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Natureza do Direito Tributário Internacional

CAPÍTULO 2 ELEMENTOS DE DIREITO TRIBUTÁRIO

2.1 Noções de Direito Tributário Internacional

2.1.4 Natureza do Direito Tributário Internacional

A controvérsia a respeito da natureza do Direito Tributário Internacional estaria a merecer uma melhor análise por parte dos doutrinadores. Mais uma vez, Alberto Xavier aponta como causa do problema o fato de não se haver distinguido as várias espécies de normas que integram o Direito Tributário Internacional. Essa falta tem como resultado conclusões precipitadas, segundo o autor, e que não são aplicáveis a uma das espécies de normas que o compõem. Trata-se das normas de delimitação (interna) destinadas a definir, de forma unilateral, o âmbito espacial de incidência do ordenamento. Juntamente com as normas de colisão (internacional), permitem um tratamento dogmático homogêneo às normas de Direito Tributário Internacional, senão vejamos valiosa doutrina de Alberto Xavier:

Ora, estas últimas – tanto as normas de delimitação de origem interna, quanto as

normas de colisão, decorrentes dos tratados contra a dupla tributação – revestem a

natureza de normas de conflitos unilaterais, posto esgotarem a sua função na disciplina de uma situação internacional através da remissão para um dado ordenamento aplicável, ainda que tal remissão jamais opere para leis estrangeira. E isto pelo processo técnico de lançar uma ‘ponte’ (através do elemento de conexão) entre dada questão da vida e esse ordenamento, pelo que também o legislador do Direito Tributário Internacional é um Pontifex, para usar a expressão de RAAPE. Esta construção permite apreender a profunda identidade de natureza entre as normas de delimitação (internas) e as normas de colisão (internacionais) como verdadeiras regras de conflitos que são, permitindo assim um tratamento dogmático homogêneo. Discordamos veemente de VOGEL, quando afirma que às

Grenznormen faltaria qualquer unidade sistemática que permitisse erigi-las num

sistema dotado de autonomia face às regras de direito material respectivo, por lhes faltar a ‘incomunicabilidade’ característica das verdadeiras regras de conflitos. Donde se seguiria a impossibilidade de constituíram objeto de uma disciplina científica autônoma, por lhes faltar um método próprio e um objeto de conhecimento indisputável.

Ora, ao invés, a sua natureza de regras de conflitos permite aborda-las sob a perspectiva científica do Direito de Conflitos – e, em especial, do Direito Comum de Conflitos que é o Direito Internacional Privado. Embora, como atrás se viu, sejam fundas as diferenças entre o direito de conflitos da vida privada internacional e da vida tributária internacional, tal não obsta a que esta seja examinada com o recurso ao portentoso arsenal científico, às poderosas ferramentas dogmáticas aperfeiçoadas e desenvolvidas ao longo de séculos pelo Direito Internacional Privado.

Foi precisamente a ausência do recurso cientifico ao repositório conceitual do Direito Internacional Privado que explica a pobreza dogmática de inúmeros estudos de Direito Tributário Internacional, quando comparados com o grau de refinamento e sofisticação que o Direito tributário interno já goza nos nossos dias (2000, p. 85- 86).

A apontada divergência doutrinária também é citada por Heleno Torres (2001b) que, criticando o posicionamento de Alberto Xavier (2000), entende que as normas atinentes à

fiscalidade transnacional15 apresentam dois conjuntos de normas, ou seja, normas internas e

normas contidas nos tratados e convenções internacionais sobre a renda e o capital. Dessa forma, a teoria dualista defendida por Heleno Torres (2001b) apresenta como objeto de estudo da fiscalidade transnacional, normas internas dotadas de elementos de estraneidade dirigida aos não-residentes. Essas normas pertenceriam ao campo do Direito Tributário Internacional, posto que os fatos descritos em tais normas seriam realizados internamente, não ultrapassando as fronteiras do Estado.

De outro lado, as normas dispostas em tratados ou convenções internacionais pertenceriam ao campo de estudo do Direito Internacional Tributário, sendo normas destinadas a alcançar rendimentos além da fronteira do Estado legiferante. Ressalta ainda, que a apontada dualidade normativa tem somente fins didáticos, posto que, para a Ciência do Direito, esses setores de estudo não são ramos autônomos. Por fim, proclama que somente com a tendência de aproximação e de harmonização das leis fiscais, visando à neutralidade fiscal internacional, é que se poderia justificar a autonomia didática do Direito Tributário Internacional (TORRES, 2001b, p. 47-54).

Analisando as duas linhas de pensamento, constata-se que a demarcação dos setores de estudo da fiscalidade internacional proposta por Heleno Torres tem por objetivo facilitar o estudo, no que se refere à interpretação e aplicação das normas, verbis:

Mutatis mutandis, porque útil para estabelecer os parâmetros metodológico

necessários à interpretação e aplicação das respectivas normas, o presente estudo conduzir-se-á admitindo a distinção entre o Direito Tributário Internacional (DTI) e o Direito Internacional Tributário (DIT), ambos entendidos como simples especialidades da ciência do direito tributário (interno), autônomos apenas didaticamente, sem qualquer afetação ad nutum ao princípio da unicidade sistêmica do jurídico, diga-se desde já.

No plano da ciência do direito, esses setores não são ramos autônomos entre si. Não podem reclamar qualquer segmentação, porque não possuem um subsistema de normas organizado estruturalmente com função e princípios próprios, para servir- lhes de objeto de estudo. Antes, são extremamente dependentes, de método e objeto, do Direito Tributário (no caso do Direito Tributário Internacional); ou do Direito Internacional, para o Direito Internacional Tributário. Estes, sim, são dotados de autonomia didática.

São setores de estudo, de agrupamentos de normas ratione materiae, ante as diferenciações de ‘ordens normativas’, para fins de tratamento dos rendimentos transnacionais. Esta distinção, entre DTI e DIT, deve ser feita apenas para situar os estudos a serem desenvolvidos dentro do ambiente sistêmico do Direito Tributário, como se fez com tantos outros, como é o caso da relação, do geral para o particular, entre direito civil, direito das obrigações, direito dos contratos e direito do consumidor, por especialização do conhecimento (2001b, p. 53-54).

15

Denominação dada por Heleno Torres que compreende o estudo das normas de direito interno, bem como normas constantes nos tratados e convenções internacionais em matéria tributária (2001b, p.48).

A crítica dirigida à teoria de Alberto Xavier não atinge o propósito da linha de pensamento defendida por esse autor, que justifica a sua teoria monista em proveito de um mesmo tratamento dogmático às normas de delimitação (internas) e às normas de colisão (internacionais), verdadeiras normas de conflitos, remetendo-as ao Direito Internacional Privado. Assim, se a demarcação do setor de estudo de normas de DIT e de normas de DTI tem como propósito apenas facilitar a aplicação das normas sobre fiscalidade transnacional, não se pode atribuir crítica à linha de Alberto Xavier, tendo em consideração que ele próprio, Heleno Torres, ressalva que a demarcação dos setores de estudo não chega a afetar a unicidade sistêmica do jurídico, ou seja, se não afeta a unicidade, seria bastante razoável falar- se em um mesmo tratamento dogmático às normas em causa.

Dessa forma, entende-se que as duas linhas defendidas por estes ilustres autores são de significativa importância, por não conflitarem com os específicos propósitos de seus autores e, também, por terem por finalidade última, pelo contexto que se extrai de cada uma, a evolução do próprio objeto de estudo que são as situações da vida internacional. Por outro lado, o presente estudo sobre a tributação aplicável ao IDE no Brasil seguirá a classificação de normas de Direito Tributário Internacional proposta por Alberto Xavier, considerando o estudo das situações internacionais, e as normas dotadas de elementos de estraneidade, como pertencentes ao Direito Tributário Internacional.