3.4 O direito do consumidor à informação
3.4.2 Surgimento do Código de Defesa do Consumidor
Embora tenha rapidamente conquistado a Europa e vários outros países capitalistas, o direito do consumidor demorou a ser objeto de discussão no Brasil. Isso porque o direito do consumidor consiste em um direito típico das sociedades capitalistas industrializadas, onde os riscos do progresso devem ser compensados por uma legislação protetiva em favor de determinados sujeitos ou grupos de sujeitos251.
A acumulação das anomalias fez com que o paradigma do regime comum de direito privado aplicado às relações de consumo, no qual consumidor e fornecedor eram tratados igualmente apenas do ponto de vista formal, chegasse ao seu limite. Em meio a debates entre diversos atores políticos envolvidos com o tema defesa do consumidor, surgiu por mandamento da Constituição Federal um novo paradigma de política pública baseado no reconhecimento da vulnerabilidade do consumidor, sujeito mais fraco da relação de consumo, previsto no Código de Defesa do Consumidor.
O movimento em defesa do consumidor cresceu, lenta e gradualmente, mas o bastante para, em 1988, a Constituição Federal alçar o direito do consumidor ao status de direito fundamental e, em setembro de 1990, ser sancionado o Código de Defesa do Consumidor.
249 RIOS, Josué, op. cit., 58. 250
INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. O Idec. Disponível em:
<http://www.idec.org.br/o-idec>. Acesso em 6 jun. 2013.
De forma inédita, a proteção do consumidor como direito fundamental foi consagrada no texto constitucional. Ao dispor que o Estado tem o dever de promover, na forma da lei, a defesa do consumidor, elege o direito do consumidor ao status de direito fundamental e de cláusula pétrea252.
A inclusão do tema consumidor na Constituição Federal foi reflexo da tendência internacional e resultado da pressão interna de diversos atores e movimentos da sociedade civil, sobretudo das organizações não-governamentais, Procons, Ministério Público, sindicatos, entre outros. Porém, a evolução do direito do consumidor não se deu com a substituição imediata do paradigma dominante por outro emergente.
Influenciado por constante pressão dos movimentos sociais, o novo paradigma foi aos poucos incorporado, levando-se em consideração as consequências dos fatos na realidade social, sobretudo porque na sociedade de consumo em massa, a produção em série vem acompanhada de riscos em larga escala, o que demandava do Estado respostas mais eficientes para os problemas que envolviam relações de consumo.
Para garantir a igualdade substancial na relação de consumo o Estado decidiu intervir, tendo em vista a incapacidade do mercado para solucionar, com suas próprias regras, os problemas envolvendo o consumidor, bem como a inadequação do direito privado comum. Princípios do Direito Civil, como o pacta sunt servanda, autonomia da vontade e liberdade de contratar, além da teoria da responsabilidade civil baseada na culpa, não se mostravam adequados para reger as relações de consumo de modo eficiente e justo.
Verifica-se, dessa forma, no final do século XX, um paradigma no qual o Estado transforma-se em regulador da ordem econômica e, imiscuindo-se no paradigma da livre concorrência, visa proteger o consumidor perante o mercado. Nesse contexto de reforço do papel regulatório se insere o direito do consumidor, uma vez que suas normas consubstanciam um limite para a liberdade irrestrita de mercado, em razão da humanização dos sujeitos consumidores253.
Em harmonia com a opção pelo sistema capitalista, o texto constitucional previu a livre iniciativa como fundamento da República e da ordem econômica, ao mesmo tempo em que a própria defesa do consumidor foi elencada como um dos princípios da atividade
252
SANTANA, Héctor Valverde. A Constituição Federal e a defesa do consumidor. Brasília: Revista da Escola
da Magistratura do Distrito Federal, 2002. p. 37. 253 LÔBO, Paulo Luiz Neto, op. cit., p. 60.
econômica. Esse aparente antagonismo justifica-se na medida em que os princípios devem buscar uma convivência harmônica, não excludente. Consequentemente, a proteção do consumidor conforma-se com os delineamentos econômicos constitucionais, donde se conclui que a proteção do consumidor é compatível com a livre iniciativa e seu corolário da livre concorrência254.
Atualmente, a proteção do consumidor consiste em um valor constitucionalmente fundamental, um direito fundamental (art. 5º, inciso XXXII255, da CF) e um princípio da ordem econômica (art. 170, inciso V256, da CF), que limita a autonomia da vontade do sujeito mais forte, com vistas à permanência de um direito privado que respeita a função social257.
Registra-se que após a promulgação da Constituição Federal demorou quase dois anos para que fosse editado o Código de Defesa do Consumidor. Embora o artigo 48 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias tivesse determinado a elaboração, pelo Congresso Nacional, no prazo de cento e vinte dias da promulgação da Constituição Federal, de uma lei cujo objetivo era garantir a defesa dos direitos do consumidor.
A vitória contra o lobby e o poderio econômico das empresas ocorreu em 11 de setembro de 1990, data em que foi sancionada a Lei 8.078, conhecida como Código de Defesa do Consumidor (CDC)258. Referida lei, que entrou em vigor em 12 de março de 1991259, instituiu uma política pública260 de defesa do consumidor, ao prever um quadro de ação governamental objetivando movimentar a máquina estatal para realizar objetivos de ordem pública previamente estabelecidos.
254 SANTANA, Héctor Valverde, op. cit., p. 38.
255 BRASIL. Constituição Federal. Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: XXXII - o Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor (...).
256 BRASIL. Constituição Federal. Art. 170. A ordem econômica, fundada na valorização do trabalho humano e
na livre iniciativa, tem por fim assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social, observados os seguintes princípios: V - defesa do consumidor; (...).
257 BENJAMIN, Antonio Herman V.; MARQUES, Claudia Lima; BESSA, Leonardo Roscoe, op. cit., p. 34.
258 SILVA, Rogério da. Os 20 anos do Código de Defesa do Consumidor. Disponível em:
<http://www.upf.br/balcaodoconsumidor/images/stories/Os_20_anos_do_Cdigo_de_Proteo_e_Defesa_do_Cons umi____dor.pdf>. Acesso em 6 jun. de 2013.
259 FILOMENO, José Geraldo Brito, op. cit., p. 7.
260 [Política pública] é o programa de ação governamental que resulta de um processo ou conjunto de processos juridicamente regulados – processo eleitoral, processo de planejamento, processo de governo, processo orçamentário, processo legislativo, processo administrativo, processo judicial - visando coordenar os meios à disposição do Estado e as atividades privadas, para a realização de objetivos socialmente relevantes e politicamente determinados. Como tipo ideal, a política pública deve visar a realização de objetivos definidos, expressando a seleção de prioridades, a reserva de meios necessários à sua consecução e o intervalo de tempo em que se espera o atingimento dos resultados. BUCCI, Maria Paula Dallari. O conceito de política pública em direito.Política pública: reflexões para um conceito jurídico. São Paulo: Saraiva, 2006. p. 39.