Do ponto de vista estritamente metodológico, tipologias e taxonomias são técnicas de classificação e como tal, estão presentes em muitos processos centrais em nossas vidas. Por essa razão, muitas vezes falhamos ao analisá-las ou deixamos de reconhecê-las. (BAILEY, 1994, p.1)
A classificação é utilizada em estatística. O uso da distribuição de freqüências para organizar uma tabela resumida na qual os dados são organizados em grupos de classe ou categorias convenientemente estabelecidas e numericamente ordenadas é uma forma de classificação.
Se a classificação está baseada apenas em uma dimensão ou característica é chamada de unidimensional. Uma classificação multidimensional é aquela que envolva mais de uma característica. No caso de classificações multidimensionais, é possível estabelecer critérios de relação ou correlação entre as dimensões. (BAILEY, 1994, p. 4)
A palavra tipologia também pode ser usada como outro termo para definir uma classificação. Entretanto, uma tipologia se difere de uma classificação comum por duas características distintivas: (a) é multidimensional e (b) é conceitual, sendo que usualmente pressupõem a existência de nomes ou etiquetas em suas células.
Babbie (2003, p. 240) aponta que muitas vezes ao se tentar construir um índice ou uma escala, acaba-se por chegar a uma tipologia. A problemática se dá na análise tipológica. Se a tipologia for utilizada como variável independente, a análise se dá sem problemas, visto que os efeitos das atitudes em relação a um dado objeto podem ser computados, apresentados em porcentagens e examinados.
No caso oposto, onde a tipologia é a variável dependente, a análise é mais complexa, pois a interpretação dos dados se dá em áreas não descritivas e não
permite generalizações. Nestes casos as dimensões devem ser analisadas separadamente e contextualizadas para seu exame.
Para Bailey (1994, p. 5) a tipologia é vista como um tipo de classificação conceitual, onde as células representam tipos-conceito ao invés de casos empíricos. A classificação de entidades empíricas é chamada de taxonomia. Assim, a tipologia é conceitual e a taxonomia é empírica.
Na tipologia se utilizam os termos tipo e tipos-conceito e na taxonomia utilizam os termos taxa e taxas. Enquanto a tipologia é mais utilizada nas ciências sociais, a taxonomia é geralmente mais aplicada em ciências biológicas, sendo que na maioria das vezes são hierárquicas e evolucionárias. (BAILEY, 1994, p. 6)
A construção clássica de uma tipologia passa pela definição do tipo-conceito Weberiano, também chamado de tipo-ideal. Este tipo-ideal não existe empiricamente e é usado para estudar o grau em que um caso empírico concreto difere do ideal. Um desenvolvimento do tipo-ideal é o tipo-construído proposto por Becker (1940
apud BAILEY, 1994, p. 22) e que se difere do tipo-ideal no sentido em que não se
trata de uma forma acentuada ou extrema, mas de uma forma mais central ou comum, uma forma empírica.
Sem se preocupar com questões metodológicas, Don Tapscott cunhou em 1998 o termo “geração Net” para definir aqueles nascidos entre 1977 e 1997. Esta é a primeira geração que chegou à idade adulta na era digital e que, pela primeira vez na História, está mais adaptada e cômoda que seus pais com uma inovação central à sociedade. (TAPSCOTT, 2009, p. 4)
Em 2010, os mais velhos desta geração chegaram à idade de 33 anos e os mais novos aos 13 anos e ocupam espaços no mercado de trabalho, no mercado de consumo e em cada nicho da sociedade, trazendo consigo seus modelos de colaboração, empreendedorismo e força política.
Para Napoli e Ewing (2001, p.22) esta geração possui um forte sentido de independência e autonomia, são assertivos, autoconfiantes, inovadores, curiosos e expressivos tanto intelectual quanto emocionalmente. É uma geração sofisticada do ponto de vista tecnológico e que assimila inovações e novas idéias em seu ambiente cotidiano.
Ainda que sem adotar uma abordagem empírica, Marc Prensky cunhou os termos Nativos Digitais e Imigrantes Digitais em dois artigos publicados entre outubro e dezembro de 2001 na revista On the Horizon, gerando assim uma definição abrangente para analisar as mudanças nos padrões de pensamento e cognição dos alunos contemporâneos.
O ponto de partida de seu primeiro artigo foi uma reflexão a respeito dos debates sobre o declínio da educação nos Estados Unidos. Para Prensky (2001a, p.1), ignorava-se a mais fundamental das causas: os estudantes haviam mudado radicalmente e já não eram as pessoas para as quais o sistema educacional fora projetado.
Por outro lado, esta nova geração de estudantes provocaria uma cisão entre as relações professor-aluno, opondo os Nativos Digitais (alunos) aos Imigrantes Digitais (professores) que, como quaisquer outros imigrantes, apresentariam dificuldades para dificuldades para aprender o novo idioma e permaneceria com seu antigo sotaque, exemplificado como a impressão de um e-mail.
De maneira análoga, a definição de Tapscott (2009) para a Geração Net inclui uma série de pressupostos sobre esta dicotomia, reforçada pela ênfase dada nas características destes jovens que, tendo crescido com computadores e Internet, apresentam então uma aptidão natural e habilidades superiores no uso de novas tecnologias quando comparados às gerações anteriores que são caracterizadas como estando a um passo atrás e incapazes de atingir os padrões de fluência que fazem parte do arcabouço daqueles que cresceram com as novas tecnologias digitais.
O uso da linguagem em um discurso persuasivo por meio do qual se busca convencer uma audiência da verdade de algo é conhecido com retórica (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2006, p. 240). Esta técnica argumentativa que não se baseia na lógica nem no conhecimento, emprega a linguagem habilmente e dessa forma impressiona os ouvintes favoravelmente.
Se os termos Nativos Digitais e Imigrantes Digitais tornaram-se referência nos discursos sobre os usos e necessidades da tecnologia em educação, também foram alvo de críticas e questionamentos sobre sua validade empírica e categorizados como retórica, sem fundamentação científica, levando a uma redução binária, simplista, mediante a categorização por gerações, desconsiderando outros fatores de influência como idade, sexo e contexto sócio-econômico. (BAYNE e ROSS, 2007)
Para Kennedy et al. (2008, p. 109), esta simplificação da realidade em termos binários pressupõem que as experiência tecnológicas dos estudantes são relativamente homogêneas e que a maioria, senão a sua totalidade, dos estudantes hoje são Nativos Digitais, possuindo um repertório amplo de experiências e uma compreensão e conhecimentos sofisticados sobre as Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC).
Sandford (2006 apud BAYNE e ROSS, 2007) propõem que uma definição mais adequada para a geração antecedente aos nascidos a partir da década de 1990 seria a de “colonos digitais”, concedendo a estas gerações o reconhecimento de seu papel na construção e manutenção da infra-estrutura que foi apropriada pela geração mais recente.
Da forma como foi elaborado inicialmente por Prensky (2001a), os Imigrantes Digitais também podem ser vistos como se fossem refugiados pedido asilo, incapazes de permanecer onde sempre estiveram, alvos de ridicularização e apenas tolerados, não ajustados e despreparados para a vida no novo território, sentimentais e idealistas a respeito do antigo. (BAYNE e ROSS, 2007)
Uma vez que o novo território é apresentado de forma simplista e determinística, a influência ou controle sobre ele está além dos alunos e dos professores, o que leva à necessidade de uma visão crítica deste discurso.
Outro ponto importante acerca da discussão conceitual sobre o surgimento desta Geração Net ou dos Nativos Digitais diz respeito à precisão com a qual as datas de início e fim do surgimento desta geração são definidas. Para Tapscott (2009, p. 4) a Geração Net começa em Janeiro de 1977 e termina em Dezembro de 1997. Outros autores sugerem que os membros desta geração nasceram entre 1982 e 1991 (OBLINGER e OBLINGE, 2003 apud JONES et al., 2010, p.3)
Prensky (2001) não estabelece uma data exata para o início e o fim desta geração, mas como ele identifica que o momento da crise das gerações está acontecendo à época de seus artigos, é possível supor que seus Nativos Digitais tenham nascido também entre 1977 e 1982, sendo que Palfrey e Gasser (2008 apud JONES et al., 2010, p.3) são específicos ao determinar que o surgimento desta geração ocorre em 1980.
Estas considerações cronológicas exatas levam a uma interpretação errônea e fatalista, restringindo qualquer reflexão e isentando assim que fatores externos e internos aos indivíduos influenciem e sejam influenciados pelas mudanças. Há muito esta visão delimitadora foi abandonada pela historiografia que, na década de 1920, influenciada pela Escola dos Annales, incorporou fenômenos de longa duração na análise dos fenômenos históricos, iniciando a chamada História das Mentalidades.
Essa nova forma de se interpretar os fatos históricos buscava fugir da história historicizante: uma história que se furtava ao diálogo com as demais Ciências Humanas, a antropologia, a psicologia, a lingüística, a geografia, a economia, e, sobretudo, a sociologia.
Surge então uma história problematizadora do social, preocupada com as massas anônimas, seus modos de viver, sentir e pensar. Uma história com
material, embora sem qualquer reconhecimento da determinância do econômico na totalidade social, à diferença da concepção marxista da história. Uma história não preocupada com a apologia de príncipes ou generais em feitos singulares, senão com a sociedade global, e com a reconstrução dos fatos em série passíveis de compreensão e explicação. (SEVCENKO, 2001, p. 22)
Assim, a discussão sobre as datas de início ou fim do surgimento da Geração Net passa a ser de tal forma inócua quanto à discussão das datas de fim da Idade Antiga e início da Idade Média.
Para Franco Jr. (1986, p. 11), por muito tempo a historiografia buscou definir os marcos cronológicos do nascimento da Idade Média ou da Idade Moderna, baseada em perspectivas políticas, religiosas ou econômicas. Mas sendo a História um processo, deve-se renunciar à busca de um fato que teria inaugurado ou encerrado um determinado período, visto que os problemas inerentes a cada época permanecem (a chamada longa duração da História das Mentalidades) e não são imediatamente resolvidos, antes permanecem como estruturas básicas ao longo do tempo. O que merece ser estudado são as estruturas e não os eventos.
Para preencher a lacuna deixada pela falta de evidências empíricas sobre a validade dos pressupostos apresentados sobre a Geração Net e sobre a dicotomia entre Nativos e Imigrantes (Colonos) Digitais, Kennedy et. al (2008) realizaram uma pesquisa com 1.973 estudantes australianos, todos recém-ingressados (primeiranistas) de diferentes cursos, nascidos após 1980.
Este corte se deveu ao fato de a maioria dos autores situar, de forma retórica e não empírica, o surgimento da Geração Net entre 1977 e 1982 (a média entre os anos seria aproximadamente 1980.)
Do total de respondentes da pesquisa, 94,4% nasceram entre 1985 e 1988, tendo assim entre 17 e 21 anos à época. A maioria dos respondentes, 62,4%, era do sexo feminino e dos dez cursos pesquisados, nove apresentaram amostra significativa dentre os respondentes.
Com base nas afirmações feitas por diferentes autores, os alunos foram solicitados a responder um questionário sobre seu acesso, uso, habilidades e preferências dentro de uma gama de tecnologias estabelecidas e emergentes. O instrumento de pesquisa era composto de quatro seções e 100 itens, distribuídos entre informações demográficas, acesso a equipamentos e Internet, uso e habilidades com tecnologias e finalmente suas preferências. (KENNEDY et al., 2008, p. 111)
Os resultados encontrados ressaltam que não há homogeneidade entre os alunos da dita Geração Net sobre o uso de tecnologias no que se refere ao divisor digital entre as gerações. Enquanto alguns estudantes tenham adotado as tecnologias e ferramentas ditas desta geração (como Web 2.0, mensagens instantâneas, blogs, etc), esta não é de forma alguma a experiência universal dos estudantes, o que contradiz a construção teórica de Prensky (2001) sobre os Nativos Digitais. (KENNEDY et al., 2008, p. 117)
Outra constatação, resultado da pesquisa realizada junto a alunos australianos, é que não se pode assumir a priori que ser membro da Geração Net, por haver nascido entre os anos de 1977 e 1997, é sinônimo de proficiência no uso e conhecimento de como utilizar ferramentas baseadas em tecnologia para otimizar as experiências de aprendizagem no contexto universitário. (KENNEDY et al., 2008, p. 118)
Em uma revisão sobre a literatura publicada sobre jovens e tecnologia digital em educação, Selwyn (2009, p. 367) alerta para o fato de que a noção de Nativo Digital, tão espalhada pelo senso comum, pressupõem que o estudante conectado à Internet não é mais um recipiente passivo da instrução educacional mas que figura como um protagonista importante no papel de (re)construir o a natureza, local, ritmo e tempo da aprendizagem, da forma que queira.
O que se observa, entretanto, é que a capacidade de aprender dos jovens está comprometida por sua inabilidade em obter informações da Internet e discernir
mecanismos de Busca (ex.: Google) como corretos e absolutos, formando assim uma geração de cleptomaníacos intelectuais que tem como seus os pensamentos e opiniões obtidos por meio da função “copia-colar”, substituindo o verbo pensar pelo verbo clicar. (SELWYN, 2009, p. 368)
Similarmente ao proposto por Bayne e Ross (2007), Selwyn (2009, p. 372) ressalta que estudos empíricos sugerem que as habilidades dos jovens em acessar as tecnologias digitais continuam definidas, em grande parte, por seu status sócio- econômico e classe social, assim como gênero, geografia e outras linhas divisórias, que permanecem proeminentes na recente sociedade do século 21.
Outros estudos analisados por Selwyn (2009, p. 373) ainda apontam na direção de que os estudantes não estão esperando utilizar em sala de aula (ou no ambiente de aprendizagem) os recursos tecnológicos da mesma forma que utilizam em casa, ressaltando ainda que seja necessário o reconhecimento do significado do contexto e da circunstância ao buscar compreende este uso (ou não uso) da tecnologia pelos estudantes.
Jones et al. (2010, p. 5) identificaram que existe um crescimento nas evidências teóricas e empíricas que colocam em dúvida a idéia de que existe uma nova geração de jovens com características comuns relacionadas à sua exposição a tecnologia digital e comunicação em rede por toda a vida.
Com base nessas evidências, Jones et al. (2010) realizaram um estudo como 596 alunos em cinco universidades inglesas, mediante a aplicação de um instrumento de pesquisa na forma de questionário com quatro seções: (1) características demográficas dos respondentes, (2) acesso à tecnologia, (3) uso da tecnologia nos estudos universitários e (4) usos da tecnologia em cursos específicos.
Os resultados da pesquisa apontam que os argumentos sobre a grande inclinação dos Nativos Digitais em utilizar recursos da Web 2.0 são de alguma forma
exagerados, uma vez que a minoria dos respondentes reportou o uso constante e atribuiu importância elevada a esse uso. (JONES et al., 2010, p. 10)
Ao analisar a execução de tarefas tecnológicas comuns (como enviar e receber e-mails, usar mensagens instantâneas no celular, participar em redes sociais, etc.), foram encontradas diferenças entre estudantes com mais de 25 anos, da mesma forma que foram encontradas diferenças entre estudantes com idade correspondente à dos Nativos Digitais, o que questiona a homogeneidade apregoada como existente entre os membros da Geração Net.
Evidenciou-se então, que a relação entre a idade do respondente e a freqüência do uso da tecnologia não tem relação direta, e que o uso não é declinante em relação à idade uma vez que está relacionado à natureza e ao tipo da tecnologia em questão. (JONES et al, 2010, p. 11)
Embora o argumento dos Nativos Digitais e Imigrantes Digitais careça de fundamentação empírica e muitos estudos comprovem que esta definição é puramente retórica, seu uso e propagação ainda permeiam o discurso sobre os desafios apresentados à educação no que diz respeito à tecnologia.
Em 2009, Marc Prensky já indicava que a distinção entre Nativos Digitais e Imigrantes Digitais se tornaria cada vez mais irrelevante, uma vez que ao criar e aprimorar o futuro, um novo conjunto de características deveria ser imaginado, conduzindo ao surgimento de uma sabedoria digital (do inglês Digital Wisdom).
Neste estudo não utilizaremos os conceitos Nativo Digital ou Imigrante Digital numa forma simplista de classificar os respondentes, antes utilizaremos a terminologia Origem Tecnológica, uma vez que a natureza, o tipo e a freqüência de uso de uma determinada tecnologia está relacionada com fatores sociais, econômicos e demográficos e que mesmo um respondente nascido fora do período em que as tecnologias estavam disponíveis e acessíveis com maior facilidade, pode ter sido exposto a outra forma ou formas de acesso a tecnologia que modularam, ou