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Achando-se agora socegado naquelle posto, cuidou Jeronimo de Albuquerque de lançar os fundamentos de uma povoação regular, onde se agremiassem os colonos, não só os que já estavam, como os que se viessem estabelecer ali. Já existia, conforme se viu, nas visinhanças do forte, um arraial a que se dava o nome de cidade dos Reis. Aquelle não era, no entanto, o local mais proprio para a futura cidade; e deliberou-se escolher um assento mais amplo, em logar mais elevado, à margem direita do rio, a cêrca de meia légua do forte. Ali demarcou Jeronimo o perímetro urbano, onde se começou logo a construir uma pequena igreja para servir de matriz, e muitas habitações que se trasladavam da cidade dos Reis (POMBO, 1922, p. 47).

A história da Cidade do Natal começa a ser contada oficialmente por ocasião da primeira missa na igreja matriz, provavelmente concluída em 25 de dezembro de 1599, erigida em um chão amplo e elevado, assim como menciona Rocha Pombo no trecho acima. No entanto, não há documentação que comprove a veracidade de todas as informações contidas neste relato do autor. Jerônimo de Albuquerque disputa o título de fundador da cidade com Mascarenhas Homem e João Rodrigues Colaço, de modo que não se sabe se

houve, e se houve, quais dos três foi o responsável pela demarcação da área urbana inicial. Além disso, houve, de fato, um pequeno assentamento perto da Fortaleza, com paliçada, erigido para a defesa contra os franceses e seus aliados índios, no início da construção da Fortaleza dos Reis Magos, isto é, é mais provável que o local servia como “canteiro de obras” e não como um primeiro sítio urbano com o nome de “Cidade dos Reis”, como disse o autor. Segundo alguns registros históricos, tanto manuscritos quanto cartográficos, o termo só aparece para a cidade em si, após a sua fundação, a meia légua de distância, num local elevado.

O que temos certeza é que um local foi escolhido pelos colonizadores, por decreto do rei Filipe, II da Espanha e I de Portugal, durante a união das duas coroas, para dar início à cidade com o propósito de assegurar a posse da região, à época muito disputada por outros países europeus, sobretudo a França. A função da cidade, portanto, foi inicialmente administrativa e militar.

Tradicionalmente, as praças portuguesas dos territórios ultramarinos resultavam das condições físicas e naturais dos locais de implantação dos núcleos urbanos. A escolha do platô elevado dá indícios desta característica, mas a forma retangular da praça inicial nos faz desconfiar que ela pode ter resultado de um plano urbanístico, sob influência do Renascimento, uma vez que a nova concepção do homem como elemento central de importância passou a refletir na organização dos espaços, que passaram a ter dimensões perfeitas e formas geométricas (BARBOSA, 2011; TEIXEIRA, 2009).

O título de cidade existe desde a época de fundação, e, portanto, é uma “cidade que já nasceu cidade”, ainda que alguns autores clássicos afirmem, sem qualquer comprovação documental, que a cidade foi vila antes de ser cidade. A primeira data na área urbana, de 14 de agosto de 1600, menos de um ano após a fundação, já a designava “cidade”. Além disso, todas as doações que constam na repartição de terras do Rio Grande, documento redigido em 1614, referem-se aos lotes doados dentro do que hoje podemos considerar “limites urbanos” de Natal, a denominavam “cidade”. Há, ainda, outros indícios que apontam que Natal já deve ter nascido com o título de cidade, ainda que não haja uma documentação definitiva sobre essa questão (TEIXEIRA, 2014).

No marco zero, onde se configurou a primeira praça da cidade, hoje conhecida como Praça André de Albuquerque (Cidade Alta) (Caderno 02 – Mapa 02), foram instalados durante os primeiros anos a Igreja Matriz, a Casa de Câmara e Cadeia e o Pelourinho – que de acordo com Rubenilson Teixeira (2009) são alguns dos símbolos expoentes da urbanização do período colonial (Figura 3). Elevações, acidentes geográficos e físicos orientaram e induziram o crescimento do tecido urbano, que a documentação histórica nos faz perceber que aconteceu de maneira muito lenta, no decorrer de três séculos.

Figura 3 - A praça central de Natal no século XVIII

Fonte: TEIXEIRA (2009).

Pombo relata que estabelecido o núcleo inicial em acordo de paz com os índios que habitavam as redondezas, muitas famílias de colonos chegaram e foram se agrupando. Eram poucos os europeus; segundo os cálculos não passaria de 80 o número de brancos no início do século XVII. Na povoação só estavam domiciliados pescadores e roceiros, pois os oficiais militares se encontravam instalados na Fortaleza dos Reis Magos, e fora do núcleo havia por volta de dezesseis aldeias de índios de “difícil convivência” (POMBO, 1922, p. 51).

As casas construídas eram poucas e precárias. De acordo com o documento da repartição de terras da Capitania do Rio Grande, de 1614, já citado anteriormente, não podemos estimar a quantidade exata, mas o documento faz 40 referências a casas na capitania, construídas, a construir, arruinadas, entre outros estados. Sendo que destas, no sítio urbano propriamente dito, existiam pelo menos 16 casas. Quanto aos materiais empregados, encontra-se o registro de casas de palha, algumas com telhas, mas a maioria empregava o barro e a taipa. Contudo, em 1602, náufragos que estiveram em Natal relatam três casas construídas em pedra e cal (TEIXEIRA, 2014, p. 116).

Portanto, a cidade tem um início muito frágil, como era de se esperar. Esta foi a situação de Natal por muito tempo, mesmo que, muito lentamente, a cidade fosse se consolidando como urbe.