo Horizonte: Del Rey, 2004).
130 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens, op. cit., p. 174.
conhecimento da ciência sobre a existência do dano, razão pela qual a proteção deve ser realizada contra riscos sobre os quais paira incerteza científica sobre a sua existência ou ocorrência.
No caso dos organismos geneticamente modificados, afasta-se a incidência do princípio da prevenção para atrair o da precaução, tendo em vista que ainda não existe certeza suficiente quanto aos riscos causados ao meio ambiente e à saúde do consumidor pela introdução de plantas transgênicas na natureza e no mercado de consumo.
No âmbito internacional, o princípio da precaução está contido em diversos acordos internacionais, protocolos e declarações. O primeiro texto internacional que reconheceu o referido princípio foi a Carta Mundial da Natureza, em 1982. Em 1987, foi adotado na Conferência do Mar do Norte132.
Em seguida, a preocupação da sociedade internacional com o desenvolvimento sustentável e o reconhecimento de que a diversidade biológica é um bem global imprescindível para o desenvolvimento econômico e social da humanidade, de grande valor para as presentes e futuras gerações impulsionaram, em 1992, durante a Convenção das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a assinatura da Convenção sobre Diversidade Biológica, que entrou em vigor em 29/12/93133. Na ocasião, foram firmadas a Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que previram o princípio da precaução nos artigos 15134 e 3135, respectivamente.
132
SILVA, Solange Teles da. Princípio da precaução: uma nova postura em face dos riscos e incertezas
científicas. In: BARROS-PLATIAU, Ana Flavia; VARELLA, Marcelo Dias (Orgs). Principio da precaução.
Belo Horizonte: Del Rey, 2004. p. 75-76.
133 CONVENÇÃO SOBRE DIVERSIDADE BIOLÓGICA. History of the Convention. Disponível em:
<http://www.cbd.int/history/> Acesso em 22 de dez. 2011.
134 Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Princípio 15: Com o fim de proteger
o meio ambiente, o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados, de acordo com suas capacidades. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação
ambiental. NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL. Disponível em:
<http://www.onu.org.br/rio20/img/2012/01/rio92.pdf.>. Acesso em 6 jun. 2013.
135 Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Princípio 3: As Partes devem adotar medidas de precaução para prever, evitar ou minimizar as causas da mudança do clima e mitigar seus efeitos negativos. Quando surgirem ameaças de danos sérios ou irreversíveis, a falta de plena certeza científica não deve ser usada como razão para postergar essas medidas, levando em conta que as políticas e medidas adotadas para enfrentar a mudança do clima devem ser eficazes em função dos custos, de modo a assegurar benefícios mundiais ao menor custo possível. Para esse fim, essas políticas e medidas devem levar em conta os diferentes contextos sócio-econômicos, ser abrangentes, cobrir todas as fontes, sumidouros e reservatórios significativos de gases de efeito estufa e adaptações, e abranger todos os setores econômicos. As Partes interessadas podem
A Convenção sobre Diversidade Biológica é um dos principais resultados da Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro, em junho de 1992. Esse importante instrumento para o Direito Ambiental dispõe no preâmbulo que observando que quando exista ameaça de possível redução ou perda de diversidade biológica, a falta de plena certeza científica não deve ser usada como razão para postergar medidas para evitar ou minimizar essa ameaça136.
Baseado no princípio da precaução, o Protocolo de Cartagena sobre Biossegurança da Convenção sobre Diversidade Biológica representa um avanço na proteção da diversidade biológica. Estabelece regras para a movimentação de organismos geneticamente modificados vivos de um país para outro e tem por finalidade contribuir para assegurar um nível adequado de proteção no campo da transferência, da manipulação e do uso seguro dos referidos organismos resultantes da biotecnologia moderna que possam causar riscos para a diversidade biológica137.
O artigo 10.6 do Protocolo138 reconhece, em âmbito internacional, que os experimentos de engenharia genética podem ocasionar danos à saúde humana, motivo pelo qual devem ser tratados conforme o princípio da precaução139. Portanto, representa uma vitória dos consumidores, na medida em que estabelece normas que se preocupam com a saúde humana, em razão do uso de transgênicos. Além disso, serviu como fundamento para a sentença judicial que proibiu no Brasil o plantio de soja geneticamente modificada e obrigou a rotulagem de transgênicos140.
Registra-se que no âmbito da Organização Mundial do Comércio, o princípio da precaução não é mencionado explicitamente em nenhum acordo. O artigo 5.7 do Acordo realizar esforços, em cooperação, para enfrentar a mudança do clima. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/D2652.htm>. Acesso em 6 jun. 2013.
136 CONVENÇÃO SOBRE DIVERSIDADE BIOLÓGICA. Disponível em: <http://www.cdb.gov.br/CDB>.
Acesso em 6 jun. 2013.
137 CONVENÇÃO SOBRE DIVERSIDADE BIOLÓGICA. Disponível em: <http://www.cdb.gov.br/CDB>.
Acesso em 6 jun. 2013.
138 Protocolo de Cartagena.Artigo 10.6 - A ausência de certeza científica devida à insuficiência das informações e dos conhecimentos científicos relevantes sobre a dimensão dos efeitos adversos potenciais de um organismo vivo modificado na conservação e no uso sustentável da diversidade biológica na Parte importadora, levando também em conta os riscos para a saúde humana, não impedirá esta Parte, a fim de evitar ou minimizar esses efeitos adversos potenciais, de tomar uma decisão, conforme o caso, sobre a importação do organismo vivo modificado em questão como se indica no parágrafo 3º acima. PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5705.htm>. Acesso em 14 fev. 2013. 139 SOUZA, Júpiter Palagi de; SOUZA, Larissa Oliveira Palagi de. Princípio da precaução: pesquisas biotecnológicas, mudanças climáticas, disputas econômicas e organismos geneticamente modificados. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2010. p. 194.
140 A sentença proferida pela 6ª Vara da Seção Judiciária do Distrito Federal, no julgamento da Ação Civil Pública nº 1998.34.00.027682-0, será analisada na Parte II, Capítulo 4.
Sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias141 pode ser interpretado como uma sustentação ao princípio da precaução. Por essa razão, a União Européia propôs a discussão a respeito do referido princípio pela Comissão sobre Princípios Gerais do Codex Alimentarius, com o objetivo de introduzi-lo no manual de procedimentos do Codex. Do mesmo modo, pretendia incorporar o princípio nos acordos da OMC142.
No âmbito nacional, embora de forma implícita, a Constituição Federal prevê o princípio da precaução no artigo 225, ao estabelecer o dever do Poder Público e da coletividade de defender e preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado, e impor medidas para assegurar a efetividade desse direito, do qual são titulares a presente e as futuras gerações143. Além disso, o princípio da precaução está incorporado ao sistema, sendo mencionado em diversos diplomas legais.
A Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005, declarou explicitamente como princípio, ao determinar a observância do princípio da precaução no processo de licenciamento das atividades que envolvam organismos geneticamente modificados144. Como instrumento concretizador desse princípio e condição obrigatória para o licenciamento, tem-se o Estudo Prévio de Impacto Ambiental, previsto na Constituição Federal145.
Além disso, a Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, que dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, não
141 Acordo Sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias. Artigo 5.7 – Nos casos em que a evidência científica for insuficiente, um Membro pode provisoriamente adotar medidas sanitárias ou fitossanitárias com base em informação pertinente que esteja disponível, incluindo-se informação oriunda de organizações internacionais relevantes, assim como de medidas sanitárias ou fitossanitárias aplicadas por outros Membros. Em tais circunstâncias os Membros buscarão obter a informação adicional necessária para uma avaliação mais objetiva de risco e revisarão, em consequência, a medida sanitária ou fitossanitária em um prazo razoável. MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Disponível em: <http://www.itamaraty.gov.br/o-ministerio/conheca-o-
ministerio/tecnologicos/cgc/solucao-de-controversias/mais-informacoes/texto-dos-acordos-da-omc-portugues/1.1.3-acordo-sobre-a-aplicacao-de-medidas-sanitarias-e-fitossanitarias-acordo-sps/view>. Acesso em 6 jun. 2013.
142FONTE, Maria, op. cit., p. 95-96.
143 BRASIL. Constituição Federal. Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.
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BRASIL. Lei nº 11.105, de 24 de março de 2005. Art. 1º. Esta Lei estabelece normas de segurança e mecanismos de fiscalização sobre a construção, o cultivo, a produção, a manipulação, o transporte, a transferência, a importação, a exportação, o armazenamento, a pesquisa, a comercialização, o consumo, a liberação no meio ambiente e o descarte de organismos geneticamente modificados – OGM e seus derivados, tendo como diretrizes o estímulo ao avanço científico na área de biossegurança e biotecnologia, a proteção à vida e à saúde humana, animal e vegetal, e a observância do princípio da precaução para a proteção do meio ambiente.
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BRASIL. Constituição Federal. Art. 225, § 1º - Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público: (...) IV - exigir, na forma da lei, para instalação de obra ou atividade potencialmente causadora de significativa degradação do meio ambiente, estudo prévio de impacto ambiental, a que se dará publicidade.
apenas previu como incriminou a conduta de quem deixar de adotar, quando assim o exigir a autoridade competente, medidas de precaução, em caso de risco de dano ambiental grave ou irreversível146.
O princípio da precaução trata-se de um meio para combater o risco e a incerteza científica. Determina o uso da melhor tecnologia disponível, objetivando a gestão do risco e uma atuação pró-ativa ante a ameaça do dano. Desse modo, mesmo ante a incerteza científica sobre a possibilidade de que o dano ocorra, deve-se agir precocemente para evitá-lo.
Portanto, o princípio da precaução significa que quando houver ameaça de danos sérios ou irreversíveis, a ausência de absoluta certeza científica não deve ser utilizada como razão para postergar medidas eficazes e economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental. Basta apenas a probabilidade do dano para que medidas sejam tomadas para evitá-lo. Não se espera a ciência decidir pela ausência ou não do risco, pois na dúvida o meio ambiente deve ser preservado.
Levando-se em consideração a escassez dos recursos ambientais e a infinitude das necessidades humanas, é necessário refletir se a atividade a ser desenvolvida ou já em execução tem como finalidade manter processos ecológicos e qualidade de vida. O princípio da precaução equivale à busca de segurança do meio ambiente, indispensável para dar continuidade à vida147.
Portanto, não se trata apenas de determinar quais riscos a sociedade está disposta a enfrentar. Trata-se de ir além, de questionar a razão de determinada atividade econômica148. Dessa forma, somente serão legítimos os objetivos de uma dada atividade que almeje a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a erradicação da pobreza, a redução das desigualdades e a promoção do bem de todos149.
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BRASIL. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Art. 54. Causar poluição de qualquer natureza em níveis tais que resultem ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade de animais ou a destruição significativa da flora: (...) § 3º Incorre nas mesmas penas previstas no parágrafo anterior quem deixar de adotar, quando assim o exigir a autoridade competente, medidas de precaução em caso de risco de dano ambiental grave ou irreversível. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9605.htm>. Acesso em 6 jun. 2013.
147 CANOTILHO, José Joaquim Gomes; MORATO LEITE, José Rubens, op. cit., p. 177-179.
148
SILVA, Solange Teles da, op. cit., p. 84.
149 BRASIL. Constituição Federal. Art. 3º. Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Como visto, a incidência do princípio da precaução, no âmbito do Direito Ambiental, já está consolidada ao menos no plano teórico, sendo possível defini-lo como uma nova forma de gerir o meio ambiente com o objetivo de alcançar o desenvolvimento sustentável e a minimização dos riscos. Por meio de uma lógica de segurança reforçada, além da mera atuação preventiva, o princípio da precaução questiona o motivo do desenvolvimento das atividades, em função da melhor qualidade de vida das pessoas150.
No tópico seguinte, será demonstrada a necessidade de transposição do referido princípio para a seara das relações jurídicas de consumo, em homenagem à preservação da vida e da saúde humanas e da segurança alimentar. Essa transposição mostra-se mais urgente a partir do surgimento da biotecnologia e dos organismos geneticamente modificados, temas que ainda suscitam muitas divergências científicas.