4 A VILA
4.6 NATANAEL, UMA PAISAGEM E NUVENS DE ALGODÃO
Um daqueles momentos raros quando, em um ambiente tão marcado pela violência, algumas sutilezas e gestos me marcaram profundamente. Havia um rapaz
de cabelos lisos chamado Natanael. Lembro-me de que um dia, logo após chegar em casa, ainda criança, vi dois homens com os uniformes dos detentos, olhando uma das paredes externas de casa. Perguntei aos meus pais o que estava acontecendo. O que me responderam algo como: este preso vai pintar um quadro aqui na parede de casa. Fiquei surpreso, e profundamente animado com aquele acontecimento. Surpreso porque não compreendia ao certo as possibilidades de um detento ser, ao mesmo tempo, detento e artista. E animado por razões óbvias, poderia presenciar um artista pintar um quadro enorme, provavelmente algo por volta de 2 metros de comprimento por 1,5 metro de largura.
Pergunto a meus pais se poderia acompanhar processo de confecção daquele quadro. Deixaram. Fiquei a semana toda, no alto dos meus 7 ou 8 anos, acompanhando cada traçado que o artista fazia. O grande desafio para mim era descobrir, o mais rápido possível, qual era a imagem que iria se desvelar. Lembro-me de que era sério, e seu cabelo muito preto e muito liso, dava a impressão de que teria sido obra do próprio artista, que confeccionou cabelos para si mesmo. De todo modo, observava as tintas, os pincéis e todas as ferramentas que foram providenciadas para que ele pudesse terminar seu trabalho.
Sempre acompanhado por um guarda, responsável pela nossa “segurança”, o criminoso, com suas armas tonalizantes, começava seu trabalho rabiscando com pedaço de grafite grande as linhas que posteriormente seriam pintadas. Com uma calma e paciência somente presente nos artistas e nos que tinham raras oportunidades de liberdade em uma prisão, Natanael traçava e coloria. Aquele evento tornou-se para mim um compromisso diário de observação. Ao chegar da escola, parava por vários minutos na frente daquele imenso quadro, tentando decifrar seu resultado final. Passados alguns dias observando o quadro, descubro: uma paisagem campestre, um final de tarde no campo, onde um riacho percorria todo o quadro, verticalmente, e ia se alargando até chegar em uma pequena choupana, onde havia um cavalo perto da margem.
Ao chegar perto do fim de sua obra de arte, noto que ele estava terminando de pintar o céu, colorindo com azul ao redor das nuvens. Essas nuvens me intrigavam porque possuíam uma textura incrivelmente realista, e não conseguia entender qual foi a técnica que ele teria usado para conseguir tamanha precisão. Tomo coragem e
pergunto como ele fazia as nuvens. Depois de um momento de silêncio me responde: São feitas molhando a tinta no algodão e, como uma esponja, depois de embebidas em tinta, só é necessário tocar a parede para conseguir este efeito. Foi a única vez que conversei com Natanael. Em um dia qualquer, ele já não estava mais lá. Apenas um quadro enorme, a paisagem que ele pintara durante algumas semanas, estampada em uma das paredes da área externa da minha casa. Fico pensando os porquês de sua passagem pela prisão. Espero realmente que aquele quadro tenha provido a ele algum sopro de liberdade em meio à sua privação.
É claro que Natanel não era o único detento que podia exercer atividades fora da prisão. O trabalho (remunerado ou não) fazia parte do dia a dia dos presos principalmente em um momento em que as “prisões albergue” ainda eram a política prisional vigente no Estado de São Paulo. Como indicado por Silvestre (2012), a partir da década de 1970, e sobretudo com a criação da COESPE, as políticas ressocializadoras dentro dos presídios ganham um certo protagonismo durante alguns anos. Estas políticas tinham como ponto fundamental a ideia da ressocialização pelo trabalho, onde os presos poderiam exercer atividades profissionais durante os dias, voltando para a prisão ao fim do expediente.
Estas atividades, variavam de acordo com a localização da unidade prisional e dos acordos entre o corpo gestor e os eventuais empregadores. Em uma época de autonomia da gestão prisional, os diretores tinham total liberdade de alocar os detentos nas mais variadas funções. Em uma conversa com um interlocutor, me contou que as triagens variavam de unidade para unidade prisional, ficando ao encargo de cada gestor elaborar suas estratégias. Me conta que, em sua unidade, ainda no início dos anos 1990, criaram o RO (Regime de Observação). O RO tinha como função identificar, através da leitura de prontuário e da observação do comportamento cotidiano do preso durante algumas semanas, seu grau de periculosidade. Ao chegar na unidade prisional, o preso recém-chegado era encaminhado para a inclusão30, onde após este período de observação era encaminhado para um dos três raios da unidade. No raio 1 ficavam os presos de menor periculosidade, no 2 os de médio grau e 3 os mais perigosos. Dessa maneira,
30 É chamado “inclusão” o primeiro procedimento em que o detento é submetido ao ingressar em uma
os detentos que tinham a possibilidade de trabalhar fora da unidade eram sempre os que estavam alocados no primeiro raio. No caso da vila, os detentos eram encarregados de cortar a grama, fazer reparos ou reformas nas casas. Normalmente entre 5 a 10 presos, escoltados por guardas passavam as tardes nos quintais fazendo esses serviços.
Interessante notar também que não havia sensação de medo em relação a presença dos detentos nas casas.
E - O que você achava dos presos que iam trabalhar lá?
Interlocutor - Achava de boa. Eu não tinha o menor medo, eu tinha uma curiosidade, eu lembro de um cara, inteiro tatuado, meio loiro, assim, mas eu lembro, os caras não olhavam para a gente. Não olhava. A gente podia sair com uma melancia na cabeça e os cara nem aí (INTERLOCUTOR 11).
Veja que a ausência de medo também pode ser compreendida como uma clara separação entre a posição que o preso ocupa na hierarquia prisional. Em um momento onde a autoridade do gestor era total e certamente onde parte desta autoridade vinha de procedimentos de controle violentos por parte dos encarregados da segurança na prisão, os detentos não olhavam para os filhos dos gestores não apenas por uma espécie de respeito hierárquico, mas porque tinham medo. Medo de que um contato visual, ou uma conversa, poderia desencadear uma falta disciplinar ou mesmo algum tipo de assédio moral, que resultaria sem dúvidas em duras punições. Isto remete sem dúvidas à própria história das prisões. Como vimos nos capítulos anteriores, a violência física contra os detentos sempre fez parte da pena de privação de liberdade. Os maus tratos, no Brasil agravado pela sua brutal desigualdade social e pela ditadura militar, o detento sempre estava potencialmente prestes a cumprir uma espécie de pena pré-moderna infligida em seu próprio corpo, como podemos observar em Moraes (2005) e Silva (1999). As gestões caminharam entre a linha da violência e recuperação. Naquele momento, no complexo Campinas- Hortolândia, grande parte do corpo diretivo vinha de unidades do tipo “prisão albergue”, principalmente Itirapina-SP, o que pode sugerir que as estratégias herdadas dessa unidade foram realocadas para o complexo, como por exemplo o trabalho nas casas. Por outro lado, é impossível descolar essas heranças ressocializadoras com a prática já enraizada de gestão prisional, distante de questões humanitárias.