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NATUREZA DO ESPAÇO E EXPRESSÃO ARQUITETURAL

No documento DOMÍNIO DA FORMA (páginas 15-47)

A crise da noção de dimensão surge com a crise do inteiro, ou seja, de um espaço substancial,

homogêneo, herdado da geometria grega arcaica, em benefício de um espaço acidental,

heterogêneo, em que as partes, as frações, novamente tornam-se essenciais.

Paul Virilio

2.1 Espaço substancial, espaço acidental

Analisando a sociedade “tecnologizada” em que hoje se vive, o filósofo francês Paul

Virilio (2008) parte da Arquitetura e das políticas urbanas para investigar os efeitos de um

mundo que se organiza cada vez mais segundo a produção e difusão de imagens e

informações. Ele compreende que a expressão arquitetural está vinculada aos sistemas de

comunicação, e, em consequência, o espaço construído é definido não só pelo efeito

material e concreto das estruturas edificadas, das permanências de elementos e marcas

arquiteturais ou urbanísticas, mas, igualmente, pela “incessante profusão de efeitos

especiais que afetam a consciência do tempo e das distâncias, assim como a percepção do

meio”. (P.18). Virilio entende que há o confronto de dois procedimentos na definição da

expressão arquitetural: um deles bem material, constituído de elementos físicos, paredes,

limiares e níveis, todos precisamente localizados; o outro, imaterial, do qual as imagens e

mensagens não possuem localização precisa. Esse confronto seria consequência do

desequilíbrio crescente entre a informação midiatizada e a informação direta dos sentidos,

“fazendo com que o efeito de real pareça suplantar a realidade imediata”. (P.17). Haveria,

deste modo, uma tendência ao deslocamento do estático na Arquitetura, antes

predominante, para uma condição de instabilidade, com a transparência tomando o lugar

das aparências – aquelas que se mostram à primeira vista. Expresso de modo diverso e

seguindo a conceituação de Virilio (2008), a passagem de “um espaço substancial,

homogêneo, herdado da geometria arcaica grega”2 e vinculado à noção de inteiro, para “um

espaço acidental, heterogêneo”, vinculado à ideia de desintegração (p.19).

2

Virilio não explicita o sentido da expressão “geometria grega arcaica”, mas entende-se como tal a Geometria

geradora do sintagma artístico clássico e seus conceitos de composição (axialidade, simetria, ortogonalidade

...). Pode ser entendida, também, como a geometria sistematizada por Euclides (330-275 a.C.) em Os

elementos, obra que se vale do modo dedutivo para definir propriedades demonstráveis da Geometria Plana

Para Virilio, está ocorrendo uma crise do inteiro, a passagem de um espaço contínuo para

um espaço descontínuo, provocando a perda de referências fundamentais da Arquitetura e

Urbanismo – simbólicas, históricas, geométricas, com o declínio da centralidade, da

axialidade, ocorrendo a desvalorização da antiga repartição das dimensões físicas. Estaria

sendo destruída, deste modo, a estruturação tradicional das aparências, fundada desde a

Antiguidade na Geometria Euclidiana, que regulava as superfícies tanto da dimensão urbana

quanto da arquitetônica. A ideia da dimensão física, que parece remontar a um estado

arcaico da Geometria grega, estaria progressivamente perdendo o seu sentido, para dar

lugar a percepções eletrônicas de tempo e espaço e que nada teriam em comum com as do

passado.

Por meio da confrontação do “espaço substancial” com o “espaço acidental”, Virilio

(2008) tenta vislumbrar a condição da Arquitetura contemporânea “em meio ao

desconcertante concerto das tecnologias avançadas”. (P.17). Ele ressalva que não se trata de

um julgamento maniqueísta, de um elogio ou uma condenação a priori dos meios técnicos

atuais, mas da abordagem de um fenômeno complexo que suscita alterações radicais nos

mais diversos referenciais: perceptivos, estéticos, políticos, filosóficos. A dualidade

substancial versus acidental tem a pretensão de entender a dinâmica tecnológica que

envolve a Arquitetura nos dias atuais, de modo a compreender a crise do espaço contínuo e

homogêneo em benefício da relatividade do espaço descontínuo e heterogêneo.

Das preocupações de Virilio emergem, portanto, questões ligadas à atualidade do fazer

arquitetônico, ou, precisamente, ao confronto de duas concepções projetuais: uma

proveniente da noção de espaço estável, que produz uma arquitetura constituída por

elementos perfeitamente localizáveis; e a outra derivada da ideação de espaço instável, a

ensejar uma arquitetura que agrega às suas estruturas construídas uma profusão de efeitos

especiais. Da primeira concepção, o espaço que surge tende a ser composto pela noção do

todo que se relaciona e se harmoniza com suas partes; na segunda, o espaço resultante

inclina a ser constituido por partes desintegradas e definido por superfícies criadas pelo

grande aparato tecnológico da Era digital. Nos dois tipos de espaço, os arquitetos criam

mundos projetuais por meio da escolha de processos compositivos e de instrumentos de

desenho e mídias de representação compatíveis com cada tipo de espaço. A questão é saber

– e daí procede a pertinência do tema – se comprovado o deslocamento do estático na

Arquitetura para uma condição de instabilidade, será possível detectar nesta condição a

permanência de elementos e princípios arquitetônicos em concepções recentes, ou se os

procedimentos de composição e representação tradicionais não são mais suficientes para

traduzir o espaço arquitetônico produzido pela sociedade informacional3. As respostas a

essas indagações têm implicações de ordem projetual – como o edifício será projetado – e

de ordem pedagógica – que processos devem ser utilizados no ensino de Arquitetura,

indicando o grau de pertinência da pesquisa.

2.2 Espaço de fluxos, espaço de lugares

O pensamento de Virilio encontra paralelo na compreensão de Manuel Castells (1999)

sobre o que este entende como “paradigma tecnológico baseado na informação”. Para

Castells, esse paradigma deu nova face ao arranjo social, contribuindo de modo decisivo

para a definição dos traços distintivos das sociedades do final do século XX e começo do

terceiro milênio. As mudanças provenientes das transformações tecnológicas e econômicas

fizeram com que a relação da sociedade com o processo de inovação técnica tenha passado

por grandes alterações. Castells, no entanto, não sugere que novas formas e processos

sociais surgem em consequência de transformação tecnológica, pois “a tecnologia é a

sociedade, e a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas ferramentas

tecnológicas”. (P. 25). Ele compreende que a tecnologia incorpora a sociedade e esta utiliza a

inovação tecnológica, ocorrendo uma interação dialética de ambas que faz surgir outras

práticas sociais. O novo formato de organização social configurada ao fim do século XX e

analisado por Castells o conceito de sociedade em rede – teria promovido alterações da

vivência do espaço e do tempo, dando a moldura para a formatação de realidades diversas,

incluindo a Arquitetura. À nova lógica espacial que surge sob o efeito do paradigma da

tecnologia da informação Castells chama de espaço de fluxos, em oposição ao espaço de

3

O termo informacional é aqui utilizado no sentido dado por Castells, indicando “o atributo de uma forma

específica de organização social em que a geração, o processamento e a transmissão da informação tornam-se

as fontes fundamentais de produtividade e poder devido às novas condições tecnológicas” surgidas na segunda

metade do século XX. Castells considera que uma das características principais da sociedade informacional é a

lógica de sua estrutura baseada em rede, o que explica o uso do conceito de “sociedade em rede”. Ver

CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede; tradução Roneide Venâncio Majer (A era da informação: economia,

sociedade e cultura; v. 1). São Paulo: Paz e Terra, 1999, Prólogo, nota 33, p. 46.

lugares, este tendo relação com a ordem espacial historicamente enraizada na experiência

comum das pessoas (p.404). Ainda conforme Castells (2001, p. 440), o espaço de lugares

vincula-se às pessoas, que são locais, enquanto o espaço de fluxos é associado às elites

empresariais e financeiras, que são cosmopolitas. Da oposição dialética entre essas duas

expressões de lugares emerge um debate sobre a Arquitetura atual que pode ser visto em

Castells e que mantém um paralelo com as ideias de espaço acidental e espaço substancial

definidas por Virilio. Este vê a Arquitetura resultante do espaço acidental constituída por

uma profusão de efeitos especiais, enquanto Castells (2001, p. 444-445) enxerga as formas

da arquitetura moldada pelo espaço de fluxos como neutras, diáfanas, puras, resultando no

que ele chama de “arquitetura da nudez”. Dessa discussão desponta a oportuna investigação

sobre se há, na sociedade informacional, uma forma espacial predominante e, em caso

afirmativo, quais as consequências dessa constatação na formatação da Arquitetura.

A dualidade do espaço substancial versus espaço acidental – destacada por Virilio – ou do

espaço de fluxos versus espaço de lugares – formatada por Castells – pode explicar o

deslocamento do estático na Arquitetura, que estaria ocorrendo em meio a um outro

universo de objetos artificiais, outros modos de produção e outras visões de mundo,

recentemente definidos. Nos anos 1960 viu-se florescer de início as chamadas estéticas

informacionais e a redefinição de questões de espaço, tempo, memória, fruição e cultura,

que procuram explicar que a Arquitetura está perdendo plasticidade, passando da

hegemonia do espaço fechado e estável para uma ‘’antropologia cultural das superfícies’’

(DOMINGUES, 2009, p. 36)4. No âmbito dessa compreensão teórica, a Arquitetura se

manifesta por meio das possibilidades tecnológicas da computação gráfica em criar

superfícies envoltórias, maleáveis, fluidas e envolventes com o intuito de criar um modo de

fruição estética distinta da tradicional. O território é composto ultrapassando o efeito

material e concreto das estruturas construídas, indicando que, no processo de mudanças da

noção de limite, o pleno não existe mais. Assistir-se-ía, desde modo, a um fenômeno

paradoxal “em que a opacidade dos materiais de construção se reduz a nada” (VIRILIO, 2008,

p. 9). O espaço construído participaria de uma topologia transparente, eletrônica, ligada a

um tempo de duração técnica, “sem comparação com qualquer calendário de atividades ou

4

memória coletiva [...], duração que contribui para a instauração de um presente permanente

[...]” (VIRILIO,2008, p. 11). 5

2.3 Fazer arquitetônico e cânones

Para Corona Martínez (2000), a consequência das novas concepções de mundo na

Arquitetura é que esta se tornou uma relíquia cultural, sobretudo porque “...os meios que

serviam para imaginar um edifício e para construí-lo entraram em crise sem que tenhamos

com que substituí-los”. (P. 51). Hoje já não se projeta para a eternidade, assinala Corona

Martínez, porém os mesmos métodos são usados para projetar e métodos parecidos para

construir. O edifício, que até há cerca de dois séculos se mostrava como “o protótipo da

obra humana, o artefato privilegiado por sua durabilidade e magnitude” (p.51), teria

passado para o círculo do consumo e da moda. Corona Martínez entende, entretanto, que

essa passagem só ocorre pela via da representação, haja vista que a Arquitetura – protótipo

da permanência – não é produzida em velocidade e quantidade suficientes para que possa

ingressar no âmbito do superconsumo. A materialidade arquitetônica só ocorre depois que a

ideia circula sob a forma de representação arquitetônica, fazendo com que o edifício tenha a

imagem de coisa demasiadamente conhecida. Em consequência, “projeta-se pela metade

algo que está superado antes de ser construído” ou, inversamente, em reação a esse efeito,

“persegue-se a atemporalidade, reduzindo a arquitetura a uma geometria de volumes

simples, platonicamente eternos”. (P.53). Das ideias de Corona Martínez depreende-se que,

apesar de os objetivos sociais e culturais terem mudado, continua-se a utilizar cânones6

clássicos na representação e materialização da Arquitetura atual.

5

Entende-se o presente permanente de Virilio como o tempo das pequenas narrativas práticas, cotidianas, que

substituíram as grandes narrativas téoricas, herdeiras da Renascença e que eram ligadas à capacidade

universalmente reconhecida de dizer, descrever e inscrever o real; compreende-se como a crise da noção de

“narrativa” intercambiada com a crise da ideia de “dimensão” como narrativa geometral e que levou, conforme

Virilio (2008), à súbita fratura das formas inteiras, à “destruição das propriedades do único pela

industrialização...”. (P.19). Tem relação, acrescente-se, com a aceleração do enfraquecimento da faculdade de

intercambiar experiências que caracterizava as sociedades pré-modernas, conforme o sentido expresso por

Walter Benjamin. Ver Os pensadores (textos escolhidos); tradução José Lino Grunnewald e al. 2 ed. São Paulo:

Abril Cultural, 1983.

6

O termo cânone (ou ordem) é aqui utilizado como um conjunto de regras gerais de onde se extraem regras

especiais, como as definidas por uma ordem arquitetônica clássica específica (dórica, jônica ...) ou pelos

preceitos arquitetônicos formulados por Le Corbusier, na primeira metade do século XX. A palavra cânone

possivelmente derive do grego kanon, termo utilizado para designar uma vara ou cana que servia de referência

como unidade de medida.

Para outros estudiosos da contemporaneidade, entretanto, a natureza interdisciplinar

dos trabalhos com novas mídias, bem como as metodologias atuais, argumentam contra se

estabelecer qualquer cânone único ou histórico para o desenvolvimento das novas práticas

criativas7. Há quem considere – como o arquiteto holandês Lars Spuybroek8 – o desenho

arquitetônico tradicional como sendo um sistema redutivo. A concepção de superfícies

envoltórias, maleáveis e fluidas requeridas pela contemporaneidade – e que remetem à

noção de espaço acidental definida por Virilio e à ideia de espaço de fluxo formatada por

Castells – exigiria mudanças nas ações projetuais, representativas e construtivas da

Arquitetura, agora entendida como espaço eminentemente animado e interativo. Para isso,

seria preciso modelar, por meio das avançadas técnicas de animação, “as estruturas e as

formas arquitetônicas no âmbito de um espaço virtual constituído por inúmeros

movimentos, fluxos e forças em constante interação e transformação”. (SILVA, 2004). O

digital se colocaria de forma inovadora nos processos de criação, produzindo imagens que

assumiriam estados mutantes por experiências vividas pelo sujeito no processo de

percepção e fruição dos novos agenciamentos espaciais, “interfaceados” com tecnologias

interativas (DOMINGUES, 2009, p.36). O resultado plástico derivado desse processo cabe no

conceito de “arquitetura líquida”, que tem o propósito de significar um território interativo e

liquefeito resultante de algorítmos matemáticos.9 Tal plasticidade liquefeita – que aqui pode

ser exemplificada por meio do Pavilhão da Água Doce10 (Figura 2.1) – encontra paralelo no

7

Como é o caso de MALINA, Roger. Leonardo olhando para frente: fazendo a história e escrevendo a historia.

In: DOMINGUES, Diana (org.). Arte, ciência e tecnologia: passado, presente e desafios; tradução Flávio Gisele

Saretta et al. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 20.

8

Spuybroek dirige o escritório de Arquitetura e design Nox, que, além de Arquitetura, produz objetos,

instalações multimídias, vídeos e textos diversos que são publicadas em revistas especializadas. Os integrantes

do grupo Nox têm discutido com outros arquitetos contemporâneos os princípios e as diretrizes de uma

arquitetura que recebeu a denominação de “arquitetura líquida”, resultante da preocupação do papel do

computados na concepção, imaterialidade, interatividade e informação na arquitetura. Ver VELLOSO, Ivan

Mac-Dowel. Os meios digitais na arquitetura do Grupo NOX. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo).

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Arquitetura-PROPAR, Porto

Alegre, 2009. Disponível em:

<http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/24801/000747017.pdf?sequence=1>. Acesso em : 28 out.

2010.

9

A expressão “arquitetura líquida” é creditada ao arquiteto venezuelano Marcos Novak, tendo aparecido em

um trabalho seu publicado em 1991 (Liquid Architectures in Cyberspace). A arquitetura líquida de Novak se

limita à exploração de formas e espaços virtuais, mas a expressão passou a ser vista como sinônimo de espaço

onde as percepções sensoriais humanas condicionam e determinam a ambiência, associando agenciamentos

espaciais a uma manifestação momentânea do tempo, em que imagens e mensagens não possuem localização

precisamente definida.

10

conceito de “modernidade líquida”, nos termos empregados pelo sociólogo polonês

Zygmunt Bauman (2001) para caracterizar os tempos atuais. Para ele, a (pós) modernidade é

líquida porque dilui os sólidos  as grandes instituições como a família e a religião, as antigas

relações sociais e de trabalho, as ordens econômicas e as grandes utopias  e dota a

sociedade atual de grande mobilidade, fluindo, sem limites ou controles, por meio das

fronteiras geográficas. É, segundo Bauman, um processo de descorporificação e

desterritorialização, no qual o tempo adquire instantaneidade e urgência, e os espaços de

trabalho e de relações pessoais perdem o imperativo da proximidade física, multiplicando-se

e interagindo em distintos lugares físicos. Ocorreria, desse modo, um processo de

“virtualização” da vida cotidiana nos variados ambientes de interação humana, sejam os

direcionados ao trabalho, à moradia ou ao puro convívio social.

1

2

Figura 2.1 – Plasticidade liquefeita

Pavilhão da Água Doce, Ilha de Neetje Jans, Holanda, 1993-1997. Grupo Nox.

Perspectivas do exterior (1) e do interior (2).

Fonte: http://www.nox-art-architecture.com/ (1 e 2).

Arquitetura configurada por um arranjo geométrico não ortogonal, se enquadrando, supostamente, em um

padrão de espaço distinto do cartesiano. Piso, teto e parede são organizados como uma superfície envoltória

única na busca por uma continuidade espacial fluida e envolvente, plasticidade liquefeita que encontra paralelo

no conceito de “modernidade líquida” nos termos empregados por Bauman (2001).

Malgrado o emprego ou não de cânones ou da virtualização na realidade do fazer

arquitetônico atual, o tipo de dualidade destacado por Virilio parece não ser

necessariamente um produto típico da sociedade informacional. Embora possa ser vista

como algo característico da atualidade, a dualidade substancial versus acidental se configura

como algo arcaico, percebida desde muito tempo. Pelo que se pode extrair dos

ensinamentos históricos, ela acompanha a Arquitetura em diversos momentos, como a

dualidade surgida das noções de espaço e forma provenientes do pensamento de Platão e

Aristóteles ou a contraposições (derivadas ou não do embate platônico-aristotélico) do

clássico com o Medievo, o romântico ou o moderno. Na tarefa de se conhecer e

compreender o papel das preexistências, permanências e mutações no campo da

Arquitetura, o saber histórico é o meio fundamental. A história faz parte operativa do

presente, pois fazer edifícios novos quase sempre é uma crítica ou referência a edifícios do

passado. “O significado de uma igreja é outra igreja”, disse Décio Pignatari (1989, p.119),

embora as formas, expressões ou composições arquitetônicas se relacionem a determinadas

circunstâncias e traduzam os sentimentos do momento histórico em que foram concebidas.

A dinâmica histórica leva às mutações, entretanto as formas da Arquitetura podem não ser

apenas casuais e incertas, com significado eminentemente contextualizado com a época.

Levadas da Geometria pura à Arquitetura, elas podem se expressar em determinados

momentos históricos como absolutas, dando lugar a signos que parecem transcender o

significado temporal (PEREIRA, 2010, p. 38). À luz do passado é possível compreender ações

arquitetônicas do presente com o intuito de se especular sobre o sentido da Arquitetura

hoje produzida em meio a uma sociedade informacional, que se mostra com a necessidade

de representar mais dados, camadas e conexões do que as sociedades que a precederam11.

2.4 Espaço platônico

Na visão platônica, o mundo material, tanto físico quando biológico, pode ser inteligível

em virtude do número – assim como preconizava a doutrina pitagórica. Na relação entre as

formas e os objetos, há, entretanto, certa diferenciação entre as duas propostas. Para os

pitagóricos, os números são realidades corpóreas, constituídas por unidades

11

Para seguir-se a compreensão de Lev Manovich sobre a sociedade informacional, conectada em rede, contida

no texto “Abstração e complexidade”, in: Domingues, 2009, p.407.

indecomponíveis. As coisas imitam os números numa acepção plenamente realista: os

objetos refletem exteriormente sua constituição numérica interior e, deste modo, “o modelo

e a cópia estão ambos no plano do concreto; são as duas faces – interna (apreendida

racionalmente) e externa (apreendida pelos sentidos) – da mesma realidade” (PESSANHA,

1987, p. XVIII). No projeto platônico há, na criação das formas, um “distanciamento” entre o

plano sensível (o que se apreende pelos sentidos), e o inteligível (o que se apreende pela

razão). Por meio de um discurso universal autônomo e fundado na razão, Platão acredita

poder realizar seu projeto por intermédio de um progressivo afastamento da experiência

sensível em direção ao inteligível puro. Ao fazê-lo – explica Garcia-Roza (2003, p. 9) – inicia o

movimento do pensamento em direção a um mundo de puras formas: uma realidade

metafísica, criando, assim, a transcendência, a busca da pureza. Os objetos físicos –

múltiplos, concretos, perecíveis – aparecem como cópias imperfeitas dos arquétipos ideais,

incorpóreos, perenes; são apenas pálidos reflexos das essências puras ou ideias arquetípicas.

O mundo sensível é uma imitação do mundo inteligível, pois as ideias não podem ser

percebidas pelos sentidos, mas apenas pela razão pura.

No âmbito da Arquitetura (e da visão platônica), se esta tenciona espelhar as essências

(ideias), que são fixas e eternas, terá que erigir edifícios sólidos e duradouros, pois o

verdadeiro não se altera nem é corrompido pelo tempo (PULS, 2006, p. 109). Em se tratando

da conformação urbana, a estrutura racional, articulada e lógica da cidade ideal platônica

deveria ter um tamanho delimitado pelo número de habitantes e por uma muralha. As

No documento DOMÍNIO DA FORMA (páginas 15-47)

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